O Terceiro Homem (The Third Man)

User avatar
annawen
Livro Raro
Posts: 1953
Joined: 18 Jan 2006 11:34
Location: Gaia
Contact:

O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby annawen » 26 May 2010 11:38

Realizado por Carol Reed, com argumento de Graham Greene, “O Terceiro Homem” passa-se num Viena destruída pela guerra e conta a história de um homem que descobre que o seu melhor amigo não é quem ele pensava que fosse.

Esta última vez que vi o filme, apercebi-me que este tem muitas parecenças com o livro do Greene “O Americano Tranquilo”. A personagem do Joseph Cotten (Holly Martins) é também um americano que não sabe onde se está a meter e anda por Viena como se andasse pela sua casa. O que é uma coisa muito estúpida de se fazer. E ainda por tal como o filme, “O Americano Tranquilo” é uma história de traição. Só que ao contrário do filme, o leitor está do lado do traidor o tempo todo. No filme, as coisas são mais ambíguas. Qual seria a nossa atitude caso nós fossemos o Holly Martins? (Até o nome é estúpido como diz a Alida Valli). Trairíamos o Harry Lime ou não? E quem é o Harry Lime? Um monstro ou um tipo que tenta aproveitar-se da loucura em que se tornou o mundo? Não existem respostas simples, excepto se nós estivermos apaixonados pelo Harry Lime como a personagem da Alida Valli. Aí, nesse caso, não há dúvidas.

A biografia de David Thomson sobre o Orson Welles – “Rosebud” – conta que o casting original para o filme era para ser o Cary Grant como Lime e Noel Coward como Martins. Só muito mais tarde é que o Welles entrou na jogada, e com Welles veio o melhor amigo dele, Joseph Cotten. Thomson diz que, e com toda a razão, que se o Harry Lime tivesse sido representado pelo Noel Coward, que a personagem, provavelmente, assumiria um tom odioso, que tornaria a traição desculpável, e até, necessária. Mas o Lime de Welles é um indivíduo com demasiado charme, uma criança grande, num mundo completamente insano. A personagem dele entra pouco em cena, mas rouba o filme todo.

Thomson conta que, quando viu o filme pela primeira vez, em criança, tinha torcido pelo Harry Lime. Eu devo dizer que me aconteceu o mesmo. E ainda agora não deixei de desejar, na perseguição final, que ele se safasse.

A entrada do Harry Lime em cena é provavelmente a melhor entrada de uma personagem na história do cinema. Começa com um travelling excepcional (mais tarde coloco as imagens) que parte do interior da casa da rapariga, atravessa a janela e vai ter a uma arcada escura, onde só se vêem umas botas e um gato enroscado nelas. Antes de aparecer a cara, nós sabemos que aquele é o Harry Lime, o homem que andava na boca de toda a gente. E claro, aquele plano fabuloso da luz a iluminar-lhe a cara. E o sorriso. E a música. Puro cinema.

(para continuar)

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby Samwise » 26 May 2010 11:57

Annawen, ontem vi o filme até meio (não deu para mais), mas o compromisso é tratar da coisa para vir aqui debater no tópico.

O Welles e o Cotten é uma associação que vem dos tempos do Citizen Kane / The Magnificent Ambersons. Dá uma espécie de prazer cinéfilo vê-los aqui a contracenarem um com o outro num filme "não-Welles". ;)

Para já ficou-me na memória uma frase: "Leave death to the professionals!", e que obteve como resposta "Can I quote you on my next novel?"

Quanto à ambiguidade de Harry Lime, e até onde vi, parece-me que a ideia do realizador é fazer com que ele seja acolhido pelo espectador de forma "simpática". Nós torcemos por ele e desculpamos-lhe as acções criminosas (que desconhecemos - aparentemente está envolvido num some kind of racketeer business) face à humanidade e à amizade que demonstra/ou para com os amigos, tanto o Martins como a Anna.

Esse plano do aparecimento do Lime em cena, e que ainda não vi nesta segunda vez, ficou-me na memória do passado. Sobretudo a face do Welles e o jogo de sombras. Muito bom mesmo!
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby Samwise » 26 May 2010 12:58

A "musiquinha" fabulosa, tocada ao vivo, com algumas sequências do filme a alternar...

Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
annawen
Livro Raro
Posts: 1953
Joined: 18 Jan 2006 11:34
Location: Gaia
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby annawen » 26 May 2010 13:08

Samwise wrote:O Welles e o Cotten é uma associação que vem dos tempos do Citizen Kane / The Magnificent Ambersons. Dá uma espécie de prazer cinéfilo vê-los aqui a contracenarem um com o outro num filme "não-Welles". ;)


Na realidade, a amizade deles é anterior a isso. Vem dos tempos do Mercury Theater, a companhia de teatro fundada por Welles.

O David Thomson conta que o produtor do filme andou atrás do Welles por meia Europa até o encontrar para ir fazer o filme. É uma passagem divertida, mas muito comprida para citar aqui.

Quanto à ambiguidade de Harry Lime, e até onde vi, parece-me que a ideia do realizador é fazer com que ele seja acolhido pelo espectador de forma "simpática". Nós torcemos por ele e desculpamos-lhe as acções criminosas (que desconhecemos - aparentemente está envolvido num some kind of racketeer business) face à humanidade e à amizade que demonstra/ou para com os amigos, tanto o Martins como a Anna.


Ainda bem que não enchi o post de spoilers. Keep watching ;)

Esse plano do aparecimento do Lime em cena, e que ainda não vi nesta segunda vez, ficou-me na memória do passado. Sobretudo a face do Welles e o jogo de sombras. Muito bom mesmo!


O jogo de sombras é fundamental ao longo do filme todo. As influências do expressionismo alemão são muito fortes. Planos oblíquos, picados e contra-picados. E aqueles grandes planos das caras.

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby Samwise » 26 May 2010 15:27

annawen wrote:
Quanto à ambiguidade de Harry Lime, e até onde vi, parece-me que a ideia do realizador é fazer com que ele seja acolhido pelo espectador de forma "simpática". Nós torcemos por ele e desculpamos-lhe as acções criminosas (que desconhecemos - aparentemente está envolvido num some kind of racketeer business) face à humanidade e à amizade que demonstra/ou para com os amigos, tanto o Martins como a Anna.


Ainda bem que não enchi o post de spoilers. Keep watching ;)


Já estou a imaginar o que queres dizer: algo a ver com o aproveitamento, para benefício próprio, dessa amizade (Martins)/amor (Anna)...

Esse plano do aparecimento do Lime em cena, e que ainda não vi nesta segunda vez, ficou-me na memória do passado. Sobretudo a face do Welles e o jogo de sombras. Muito bom mesmo!


O jogo de sombras é fundamental ao longo do filme todo. As influências do expressionismo alemão são muito fortes. Planos oblíquos, picados e contra-picados. E aqueles grandes planos das caras.


Os planos "inclinados" começa logo quase no início, no bar, quando a Calloway oferece uma bebida ao Martins, depois do enterro, e quando o Martins chega a casa do Lime, nas escadas, na conversa com o porteiro. E reparaste, nessa conversa, que o porteiro a certa altura diz algo do género: "He is now in Hell" (e aponta para cima) "or in Heaven" (e aponta para baixo)?

E já reparei, desse vídeo da música, nos jogos de claridade e escuridão nas ruas e catacumbas de Vienna, à noite - é mesmo expressionismo alemão a régua e esquadro. :mrgreen:


Samwise wrote:Para já ficou-me na memória uma frase: "Leave death to the professionals!", e que obteve como resposta "Can I quote you on my next novel?"


Estava a ver se pegavas nisto para alguma coisa... :P

Esta frase é uma espécie de pequena vingança do Martins sobre o Calloway, e remete directamente para a conversa do bar, quando o Martins diz "He was my best friend!", e o Calloway responde, com um ar de desprezo: "It sounds like a cheap novelette." (... "I write cheap novelettes.")
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
grayfox
Edição Única
Posts: 4203
Joined: 01 Jul 2008 16:20
Location: Braga
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby grayfox » 26 May 2010 15:31

Thanatos wrote: Logo, as discussões invariavelmente processam-se à velocidade da luz entre ti, annawen e o Samwise, logo os outros sentem-se algo excluídos e acabamos os ciclos como habitualmente. Um longo (longuíssimo) diálogo ente vocês os dois.


:pipoca: :pipoca: :pipoca:
A melhor assinatura chinesa da actualidade.

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby Samwise » 26 May 2010 15:43

Qualquer dia enveneno o pacote das pipocas...
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
annawen
Livro Raro
Posts: 1953
Joined: 18 Jan 2006 11:34
Location: Gaia
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby annawen » 26 May 2010 15:58

Samwise wrote:Os planos "inclinados" começa logo quase no início, no bar, quando a Calloway oferece uma bebida ao Martins, depois do enterro, e quando o Martins chega a casa do Lime, nas escadas, na conversa com o porteiro.


E há ainda a utilização da profundidade de campo.

E reparaste, nessa conversa, que o porteiro a certa altura diz algo do género: "He is now in Hell" (e aponta para cima) "or in Heaven" (e aponta para baixo)?


But of course.

Samwise wrote:
Para já ficou-me na memória uma frase: "Leave death to the professionals!", e que obteve como resposta "Can I quote you on my next novel?"


Estava a ver se pegavas nisto para alguma coisa... :P

Esta frase é uma espécie de pequena vingança do Martins sobre o Calloway, e remete directamente para a conversa do bar, quando o Martins diz "He was my best friend!", e o Calloway responde, com um ar de desprezo: "It sounds like a cheap novelette." (... "I write cheap novelettes.")


Sim, é verdade. E hei-de pegar. Aliás a profissão do Holly Martins tem muito que se lhe diga e não está lá por acaso. Tenho andado a pensar nisso. Mas estou à espera que vejas o filme até ao fim.

---

Gray: A piada, para mim, destas discussões, é entrarmos num tom de conversa em que as ideias saem do contributo de cada um. Como disse noutro tópico, toda a gente pode participar. O que é necessário é haja alguma coisa para dar...

User avatar
grayfox
Edição Única
Posts: 4203
Joined: 01 Jul 2008 16:20
Location: Braga
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby grayfox » 26 May 2010 16:10

mas vocês ainda me levam a sério?

só achei piada a "previsão" do thanatos e a forma como a conversa começou. só demonstra que já nos conhecemos bastante bem
A melhor assinatura chinesa da actualidade.

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby Samwise » 26 May 2010 17:26

grayfox wrote:mas vocês ainda me levam a sério?


Queres a verdade? :twisted:
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
MAGG
Livro Raro
Posts: 2010
Joined: 11 Sep 2009 13:26
Location: Mar de Dentro ...
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby MAGG » 26 May 2010 18:27

Para mim a melhor parte de todo o filme são as sequências da cidade erigida/ destruída e dos seus subterrâneos ... :rolleyes: i wonder why... então a sequência final ... um must...

As características expressionistas só aumentam o enfâse dos contrastes da cidade de Viena ....construída / destruída ... iluminada / obscurecida ... térrea / subterrânea... contrastes na própria população residente que coabita segundo a protecção de quatro códigos de protecção...

A lista de personagens secundárias são um elemento de grande riqueza no filme ... aparte a temática urbana da cidade destruída este foi o aspecto humano que me leva a que provavelmente reveja o filme mais tarde ...de forma a melhor apreender todas as prestações das personagens "menos relevantes" .

A prestação do Welles realmente rouba o filme ( se bem que o gato também não lhe fica atrás :D ) mas acho incongruente o teor do crime e suas consequências com o desprendimento e charme de Harry Lime . Nunca conseguiria associar a leveza de espirito da personagem com as consequências duras dos seus actos criminosos. Associaria sempre uma maior frieza emocional.
Mesmo assim ... nunca deixei de torcer pelo sucesso da evasão do mesmo o que me causou estranheza...mas realmente o vilão é bastante mais fascinante do que o herói que apresenta uma personalidade muito mais fragilizada.

User avatar
annawen
Livro Raro
Posts: 1953
Joined: 18 Jan 2006 11:34
Location: Gaia
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby annawen » 27 May 2010 12:57

MAGG wrote:Para mim a melhor parte de todo o filme são as sequências da cidade erigida/ destruída e dos seus subterrâneos ... :rolleyes: i wonder why... então a sequência final ... um must...


:) Eu lembrei-me de ti quando vi as cenas da cidade.

Viena é também uma personagem deste filme. Uma cidade dividida em 4, destruída pela guerra, um símbolo perfeito para o estado da Europa no imediato pós-guerra. Eu, que ando a acompanhar a década de 40 pelos jornais, impressionou-me bastante.

A prestação do Welles realmente rouba o filme ( se bem que o gato também não lhe fica atrás :D ) mas acho incongruente o teor do crime e suas consequências com o desprendimento e charme de Harry Lime . Nunca conseguiria associar a leveza de espirito da personagem com as consequências duras dos seus actos criminosos. Associaria sempre uma maior frieza emocional.


Pois aí é que está a subtileza da personagem. Ele comete actos horrendos mas será uma personagem sinistra? Penso que não. Será possível alguém fazer o mal e ao mesmo tempo não ser intrinsecamente mau? Não sei. Mas eu vejo o Harry Lime como um homem do novo tempo, do tempo que nasce no final da 2ª guerra. Ele não tem ideologia. Não é de direita, nem de esquerda. Tanto pode trabalhar para os americanos como para os russos. É acima de tudo um homem de negócios. Que racionaliza as acções que faz a partir do ponto de vista de um comerciante. A essência da personagem está explícita na sequência da roda gigante. Para Harry Lime o mundo é o seu brinquedo. E ele movimenta-se à vontade nesse mundo, porque o compreende. Enquanto houver pessoas que queiram comprar o que ele tem para vender. Ele não se leva demasiado a sério, nem leva o mundo a sério. Porquê ter pruridos morais num mundo enlouquecido. O que são umas mortes a mais? Mais uns pontos que desaparecem, ninguém se vai importar. Nada que os nazis não o tivessem feito numa escala industrial. É assim que o Lime justifica as suas acções. Além disso, o caos favorece-o, ele gosta do caos. É essa a razão do discurso dele ao Martins, depois de descerem da roda gigante. Aquela grande e célebre fala acerca da Renascença e do relógio de cuco (por falar nisso, essa fala não vem no argumento, foi uma improvisação do Welles).

Mas há 2 momentos que têm que ser levados em consideração: o 1º é a razão que leva o Lime a encontrar-se com o Martins no café. Por que é que ele foi lá? Um homem mais cauteloso nunca teria aparecido. A minha ideia é que ele não era assim tão cauteloso e não colocou a hipótese de vir a ser traído, o que é extraordinário, se pensarmos bem no caso. O 2º momento é na parte final: quando ele está a tentar subir as escadas, ferido, e aparece o Martins. Ele tinha uma pistola, podia ter disparado. Mas em vez disso olha para o Martins e faz um sinal com a cabeça, pedindo-lhe assim para o matar. Antes morrer às mãos do amigo do que ser apanhado pela polícia. É um gesto muito subtil, mas está lá, e dá à personagem uma espécie de dignidade na morte. E de alguma forma redime a traição do Martins, mas não a lava completamente, na minha opinião. Depois há aquele plano excepcional em que vemos o Joseph Cotten ao fundo, a surgir no meio da luz. A profundidade de campo é muito bem explorada neste filme.

E ainda há outra coisa: apesar de toda a mundanidade é o Lime que acaba num caixão.

Quanto ao Martins, é uma personagem que é o oposto do Harry Lime. Enquanto que este vê o mundo como ele é, o Martins vê o mundo como se fosse um livro de aventuras para rapazes, onde há os maus e os bons. As fronteiras estão bem definidas. Ele agarrasse há sua honestidade de escuteiro como uma lapa a uma rocha ("fica com a tua preciosa moralidade", diz-lhe a rapariga). Mas essa honestidade é oca, estúpida mesmo, que significado pode ter se nós nos recusamos a perceber a realidade. Ele anda por Viena e não fica afectado com o que vê, não percebe o mundo em que vive (não percebe as pessoas, a língua, a razão porque a rapariga faz o que faz), porque está cheio de certezas. Por ele nunca passa uma inquietação, uma dúvida. Só hesita na grande cena em que a Alida Valli lhe chama traidor ("Look at yourself. There are names for faces like that"). Mas depois muda de ideias quando visita o hospital. A sequência da conferência, em que ele não consegue responder às perguntas sobre o James Joyce, a corrente de consciência, etc, não existe só para mostrar que ele é um escritor de livros de segunda, um ignorante, mas sim, para reforçar o mundo de fantasia em que ele vive. (e aqui vem a fala do Calloway, Sam. Ele topou quem é o Martins logo de início). E isso leva-nos ao equívoco final, a ideia de que a Alida Valli lhe iria perdoar na cena do cemitério. A sequência em que ela passa por ele e não lhe dirige nem um olhar, é uma das grandes cenas de desprezo da história do cinema.

Portanto, a história e os aspectos formais caminham lado a lado. Luz e sombra. Temos um vilão que não é bem um vilão e um herói que não é um herói. Para mim, a personagem mais extraordinária é a da Alida Valli.

Ainda não tive oportunidade de colocar imagens, mas espero fazê-lo nos próximos dias.

User avatar
MAGG
Livro Raro
Posts: 2010
Joined: 11 Sep 2009 13:26
Location: Mar de Dentro ...
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby MAGG » 31 May 2010 16:21

annawen wrote:
Pois aí é que está a subtileza da personagem. Ele comete actos horrendos mas será uma personagem sinistra? Penso que não. Será possível alguém fazer o mal e ao mesmo tempo não ser intrinsecamente mau? Não sei.


Pois mas aqui é que as incongruências se destacam ...uma vez que um homem assim desconfiaria de todos , não poria sequer a hipótese do amigo nunca o trair uma vez que tal situação , ocorrendo com os papéis revertidos, seria perfeitamente plausivel.

annawen wrote:Aquela grande e célebre fala acerca da Renascença e do relógio de cuco (por falar nisso, essa fala não vem no argumento, foi uma improvisação do Welles).

Não sabia disso :) ... Julguei essa parte do argumento brilhante ...porque esse trecho consegue caracterizar plenamente a personagem e o que move a mesma.

annawen wrote:Portanto, a história e os aspectos formais caminham lado a lado. Luz e sombra. Temos um vilão que não é bem um vilão e um herói que não é um herói. Para mim, a personagem mais extraordinária é a da Alida Valli.


Pois para mim a personagem da Alida Valli é das tais que não consigo descortinar o seu "sistema de valores". Pareceu me sempre que a mesma tinha uma agenda própria, adaptando-se tanto ao "vilão" como ao "herói"... uma personagem com muitos subterfúgios... excepto na cena final ...claro...

User avatar
annawen
Livro Raro
Posts: 1953
Joined: 18 Jan 2006 11:34
Location: Gaia
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby annawen » 01 Jun 2010 19:44

MAGG wrote:
annawen wrote:
Pois aí é que está a subtileza da personagem. Ele comete actos horrendos mas será uma personagem sinistra? Penso que não. Será possível alguém fazer o mal e ao mesmo tempo não ser intrinsecamente mau? Não sei.


Pois mas aqui é que as incongruências se destacam ...uma vez que um homem assim desconfiaria de todos , não poria sequer a hipótese do amigo nunca o trair uma vez que tal situação , ocorrendo com os papéis revertidos, seria perfeitamente plausivel.


Não percebi.

Pois para mim a personagem da Alida Valli é das tais que não consigo descortinar o seu "sistema de valores". Pareceu me sempre que a mesma tinha uma agenda própria, adaptando-se tanto ao "vilão" como ao "herói"... uma personagem com muitos subterfúgios... excepto na cena final ...claro...


O seu sistema de valores é simples: ela está apaixonada por um homem e não trai esse homem por nada, mesmo sabendo que tinha sido traída por ele. Ela é, de longe, a personagem mais ética do filme. E a mais corajosa.

User avatar
MAGG
Livro Raro
Posts: 2010
Joined: 11 Sep 2009 13:26
Location: Mar de Dentro ...
Contact:

Re: O Terceiro Homem (The Third Man)

Postby MAGG » 02 Jun 2010 22:44

annawen wrote:
MAGG wrote:Pois mas aqui é que as incongruências se destacam ...uma vez que um homem assim desconfiaria de todos , não poria sequer a hipótese do amigo nunca o trair uma vez que tal situação , ocorrendo com os papéis revertidos, seria perfeitamente plausivel.


Não percebi.

Compreendo-te porque após a re leitura do meu post também eu fiquei com a sensação de que estava a falar sobre duas cenas ao mesmo tempo e fiquei também às aranhas acerca da relevância do conteúdo em relação à quote anterior. :P ...

O que pretendi dizer foi que pareceu-me incongruente a personalidade do Lime com as suas acções porque o mesmo demonstra ter uma grande leveza de espirito que considero estranha tendo em conta as suas acções comerciais e consequências ( ou seja esperaria não a leveza mas a frieza associada ao detachment ) ... e depois por outro lado tem uma confiançça no Holly Martins que é desajustada a todo este desenvolvimento .

Porque se visualizamos o mundo e suas ocorrências com as tonalidades derivadas de todas as nossas experiências adquiridas, nunca seria de esperar que o Harry confiasse plenamente em Holly ...

Associava mais a esta personalidade a desconfiança inata de tudo e de todos uma vez que se move num ambiente "pantanoso" onde poucos são os "inocentes".
O encontro no café com Holly revela uma certa ingenuidade que não esperava de um homem habituado a mover-se nestas areias...associaria sempre desconfiança e precaução... muita precaução.

annawen wrote:O seu sistema de valores é simples: ela está apaixonada por um homem e não trai esse homem por nada, mesmo sabendo que tinha sido traída por ele. Ela é, de longe, a personagem mais ética do filme. E a mais corajosa.


Pois mas eu associei o nascimento desse mesmo amor com a necessidade de sobrevivência... aliás a mesma para chegar onde chegou teve que ultrapassar grandes dificuldades.

Toda a aura de mistério acerca da sua vida anterior e do que forjou esta mulher é para mim o que atribui maior carisma à personagem. É um foco que permite o imaginar de toda uma série de situações anteriores à acção do próprio filme.

p.s. Sam a banda sonora é realmente fora de série ... complementa o filme perfeitamente...


Return to “Ciclos de Cinema”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 1 guest

cron