Agarrar o Touro pelos Cornos

urukai
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Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby urukai » 29 Dec 2009 01:15

Olá,

O Samwise parece ser a força motriz dos meus projectos aqui nos escritos pois esta sua intervenção:

Samwise wrote:2666, Ulisses, A Montanha Mágica, Paraíso Perdido... :see_stars:
Estás mesmo a querer agarrar o touro pelos cornos!!!


Deu-me uma ideia para um projecto que envolve os clássicos supracitados e a minha pessoa.
Ora vejamos:

[img]http://img682.imageshack.us/img682/4473/agarrarotouropeloscorno.png[/img]

Este sou eu, corajoso, a agarrar o touro pelos cornos. E será mais ou menos isso que me proponho fazer. Irei ler cada um destes livros e simultaneamente descreverei a experiência aqui neste cantinho. Será algo muito ao jeito do que se faz na leitura conjunta mas, desta feita, no singular.

Começarei pelo 2666 do Roberto Bolano que já comecei a ler há algum tempo. Amanhã postarei a análise à primeira parte e na medida do possível irei abster-me de spoilers.
Enveredarei por uma abordagem mais subjectiva em que tentarei descrever como o livro me afectou e me moldou ao invés de descrever o que nele se passa.

Espero que gostem.

Urukai

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby grayfox » 29 Dec 2009 01:24

:pcorn:
A melhor assinatura chinesa da actualidade.

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby Sharky » 29 Dec 2009 01:28

Boa, urukai :thumbsup:

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby Thanatos » 29 Dec 2009 11:19

Estou bastante interessado em ver os resultados deste teu projecto, urukai. :thumbsup:
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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby Samwise » 29 Dec 2009 12:57

"ou como vou sobreviver aos Clássicos"

A ver vamos... :mrgreen4nw:

Cada um destes livros me intimida profundamente. Talvez daqui a dez anos comece a pensar em pegar nalgum deles.

No outro dia estive a folhear o outro do Bolaño que se vê nas lojas, Os Detectives Selvagens, e esse já me interessou mais. Mesmo assim, vou aguardar um bom tempo antes de me aventurar nele.
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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby Dharma » 29 Dec 2009 20:36

Boa sorte. Desses li apenas o "Paradise Lost"... e adorei. Foi o meu grande momento literário deste ano, em que senti que estava a degustar uma obra. Como li a versão em inglês, a coisa foi andando devagar, mas com um prazer enorme. Ficou-me particularmente na memória a frase que tenho na assinatura:

"The mind is its own place, and in it self
Can make a heaven of hell, a hell of heaven."
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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby Thanatos » 29 Dec 2009 20:51

Dharma wrote:Boa sorte. Desses li apenas o "Paradise Lost"... e adorei. Foi o meu grande momento literário deste ano, em que senti que estava a degustar uma obra. Como li a versão em inglês, a coisa foi andando devagar, mas com um prazer enorme. Ficou-me particularmente na memória a frase que tenho na assinatura:

"The mind is its own place, and in it self
Can make a heaven of hell, a hell of heaven."



Uiiii o Paradise Lost é fértil nisso. Deve ser das obras mais quotable que ele tem ali na lista. Uma das minhas passagens favoritas tem esta:
Greedily she engorged without restraint, And knew not eating death;


Para quem não saiba, refere-se ao fruto da Árvore do Saber (tem outras designações, of course) comido pela mãe de todos nós. :tongue:
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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby Dharma » 29 Dec 2009 20:54

Thanatos wrote:Uiiii o Paradise Lost é fértil nisso.


Eu também gosto do "Better to reign in Hell than to serve in Heaven". :smile:
"The mind is its own place, and in it self
Can make a heaven of hell, a hell of heaven."

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby urukai » 29 Dec 2009 21:24

2666
Roberto Bolano
A parte dos Críticos

Há ali qualquer coisa subjacente.
Um poder, um brilho, uma constância difícil de definir.
Pega-se no livro e toma-se-lhe o peso. Impressiona. Andará perto de ¾ de um tijolo e é, inacreditavelmente, mais maciço.
Dá-se-lhe uma volta, outra e ainda mais uma que o título intriga-nos a curiosidade. (afinal de contas não há o menor indício para um título tão bizarro. Será um data? Será um número ao acaso? Será respondido antes do final?)
Lê-se o teaser na folha antes da primeira página e aplaudimos a argúcia do editor. É que aquela imaginativa checklist de emoções tem um não-sei-o-quê de literário que nos desarma e faz querer desejar mais. No entanto, mais tarde, com a leitura já avançada, percebe-se o uso do termo “argúcia” em detrimento de “inteligência” ou “clarividência” para adjectivar o manhoso editor. É que aqueles parágrafos que nos servem de entrada não representam de todo o estilo transversal ao livro. (ou neste caso à primeira parte do livro donde foi extraído aquele excerto) Não quero com isto dizer que fui defraudado, fui apenas encaminhado numa direcção que depois não me vejo a percorrer pelas páginas que leio. Analisando agora à distância, aquele excerto é demasiado trabalhado (ou aparenta sê-lo) quando comparado com a prosa mais corrida e improvisada que nos é apresentada com a leitura do livro. Mais uma vez não me consigo expressar adequadamente pois do que se trata aqui é de aparências e não de coisas que o são. Simplificando, o excerto aparenta ser demasiado pensado e trabalhado, já o conjunto de excertos que compõe a primeira parte surge muito mais fluido e parece que nasce com o teclar rápido de um Bolano a imaginar livremente. A realidade, e essa será a que interessa, é que há um trabalho, uma estrutura e uma idealização profunda em toda a obra, quanto mais não seja pelo entrelaçar de várias estórias que, penso eu, convergirão num derradeiro capítulo (para além de o ter pensado, li-o também na badana).
Mas estou a dispersar e o melhor é irmos ao que interessa.
Comecei o 2666 a 7 de Outubro de 2009. Li 192 páginas até ao dia 9 de Novembro de 2009, concluindo, assim, a primeira parte do livro, denominada “A parte dos Críticos”.
Desde, então, o universo criado pelo Bolano não mais me abandonou. Esta intermitente presença não pode ser comparada a uma cicatriz facial, visível e incómoda. É antes uma lesão antiga, quase curada, que aparece em momentos específicos. Estava no trabalho, entre um e-mail e um fax, e vinha-me à memória uma personagem. Estava no café, com os amigos, e lembrava-me de uma passagem. (quanto mais não fosse para me armar ao pingarelho com dotes de intelectual predestinado) Estava na casa de banho e eis que me surgia a ânsia de que chegasse a noite para ler mais um bocadinho. E foi assim, com este magnetismo periclitante mas indelével, que vivi os últimos tempos. Escrito desta forma, o feito parece pouco notável, afinal de contas temos vários livros que, por uma razão ou outra, nos ficam na memória. No entanto, quero frisar, é um feito extraordinário pois o livro contém um enredo insosso, personagens de uma inverosimilhança subliminar e passagens crípticas como o raio. Mas a verdade é que do conjunto de tudo isto sai uma mescla que revitaliza uma tradicional expressão transmutando-a para “estranha-se sempre, mas entranha-se ainda mais”.
Há qualquer coisa no estilo do Bolano, à primeira vista com demasiadas vírgulas para conseguir ser coerente ou estruturado, que transforma o leitor comum num ser intelectualmente superior que se vê surpreendentemente interessado no quotidiano de 4 professores universitários que têm como interesse profissional e pessoal algo que aborreceria de tédio o tradicional professor universitário de literatura germânica com especialização num determinado século. Porque convenhamos, o que estou a ler agora, que disserta sobre o renascimento de um bombista (Leviathan de Paul Auster) ou um cemitério assombrado de animais de estimação (Pet Sematary do Stephen King) parecem-me temas muito mais apelativos que a estopada do Bolano á volta de um enigmático escritor alemão (que desconheço se será uma personagem inventada ou real) chamado Archimboldi. Mas talvez estopada seja, neste caso, utilizada com a sua verdadeira acepção pois o livro e a sua aparente inutilidade contextual enchem-nos as medidas e transbordam-nos com uma vontade férrea de o ler mais e mais e mais. Esta necessidade terá, apesar de tudo, duas aproximações diferentes consoante o tipo de leitor. É arriscado generalizar mas para o comum dos leitores (eu) a voracidade nasce de um sistema de vasos comunicantes com uma atracção inexplicável do lado do 2666 e um desejo de se suplantar e espantar a si próprio do (meu) lado do leitor. Já para o leitor intelectual, ou se preferirem interpretativo, esta primeira parte do 2666 é uma mina de diamantes angolana com alguns, raros, diamantes de sangue a pontilhar numa enorme jazida dos tradicionais. A título de exemplo, o Bolano escreve cerca de 3 páginas com uma gigantesca metáfora com intelectuais mexicanos, sombras e teatro. Eu não entendi/decifrei grande parte mas isso não me impediu de ler com admiração e espasmo. Posso não perceber nada de arquitectura ou engenharia mas sei o que é o amor quando vejo o Taj Mahal. Felizmente, o livro não é todo assim e tem muito de terreno e acessível que permite a construção de uma linha narrativa que percorremos solidamente.
Queria neste momento ressalvar algo que já mencionei algumas linhas atrás. Archimboldi, o tal escritor alemão, que, até ver, constitui o âmago do livro, representa um enigma para o leitor a vários e interessantes níveis. Primeiro, ele é apresentado como uma personagem real no universo de Bolano mas também o são outros escritores alemães que têm uma representação real no nosso universo (ex: Goethe) e eu, na minha ignorância, não sei se Archimboldi é de facto real ou não na nossa vida real. Isto conjugado com o próprio enigma que Archimboldi é no livro representa um estímulo francamente positivo à minha perseverante mas cadenciada leitura.
Como ideia final (mas prematura pois nem a 1/3 do livro cheguei) penso que 2666 seja um livro estratificado que dá ao leitor aquilo que ele consegue retirar. A mim deu-me até ao momento uma satisfação indefinida que me atormenta e sei que não me largará enquanto não o terminar, demore o tempo que demorar.
Urukai
P.S. lamento se o texto está demasiado confuso mas ninguém disse que isto seria fácil!

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby pco69 » 29 Dec 2009 22:08

urukai wrote:2666
Roberto Bolano
A parte dos Críticos
(...)
Urukai
P.S. lamento se o texto está demasiado confuso mas ninguém disse que isto seria fácil!

Tá um pouco complicado sim, mas perceptível. :thumbsup:

Uma questão, tanto para ti, como para os administradores.
Este texto, não deveria ser colocado numa entrada especifica do 2666? :znaika:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby urukai » 30 Dec 2009 00:45

Isto está a ir por partes, comprometo-me a que quando tiver uma review completa de um livro a colocar na secção respectiva.

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby zé.chove » 30 Dec 2009 11:32

Fiquei com vontade de ler esse tijolo.

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby Samwise » 30 Dec 2009 11:47

urukai wrote:P.S. lamento se o texto está demasiado confuso mas ninguém disse que isto seria fácil!


Não achei a tua análise experimental confusa.

Acrescenta aí um pick na tua lista de "impenetráveis" à frente de O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco. Enquanto lia a tua "experiência" com o 2666 fui pensando que tudo se ajustava na perfeição ao livro do Eco - excepção feita o formato da escrita, que me parece bastante menos fluído no Pêndulo.
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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby urukai » 30 Dec 2009 11:53

Thanks Sam.
Do Eco li o Nome da Rosa e a profusao aborrecida de referencias historicas afastoume de outras leituras deste escritor.

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Re: Agarrar o Touro pelos Cornos

Postby Tzimbi » 30 Dec 2009 12:06

urukai wrote:Do Eco li o Nome da Rosa e a profusao aborrecida de referencias historicas afastoume de outras leituras deste escritor.


Ora aqui está algo que não percebo. Já não és a primeira pessoa a dizer que O Nome da Rosa é "aborrecido". Não concordo nada, eu achei um livro emocionante, com acção q.b.
Mas se achas mesmo isso d'O Nome da Rosa, mantém-te afastado d'A Misteriosa Chama da Rainha Loana. :tongue:

A propósito do 2666, gostei bastante do teu texto. Talvez em breve te faça companhia e comece a lê-lo, já lá está em casa desde o Natal. Mas pensando bem, Os Detectives Selvagens também já lá estão há um ano e meio. :sad:

S.


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