White Heat

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White Heat

Postby Gaminha » 27 Oct 2009 11:10

White Heat (1949)


Realizador: Raoul Walsh
Actores:[list][*]James Cagney (as A. Cody Jarrett)</li>[/*:m][*]Edmond O'Brien (as Vic Pardo)</li>[/*:m][*]Virginia Mayo (as Verna Jarrett)</li>[/*:m][*]Margaret Wycherly (as Ma Jarrett)</li>[/*:m][/list:u][img]http://ia.media-imdb.com/images/M/MV5BMTczMDk5NDEzNl5BMl5BanBnXkFtZTcwNjM1MDMyMQ@@._V1._CR0,0,264,264_SS90_.jpg[/img][img]http://ia.media-imdb.com/images/M/MV5BNjMxMDQ2MTQ0Ml5BMl5BanBnXkFtZTcwMDUxNDcyMQ@@._V1._CR0,0,433,433_SS80_.jpg[/img][img]http://ia.media-imdb.com/images/M/MV5BMTA3MTAzNzQ4OTReQTJeQWpwZ15BbWU2MDUwMjk2OA@@._V1._CR0,0,144,144_SS80_.jpg[/img][img]http://ia.media-imdb.com/images/M/MV5BOTgwMTIyMjY3OF5BMl5BanBnXkFtZTYwNDE2Mzk4._V1._CR0,0,292,292_SS80_.jpg[/img]

"Cody Jarrett é o sádico líder de uma gangue de ladrões implacáveis. Perturbado constantemente por dores de cabeça terríveis e ferozmente devotado à sua 'Ma', Cody é um líder violento e excêntrico. A vida de Cody ira dar uma reviravolta quando é preso, e uma serie de acontecimentos descarrilam a sua sanidade: é traído pelos companheiros, Verna sua mulher, torna-se amante de Big Ed (Steve Cochran), 'Ma' é assassinada, resta-lhe a amizade de Vic Pardo, policial infiltrado. Finalmente, o palco está montado para a traição e queda de Cody, durante um assalto a uma fábrica de produtos químicos."

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Re: White Heat

Postby Gaminha » 27 Oct 2009 11:22

O filme centra-se basicamente em Cody, um líder firme e um assassino implacável. Não hesita em matar quem for preciso para atingir os seus objectivos.
Achei o início de filme muito bom, fiquei agarrada as cenas iniciais do filme, muito bem filmadas, com a acção certa e surpreendentes. Para um filme com 50 anos a acção no comboio está irrepreensível.
Com o decorrer da acção o filme vai perdendo o interesse, arrastando demasiado a acção, enrolando um pouco, mesmo os actores perdem o brilho com que começam o filme. A cena final de perseguição na fabrica está bastante fraca, não sendo nem comparável à cena inicial do comboio. Onde inicialmente víamos técnicas de filmagens e de fotografias brilhantes e perfeitas, vemos um final muito mal montado de umas expulsões fraquinhas.

A nível de actores achei que todos estiveram muito bem, apenas o polícia infiltrado (Vic Pardo) pareceu-me tremer um pouco na "figura".
Tem algumas das características inerentes aos filmes da época, "banda sonora" (se assim se pode chamar) característica nos momentos de acção e perseguições, contudo desculpáveis/aceitáveis visto ser um filme com 50 anos.

Em geral um filme que poderia ter sido brilhante, mas que termina como "médio mais".

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Re: White Heat

Postby grayfox » 27 Oct 2009 12:35

Gaminha wrote:O filme centra-se basicamente em Cody, um líder firme e um assassino implacável. Não hesita em matar quem for preciso para atingir os seus objectivos.
Achei o início de filme muito bom, fiquei agarrada as cenas iniciais do filme, muito bem filmadas, com a acção certa e surpreendentes.


Até aqui concordo.

Gaminha wrote:Com o decorrer da acção o filme vai perdendo o interesse, arrastando demasiado a acção, enrolando um pouco, mesmo os actores perdem o brilho com que começam o filme. A cena final de perseguição na fabrica está bastante fraca, não sendo nem comparável à cena inicial do comboio. Onde inicialmente víamos técnicas de filmagens e de fotografias brilhantes e perfeitas, vemos um final muito mal montado de umas expulsões fraquinhas.


Eu gostei de todo o desenrolar do enredo até ao final, em relação ás técnicas de filmagens e fotografias não sei dizer, não é isso que eu procuro num filme. Quanto ás expulsões :devil2: não vi nenhuma :tongue: !

Gaminha wrote:A nível de actores achei que todos estiveram muito bem, apenas o polícia infiltrado (Vic Pardo) pareceu-me tremer um pouco na "figura".
Tem algumas das características inerentes aos filmes da época, "banda sonora" (se assim se pode chamar) característica nos momentos de acção e perseguições, contudo desculpáveis/aceitáveis visto ser um filme com 50 anos.


Aqui é que discordo completamente, no inicio do filme só me dava vontade de rir com a "qualidade" das representações. Desculpem mas se este filme fosse dos anos 80 ou 80 era esfrangalhado e mutilado por toda a gente. Tá bem que as condições podem ter mudado muito nestes últimos 60 anos, mas em termos de representação não consigo deixar de avaliar com os meus olhos dos anos 80, e nesse aspecto achei algumas cenas muito más, especialmente as que envolviam mais acção. No entanto senti uma evolução ao longo do filme.


Gaminha wrote:Em geral um filme que poderia ter sido brilhante, mas que termina como "médio mais".


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Re: White Heat

Postby annawen » 27 Oct 2009 12:53

Bem, não poderia estar mais em desacordo. O filme é extraordinário, cheio de energia e vitalidade. Uma obra prima: 10/10.

O James Cagney é grande. Aqui está um verdadeiro demónio. Um demónio bailarino, como diria o David Thomson. Um mafarrico. Ele domina o filme do princípio ao fim. A maneira como ele prepara as cenas é digna de nota: o espectador vê o momento em que "passa para o outro lado". Quase pode apontar esse momento: na primeira dor de cabeça, quando tira a cadeira à mulher, quando recebe a notícia da morte da mãe (extraordinária sequência em que a câmara segue o actor por toda a cantina da prisão, numa coreografia enlouquecida). A maneira como ele ouve os outros, com uma grande atenção. O espectador está sempre à espera de como é que ele vai reagir. É um dos grandes actores de sempre do cinema americano. Perigoso, intenso, mas, e isto é importante, agarra a empatia do espectador sem necessitar de entrar em sentimentalismos. Muito difícil de fazer. Qual o actor hoje em dia que, ao mesmo tempo, destila perigo e tem o coração da audiência? Não me lembro de nenhum.

Porque uma coisa extraordinária do filme é o facto de o espectador, ou melhor, eu, estar sempre do lado do Cagney. Aliás, eu estava sempre desejosa que ele descobrisse o polícia traidor. O próprio espectador entra na espiral de violência. Sente uma espécie de libertação sempre que o Cody despacha mais um. Nesse aspecto, é um filme quase niilista. Porque há uma certa alegria em mandar tudo pelos ares. Em transformar tudo num inferno. Comparado com a vitalidade de Cagney, os polícias são amorfos, como diz Bogdanovich "desumanos", com a sua tecnologia e tácticas e inteligência e subterfúgios. Não são nada perante a força vital, energética, incompreensível, irracional, quase que diria poética, que é Cagney. A liberdade dele, em oposição às regras da polícia (bem visto nas perseguições de carro, os mapas, a sistematização: "o carro A segue por aqui, o carro B por ali").

Por isso adorei a cena final. Não concordo que esteja mal filmada. Nada neste filme está mal filmado. O Raoul Walsh é um clássico, a câmara está sempre no sítio certo. Mas está invisível, e nos dias de hoje, em que a câmara faz tudo para aparecer, pode dar a ideia de que não há trabalho de realização, mas há. A mise-en-scène é irrepreensível. As cenas de Cody com a mãe, a sequência da cantina, a perseguição final.

E que dizer do cenário espantoso da perseguição final, com aqueles tubos e canos, e esferas, e luzes, e brilhos. Ora na penumbra, ora iluminado. Até à erupção das chamas. Muito, muito bonito.

Também achei espantosa a interpretação da actriz que faz de mãe. Vocês já repararam na cara dela? Nos olhos que quase saem para fora. Na cara de pássaro. Parece uma ave de rapina. Vejam nas sequências em que ela fala com o gangue, por exemplo, na sequência da partilha do dinheiro; e principalmente, na visita ao filho, na prisão. A cara dela vista pelas grades. No abraço que ela dá a Cody, as mãos: ossudas e finas. Uma personagem estranha e fascinante.

----

Isto já vai muito comprido, mas deixo aqui algumas citações interessantes, sobre James Cagney:

David Thomson: "Cagney is charged with restlessness, and yet he always contrives to discharge the agitation daintily and with conscious style. Watch him listen to other players and you will realize how often other actors cruised. If he is frightening it is because of that attentiveness and the feeling that what is being said or done to him may provoke extraordinary and unexpected reactions. No one could move so arbitrarily from tranquility to dementia, because Cagney was a dancer responding to a melody that he alone heard. Like a sprite or goblin he seemed to be in touch with an occult source of vitality. What a Bilbo Baggins he would have made; or imagine his Hyde to Fred Astaire's Jeckyll."

Peter Bogdanovich: "Cagney é um dos mais imitados e um dos mais inimitáveis actores que alguma vez apareceram no ecrã. Julgo que mais ninguém do cinema teve tanta energia ou teatralidade. Há coisa de um ano, passei o brilhante filme de gangsters de Raoul Walsh, White Heat, para Orson Welles; nunca o tinha visto e é um fã de Cagney e de Walsh, por isso vimo-lo juntos numa noite, e depois Orson pôs-se a dissertar sobre o absurdo de todos os escritos teóricos acerca da diferença entre a representação cinematográfica e a representação teatral. 'Olha para Cagney - tudo o que faz é grande - e no entanto nem por um momento deixa de ser verosímil, porque é real. É verdadeiro. É um grande actor de cinema e as suas interpretações não são de maneira nenhuma moduladas para a câmara - nunca reduz nada.' "

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Re: White Heat

Postby Gaminha » 27 Oct 2009 12:58

grayfox wrote:Até aqui concordo.
Eu gostei de todo o desenrolar do enredo até ao final, em relação ás técnicas de filmagens e fotografias não sei dizer, não é isso que eu procuro num filme. Quanto ás expulsões :devil2: não vi nenhuma :tongue: !
Aqui é que discordo completamente, no inicio do filme só me dava vontade de rir com a "qualidade" das representações. Desculpem mas se este filme fosse dos anos 80 ou 80 era esfrangalhado e mutilado por toda a gente. Tá bem que as condições podem ter mudado muito nestes últimos 60 anos, mas em termos de representação não consigo deixar de avaliar com os meus olhos dos anos 80, e nesse aspecto achei algumas cenas muito más, especialmente as que envolviam mais acção. No entanto senti uma evolução ao longo do filme.
Apesar de tudo gostei bastante. Top of the world...almost!


Gray, esclarece-me uma coisa, é para opinar sobre o filme, ou para criticar a minha opinião?
Bem, já fiquei a saber o que achaste da minha opinião...

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Re: White Heat

Postby Gaminha » 27 Oct 2009 13:07

Concordo contigo quanto à personagem do Cody, é um típico mauzão, mas não antipático, gostei da representação dele em geral. E nas cenas com a mãe destaca-se, sobressaindo as qualidades que referiste do actor.
Esperava mais do polícia, em certos momentos, achei que havia uma grande empatia entre Cody e o polícia, mas no final achei que perdeu a relação que se via que tinha com Cody.


annawen wrote:Por isso adorei a cena final. Não concordo que esteja mal filmada. Nada neste filme está mal filmado. O Raoul Walsh é um clássico, a câmara está sempre no sítio certo. Mas está invisível, e nos dias de hoje, em que a câmara faz tudo para aparecer, pode dar a ideia de que não há trabalho de realização, mas há. A mise-en-scène é irrepreensível. As cenas de Cody com a mãe, a sequência da cantina, a perseguição final.


Mas a cena final... não gostei. No momento em que Cody está no cimo a gritar o som sai muito mal, e as explosões não se encaixam bem. Fiquei muito mais encantada com a cena do comboio, do salto do Cody para o comboio, etc.

Outra personagem que gostei, ou pelo menos achei que sobressaiu (alem de 'Ma' que achei fantástica) foi Verna, a típica beleza de Hollywood, mas em que o realizador soube guia-la para não parecer tão "boneca". Só a primeira cena de Verna em que Cody vai acorda-la e ela ressona, caracteriza-a muito bem.

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Re: White Heat

Postby grayfox » 27 Oct 2009 13:10

Gaminha wrote:Gray, esclarece-me uma coisa, é para opinar sobre o filme, ou para criticar a minha opinião?
Bem, já fiquei a saber o que achaste da minha opinião...


Eu aproveitei a tua opinião para dar a minha opinião sobre o filme, discordei de alguns pontos, mas qual é o mal?
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Re: White Heat

Postby Gaminha » 27 Oct 2009 13:14

grayfox wrote:Eu aproveitei a tua opinião para dar a minha opinião sobre o filme, discordei de alguns pontos, mas qual é o mal?
Lighten up girl.

Mal não vi nenhum, mas AINDA posso questionar, ou não? Afinal falaste tanto sobre a minha opinião como do filme. :whistling:

PS.: a acção quote está diferente, não está?

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Re: White Heat

Postby leuqar » 27 Oct 2009 13:17

Já vi que perdi um belo filme. Este não deu mesmo para ver. :sad:
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Re: White Heat

Postby grayfox » 27 Oct 2009 13:19

Podes Gaminha, apenas me pareceu que tinhas ficado chateada, mas ainda bem que me enganei. Mas podes sempre vingar-te na análise que fiz á primeira parte do The Shinning :smile:

No geral gostei do filme, acho que é daqueles que vou sempre lembrar quando se falar de gangsters, gostei da história, e da força do personagem principal. Como já disse, as representações no geral não gostei por aí além, mas não chegou para borrar a pintura.

Nas questões mais técnicas lamento mas não reparo nem tenho conhecimentos para avaliar isso.
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Re: White Heat

Postby annawen » 27 Oct 2009 15:15

Gaminha wrote:Mas a cena final... não gostei. No momento em que Cody está no cimo a gritar o som sai muito mal, e as explosões não se encaixam bem.


Se calhar foi da cópia. Eu não reparei nada em relação ao som. A única coisa é que a minha cópia estava um bocado pixelizada, e na parte final, quase não dava para ver a cara do actor. Mas é uma cena tão poderosa, Gaminha. Tantas vezes imitada. Não sei como não gostaste.

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Re: White Heat

Postby annawen » 27 Oct 2009 15:17

leuqar wrote:Já vi que perdi um belo filme. Este não deu mesmo para ver. :sad:


Ainda vais a tempo. O próximo só se discute na próxima segunda. E além disso, estes tópicos não têm prazo (acho eu). Tenta ver, leuqar. Podemos sempre ir falando sobre ele, no futuro.

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Re: White Heat

Postby Samwise » 27 Oct 2009 18:25

Vou começar por pegar em pormenores que já foram comentados, negativamente, e que merecem alguma atenção, realçando antes, e a ter bem presente, que o filme data de 1949.

Quando a MAGG referiu que já não se fazem filmes como aquele, tem toda a razão. O mesmo argumento, hoje em dia, seria filmado de forma completamente diferente, fosse qual fosse o realizador, os actores, e os meios à disposição. (e a mesma coisa se passaria se fosse filmado nos anos 80)

É normal que sintamos um embate, porventura bastante forte - um choque até -, em relação às interpretações e aos aspectos "ingénuos"(por assim dizer) na da forma como aquela "realidade" é apresentada pela câmara.

O método de representar e a prestação do Cagney em particular (que é estupenda na maior parte do tempo e hipnótica em certas alturas, quando não conseguimos desviar o olhar da sua figura) também se regiam por normas completamente distintas das actuais, com outras exigências e sobretudo com outras expectativas por parte do público. É coisa dos tempos, não há volta a dar a isso.

Compreendo a Gaminha quando refere a "fraqueza" sequência final (últimos 10 minutos), mas contesto que esteja mal filmada; neste caso concordo mais com a annawen, o Walsh sabia onde colocar a câmara, como a movimentar nas perspectivas entre personagens e cenário, e o que captar ao certo.

O problema (se assim podemos dizer) é a tal "ingenuidade" característica da época, mas que não se limita à cena final. Há vários exemplos evidentes dessa ingenuidade bem intencionada (mesmo que o filme apresente criminosos sem escrúpulos) que era norma em certo tipo de filmes e que nos parece estranha neste em particular: o atentado na cadeia com o motor do automóvel e o Cagney a ser safo in-extremis pelo infiltrado - tem o seu quê de encenação; a mensagem deixada no espelho da bomba de gasolina (lol); a forma como o infiltrado e o criminoso que o poderia identificar (não) vão tendo aparições conjuntas cuidadosamente geridas para que só no fim haja um confronto; o pontapé que o criminoso dá à mulher quando a encontra a mirar-se ao espelho em cima de uma cadeira; o truque do lenço deixado no para-choques; o descuido do amantes ao beijarem-se no alpendre; a fuga da prisão, simples como só o cinema poderia encenar; na sequência final, a forma como os polícias "invadem" o local e como o tiroteio nos é mostrado (aqueles dois polícias que o Cagney mata lá do topo, com a caçadeira...); isto entre muitos outros pormenores "engraçados".

Numa outra vertente desta ingenuidade, destaco a atenção que é dada à tecnologia dos polícias (o aparelhometro de triangulação é qualquer coisa de fantástico) e os esquemas que eles montam para fazer as perseguições (há um plano que foca um papel com as ruas desenhadas a lápis e os carros identificados com A, B e C, e que inicia uma interessante e estranha sequência de perseguição, com telefones nos carros e tudo). É uma vertente fortemente lúdica, que dá uma dimensão diferente a um filme que parecia anunciar-se como outro com a sequência inicial do assalto ao comboio. Filme Gangsters? de Crime? Sim, talvez, mas não aquele que se calhar estariam à espera.

Enquanto via o filme percorreram-me essas mesmas sensações que vos vi descrever, mas de certa forma já estou habituado a isso. Exemplo muito semelhante senti-o, por exemplo, quando vi o The Day the Earth Stood Still, um clássico de FC de 1951 que mereceu um remake em 2008. A "ingenuidade" característica da época está lá toda, e por vezes não conseguimos evitar que abale os alicerces que temos implantados pela "cultura" cinéfila actual.

Estas questões todas espicaçaram-me o interesse pelo filme e fui acompanhando com agrado crescente. Não digo de tenha adorado ou que o considere uma obra-prima, mesmo tendo em conta a altura em que foi feito (digamos que há uns quantos noir da época que o deixam muito para trás), mas é uma fita incontornável dentro do género e um marco (entre alguns outros) para o actor principal. Por conta de uma série de características, gostei muito de ver.
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Re: White Heat

Postby Gaminha » 27 Oct 2009 18:35

Samwise wrote:O problema (se assim podemos dizer) é a tal "ingenuidade" característica da época, mas que não se limita à cena final. Há vários exemplos evidentes dessa ingenuidade bem intencionada (mesmo que o filme apresente criminosos sem escrúpulos) que era norma em certo tipo de filmes e que nos parece estranha neste em particular: o atentado na cadeia com o motor do automóvel e o Cagney a ser safo in-extremis pelo infiltrado - tem o seu quê de encenação; a mensagem deixada no espelho da bomba de gasolina (lol); a forma como o infiltrado e o criminoso que o poderia identificar (não) vão tendo aparições conjuntas cuidadosamente geridas para que só no fim haja um confronto; o pontapé que o criminoso dá à mulher quando a encontra a mirar-se ao espelho em cima de uma cadeira; o truque do lenço deixado no para-choques; o descuido do amantes ao beijarem-se no alpendre; a fuga da prisão, simples como só o cinema poderia encenar; na sequência final, a forma como os polícias "invadem" o local e como o tiroteio nos é mostrado (aqueles dois polícias que o Cagney mata lá do topo, com a caçadeira...); isto entre muitos outros pormenores "engraçados".


Por acaso estes pontos que apontaste, que concordo são um pouco "forçados", mas que a mim não me incomodaram nada neste filme, achei que estava giro e que se encaixava.

A cena da perseguição e a exemplificação da técnica dos 3 carros achei-a fantástica.

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Re: White Heat

Postby Samwise » 27 Oct 2009 18:55

annawen wrote:Também achei espantosa a interpretação da actriz que faz de mãe. Vocês já repararam na cara dela? Nos olhos que quase saem para fora. Na cara de pássaro. Parece uma ave de rapina. Vejam nas sequências em que ela fala com o gangue, por exemplo, na sequência da partilha do dinheiro; e principalmente, na visita ao filho, na prisão. A cara dela vista pelas grades. No abraço que ela dá a Cody, as mãos: ossudas e finas. Uma personagem estranha e fascinante.


De acordo. Personagem interessante, expressões faciais bem espremidas, e uma interpretação muito boa.

Acho piada a ideia de ter um vilão mau como as cobras a viver numa relação daquelas com a mamã... :biggrin:

Fiquei com pena que tenha sido "apanhada" por alguém que depois não teve o castigo que merecia.
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