Sim, quero.

urukai
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Sim, quero.

Postby urukai » 11 Oct 2009 22:07

O texto que aqui partilho com vocês tem um grande significado para mim pois fez parte do meu pedido de casamento. A minha, actual, mulher leu e gostou (outra coisa não seria de esperar!) e disse o SIM que me permitiu dar-lhe um título.
O objectivo era editá-lo e perpetuar para todo o sempre este texto mas não o consegui. Reconheço-lhe defeitos e hoje teria feito diferente mas deu-me um prazer enorme escrevê-lo e o desenlace final foi o casamento que sempre desejei!

Sim, quero.
O dia estava abafado. Nada que se comparasse ao que iria encontrar em Angola, onde alguns dos seus colegas, já emigrados, lhe diziam por e-mail que as temperaturas chegavam a bater os 45ºC. Mas, segundo as suas missivas electrónicas, o pior era o bafo quente e húmido que lhes colava as camisas coloridas às costas e lhes conferia uma segunda pele de suor, cujos desodorizantes mais eficazes não conseguiam contrariar.
No entanto, Pedro estava confiante, gostava de calor e não encaixava no tradicional estereótipo de informático: um tipo gordo, sedentário, enraizado em frente ao monitor e de óculos, resultado de uma correlação genética entre nerdismo e estrabismo. No seu caso, era exactamente o oposto. Sempre fora alto e atlético. Os anos de natação quando em pequeno, recomendados pelo pediatra para combater a asma, tinham-no beneficiado em termos físicos. Quanto ao síndroma do geek caixa-de-óculos, num acto de inconformismo perante esse rótulo, desde os 15 anos que usava lentes de contacto.
Assim sendo, não estava preocupado com o clima de Angola, os seus anseios centravam-se antes no desafio que iria enfrentar. Criar a primeira empresa Luso-Angolana de entretenimento digital e multimédia parecia estimulante mas, aliado ao investimento fácil viria, certamente, um fluxo contínuo de problemas. O Boom empresarial Angolano dos últimos tempos atraía muitos mosquitos a Luanda, inebriados pela sede de riqueza fácil e ávidos por chupar lucros instantâneos, acabavam por se emaranhar nas teias dos grandes empresários que, fruto de visão e empreendorismo, tinham traçado esses mesmos caminhos alguns anos antes quando, por encadeamento do sol oriental, mais ninguém prestava atenção ao continente africano.
No entanto, se este raciocínio, diversas vezes percorrido por Pedro, se aplicava à construção civil, aos serviços de saúde ou à banca, os tradicionais motores de qualquer economia, o mesmo não se aplicava (ou assim esperava) ao mercado do entretenimento digital. Mesmo nos países industrializados, a cultura dos videojogos tarda em se sedimentar, tendo dificuldades em ultrapassar alguns dos estigmas do passado. Esta particularidade faz com que um território virgem como Angola seja muito fértil em oportunidades de investimento neste negócio. Deste modo, armado do seu mestrado integrado em engenharia informática e de computadores no IST, Pedro aguarda a sua vez para a consulta do viajante no Hospital Egas Moniz. Será a última defesa que necessita para viajar rumo a Angola e enfrentar, não os empresários aracnídeos, mas antes os vulgares mosquitos Anopheles anopheles, portadores da mortífera malária.
À sua volta estavam os habituais protagonistas de uma sala de espera para a consulta do viajante. Três amorosos casais que viajarão para um qualquer destino paradisíaco, estoirando o dinheiro que receberam no casamento; dois empresários que de pda-smart-pc-phone colado ao ouvido, vão tentar a sua sorte para um país africano; e um jovem com todo o ar de estudante de biologia que, avesso ao tradicional Erasmus, decide ir para África estudar um insecto interessantíssimo, cujo nome 99% dos Portugueses teria dificuldade em pronunciar.
Pedro olha insistentemente para o seu relógio. Tem pela frente uma maratona a inserir código para o seu jogo de computador estar pronto a correr em qualquer computador e assim poder influenciar algum business angel angolano que não saiba onde gastar o dinheiro que lhe jorra dos poços de petróleo ou lapida nas minas de diamantes.
O contador electrónico chama mais um casal em lua-de-mel e Pedro sorri de alívio pois será o próximo. Enquanto aguarda, as portas de vidro da sala de espera abrem-se e entram dois indivíduos negros e corpulentos que ladeiam um diminuto velho de cabelos brancos. O velho, de fato de linho impecavelmente vincado, apoia-se numa bengala de ébano e segura uma daquelas malas metálicas que normalmente são usadas, nos filmes, para guardar explosivos. Olha em redor da sala e dirige-se para a recepcionista com um andar desengonçado e dependente da bengala que, apesar de aparentemente frágil, resiste a todo o seu peso. Um dos homens acompanha o velho como uma sombra e o outro fica ali especado à entrada a fazer cara de mau e a lembrar um armário alimentado a suplementos proteicos para cavalos de corrida. Um painel de leds muda a sua conformação e um apito sonoro avisa que o número 15 pode ser atendido no consultório 2.
Pedro percorre toda a sala tentando ignorar o olhar perscrutador do homem à entrada e, criando uma nota mental para incluir no jogo de computador um boss de final de nível semelhante ao indivíduo, entra no consultório.
Do outro lado da porta Pedro depara-se com uma médica que, momentaneamente, o deixa sem fôlego tal era a sua beleza. Alta e elegante, tem cabelos escuros e compridos que emolduram um rosto com um bronzeado saudável e onde se destacam uns olhos grandes e amendoados, num misto de castanho e verde que poderiam pertencer, simultaneamente, a uma oriental exótica e a uma italiana sensual. Era sem dúvida uma visão estonteante que o fez imediatamente esquecer o aborrecimento da espera para ser atendido.
— Bom dia, o meu nome é Catarina e o Sr. Pedro pode entrar que eles não picam. — cumprimentou sorridente a médica enquanto apontava para uma fileira de quadros na parede atrás de si que exibiam mosquitos das mais variadas formas e feitios presos com alfinetes.
— Pois. Tem razão... — gaguejou Pedro em jeito de resposta atabalhoada. Sem mais demoras entrou e sentou-se sem nunca retirar os olhos de Catarina. A sua leveza e frescura eram maravilhosamente naturais e ele não pode deixar de reparar nas suas formas que mesmo de bata, transpareciam sensualidade e candura.
— Diga-me então o que o traz por cá, Sr. Pedro? — pergunta a médica enquanto dá uma vista de olhos à ficha que Pedro preenchera na recepção.
— Doutora eu vou para Angola por motivos profissionais e vim à consulta para saber o que tenho de fazer. Lá a única coisa que quero apanhar é trabalho! — ri-se, desajeitado.
— E fez muito bem. — Pedro tem dificuldade em perceber as palavras que saem daqueles lábios tão carnudos e apetecíveis. — Angola é um país lindo mas que facilmente nos mata se não temos cuidado. A maioria das pessoas pensa que o animal mais perigoso em África é o leão ou as serpentes venenosas. Os mais informados dizem o hipopótamo. Mas a verdade é que os mosquitos são os verdadeiros genocidas, depois do homem é claro. ­ nem a rápida nuvem cinzenta que nublou os olhos de Catarina, fazem com que Pedro consiga desviar o olhar. Tudo nela lhe parecia perfeito. Os dedos longos e elegantes de pianista, o pescoço mármore e fino de deusa e os olhos profundos e meigos de cor misteriosa.
— A cor dos seus olhos é fascinante... — murmura Pedro sem se aperceber.
— Pensei que a médica aqui era eu. — sorri Catarina. — Mas fique descansado que os seus olhos também são bonitos. Agora, vá ali para a marquesa e fique em tronco nu, se faz favor. Tenho de lhe fazer uma exame geral antes de passarmos à consulta propriamente dita.
Um tremendamente envergonhado Pedro dirige-se para a marquesa, enlevado pelo pedido da médica que, na sua cabeça, assume tudo menos o verdadeiro carácter profissional e clínico.
Enquanto Pedro desapertava a camisa, a porta do consultório abre-se e, de rompante, entra o velho de bengala com os seus dois gorilas que imediatamente a fecham atrás de si.
— Bom dia Dra. Catarina. — a pronúncia do velho era arranhada como se fosse um imigrante alemão a viver há muitos anos em Portugal. — Meu nome é Ivan Borotnik e é um prazer conhecê-la!
— Desculpe mas quem é o senhor e quem o autorizou a entrar aqui? Estou a meio de uma consulta! Agradeço que saia. — responde Catarina com alguma assertividade mas sem nunca perder a compostura.
— Temos duas formas de resolver esta situação Doutora. A mal ou pessimamente. — um brilho de maldade surge nos olhos de Ivan enquanto Catarina levanta o auscultador do telefone.
— Ou sai imediatamente ou chamo a segurança do hospital — nesse instante Pedro, impelido pela urgência e receio patentes na voz de Catarina, avança em direcção ao velho mas imediatamente uma das bisarmas que o protege dá um passo em frente e afasta a ponta do casaco mostrando um coldre em pele castanha e gasta do uso.
— Estou a ver que prefere os advérbios de modo. Assim sendo, resolveremos pessimamente esta situação. Kong agarra a Doutora. Thor livra-te deste empecilho.
Pedro não soube se foi a ameaça na voz do velho relativa à Catarina ou o afrontamento de ter sido apelidado de empecilho, mas investiu com toda a força contra o gigante de ébano que, por não esperar uma reacção daquelas, recebeu todo o impacto no peito. Pedro embate contra a muralha apelidada de Thor e, qual despoletar de uma mola, cai para trás desamparado. O africano impávido e sem acusar o impacto retira uma pistola do coldre e aponta-a à cabeça de Pedro.
— Mas tu és imbecil? — vocifera Ivan. — Achas que o vais matar aqui? Disparar uma arma com tantas pessoas na sala ao lado. Leva-o para o beco e rebenta-lhe a cabeça contra o chão. Tira-lhe a carteira, o telemóvel e o relógio para a polícia pensar que foi assalto.
Pedro ainda abananado olha para o lado e vê catarina completamente imobilizada pelo outro gorila que, com uma mão enorme, tapa a boca da bonita médica impedindo-a de gritar por socorro.
— Dra. Catarina, tenha calma, se prometer não gritar podemos entabular um diálogo interessante e sem advérbios de modo desagradáveis ¬— ao fazer o trocadilho dá uma risada seca e desprovida de humor.
— O que querem de mim? Como sabem o meu nome? — consegue balbuciar Catarina depois de Kong lhe retirar a mão da boca e, em alternativa, envolver com facilidade toda a sua garganta.
— Nós sabemos tudo sobre si. Onde se formou, a sua média de final de curso, com quem fez o internato, o seu mestrado e, especialmente, a tese em que está a trabalhar no seu doutoramento. Já para não falar nos seus hábitos e nas pessoas com quem se relaciona. Por isso mesmo é que sabemos que amanhã, quando estiver em Luanda, ninguém vai dar pela sua falta! — nisto o velho interrompe a conversa e olha para o Pedro ainda sentado no chão agarrado ao cotovelo. O enorme Thor segura-lhe a cabeça e tem o revolver encostado à têmpora do informático. — Mas ainda aí estás? Leva-o discretamente para fora daqui, livra-te dele e vai ter ao carro. Rápido que a Dra. estará pronta daqui a nada.
Thor imediatamente puxa Pedro pelos colarinhos que se eleva no ar como se a gravidade tivesse sido reduzida a zero no pequeno consultório
— Larga-me minha besta — reage Pedro tentando libertar-se, sem qualquer sucesso, da pesada mão de Thor. Enquanto é arrastado em direcção à porta, leva a mão ao bolso, agarra no seu telemóvel e num rápido movimento atira-o à cabeça de Ivan que se assusta mais com o impacto inesperado que com a força deste e apoia-se na secretária da médica para evitar cair.
Assim que ganha novamente posição, vira-se para Pedro e, com uma serenidade apenas comprometida pelo brilho demente nos seus olhos, aproxima-se:
— Caro Verme, — cuspo acumulava-se nos cantos da sua boca. — deixe-me que lhe diga que neste momento tem menos de 5 minutos de vida e em vez de os aproveitar orgulhando-se de estar a partilhar esta sala com um dos maiores génios do mundo, eu próprio, Ivan Borotnik, toxicólogo de craveira universal. Prefere fervilhar nessa raiva infrutífera e tentar inverter uma situação que é impossível de reverter. O meu sócio, General Bisonte, quer algo da Dra. Catarina. Melhor dizendo, precisa de algo que só os conhecimentos dela podem garantir. E o que o General Bisonte quer, o General Bisonte tem! E você, meu pedaço de fezes, está no caminho dele. Resuma-se pois à sua insignificância e deixe de tentar ser o herói. Não estamos num filme, estamos na vida real e aqui não há bons nem maus, há seres superiores como eu ou como o meu sócio que nos banqueteamos com o próprio mundo. Somos homens de poder e tudo o resto é matéria prima que usamos para moldar a nossa realidade. Vermes como tu são barro que nós usamos, moldamos, sugamos e deitamos fora. No teu caso, nem sequer terás a honra de ser usado, és material com defeito daquele que rejeitamos à partida e nem sequer nos arrependemos porque a perda é tão diminuta que não vale o esforço.
Nesta altura os seus olhos faiscavam e Pedro, de músculos retesados, tenta aproximar-se para o desfazer com pancada mas Thor continua a apertá-lo com uma força inumana.
— Se fosse barro não poderia fazer isto... — murmura de forma inaudível.
— O que dizes meu estafermo? — pergunta Ivan aproximando-se para ouvir melhor. — Ou já estás a perder a fala?
Com a cara a menos de um palmo de Pedro, este dá um safanão para a frente e cabeceia em cheio o nariz do velho que cai desamparado para trás deixando um fio de sangue que parece flutuar no ar.
— Acabei de te moldar um nariz novo, cabrão! — Exclama Pedro triunfante antes de apanhar um soco nas costas que o deita ao chão. Thor podia não ser o verdadeiro Deus do Trovão da Mitologia Nórdica mas os seus punhos assemelhavam-se ao martelo do dito.
Mal embate no solo já está a ser levantado de novo. Sem ar nos pulmões, tosse desesperadamente enquanto Ivan estrebucha no chão com uma mão a tentar estancar o sangue que lhe sai abundantemente do nariz e a outra a tentar chegar à bengala que rolara para longe.
— Vem ajudar-me Kong! — vocifera com voz anasalada para o gigante negro que ainda segura Catarina, pálida e com uma expressão de terror no rosto.
— Pronto patrão, tenha calma. Não se enerve. Já vamos tratar deste imbecil. — conforta-o Kong enquanto o ajuda a levantar-se e faz sinal para Thor sair com Pedro.
— Não, não o levem. — responde o velho e pede ao corpulento guarda-costas para lhe abrir a mala metálica que repousava encostada à mesa — Thor antes de o matares injecta-lhe isto no braço. Vai paralisar-lhe algumas funções fisiológicas, nomeadamente o uso das cordas vocais. Depois enfia-lhe uma bala no estômago. O porco vai esvair-se em sangue sem poder chamar por ajuda. — Ivan termina a frase com um esgar que, com todo o sangue, em vez de um sorriso toma contornos de uma careta macabra.
O gigante paralisa momentaneamente e, numa voz sumida, confessa:
— Patrão, eu não gosto de agulhas...
Por momentos, Pedro pensa que o cientista vai espetar a seringa no próprio capanga mas limita-se a ladrar uma ordem para Kong:
— Vai tu em vez deste maricas e faz tudo direito senão as agulhas vão ser o menor dos vossos medos!
Kong saca de uma pistola e encosta-a às costas de Pedro. — Vamos com calma e ninguém se aleija.
Pedro, vira-se para trás e, o mais serenamente possível, olha para Catarina ainda petrificada e com os olhos húmidos:
— Não se enerve eu voltarei com ajuda, prometo.
Uma gargalhada abafada de Ivan foi a última coisa que ouviu antes de ser empurrado e a porta se fechar atrás de si.
A sala de espera estava praticamente vazia. Pedro deduziu que as restantes pessoas teriam sido atendidas nos outros gabinetes.
Era incrível como conseguia estar aparentemente calmo e a racionalizar a situação. Já fora ameaçado mais vezes de morte nos últimos 15 minutos que nos restantes 31 anos de vida mas, possivelmente fruto da sua tendência para o pensamento lógico, encarava a actual situação como um problema que tinha de resolver.
Kong era várias vezes mais forte que ele, estava a armado e certamente que sabia lutar. Ele nunca fora de grandes heroísmos, quando era assaltado à saída do técnico, apesar de manter a calma e nunca entrar em pânico, dava sempre o dinheiro que tinha e uma vez fora com os ladrões até ao multibanco levantar os tradicionais 400€ enquanto uma ponta-e-mola lhe fazia cócegas no fundo das costas.
No entanto, na situação em que se encontrava o eventual desespero estava a dar lugar a outro sentimento. Uma urgência instalava-se no peito, uma preocupação sincera pela delicada e desprotegida médica que deixara no consultório com Thor e o louco do Ivan. Nem queria imaginar o que estaria a acontecer neste momento, provavelmente já a tinham espancado, ou pior, e isso agoniava-o. Tinha que fazer algo, o que significava que teria de se livrar deste gorila.
Saíram do hospital e a sensação do cano frio da pistola encostado às costas mantinha-se surreal.
— Vira à direita. Vamos para aquelas obras. — grunhiu Kong empurrando Pedro em direcção a um tapume que cobria a fachada do edifício adjacente ao hospital. Pedro olhou para o relógio, pouco passava do 12h30m pelo que os operários da construção estariam certamente a almoçar e os seus gritos, antes de lhe ser injectada a mistela que Ivan entregara a Kong, não seriam ouvidos.
— Entra por essa porta, estúpido! — rosnou Kong quando chegaram à obra delimitada por uma cerca de tábuas. O interior não era diferente daquilo que Pedro suspeitara, perfeito para cometer um assassinato e sair impune. Sem ninguém por perto e completamente isolados da rua movimentada do outro lado do tapume, Kong poderia até dar-se ao luxo de o matar à pancada que ninguém se aperceberia.
Pedro encosta-se a um monte de tijolos empilhados e procura uma rota de fuga ou uma arma. A primeira estava fora de questão, num espaço aberto como aquele, se tentasse fugir Kong iria ter muito tempo para apontar e disparar. Quanto a eventuais armas, no chão da obra, coberto de pó de cimento, aqui e ali encontravam-se algumas ferramentas que os operários abandonaram antes de saírem para o almoço. Picaretas, pás e junto a um barril um martelo pneumático mas nada que estivesse ao seu alcance e lhe permitisse uma utilização rápida contra Kong. O enorme negro retira um cilindro do bolso e, com destreza, atarraxa um silenciador ao cano da pistola, colocando-a em cima de um barril ao seu lado.
— Arregaça a manga direita. — ordena enquanto segura a seringa na mão. Garantindo o cliché da cena, pressiona levemente o êmbolo. O sorriso malévolo é acompanhado por um pequeno esguicho de cor amarela que sai da ponta da agulha. — Vais ver que não dói nada.
Pedro, instintivamente, recua até embater num monte de tijolos atrás de si.
— Então? Estás com medo? Já te disse que não dói nada e se te portares bem, prometo descarregar-te as balas todas em cima. Quinas num instante.
Nisto, Pedro pega num tijolo e arremessa-o, com toda a força que consegue reunir, na direcção de Kong. Este, surpreendido com a rapidez, não evita que o tijolo se despedace contra o seu ombro direito fazendo com que cambaleie para trás e, atabalhoadamente, largue a seringa. — Arghhh! Cabrão! — grunhe enquanto se vira para alcançar com a mão esquerda a arma que estava em cima do barril à sua direita.
No entanto, quando se vira novamente para enfrentar Pedro este vem na sua direcção a brandir uma picareta ferrugenta.
Pedro aponta um golpe lateral em direcção ao flanco de Kong. Erra o alvo e a picareta crava-se com um ruído seco na perna esquerda do gigante.
— AHHHHH! — grita de dor enquanto larga a pistola e, com ambas as mãos, arranca a ferramenta da sua coxa. Com a ferida a jorrar sangue que escorre abundantemente pela perna abaixo, Kong levanta a picareta acima da cabeça e desfere um golpe em direcção a Pedro que, com rápidos reflexos, salta para trás afim de o evitar.
Com os olhos injectados de vermelho e a boca a espumar, é um animal transfigurado de raiva que avança de picareta em riste na direcção de Pedro. Ao tentar fugir, sempre de frente para o seu adversário Pedro tropeça, caindo totalmente desamparado e à mercê do adversário que avança ainda mais decidido na sua direcção. Ao recuar, apoiado nas mãos e nos pés, Pedro embate contra um barril de metal e sem escapatória aparente, apercebe-se de que o fim está próximo. Desesperado, puxa o barril e empurra-o na direcção de Kong que lhe desfere um golpe com a picareta. Esta enterra-se totalmente na parte lateral do bidão e quando a puxa novamente para cima o barril vem preso. Frustado, Kong larga a picareta e levanta o barril acima da cabeça para o lançar contra Pedro e lhe esmagar a cabeça no processo. Com adrenalina a galopar-lhe nas veias, Pedro pega no martelo pneumático ao seu lado e sem pensar duas vezes carrega no on investindo com o mesmo contra a barriga de Kong. O martelo faz um rugido ao ligar-se e, sem esforço, perfura a barriga de Kong num misto de tripas, metal e sangue. Com um esgar de espanto, o gigante não aguenta com o peso do barril quando o martelo lhe desfaz a coluna vertebral e todo o seu corpo, já inerte, cai para trás levantando uma nuvem de pó de cimento.
Impávido, Pedro cede ao peso do martelo que embate no chão e continua a trepidar e a lançar consecutivas ondas de choque pelo seu corpo que se transformam em ondas de consternação. Acabei de matar uma pessoa, pensou em pânico. Foi para me defender mas acabei de matar uma pessoa. Na vida real, não num Grand Theft Auto ou num Metal Gear Solid! NA VIDA REAL! Uma pessoa de carne e osso que respirava e sentia e era.
Habituado a contemplações, Pedro ainda fica alguns momentos sentado junto à poça de sangue e vísceras sem se aperceber que o tempo à sua volta não parara. Kong gritara bastante e, eventualmente, alguém da obra acabaria por aparecer. Levantou-se e obrigou o cérebro a raciocinar e o corpo a reagir. Estivera quase a morrer mas conseguira dar a volta à situação. Não previra este desenvolvimento, nomeadamente a parte de ter de matar alguém mas sentia que tinha alcançado um point of no return. A partir daqui era avançar ou ser esmagado pelos acontecimentos recentes.
O plano que idealizara no consultório ainda estava a decorrer, tinha de lá voltar para saber o que tinha acontecido com Catarina e precisava de sair dali o mais rapidamente possível. Sacudiu o pó que tinha agarrado ao corpo, lavou o sangue das mãos com uma mangueira (as manchas de sangue na roupa teriam de passar por nódoas) e dedicou-se a revistar o corpo de Kong.
Uma busca rápida produziu os resultados que esperava. Um telemóvel, dois carregadores de balas, uma carteira com algum dinheiro (dólares, kwanzas e euros) e um passaporte angolano.
A pistola jazia a alguns metros do corpo. Nunca tinha manuseado uma arma mas já perdera noites de sono suficientes a jogar Counter Strike para saber que se tratava de uma Glock, uma semi-automática de uso fácil e intuitivo. Colocou–a por dentro da camisa presa pelas calças. Os restantes pertences guardou num saco de plástico que por ali voava e voltou a sair pela porta da obra abandonando aquele horrendo cenário de gore e morticínio.
Enquanto esperava o elevador para o levar ao piso de infecciologia, rogava a todos os deuses para que o telemóvel que atirara à cabeça de Ivan tivesse resistido ao impacto. Seria um tremendo azar se o seu golpe de génio saísse gorado por o telemóvel se ter partido quando caíra no chão.
A sala de espera estava vazia, todo o pessoal saíra para o almoço e Pedro, aliviado pela calma aparente, reúne coragem para entrar no consultório. Estava vazio, impecavelmente arrumado e o sangue tinha sido miraculosamente limpo. Por momentos Pedro pensou que o seu telemóvel teria também desaparecido mas uma rápida inspecção provou-lhe o contrário. Tinha deslizado para debaixo da mesa e, felizmente, não se lembraram dele. A ausência de um corpo e o facto de terem encoberto as pistas tranquilizaram-no. Saiu do hospital e dirigiu-se para o seu carro estacionado ali perto.
(cont.)

O Opel corsa de 1999, foi naquele momento uma âncora para a realidade. Um porto de abrigo que Pedro de bom grado aceitou. Deixou-se ficar uns momentos em frente ao volante com o telemóvel a descansar ao seu lado. Pendia entre dois caminhos totalmente distintos. Num deles comprava uma passagem de avião para outro país e ficava uns tempos fora do radar. Não havia indícios que o ligassem à morte de Kong e, apesar de ser uma crime violento, não havia testemunhas. Um inspector da judiciária sem qualquer incentivo para além de um cadáver não identificado não deveria perder muito tempo com o caso.
A outra opção implicava um pequeno gesto que teria, certamente, consequências catastróficas na sua vida futura. Ouvir o ficheiro áudio no seu telemóvel que iria reproduzir o que se passara naquele consultório depois de sair com o Kong. A partir do momento que o fizesse estaria definitivamente envolvido neste episódio surreal e, quanto mais não fosse, teria de denunciar às autoridades a morte ou rapto da médica tão bonita e simpática. O pensamento de Catarina morta revoltou-lhe o estômago e um sentimento de injustiça e crueldade aflorou-lhe à boca. Por mais estúpido que se sentisse, não conseguia conceber a ideia da médica morta e apercebeu-se que, afinal, o caminho era um só. Pressionou o play.
Depois de alguma estática e pancadas secas (provavelmente o embate contra a testa de Ivan e a consequente queda para o chão) o telemóvel começou a reproduzir a voz do velho num formato metálico mas límpido:
— Caro Verme...
Pressionou o fast forward, já ouvira aquela conversa de merda e não estava para sofrer o mesmo martírio outra vez. Play.
— Thor antes de o matares injecta-lhe isto...
Fast Forward. Estava a aproximar-se. Play.
— ...eu voltarei com ajuda, prometo.
Pause. Estas foram as últimas palavras que dirigira a Catarina. A sua voz soou-lhe estranha e desajustada. Um eco de algo que acontecera há muito tempo atrás. No entanto, já cumprira parte da promessa, voltara. Agora só faltava a parte de a ajudar mas para isso precisava de saber o que acontecera. Play.
— Escusa de chorar Doutora. Imagine que ele tinha Ébola. Não vale a pena pensar num morto que não conhece e só tem razões para estar preocupada consigo própria se continuar a não cooperar connosco. — ameaçou Ivan ainda com a voz anasalada
— O que quer de mim? Que mal lhe fiz eu?
— A mim não fez nada. Aliás até me possibilitou algumas horas interessantes enquanto li os seus artigos sobre a revolucionária abordagem genética ao tratamento da malária. Transformar as nossas células em parasitas do próprio parasita foi realmente uma ideia de génio. O Plasmodium falciparum não esperava por essa — um riso metálico inunda o carro — Quanto ao que queremos de si. — Pedro ouviu um som de algo a ser arrastado. Depreendeu que o velho se estivesse a sentar.
— O General Bisonte, tem negócios em Angola. Aliás, o seu negócio é Angola. Digamos que soube aproveitar algumas oportunidades durante a guerra que o catapultaram para uma posição de destaque no... hmm... submundo Angolano.
Silêncio e novamente a voz anasalada.
— Não faça essa cara Doutora. Não imagina o que ele teve de passar para chegar onde chegou. É normal que no meio da loucura, podridão e horror que coexistem numa guerra, os pesadelos mais macabros acabem por vingar. E nesse campo, General Bisonte é exímio. Arrumaria com o Boogeyman em 3 tempos. Todos os meninos africanos comeriam a sopa se as suas mães os assustassem com uma visita de General Bisonte. O problema é que na maioria das vezes nem sequer há sopa! — novamente a gargalhada sinistra.
— Provavelmente pergunta-se qual a razão para um toxicólogo famoso como eu, referenciado nas maiores revistas científicas mundiais, se ter associado a um barão do crime. Pois bem minha estimada colega, tenho duas palavras para si: Liberdade Científica. Em África posso tudo. Sou um Deus da experimentação científica. Para quê testar em primatas, tendo em conta semelhanças genéticas, quando posso testar directamente no ser humano? Já imaginou ter à sua disposição toda a matéria prima que necessite para comprovar as suas teorias? Sem as famigeradas comissões de Ética? Sem limites!? Sem censura!!! — O tom de voz de Ivan roçava o grito e Pedro quase sentia a sua euforia lunática.
— Você é louco. — ouviu-se num murmúrio.
— LOUCO? EU SOU UM GÉNIO! Mas vai sentir isso na pele! Agarra-a Thor. Não a deixes mexer. — ouviram-se alguns sons que Pedro não conseguiu identificar e depois, em pânico, Catarina reage:
— Pare! Que é isso? Afaste-se!
Pedro consegue distinguir uns gemidos de dor e novamente a voz de Ivan, agora menos elevada mas muito mais rancorosa:
— Acabei de injectar-lhe a minha obra-prima. Apelidei-a de toxistímulo. Em essência é um veneno altamente tóxico mas que devido ao prolongado tempo de semi-vida do pro-composto apenas inicia a sua toxicidade ao fim de vinte e três dias, sendo letal ao fim de trinta. Até lá, funciona como estimulante extremamente poderoso e permite a quem o toma ter uma performance mental e física duas a três vezes a normal para os padrões humanos. O seu processo de síntese é moroso e tem de ser extraído de uma fonte natural por isso considere-se uma privilegiada. É o meu sexto espécime. Como é óbvio existe um antídoto mas só o vai ter se, a partir deste momento, ficar bastante mais cooperante. Thor vai largá-la e a Doutora vai acompanhar-nos como se fôssemos amigos de longa data. Iremos para o aeroporto e partiremos sem demora, num dos jactos privados do General Bisonte para Luanda. Aí, na presença dele, será devidamente inteirada de toda a situação.
— Você é um monstro! Nem pense que esta merda deste veneno me vai obrigar a criar armas biológicas para esse seu chefe vender ao mais alto licitador. Prefiro morrer já!
— Cara colega, realmente não está a facilitar as coisas. — ouve-se um som de um estalo e um gemido contido. — Primeiro, General Bisonte não é o meu chefe. Eu associei-me a ele e sou livre nas minhas decisões. Nunca se esqueça disso. — um sentimento de raiva inundou o peito de Pedro. Se estivesse naquele gabinete tinha morto o cobarde com as próprias mãos. Mas o velho, preso na gravação, continuou o seu monólogo:
— Segundo, acredite que há coisas bem piores que morrer. Os sete dias que medeiam entre a activação do veneno e a sua morte serão agonizantes e extremamente dolorosos. Uma menina bonita como a doutora não vai querer passar por isso. Para além do mais, General Bisonte só quer.... — silêncio. O tempo de gravação chegou ao fim. Maldito telemóvel. Não conseguiu perceber o que raio quereriam de Catarina. O que pode interessar uma médica, invulgarmente bonita e simpática acrescentou o subconsciente de Pedro, a um barão do crime africano? O método para a coagir era horrendo e só alimentava o surreal pensamento de que tinha de fazer algo para a proteger. No entanto, salvá-la não seria tarefa fácil para um esquadrão da SWAT, quanto mais para ele, um programador de videojogos em início de carreira. O seu lado mais racional opunha-se a esta ideia de se tornar um cavaleiro andante e proteger a bela donzela. Isto não era um jogo de computador e se fosse, seria o enredo mais lame de sempre! Porque haveria ele de largar tudo e, impulsivamente, correr atrás de um amor que não sabia se existia quanto mais se era correspondido? Amor!? O que ele sentia não era amor! Conhecera Catarina pouco mais de 15 minutos! No entanto, era tal a profusão de acontecimentos e sentimentos que o encontro despoletara, suficientes para uma vida, que havia algo a nascer no âmago do seu ser e que ele não conseguia explicar. Uma urgência. Uma necessidade alimentada pelo que vivera uma hora atrás. A eminência do perigo, o risco, o poder sobre a morte, um misto de desejo e paixão inexplicável e, simultaneamente, assolapada. Tudo isto formava um cocktail de instintos que impelia Pedro a agir. A transfigurar-se num Super Mario com o único objectivo de saltar todos os obstáculos para chegar à sua Daisy e pelo caminho espezinhar qualquer inimigo que se atravesse a impedi-lo. Um Link em busca de Zelda. Um Sonic a correr pela Rose. Num ápice, a decisão estava tomada. Destino: Angola. Objectivo: Salvar Catarina. Tudo o resto era secundário e irrelevante.
Esta tomada, implícita e quase inconsciente, de decisão accionou em Pedro um mecanismo de fast forward. Os acontecimentos sucederam-se a uma rapidez alucinante e uma passagem por casa, um duche de intempestivos 2 minutos, roupa lavada e fresca, a toma fugaz da profilaxia para a malária, uma mala feita à pressa, uma visita de médico ao consulado de Angola para levantar o visto, uma corrida até ao aeroporto, o instantâneo levantamento de 5000 € das suas poupanças no banco, o câmbio por dólares, o arranjar um carregador compatível com o telemóvel de Kong e a compra fortuita de um bilhete de avião para Luanda devido a um cancelamento de última hora constituem fotogramas cronologicamente desordenados que inundam a cabeça de Pedro enquanto, exausto, tenta, infrutiferamente, adormecer no lugar B da fila n.º 14 do Airbus A330 com destino a Luanda.
O voo assume contornos de pesadelo pois Pedro, num limbo de sono, vê a cadavérica face de Ivan nos rostos das hospedeiras que lhe perguntam:
— Quer mais um copo de malária? E um pacotinho de toxistímulo? — Pedro acorda sobressaltado, enquanto a voz do comandante invade todo o avião informando que a temperatura exterior é de 36ºC , o céu está límpido e são neste momento 11h a.m. hora local.
Um belo dia para morrer, pensa enquanto desembarca com os restantes passageiros.
O aeroporto de Luanda era caótico. Um mar de pessoas de diferentes cores, formas e cheiros. Um melting pot africano que derretia, devido não só ao calor mas também ao fervor que o povo vivia fruto das oportunidades trazidas pelo investimento estrangeiro.
Durante o voo, Pedro tinha pensado num plano que tinha tanto por onde falhar que talvez resultasse. Implicava procurar um africano que se ajustasse às suas necessidades e encontrou o exemplar perfeito encostado a um poste. Um indivíduo com cerca de 2 metros, braços que mais pareciam troncos e um pescoço a lembrar uma anaconda. Poderia ter servido de inspiração para o art design dos marines do Gears of War. Abordou-o directamente:
— Amigo, tenho aqui 50 dólares que serão seus se me fizer um favor.
— Fala! — a voz era perfeita. Grossa, profunda e com uma indução ligeira de que o seu possuidor não devia muito à inteligência. Ao telemóvel não haveria diferenças.
— Preciso que ligue para este número e diga exactamente o que eu lhe vou dizer. Enquanto transmitia as indicações ao homem, congeminava já o passo seguinte. Teria de comprar uma arma pois não tivera coragem suficiente para trazer a de Kong. Não fazia tenções de a usar mas seria um argumento de peso quando encontrasse Catarina. De repente já se ouvia o sinal de ligação:
— Estou? Kong?! Onde raio andas? — esganiçou Ivan do outro lado.
— Patrão, atrasei-me. Onde estão. — repetiu o angolano de acordo com as instruções de Pedro.
— Atrasaste-te? Mas tu és parvo? Que se passa? Não mataste o outro imbecil? Tive de inventar uma desculpa para o General Bisonte. Se ele descobre que o plano descambou desta forma e nem sequer vieste para Luanda connosco, cabeças vão rolar e a tua de tão oca que é ainda se parte quando cair dessa altura toda!
— Desculpa patrão...
— As desculpas não te vão servir de nada quando te despejar um barril de ácido em cima. — vociferou Ivan. — Despacha-te e vem ter à mansão.
— Mansão...? — repetir o que era dito parecera-lhe a melhor decisão.
— Voltas para a África e regrides logo à tua condição de primata descerebrado. Que mansão achas que é? A de Cabinda! Sabes bem que o General Bisonte prefere Portão Baldio e podes crer que se não estás cá ao final da tarde serás recebido com cães e chumbo.
Pedro faz o sinal para o seu assalariado interromper a chamada mas ele, num rasgo de inspiração, termina a chamada com um:
— Sim patrão. Lá estarei Patrão. Com certeza Patrão.
Surpreendentemente, a despedida fora adequada e, depois de uma pancada amigável no ombro, o africano de voz grossa lá seguiu o seu caminho com 75 dólares a aconchegarem-lhe o bolso.
Quanto a obter uma arma, sendo Luanda a primogénita de um país com um historial de guerra recente, não seria muito difícil. Após umas perguntas a traunseuntes e algumas gasosas de 20 dólares, Pedro foi encaminhado para o mercado de Roque Santeiro onde, supostamente, encontraria tudo o que quisesse. Um dos inquiridos suspirou até a palavra ”nuclear” mas isso era um exagero e de certeza que não se venderia urânio num mercado no centro de Luanda.
Ao sair do táxi, depois de 2 horas no trânsito para percorrer pouco mais de 5 quilómetros, Pedro depara-se com um mar de tendas, casas semi-construídas, carros abandonados e caravanas esburacadas por balas. Um tecido de matéria inanimada unido por uma mescla humana que parecia não ter fim e mimetizava um organismo vivo. As tendas semelhantes a tecidos orgânicos, os carros como cartilagens, as casas quais ossos calcificados naquela baía luminosa e ao mesmo tempo tão escura, onde circulam, escorrem e pululam milhares de pessoas como glóbulos vermelhos transportando, em vez de oxigénio e dióxido de carbono, dinheiro e todo o tipo de bens materiais.
O taxista fecha rapidamente a porta e avisa Pedro para não entrar muito no musseke ou corre o risco de não sair vivo!
O carro arranca e a pequena clareira que deixa é rapidamente invadida por uma multidão de vendedores que oferecem jóias, cerveja, tabaco, drogas, sexo, comida, atacadores, relógios, missangas, jogos de computador, doces, armas e até escravos. Aparentemente, tudo ali tinha um preço.
A turba ao aperceber-se que Pedro não vai comprar nada acaba por esquecê-lo, permitindo-lhe desafogar a vista e reparar num jovem africano acabado de entrar na adolescência que tem uma Kalashnikov à tiracolo e manuseia habilmente uma longa faca de mato.
— Olá. — cumprimenta Pedro enquanto se aproxima do adolescente artilhado. – Isso está à venda?
— Oi turista. Isto aqui é material de guerra. Não é para ti, não! O que tu queres é mapas e damas bonita. Posso arranjar isso para tu. 50 dólares e dou-te a Lua de Angola. A mulher mais bonita que tu vai ver por aqui. — responde-lhe com um sorriso malandro.
— Obrigado mas estou interessado em armas... Como te chamas?
— Caudas! Toda a gente diz que ando sempre atrás a tentar vender coisas, como uma cauda! — diz divertido.
— Então diz-me lá Caudas, quanto custa um bom revólver com munição suficiente para...Muitos tiros? — a sua insegurança era notória.
— Turista maluco quer dar tiros sem saber...devia era dar tiros para dentro de Lua de Angola que eu arranja. Seria mais divertido e não falhava de certeza. — Pedro não consegue disfarçar um sorriso. O puto tinha alma de vendedor. Pena ter sido obrigado a crescer à pressa naquele local com esgotos a céu aberto e com mais DSTs por metro quadrado que a ala de infecciologia de um hospital. Com aquela idade devia era estar na escola e não andar a vender armas ou fazer de chulo.
— Talvez tenhas razão mas preciso mesmo de uma arma.
— Para quê? — pergunta o jovem enquanto faz sinal para Pedro o acompanhar por entre a multidão.
— Onde vamos?
— Eu trata das mulheres! É meu negócio. O meu primo trata das armas. Eu sou só montra. Vamo à barraca dele, é já lá turista!
Barraca era uma força de expressão. Basicamente, o primo do Caudas tinha duas caixas de papelão viradas ao contrário onde depositara uma Kalashnikov, duas Uzi e três pistolas.
— Pacas, o turista quer arma. — gritou caudas enquanto se aproximavam.
— Tem calma miúdo. Não quero que toda a Luanda fique a saber. — admoestou-o Pedro enquanto lhe dava um calduço sem força na cabeça rapada.
— Bom dia turista. Bem vindo à minha humilde loja — responde Pacas, um jovem vestido de verde-tropa da cabeça aos pés — Tenho tudo o que necessitas.
— Bom dia, Estou interessado num revólver, semi-automático de preferência. Potente e leal. Não quero uma arma que me rebente nas mãos ao primeiro tiro. — avançou directo.
— Neste caso só podes levar isto. Por 2500 dólares é tua. Sem perguntas. — disse enquanto exibia a Pedro a maior pistola da sua banca.
O cromado estava baço e um ou outro risco contavam a história daquela arma. Certamente que já dispara muitas vezes mas a cabeça de águia no cano não enganava. Era uma Desert Eagle e a sua beleza mortífera aliada ao fabrico americano de alta qualidade conferia as características que Pedro procurava, para além disso, se servia para a Lara Croft também serviria para ele.
— Essa pistola está muito gasta. Tens a certeza que funciona? Não dou mais de 2000 dólares. — regateou descaradamente.
— Se funciona? Turista, ela dispara até debaixo de água! 2300 dólares por estar riscada. — e como que para comprovar as suas palavras — BAM! — atirou para o ar ali mesmo em pleno mercado à luz do dia.
Pedro colocou as mãos nos ouvidos e deu um passo atrás mas, ao olhar em redor, verificou que ninguém prestara atenção. Um disparo parecia ser a coisa mais natural do mundo.
— AHAHAH! — riu deliciado o pequeno Caudas — O turista tem medo...olha que ainda vais a tempo da Lua de Angola!
Refeito e envergonhado perante a descontracção à sua volta, Pedro começou a acreditar na possibilidade de encontrar armas nucleares em Roque Santeiro.
— Levo-a, mas só pago 2100 pois tem menos uma bala — sorriu Pedro certo da vitória.
— Por 2300 leva mais dois carregadores. — agora era a vez do vendedor mostrava os dentes cariados num sorriso amarelo.
Pedro esticou a mão que foi rapidamente apertada pelo Pacas.
— Bem, agora preciso de mais uma ajuda. Como chego rapidamente ao Cabinda? — Perguntou enquanto pagava pela pistola.
— Turista eu sou melhor guia de Angola. Eu levo-te ao Cabinda por 100 dólares! Nasci lá!
— Obrigado Caudas mas a minha viagem vai ser perigosa.
— Eu sei tratar de mim! Mato galinhas com minhas facas todo o dia! Por 50 dólares... — nisto o primo interrompe-o:
— Turista fica bem servido com ele. É um sobrevivente da guerra de Angola, sabe desenrascar-se e melhor guia não arranja.
— Mas ele não tem mais de 15 anos!
— 13! — corrigiu orgulhoso e determinado.
— Ok! — cede Pedro rendido à insistência. — 100 dólares para me levares até ao Cabinda mas depois voltas.
Dentro de pouco tempo já estavam a bordo de um jipe alugado. O motorista seguia calado desde que aceitara os 500 dólares à saída do musseke.
Caudas tagarelava ininterruptamente. Sobre armas, sobre as mulheres bonitas que tinha para o turista (parecia preferir aquele nome, mesmo depois de saber como Pedro se chamava), sobre a forma como cortava o pescoço às galinhas com as suas facas e como as arremessava de longe fazendo esvoaçar penas e cacarejares.
Quando Pedro lhe contou o que pretendia ir buscar uma amiga que estava em Portão Baldio, o miúdo abriu muito os olhos e murmurou:
— Mas essa casa é do Bisonte!
— Sim... — estranhou Pedro — Ele roubou-me a minha amiga Catarina e eu vou lá buscá-la.
— O Bisonte é mau. Os homem dele mataram a minha família. Minha mãe e minha irmã. — silvou baixinho com um inacreditável indício de ódio a instalar-se nos olhos.
— Eu sabia que era uma má ideia ter-te trazido. Eu não quero vingança. Só quero a minha amiga de volta.
— Eu ajudo turista. Bisonte não vai deixar a tua amiga partir assim fácil. Se ela não estiver morta, eu ajudo a trazer de volta. — replicou desafiante.
— O acordo era até ao Cabinda. Quanto à Catarina é algo que quero e tenho de fazer sozinho. As eventuais consequências serão um fardo para carregar sozinho. — desabafou.
— Turista, não sei o que é “consquensias” mas eu não tem medo de morrer. Quero ajudar! — afirma decidido enquanto toca no ombro do motorista. — Para o Portão Baldio. Depressa!
— Sabem onde se estão a meter? — perguntou o taxista, enquanto puxava os Rayban para a ponta do nariz e os observava pelo retrovisor. — Há uns tempos atrás o velho Bisonte ainda colocava as cabeças dos que matava empaladas no portão da frente.
— Eu não sei mas aqui o George de certeza que sabe. — disse Pedro enquanto colocava uma nota de 100 doláres no bolso do motorista. — Agora faça o que o rapaz disse e utilize essa gasosa extra para chegarmos rápido ao nosso destino.
No horizonte o sol já alaranjava quando chegaram a Portão Baldio. Tiveram o cuidado de sair a 200 metros da entrada da imponente mansão para não serem vistos pelos guardas armados que a guardavam.
Quem não parecia intimidado era Caudas que já corria, protegido pelas sombras das árvores, em direcção ao extenso muro que circundava a propriedade.
— Espera! — advertiu Pedro, mas sem poder gritar, resignou-se a segui-lo dando azo a uma inesperada inversão de papéis.
Caudas era ágil e, num rápido movimento que deixaria invejosos muitos veteranos do Parkour, escalou uma árvore e saltou para o outro lado do muro que devia ter mais de 3 metros de altura.
— Vem turista. Não há perigo! — avisou já do outro lado.
Pedro não planeara isto. Para ser sincero não tinha qualquer ideia do que faria quando chegasse a este ponto, por isso a abordagem de Caudas pareceu-lhe tão adequada como qualquer outra.
Demorou o triplo do tempo para escalar a árvore e mais uma boa dose de preparação para saltar em direcção ao solo de terra vermelha alguns metros abaixo onde Caudas sorria e acenava com a mão em jeito de incentivo.
A zona estava protegida vegetação rasteira e só quando Pedro se arrastou pelo chão até ter ângulo de visão é que constatou a enormidade e a megalomania que estava por detrás do refúgio de Bisonte.
Uma enorme casa de estilo vitoriano com 3 andares e impecavelmente pintada de branco destacava-se no centro do terreno. A toda a sua volta, surgiam isolados diversos edifícios das mais variadas formas e feitios. Pedro viu jaulas com leões, zebras, girafas e elefantes. Uma caserna onde conversavam alguns homens vestidos de verde-tropa. Um jardim com repuxos e estátuas de mármore. Uma fileira de pavilhões pré-fabricados com todo o ar de ser um pequeno bairro social, talvez para escravos, pois Caudas dissera-lhe que Bisonte herdara esse costume dos antigos colonizadores. Um heliporto onde descansavam dois helicópteros (Pedro não conseguiu deixar de reparar que um deles era de guerra). E mais ao longe um edifício cinzento escuro que parecia um laboratório com algumas chaminés a deitarem um fumo preto e uns contentores no exterior identificados com o sinal universal de Biohazard.
A Catarina só poderia estar ali.

Enquanto transmitia as suas suspeitas ao sidekick, já delineava um plano. Havia poucos guardas. Sem contar com os da caserna e os da entrada, não vislumbrava os tradicionais sentinelas das casas dos barões do crime. No entanto, aquilo não se assemelhava a uma casa, mansão, quinta ou propriedade. Era mais uma aldeia circundada por muros intermináveis.
Se caminhasse encostado ao muro era bem capaz de alcançar o suposto laboratório sem ser visto. No entanto, uma extensão de cerca de 500 metros não tinha qualquer abrigo e, certamente, que alguém estranharia um branco com ar de turista a caminhar sub-repticiamente ao longo do muro.
Enquanto matutava no assunto foi interrompido pelo Caudas:
— Turista, eu ajudo. Eu crio confusão e corres até lá. Para ajudar tua mulher.
— Isso é muito perigoso. Se te apanham ainda vais preso, se não te matarem antes. E a Catarina não é minha mulher, é minha... — nesse momento apercebeu-se de que não sabia o que lhe era a bonita médica. Uma amiga? Uma paixão? Escolheu algo menos específico. — A Catarina é a minha vida.
— Não te preocupa comigo, eu desenrasco. Fui! — avisou Caudas enquanto partia na direcção contrária.
Pedro se pudesse, teria gritado, mas deixou-se ficar mais uns momentos à espreita e observou uma fila de homens com correntes nos pés que era vigiados por dois guardas de Kalashnikov ao peito. A sua Desert Eagle parecia-lhe uma bisnaga ao pé do poder de fogo dos guardas. Felizmente não havia torres de vigia pelo que não seria alvo de um tiro certeiro de Sniper, e os poucos guardas que via estavam descontraídos e de cigarro na mão. O General Bisonte deveria ser o tubarão daquelas águas e quando se está no topo da cadeia alimentar nada se teme, principalmente quando a maior ameaça vem de um informático e um menino pé descalço de Luanda.
Uma sucessão de estoiros sobressaltou Pedro. Um bidão em chamas rolava pelo meio da propriedade, junto à caserna dos guardas, e lá dentro estoiravam o que Pedro supôs serem balas. Era sem dúvida uma boa distracção. A maioria dos guardas acorriam, com algum receio, para o bidão com baldes de água. O problema seria quando se apercebessem que não passava de uma manobra de diversão. Iriam de certeza procurar por intrusos por isso, era agora ou nunca!
Decidido, Pedro arremete numa corrida acelerada ao longo do muro enquanto as atenções se centravam no flamejante barril. Não fora isso e teria sido visto pois apesar de as sombras estarem já muito alongadas e o sol um meio circulo alaranjado no horizonte, as suas calças de ganga eram uma mancha escura no muro branco. Por cerca de 15 segundos teria sido motivo de galhofa de Solid Snake. Aquela corrida tinha tanto de stealth como o Dr. Ivan de lucidez. No entanto, chegou ao laboratório sem ser descoberto e, passado alguns minutos, já percorria as instalações com uma bata branca que roubara de um cacifo. À primeira vista aquilo parecia-lhe estar abandonado. Passara já por duas salas cheias de equipamentos caros mas vazias de pessoas. Nem guardas ou empregados de limpeza e muito menos cientistas. Optou por seguir as setas identificadas pelo símbolo de Biohazard, pois imaginou que ai seria o sítio mais provável de encontrar malária e, por conseguinte, Catarina. Ao virar uma esquina deparou-se, ao fundo do corredor, com uma porta reforçada onde estava um guarda entretido a ver o poster central da playboy. Pela modelo da capa Pedro depreendeu que deveria ser uma versão africana da famosa revista pelo que, após um agradecimento à globalização, empunhou a Desert Eagle e, mais seguro de si, avançou na direcção do guarda.
A playmate da página central deveria ter qualquer coisa de especial pois o homem só se apercebeu da presença de Pedro quando este estava à distância de alguns passos. Sobressaltado, ainda esboçou um movimento em direcção á metralhadora, mas ao ver o cano prateado da arma levantou os braços.
— Quem está no laboratório?
— Médica. — respondeu sem pestanejar. Se estava com medo disfarçava bem.
— Como entro?
— Não entra! Se entrar morremos os dois. Lá dentro tem doenças perigosas.
— Chama-a então. — ordenou Pedro enquanto apontava para um intercomunicador atrás do homem. — Diz-lhe que o Dr. Ivan a quer ver e ela que venha sozinha.
— Não posso.
— Aqui a minha amiga diz que podes. — ameaçou engatilhando a pistola e obtendo assim o efeito pretendido. Enquanto o guarda chamava Catarina, Pedro absorvia a sensação de poder que a arma lhe oferecia.
Assim que Catarina disse que era só um momento, Pedro aproximou-se e desferiu um golpe na cabeça do guarda. Quando caiu, desamparado, começou a formar-se uma poça de sangue fruto do lenho que a coronha da arma lhe deixara. Talvez tivesse abusado da força mas era morrer ou matar e Pedro, desde o confronto com Kong, que preferia a última opção.
Passado uns instantes, a porta abre-se com um barulho de vácuo e surge Catarina, com olheiras e um ar cansado, mas tão bela como Pedro se recordava. Choque e espanto inundaram o seu rosto.
— Pedro...! — murmurou confundida — Que faz aqui?
— Prometi que voltava com a ajuda...
Com os olhos marejados de lágrimas corre para ele e abraça-o com uma força e intensidade que fez valer a pena tudo o que ele passara até chegar ali.
— Obrigado. Nunca pensei sair daqui viva. — suspira-lhe ao ouvido.
Estava feliz mas a pior parte viria agora.
— Catarina, ouve-me com atenção. Vamos ter de sair daqui o mais rapidamente possível. Não tarda todos os guardas estarão à nossa procura e teremos de estar bem longe daqui.
— Temos de encontrar o monstro do Ivan. Ele tem o antídoto, anda sempre com ele ao pescoço para me coagir a trabalhar numa cura para a doença terminal do Bisonte. — exclamou Catarina.
Naquele momento o coração de Pedro caiu ao chão. Já não se lembrava do toxistímulo. A conversa ao telefone fazia agora todo o sentido, mas parecia-lhe impossível obterem o antídoto e saírem dali com vida. Mas se não o fizessem Catarina teria uma morte terrível.
— Vamos. — e dando-lhe a mão conduziu-a pelo emaranhado de corredores até á mesma saída por onde entrara.
Cá fora, já noite, tudo estava calmo. Perguntou a Catarina onde ficava a casa de Ivan ao que ela supôs ser na mansão, sem ter, no entanto, certezas.
Não havia sinal do barril e, à excepção de uma fogueira junto ao portão onde alguns guardas faziam um churrasco, Pedro não via nenhum sinal de perigo.
A mansão ficava no centro da propriedade e teriam de percorrer um longo caminho em campo aberto. Quando Pedro sugeriu ir sozinho, Catarina agarrou-lhe a mão com força e pediu:
— Não me deixes. — Pedro cedeu e encaminhou-os para longe do laboratório em direcção à mansão iluminada e resplandecente sob o luar Angolano.
A meio caminho surgem dois Rottweillers que se imobilizam à frente deles e rosnam mostrando os dentes.
Pedro coloca-se á frente de Catarina e retira a pistola da cintura apontando-a aos animais. Se eu disparo cai tudo em cima de nós, mas a ideia de ser estraçalhado por um animal daqueles arrepiou-lhe os pelos da nuca. Assim que deu um passo para o lado, com o objectivo de os contornar, os cães, a pouco mais de 10 metros, começam a correr na direcção deles. Instintivamente, Pedro dispara a arma e um deles voa dois metros para trás ficando imobilizado no chão. No entanto, o coice da arma foi de tal forma potente que, devido à sua inexperiência, Pedro larga a pistola que lhe embate na testa rompendo-lhe o sobrolho. Uma cortina de sangue tapa-lhe a vista enquanto o outro cão se aproxima a ladrar violentamente. Já próximo, o Rotweiller salta e embate violentamente no peito de Pedro que cai para trás. Inacreditavelmente, consegue segurar-lhe o pescoço e o animal furioso fecha as mandíbulas a alguns centímetros da sua cara. Em pânico e com os braços a ceder grita a Catarina para o abater com a arma caída no chão, mas antes que ela reaja, surge um imponente gigante vindo das trevas. Thor dá um pontapé ao cão lançando-o vários metros pelo ar antes de cair no chão e fugir para a escuridão a ganir. Surgem, então, vários guardas que agarram Catarina. Pedro só tem tempo de a ouvir gritar antes de uma bota da tropa lhe ocupar todo o campo de visão e, instantaneamente, lhe roubar os sentidos deslizando, também ele, na direcção da escuridão.
Acordou com uma sensação de peso em toda a cara, uma dor lancinante no sobrolho e o sabor férreo de sangue na boca. Inicialmente, pensou que estava cego pois a escuridão permanecia. Mas à medida que os seus olhos se habituaram, conseguiu vislumbrar alguns vultos deitados a uns metros de distância e uma porta que parecia ser a única saída da sala.
Voltou a adormecer num sono de dores e agitação para acordar, parecera-lhe que 1 minuto depois, com o sabor de água nos lábios. Entrava algum claridade por debaixo da porta pelo que depreendeu que dormira noite toda. Ao seu lado estava uma mulher, aparentemente velha pois conseguia vislumbrar-lhe as rugas e os olhos semicerrados pela pele laxa das pálpebras.
— Bebe, meu filho. — sussurrou. — Vais precisar de força. Que era a única coisa que Pedro não tinha. Em contrapartida, tinha os músculos doridos, um sobrolho do tamanho de uma ovo e um cansaço terrível apesar de ter passado as últimas horas a dormir.
A mulher continuou:
— O Bisonte odeia-te. Amanhã vai levar-te à arena. Quer se divertir antes de te matar. Vais ocupar o lugar do meu filho. Ganhou o primeiro combate mas mataram-no à mesma. Mas tu não és um de nós. O que lhe fizeste para ele de detestar assim tanto?.
Pedro não estava a entender nada. Arena? Combate? No entanto, sabia porque estava ali:
— Tentei tirar-lhe a vida. — respondeu referindo-se às esperanças que o criminoso parecia depositar em Catarina para o curar.
— Se eu te ajudar prometes que tentas de novo? — perguntou esperançada a velha enquanto desembrulhava algo envolto num pano sujo.
— Sim. Mas sinceramente não vejo o que posso fazer. Se não me mataram estão prestes a fazê-lo e nem uma arma consigo disparar.
— Com isto, tu serás a arma. — disse orgulhosa a velha. — É um dos últimos exemplares do Cogumelo dos Deuses. Escondi este do doido de cabelos brancos. Dar-te-á a força de um leão e agilidade de uma gazela. Permitir-te-á sobreviver à arena e, quem sabe, chegar perto do Bisonte. Só te peço que, nesse momento, não vaciles. Estava a guardá-lo para o meu filho mas agora não lhe servirá de muito. Deixaram-no a apodrecer no chão, aqueles animais. — disse entristecida e com os olhos húmidos.
Pedro olhou para o cogumelo, uma forma mirrada e sem cor. Não via como aquilo o podia ajudar.
Um barulho e a porta abriu-se deixando entrar uma enorme claridade que lhe magoou os olhos. A velha, num rápido movimento coloca-lhe o cogumelo na boca e rosna:
— Engole!
Pouco depois, Thor puxou-o pelo braço fazendo com que voasse contra a porta:
— Para arena vamos! Apostei 100 dólares em como cais em menos de um minuto.
Sem tempo para respirar, Pedro engole o cogumelo de uma só vez e é empurrado por Thor ao longo de um corredor sujo com incontáveis portas iguais àquela de onde saíra.
Enquanto caminha repara que tem um fato de macaco cor-de-laranja vestido semelhante a um presidiário.
— Onde está a Dra. Catarina — perguntou enquanto tentava esticar os músculos doridos.
Imediatamente o gigante deu-lhe um estalo de mão aberta na parte de trás da cabeça, mas mais parecia ter sido um murro, pois Pedro cambaleou desamparado para a frente.
— Cala-te filho da puta. Nunca mais a vais ver. E tens de explicar o que aconteceu ao Kong. — ladrou.
No fim do corredor uma porta abriu-se para a manhã africana. O Sol já ardia no céu e Pedro semicerrou os olhos devido à intensidade da luz.
A quinta fervilhava de actividade e bem no centro do terreno, em frente à mansão, erguia-se uma construção recente.
Uma rede metálica com 3 metros de altura e arame farpado no topo limitava um círculo com cerca de 20 metros de diâmetro. Num dos lados erguia-se um palanque onde estavam várias pessoas à sombra enquanto escravos abanavam largas folhas de bananeira para afastar o calor infernal que se começava a instalar.
Pedro compreendeu que se tratava da arena e provavelmente iam pô-lo a lutar. Talvez com Thor ou primeiro com um dos guardas. Enquanto se aproximava reparou que algumas dezenas de guardas rodeavam a cerca. Entre eles, vultos verdes e rectangulares circulavam de mão em mão. Engoliu em seco quando se apercebeu que ninguém deveria estar a apostar nele. Só um louco o faria.
Mais próximo conseguiu vislumbrar os ocupantes do palanque. O seu coração iluminou-se e os músculos retesaram-se quando viu Catarina, aparentemente bem, sentada ao lado de Ivan mas com um ar desamparado e desgostoso. Os olhos de ambos cruzaram-se e pareceu a Pedro ver uma luz de esperança no rosto de Catarina, o instante passou, e ela, com ternura, mexeu os lábios para formar a palavra lamento.
Entretanto, o guarda abrira a porta e Thor empurrou-o com toda a força para o interior da arena, fazendo com que caísse estatelado no chão esfolando as mãos e comendo alguma terra na queda.
Uma gargalhada ecoou entre os guardas e, ao levantar-se, reparou no homem que se erguia no centro do palanque.
Para espanto de Pedro, o homem era branco, deveria andar na casa dos 50 anos e apesar de aparentar ter sido bem constituído, estava muito magro, curvado e com uma expressão dolorosa no rosto, como se lhe custasse o simples facto de estar de pé.
— Eu sou o Bisonte. Certamente que já ouviste falar de mim. Felizmente, não posso dizer o mesmo de ti. Não sei o teu nome, quem és ou o que fazes. Muito sinceramente. COF! COF! — um espasmo de tosse húmida percorreu-lhe o corpo — Muito sinceramente não me interessa. O Dr. Ivan é que insistiu ter algo para me mostrar e quero ainda que me digas o que aconteceu ao Kong. Sem mentiras. O último homem que me mentiu morreu com a cabeça enfiada num pau. — a voz era monocórdica o que tornava as suas palavras ainda mais terríveis.
— Liberta a Catarina e eu conto-te tudo. — arriscou Pedro.
— Tu não estás em posição de negociar nada. Daqui a 5 minutos estarás morto. Por isso, se queres uma morte limpa e rápida com um tiro na cabeça diz-me o que aconteceu com o Kong. — quanto mais o observava menos Pedro acreditava que aquele era o famoso Bisonte.
— Pelo que ouvi dizer tu também não durarás muito mais que os meus 5 minutos. Será ai que encontrarás o Kong, no inferno! — ripostou Pedro com a agressividade alimentada pela inevitabilidade do seu destino.
— Assim seja. Mas essa será uma dança a quatro, pois tu e a Doutora também estarão presentes. Ivan. — sussurrou enquanto se sentava.
— Os meus parabéns! — bateu palmas o velho cientista que se sentava ao lado de Bisonte. — Como verme imprestável que és, tanto chafurdaste na lama que acabaste por salpicar-nos. Conquistaste a nossa atenção, pelo menos até te esmagarmos com pé. — Declamou Ivan no seu discurso lunático. — Se falaste com a Dra. Catarina, certamente que já conheces o toxistímulo. Administrei-lhe uma dose mínima apenas para garantir que cooperasse. Já o espécime n.º 5 está neste momento a 24 horas de entrar na fase terminal e por isso mesmo no auge da sua força e, devido à substancial dose, apresenta moderada agressividade. Boa morte verme e lembra-te que foi a minha genialidade que te espezinhou! Thor liberta-o.
Pedro vira-se a tempo de se desviar de um pé-de-cabra que lhe é lançado por Thor. Junto à porta, agrilhoado e seguro pelo pescoço por 5 guardas com longos canos metálicos de laços de aço na ponta, está um andrajoso homem com os olhos raiados de sangue e espuma branca a escorrer-lhe pelo queixo. Thor retira-lhe as correntes que lhe prendiam os movimentos e os guardas empurram-no, com evidente esforço, para o interior da arena. Num movimento rápido, os guardas libertam os laços e o animal fica solto. Enquanto Pedro pega no pé-de-cabra, o seu adversário alcança, com reflexos diabólicos, o último cano metálico a soltar-se e dá um valente puxão que levanta do chão o guarda na outra ponta, indo embater violentamente contra a rede metálica. Thor fecha a porta da arena enquanto o n.º 5 agarra na cabeça do guarda desmaiado por entre as redes e, com uma força inacreditável, arranca a mandíbula do restante rosto. A multidão exalta-se com a visão do sangue e o monstro vira-se na direcção de Pedro com loucura a dançar-lhe nos olhos.
Desesperado, olhou de relance para Catarina, viu o terror espelhado no seu rosto e quis dizer-lhe para não ter medo mas o seu adversário começou a andar lentamente na sua direcção, como que a saborear cada passo antes de cair sobre a presa. Pedro fez um movimento largo com o pé-de-cabra e gritou:
— Aproximas-te mais e apanhas! — a multidão rugiu e o homem não deu qualquer sinal de ter compreendido a ameaça. Pedro apenas pensava no Resident Evil, aquilo assemelhava-se a um zombie e de certeza que um golpe na cabeça o poria fora de combate. A questão era como fazer isso na vida real e sem recorrer ao comando analógico da Playstation.
O homem deu mais uns passos e quando se encontrava a pouco mais de 5 metros começou a correr de braços esticados e emitindo um arrepiante som gutural. Pedro, com o pé-de-cabra a escorregar-lhe das mãos suadas, esperou que se aproximasse à distância de um braço e brandiu a arma improvisada com toda a força na direcção da cabeça do homem tresloucado.
A força foi suficiente, mas faltou pontaria e o pé de cabra alojou-se entre o pescoço e a clavícula do seu adversário que rodopiou para a esquerda estatelando-se no chão.
Um silêncio pesado caiu sobre a multidão enquanto Pedro, com a incredulidade estampada no rosto, murmura:
— Gordon Freeman... Rói-te de inveja.
No entanto, assim que os seus músculos começaram a relaxar da descarga de adrenalina o monstro vira-se e, com uma velocidade estonteante, lança-se na direcção de Pedro. Caiem juntos na terra e a cobaia de Ivan, uma sombra enorme a tapar o sol, aperta-lhe a garganta com as mãos.
Enquanto a multidão grita SANGUE! SANGUE! SANGUE!, a vida de Pedro esvai-se no aperto inumano do seu adversário. Numa tentativa infrutífera o seu braço estende-se na direcção do

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