Pedro Farinha

urukai
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Pedro Farinha

Postby urukai » 14 Dec 2009 13:27

<!--fonto:Arial--><span style="font-family:Arial"><!--/fonto--><!--coloro:#0000ff--><!--/coloro-->Apesar das críticas positivas ao texto do Samwise, que eu agradeço e prezo numa demasia que não chega nunca a ser demais, penso que falhei naquilo que estava a tentar fazer. Não no conteúdo porque esse espelha o que penso do nosso Master Gamgee mas na forma. Assim sendo, mudei o estilo, escolhi o Pedro Farinha e, com a sua permissão, criei uma personagem baseada na ideia que tenho dele inserida num contexto próprio que também contribui para a sua própria caracterização. Reconheço que aqui está um Pedro Farinha mais romantizado do que a realidade e talvez até numa etapa mais antiga da sua vida mas, e posso estar enganado, é assim que o vejo.
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As suas roupas são, acima de tudo, práticas e confortáveis. Têm aquele cair que só se obtém com uso e fruto de uma relação íntima e de confiança mutua. Elas servem-no sem limitações e ele veste-as com carinho e sentido prático numa clara afirmação da razão de ser daquele vestuário. Objectivamente, estamos a falar de calças de ganga, simples mas fiéis; uma t-shirt sem a pretensão das marcas da moda mas com um valor sentimental que ultrapassa qualquer outro valor social ou económico; uma camisola de lã, quente e à prova de intempéries; uns sapatos que, apesar de não conseguir definir, sei instintivamente que são confortáveis mesmo depois das (infinitas) passadas já saboreadas; tudo isto é encimado por um gorro preto, também de lã, pois ele move-se essencialmente nas estações frias. Os verões passam-lhe a correr numa antecipação do que aí vem e as primaveras, essas, gostavam de ter a duração de um piscar de olhos mas o bater de asas de um colibri não se pode dar a esses luxos. Por fim, chegamos ao ex-libris do seu roupeiro, que só poderia ser um blusão de cabedal com aquele aspecto experiente, sábio, vivido e cool que só os blusões de cabedal usados conseguem ter.
Hoje, que o mercúrio voa baixinho, ele circula com uma cadência tridimensional pela cidade:
Para a direita, por aquela rua que reflecte a luz de uma maneira especial aos seus olhos.
Pela esquerda que o cheiro a castanhas daquela esquina tolda-lhe o raciocínio e guia-lhe os passos.
Para cima que esta cidade é altiva e complexa, não se entregando facilmente à linearidade plana de outras tantas.
Para baixo que o metropolitano é o barco que lhe permite chegar a novos portos, contactar com novas gentes, encher as mãos em sacos de especiarias e sentir a dor agradável de músculos doridos por ter carregado um saco às costas de mercadorias provenientes de outros lugares. À semelhança do sangue que lhe corre sem parar por debaixo da roupa, também ele circula célere pelas artérias subterrâneas da cidade enquanto o pensamento e os sentidos se arrastam mais devagar. Sentado, numa carruagem que baloiça ritmicamente para os lados, observa o que o rodeia com uma imaginação aberta que absorve muito mais que gestos ou palavras. Absorve vivências. Identifica e interioriza intenções e sentimentos. Ele sorri com a piada que apenas dois namorados entendem e comove-se com a força que existe no agarrar da mão de uma criança à da sua mãe. Dá duas paragens de conversa com o cego que consegue ver nele a aventura calma e plena que lhe preenche os dias e escreve num caderno onde existe sempre um página livre perdida num universo infinito de pequenos rabiscos que, como ondas, se abatem no papel amarelo pela força de um lápis incontáveis vezes afiado. Não existem resquícios de tecnologia porque esta nunca existiu. Apêndices como PDAs, telemóveis, netbooks são pequenas manchas de um cinzento difuso que ele ignora. Como uma brisa, que tanto poderia ser matinal como de fim de tarde, ele retorna a lugares anteriormente visitados com um acenar amigo da mão calejada por inúmeros apertos. Estes apertos não foram, nem nunca serão, indiferentes "passou-bens" são antes demorados e sentidos "como-estás?-fico-feliz-por-ver-te-e-quero-saber-mais-sobre-o-que-tens-feito-desde-a-última-vez-que-nos-vimos".
Inesperadamente, sai numa das estações. Talvez vá sozinho ou talvez navegue num mar de gente que, indistinta como gotas de água salgada, se acometem aos seus afazeres quotidianos de repetida evaporação e precipitação profissional. Mas ele reconhece-lhes as diferenças e aquele homem de chapéu de chuva em riste e gravata cinzenta não é igual a tantos outros. Não é, até, igual ao seu eu de ontem. É diferente e ele regozija-se com o identificação dessa certeza.
Qual marinheiro citadino ele pula de carruagem em carruagem encarando a vida como um livro aberto para ser lido e apreciado mas, inconscientemente, vai também escrevendo a sua estória com uma letra que baloiça suavemente para cima, para baixo e para os lados num embalo protegido por uma enseada que é sua e de mais ninguém.

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Re: Pedro Farinha

Postby Ripley » 14 Dec 2009 13:37

Wow!
urukai, não seria assim que eu retrataria o Pedro, já que conheço os ventos que o levam a Whakatane.

Mas o teu texto está mesmo muito bom - IMVHO. Captaste a sua capacidade de observar pequenas coisas e a importância que dá aos contactos directos ainda que esporádicos ou espaçados, bem como a magia que o seu olhar captura mas também empresta ao relatar o que viu e por onde passou, seja lugar real ou imaginário.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Pedro Farinha

Postby Tzimbi » 14 Dec 2009 13:44

Bem, urukai, agora que me puseste a comentar os teus textos aqui, ninguém me pára. :smile: Aproveito para voltar a dizer que comento porque se tratam de pessoas de quem gosto muito (o Sam e o Pedro) e que tenho a honra (como diria o próprio) de conhecer noutros contextos fora do Fórum.

Quanto ao texto, ao contrário do texto sobre o Sam, não reconheço o Pedro no teu texto. Ou seja, pode ser o Pedro, mas podia ser qualquer outro. E tem partes que realmente não correspondem nada à realidade. Dou-te um exemplo, se pensar no Pedro numa carruagem será sempre de pé, nunca sentado. Sentado, só mesmo a pedido. :wink:

Mas gostei do texto, urukai. :thumbsup:

S.

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Re: Pedro Farinha

Postby Samwise » 14 Dec 2009 13:51

Urukai,

A forma, a linguagem descritiva (e inventiva, naquilo que respeita ao emprego de palavras e expressões), está esplêndida. Denoto, tanto no texto que me foi dedicado, como neste do Pedro, uma evolução grande, e não tenho medo algum de empregar esta palavra, GRANDE, em relação aos primeiros textos que colocaste aqui no BBdE. Parece-me, contudo, que arranjaste uma área apropriada ao teu ser, uma área onde consegues fazer valer os pontos fortes da tua escrita - e que realmente resultam em bons trabalhos "literários".

«Talvez vá sozinho ou talvez navegue num mar de gente que, indistinta como gotas de água salgada, se acometem aos seus afazeres quotidianos de repetida evaporação e precipitação profissional» :notworthy:

Quanto ao Pedro Farinha, e agora cabe-me retribuir as palavras que ele me dirigiu do outro lado, essa pessoa que tenho o prazer e a sorte de poder tratar por amigo, está aqui um texto que transpira o sentido de vivência experimentada, viajada e sonhada que é uma das característica mais marcantes nele.

Não cansado de ler aquilo que já escreveste, Urukai, aguardo com anseio novas manifestações biográficas sobre gentes do BBdE. :wink:
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Re: Pedro Farinha

Postby Lazy Cat » 14 Dec 2009 14:34

Portanto, na tua ideia, urukai, o Pedro é um gajo que passa os dias a andar de metro a escrevinhar sobre a vida à sua volta. E de gorro! lol

Mesmo conhecendo-o (caríssimo amigo, quanta honra! :tongue:), consigo ver que esta possa ser um bocado a imagem que ele passa (não em relação ao que eu disse ali em cima, mas de um modo geral).

Gostei de ler.
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Re: Pedro Farinha

Postby Tzimbi » 14 Dec 2009 15:58

Lazy Cat wrote:... consigo ver que esta possa ser um bocado a imagem que ele passa (não em relação ao que eu disse ali em cima, mas de um modo geral).


Ok, admito. A Lazy até tem uma certa razão (já te disse que és irritante, sempre a ter razão nestas coisitas... :dry: ), mas mantenho a minha opinião, de "gorro" e de "rabinho" sentado no Metro é tudo menos o Pedro.

urukai, o que eu disse em nada tira o mérito ao teu texto. :notworthy:

S.

EDIT: para quando o próximo? Já me viciaste nisto. Quando chegar a vez da Gatinha, avisa-me...eu tenho umas dicas para te dar.... :devil2: :whistling:

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Re: Pedro Farinha

Postby Pedro Farinha » 14 Dec 2009 17:28

Torna-se realmente estranho ler um texto escrito sobre nós por alguém que não nos conhece. E depois comentários de pessoas que me conhecem, umas melhor e outras pior, sobre mim e a adequação do texto à minha pessoa.

Vamos por partes.

Antes do mais fiquei sensibilizado com a ideia do Urukai escrever sobre mim, logo a seguir ao Sam (senti-me promovido).

O texto em si, isolando o facto de eu ser o pretenso protagonista, está muito bom. Bem escrito e as pinceladas que são dadas vão dando corpo à personagem, com uma grande riqueza e cuidado na escolha das palavras. Sinceramente, fico contente de ter inspirado um texto destes.

Quanto a me sentir retratado nele... digamos que, e houve quem o dissesse mais ou menos, o personagem retratado aproxima-se da imagem que eu gosto de projectar de mim próprio. A ideia do solitário, vivido que se preocupa com os outros mas nunca se envolve em demasia. Não é por acaso que o meu "herói" é o Corto Maltese.

Como tentamos projectar uma imagem que tem algo a ver connosco e tentamos, também, aproximarmo-nos da imagem que projectamos, acho que existe algo de mim nessa personagem. Mas, claro, quem me conhece pessoalmente, sabe que eu não sou assim tão solitário-romântico, para além de pormenores arriscados como imaginares-me com um gorro que é algo que eu só ponho abaixo dos vinte graus negativos e para demonstrar aos meus filhos que eles também têm de o pôr.

Sentar-me no Metro, como a Tzimbi disse, também é algo que só faço se tiver por companhia alguém que o faça. Porque as minhas viagens de metro ou de comboio são sempre feitas em pé. Mas isto são detalhes, a parte da roupa coçada e moldada ao meu corpo, já é mais coincidente com a verdade...

Em suma, senti-me orgulhoso de ter sido assim retratado, mas eu não sou assim tão interessante.

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Re: Pedro Farinha

Postby Lazy Cat » 14 Dec 2009 18:07

Pedro Farinha wrote:Como tentamos projectar uma imagem que tem algo a ver connosco e tentamos, também, aproximarmo-nos da imagem que projectamos, acho que existe algo de mim nessa personagem.



Isso! Eu queria ter dito isso (mais coisa, menos coisa), mas as palavras não me estavam a sair.


E Tzimbi... eu tenho sempre razão, salvo raríssimas excepções! :tongue:
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Re: Pedro Farinha

Postby Thanatos » 14 Dec 2009 19:48

Bem, esta série de textos do urukai está mesmo a ser curiosa/engraçada/interessante. E graças a Chtulhu que ele já me conhece. Small favors and all that. :wink:

Eu como nunca vejo as pessoas com bons olhos e só tenho a dizer mal de toda a gente, aprecio sempre notar como outros vêem os colegas foristas banhados numa luz intensa de romantismo e idealismo. :devil:
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Pedro Farinha

Postby urukai » 14 Dec 2009 20:11

Thanatos wrote:E graças a Chtulhu que ele já me conhece. Small favors and all that. :wink:


Certo,
mas também graças a outro deus qualquer, provalvemente a antítese de Chtulhu, que penso ter engendrado uma forma de contornar essa situação.

Quanto a este texto do Pedro Farinha muito obrigado por todas as críticas e elogios. Sabia que em termos de conteúdo o texto estaria distante do Pedro actual que tem uma família e não anda por aí a estoirar dinheiro em bilhetes do metro mas é assim que o imagino. A questão do sentado nem sequer pensei, saiu, inconscientemente, no fluir do texto. Já o gorro foi um artificio para introduzir a questão das estações pois considero o Pedro como alguém mais invernal que primaveril.

Bem mais uma vez obrigado e até ao meu próximo devaneio que daqui para a frente manterá esta forma.

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Re: Pedro Farinha

Postby Arsénio Mata » 14 Dec 2009 21:03

Ainda me lembro de te ver a escrever noutro tópico que tinhas dificuldade a escrever. Tretas! :devil:
Está muito bom o texto, e eu, que não o conheço, também o imagino assim...
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Re: Pedro Farinha

Postby urukai » 14 Dec 2009 21:12

Eu tenho dificuldades a escrever no sentido em que me custa escrever. É um processo doloroso que me sai do pêlo e não é algo natural. Tenho um prazer imenso quando tudo está terminado mas até lá custa-me e tenho de me esforçar.

Era isto que queria dizer com dificuldades que penso que seja diferente da minha interpretação que deste às minhas palavras.

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Re: Pedro Farinha

Postby Arsénio Mata » 14 Dec 2009 21:19

Não, eu tinha comprrendido perfeitamente, aliás, percebo bem de mais porque me acontece o mesmo. Estava a brincar contigo.
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Re: Pedro Farinha

Postby urukai » 14 Dec 2009 21:22

Ah ok... :biggrin: Sorry my bad! Fui eu que não entendi! :sad:

Ainda por cima puseste um emoticon de diabo... :friends:

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Re: Pedro Farinha

Postby Arsénio Mata » 14 Dec 2009 21:30

Era o diabo a rir-se pah... :devil2: :whistling:
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