Be water, my friend.

urukai
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Be water, my friend.

Postby urukai » 06 Nov 2008 15:46

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->A superfície é límpida e, aparentemente, imutável.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Como é enganadora. Falsa.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Num momento suave, no outro dura como uma parede de betão.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Be water my friend, disse-nos o mestre Bruce. Mais valia ter dito: Be a liar my friend.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Ela não tem nada de imutável. Ela é a personificação da mudança, da adaptabilidade e da transfiguração. Assumimos o seu espírito e somos capazes de tudo. Lutamos contra ela e rapidamente somos derrotados. Humilhados. Subjugados. Submergidos.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Ajeito a indumentária. Um arquear de pernas dá o mote e desvia a atenção dos espectadores do alívio testicular que enceto. Todos sabemos que a licra causa impotência. Licra apertada é capaz de exterminar toda uma geração.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Por último, a cabeça. Está tudo no sítio e os protectores de ouvidos fazem a função para a qual não foram denominados. Ilustram a imagem de marca daquilo que faço, daquilo porque luto, daquilo que serei na próxima hora.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Salto.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->De pés.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Uma faísca de frio começa nos dedos e percorre-me o corpo num movimento ascendente e rápido. Num fechar de olhos estamos noutro meio. Um ambiente hostil do qual temos uma vaga memória. As células que nos originaram fizeram a sua dança de acasalamento rodeadas dela. Se sobrevivi nessa altura, também hoje, o farei. Nem que a tenha de tingir de vermelho. Diluir o meu sangue no seu cloro. Mostrar-lhe aquilo de que sou feito.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Primeiro um braço. Depois o outro. As pernas numa rotação contínua e inconsciente. A respiração entrecortada e apenas pela boca com a língua a fazer de porteiro de uma discoteca chamada pulmões onde o Dj. Alvéolo toca a música da vida e veda o acesso às moléculas do liquido inodoro e incolor.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Um repuxo sai-me da boca, qual Moby Dick prestes a abalroar uma frota de dasd. Os nervos esvaem-se pela ponta dos dedos e são sugados para o fundo, onde não incomodam nem geram borboletas espontâneas no fundo da barriga.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->No canto do olho vislumbro salpicos e um sol frio, amarelo e redondo, repousa ao sabor da ondulação.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Viro-me num movimento rápido e gracioso. A elevação, sustentada nos alicerces dos membros inferiores, a servir vários propósitos. Intimidação, exibição e aquecimento.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Agarro na bola decidido. Os dedos reconhecem a superfície rugosa e as falanges sorriem.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Rodopio-a para a mão esquerda. Volto a passá-la para a direita. Um ping-pong de companheirismo. Já não a via desde o treino de ontem. Tinha saudades. Preciso de demonstrá-lo. Mostrar que não a esqueci. Que ela faz parte de mim. Uma extensão do meu corpo que me obedecerá como me obedeceria um braço.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Ao longe um rectângulo chama. Tiro-lhe as medidas como se fosse a primeira vez. É sempre como se fosse a primeira vez. Os meus dedos pressionam a bola. As impressões digitais marcadas a convicção e determinação. Elevo-a acima da cabeça numa adoração divinatória. Os músculos retesam-se e as pernas contraem-se num estertor de potência. A minha cintura respira o ar à superfície da água. O tronco rodopia e o braço catapulta a bola para a frente. As leis da física fazem o resto e uma flecha amarela cruza o campo. Um vulto, ridículo, faz um movimento na direcção da minha amiga. De nada serve. Ela agora tem vida própria e não se deixará apanhar facilmente. O seu destino é só um e ela sabe-o. As redes chamam-na, irresistíveis e sedutoras.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Golo.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Mas foi só a brincar. A treinar. A praticar para o que há-de vir. Como um arqueiro lança uma flecha antes da batalha pelo prazer de fazer vibrar o arco.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Alguém, seco, emite um ruído estridente. Tenho dificuldade em prazer. Tudo o que está fora daquele rectângulo de água, não está. Ou melhor, não existe. Pelo menos por agora, a minha realidade resume-se a um tanque inundado. O meu universo 30x20m com um Big Bang amarelo e flutuante na ponta dos dedos.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Parece que é preciso alinhar junto à parede. Como pedir a um músculo que não contraia? Impossível. A ansiedade alimenta-me as fibras. O sangue injecta-me a visão. O objectivo é um e um só. Ganhar. Nas bancadas o público ruge e faria corar de vergonha os romanos e as suas togas manchadas de sangue gladiador.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Encosto-me à parede. Uma mão a agarrá-la. A minha única âncora para a sanidade. A amarra que estou prestes a levantar.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->O árbitro apita novamente, um motor nasce em mim. No centro do peito e percute-se até às pernas que empurram a parede para trás. <!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Be water my friend. <!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->É isso que sou. Um fluxo de água a avançar a toda a velocidade por entre a própria água.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Estou próximo. A bola sobe e desce no mesmo lugar. Insinuante.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Be water my friend.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->É isso que volto a ser. Desta vez noutro estado. O Sólido. Como uma parede preparo-me para o impacto. O jogador adversário mimetiza-me o movimento e chocamos. Dois titãs a disputar uma musa.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo--><!--fonto:Times New Roman--><span style="font-family:Times New Roman"><!--/fonto-->Uma flexão rápida do pulso e ela cede aos meus encantos. A bola é nossa.<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

Agora só falta o resto.

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Re: Be water, my friend.

Postby azert » 06 Nov 2008 16:38

Nunca pensei que o polo aquático pudesse ser tão interessante! :mrgreen4nw:

Gostei muito da visão concentrada e tensa do jogador, bastante ilustrativa. :thumbsup: Venha de lá o resto.
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