Um começo

urukai
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Um começo

Postby urukai » 18 Aug 2008 20:56

Boa noite,

Sou um habitué dos Filhos de Athena (Lurtz) e não percebia porque é que o fórum estava cada vez mais desabitado até que me deparei com este cantinho e constatei o movimento migratório virtual.
Nada melhor que começar as minhas postagens com dois textos da minha autoria que fiz ontem no âmbito de um curso de escrita criativa que ando a frequentar.
O objectivo era ir para a rua e recolher palavras coloridas e palavras sem cor. Depois tínhamos de em 12 minutos criar dois textos. Um utilizando apenas as palavras que identificámos como coloridas. O outro as sem cor.
Acabou por resultar num exercício giro e, apesar de ter feito batota e utilizado palavras das duas categorias nos dois textos, estou satisfeito com o trabalho final.
Deixo-vos aqui os dois textos e se quiserem podem mandar uns palpites sobre qual é qual.

Texto 1

A Catarina tinha 10 anos.

Era bonita e simpática. Tinha apenas duas tias mas, sempre que saía à rua, era como se tivesse uma em cada esquina tal era a avalanche de apertões de bochechas e beijinhos repenicados que as vizinhas do bairro desabavam sobre ela.

O bairro onde a Catarina morava era um dos mais antigos de Lisboa. Uma praça de táxis conferia-lhe o movimento citadino mas os prédios devolutos acumulavam-se de dia para dia e os reformados quedavam-se petrificados nos bancos de jardim.

Sempre que saía à rua a Catarina usava uma fita azul no cabelo. A dona Firmina da padaria dizia que lhe realçava os olhos cor de mar. A Catarina gostava da dona Firmina. Ela fazia-a sempre sorrir com os seus elogios e o seu carinho.

A mãe da Catarina pedia-lhe muitas vezes que fizesse recados. Comprar pão era o seu preferido. Descia as escadas a saltar e a cantar, atravessava o vão da escada com um olhar fugaz para ver se tinha correio. Abraçava o puxador em latão da porta da rua e jorrava-se para a claridade e alegria da rua cuja própria calçada contava estórias sobre os seus pés.

Mas hoje havia algo diferente. Havia algo que estava fora do seu lugar de todos os dias. Desceu as escadas e o toc toc dos seus sapatos davam-lhe o ritmo para a canção que lhe assomava nos lábios mas, ao chegar ao último degrau, deparou-lhe-se um mar de sombra e escuridão. A luz do vão de escada estava fundida. Catarina nunca mudara uma lâmpada por isso pensara que eram inesgotáveis. Pequenos sóis que os homens domaram para seu proveito e calor.

O vão da escada, antes um espaço de antecipação e que antecedia o calor da rua e o cheiro do pão quente, era agora um lugar tenebroso e intransponível. O habitual puxador de latão, um farol luminoso, fazia-lhe agora lembrar um olho amarelo e cruel de um lobo zarolho e malévolo que a esperava no fim do caminho. Catarina fechou os olhos mas o negro da cegueira não a ajudou e fê-la sentir mais desamparada e frágil. Lembrou-se do que a esperava do lado de lá do pesadelo e a dona Firmina assomou-se-lhe nos pensamentos.

Começou a chorar.

Naquela noite, ao jantar, a família da Catarina não comeu pão.


Texto 2

O velho sentava-se num banco de pedra fria e dura na praça Luís de Camões.

Durante todo o dia olhava as fachadas dos edifícios recuperados e semicerrava os olhos quando o magnífico Sol de Lisboa, reflectido, lhe brilhava nas cataratas. Um espectro colorido que perdia em intensidade para os escaldões dos turistas que lhe passavam diante dos olhos enquanto jogava sueca com os seus parceiros de uma vida vivida e gasta.

Depois de almoço, com uma sopa a aconchegar-lhe o estômago, lançava uns versos e ditados à desgarrada com o Luís que só não lhe respondia porque ali estava, preso naquela carapaça metálica, enfezado pelos pombos e esquecido durante 364 dias em todo o Portugal.

No final do dia, também o velho tudo esquecia. O Alzheimer levava-lhe a memória e dava-lhe um presente sem passado. No entanto, apesar de não se lembrar da família dos amigos e às vezes do próprio nome, ficavam-lhe na retina esbranquiçada os folhos coloridos das saias das raparigas que, todas sorrisos, passavam por cima do vento que saía do chão. E, nesse instante, sorria e era de novo um garoto com a vida pela frente.

Urukai

Pedro Farinha
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Re: Um começo

Postby Pedro Farinha » 18 Aug 2008 22:49

Quanto à pergunta das cores, não te sei dizer porque ambos utilizam palavras coloridas e outras sem cor... ainda que eu apostasse que o primeiro era o colorido, ou pelo menos achei a escrita desse bem mais colorida que a do outro.

Na verdade acha que dominas bem as palavras e no primeiro texto tens imagens muito interessantes como:

Abraçava o puxador em latão da porta da rua e jorrava-se para a claridade e alegria da rua cuja própria calçada contava estórias sobre os seus pés.
ou

A luz do vão de escada estava acesa. Catarina nunca mudara uma lâmpada por isso pensara que eram inesgotáveis. Pequenos sóis que os homens domaram para seu proveito e calor.


Boa sorte para o curso de escrita criativa !!


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