White Heat

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annawen
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Re: White Heat

Postby annawen » 27 Oct 2009 19:50

Epá, desculpa lá Sam, mas não concordo nada com o que disseste da visão "ingénua". Eu diria ao contrário, não é o filme que é "ingénuo", são os nossos olhos que já não o são. Ou melhor, já estão contaminados por uma maneira de ver que lhes é imposta, quer queiram, quer não, pela forma como os filmes são agora (século XX, XXI) realizados. Uma forma formatada, que só empobrece o espectador, e o imaginário, na minha opinião. Portanto, todas as cenas que mencionas no post como "ingénuas", desculpa, mas não o são. Tu é que as vês assim. E provavelmente a maioria das pessoas. O que de certa forma é triste, por torna os filmes com mais de 20 anos como peças históricas, quando deviam ser vistos como obras de arte (boa ou não, aqui não interessa) vivas e actuais.

A melhor forma é tentar ver o filme como se ele tivesse sido feito hoje, isto é, mantê-lo actual, vivo. Não o cristalizar colocando-lhe uma data à frente. Abordar o filme com um certo ar inocente (que não tem nada a ver com ingénuo). Afinal os filmes de agora como os do início do século falam dos mesmos problemas: amor, morte, solidão, etc.
É preciso uma nova maneira de olhar para o cinema, senão corremos o risco de um legado artístico muito importante ficar, não a se encher de pó nas bibliotecas, mas encher-se de pó nas caixas de lata. E esse olhar, acredito eu, não deveria ser historiográfico. (Sam, esta última parte já não é tanto para ti, mas é mais um desabafo sobre algumas coisas que tenho lido ultimamente sobre arte e história da arte).

Mas, na realidade, este tipo de pensamento que data o cinema e chama filmes antigos (logo antiguidades) a filmes com menos de 20 anos, é um pouco estranho para mim, uma vez que eu vejo estes filmes desde garota, na RTP2. Este em particular não, mas o da próxima semana, lembro-me muito bem quando o vi pela primeira vez, ainda andava no liceu.

**

Em relação ao filme propriamente dito, lembrei-me de uma coisa: A solidão da personagem principal. Não há amizade dentro daquele gangue, só medo. O Cody não tem amigos. Mesmo dentro da prisão, não sabemos a motivação das pessoas que o ajudam: medo, uma vaga noção de lealdade? Não amizade certamente. A cena para mim mais sintomática é quando o Cagney mata um dos assaltantes que estava com ele no último assalto. O assaltante vai-se se render, e o Cody, lá em cima, dá-lhe um tiro nas costas. O que dizer desta cena? Como interpretar a atitude da personagem? "Ninguém me abandona", parece pensar; ou um gozo especial pela morte? "Piromaníaco", chamar-lhe-ia provavelmente o Harold Bloom. A personalidade de Cody não é dá azo a nenhuma amizade (só mesmo uma mãe poderia gostar dele), nem cabe em nenhum tipo de organização. É um homem fora de qualquer sistema. Se ele não fosse gangster, não sei que outra profissão poderia ter. Nesse aspecto faz lembrar, mas numa escala muito mais pequena, as personagens de Joe Pesci em "Casino" e "Tudo bons rapazes". Personagens tão fora de qualquer ordem, que ameaçam destruir a própria organização em que se encontram.

Como contraponto temos o Dillinger do "Inimigos Públicos", do Michael Mann. Uma das coisas mais tocantes para mim neste filme é a amizade que se estabelece entre os membros do gangue. Claro que há traições, mas o núcleo duro permanece inabalável em volta do líder.

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Re: White Heat

Postby Samwise » 28 Oct 2009 01:55

annawen wrote:Epá, desculpa lá Sam, mas não concordo nada com o que disseste da visão "ingénua". Eu diria ao contrário, não é o filme que é "ingénuo", são os nossos olhos que já não o são. Ou melhor, já estão contaminados por uma maneira de ver que lhes é imposta, quer queiram, quer não, pela forma como os filmes são agora (século XX, XXI) realizados. Uma forma formatada, que só empobrece o espectador, e o imaginário, na minha opinião. Portanto, todas as cenas que mencionas no post como "ingénuas", desculpa, mas não o são. Tu é que as vês assim. E provavelmente a maioria das pessoas. O que de certa forma é triste, por torna os filmes com mais de 20 anos como peças históricas, quando deviam ser vistos como obras de arte (boa ou não, aqui não interessa) vivas e actuais.


Annawen, concedo que tens uma certa razão no que dizes, e que é basicamente o nosso olhar que está habituado a uma abordagem diferente à matéria. Não diria "contaminado" porque isso seria sentenciar todo o cinema moderno a um castigo que não se lhe adequa, mesmo que a maioria dos produtos que saem dos estúdios de Hollywood não valham o preço do bilhete. Aliás, mais à frente defendes (e bem) o caso do personagem no Public Enemies, um filme que dessa "ingenuidade" de que falo nada tem - é um apóstolo do realismo cru e sem concessões (mesmo considerando as ideias puramente cinematográfica que por lá habitam, como a sequência em que o Dillinger entra no edifício do FBI e passa revista ao escritório da equipa que o persegue).

Defendo-me dizendo que usei umas aspas na "ingenuidade" (e que "inocência" será um termo tão bom quanto o outro para caracterizar o que digo) e que não vejo problema algum em considerar as expressões "peças históricas" e "obras de arte" como conjugáveis - o filme é um pouco essas duas coisas, num sentido não pejorativo.

A melhor forma é tentar ver o filme como se ele tivesse sido feito hoje, isto é, mantê-lo actual, vivo. Não o cristalizar colocando-lhe uma data à frente. Abordar o filme com um certo ar inocente (que não tem nada a ver com ingénuo). Afinal os filmes de agora como os do início do século falam dos mesmos problemas: amor, morte, solidão, etc.
Aqui já não concedo nada. Não consigo olhar para um filme de há 60 anos como se tivesse sido feito hoje, e mais uma vez falo sem qualquer crítica negativa em mente. Pelo contrário, gosto de olhar para ele estritamente como um produto dessa época (nem sei que conseguiria fazê-lo de outra forma). O encanto que sinto passa muito por essa aceitação e a"ingenuidade" (ou inocência) contribui positivamente para esse efeito de aceitação.

É preciso uma nova maneira de olhar para o cinema, senão corremos o risco de um legado artístico muito importante ficar, não a se encher de pó nas bibliotecas, mas encher-se de pó nas caixas de lata. E esse olhar, acredito eu, não deveria ser historiográfico.


Eu diria antes que é preciso apenas não nos esquecermos (no sentido activo do termo) que há um legado artístico importante. Ver, falar, divulgar, enaltecer aquilo que merece não ser esquecido...

Em relação ao filme propriamente dito, lembrei-me de uma coisa: A solidão da personagem principal. Não há amizade dentro daquele gangue, só medo. O Cody não tem amigos. Mesmo dentro da prisão, não sabemos a motivação das pessoas que o ajudam: medo, uma vaga noção de lealdade? Não amizade certamente. A cena para mim mais sintomática é quando o Cagney mata um dos assaltantes que estava com ele no último assalto. O assaltante vai-se se render, e o Cody, lá em cima, dá-lhe um tiro nas costas. O que dizer desta cena? Como interpretar a atitude da personagem? "Ninguém me abandona", parece pensar; ou um gozo especial pela morte? "Piromaníaco", chamar-lhe-ia provavelmente o Harold Bloom. A personalidade de Cody não é dá azo a nenhuma amizade (só mesmo uma mãe poderia gostar dele), nem cabe em nenhum tipo de organização. É um homem fora de qualquer sistema. Se ele não fosse gangster, não sei que outra profissão poderia ter. Nesse aspecto faz lembrar, mas numa escala muito mais pequena, as personagens de Joe Pesci em "Casino" e "Tudo bons rapazes". Personagens tão fora de qualquer ordem, que ameaçam destruir a própria organização em que se encontram.


A minha interpretação: Cody nunca permitiria que um homem debaixo do seu comando abandonasse o barco numa situação de afundamento. Se Cody ia morrer como um bravo (fazendo explodir o reservatório), então os seus generais deveriam manter-se a seu lado e morrer como ele. Para Cody, a fuga do outro foi um acto de traição punível com a morte pelas costas.

Quanto ao resto, de acordo - aquele gang era gerido numa base de medo e opressão. Havia duas excepções: uma de fundamentos naturais, com a mãe, e outra, mais interessante e paradoxal, com o agente infiltrado - creio que ambos se olhavam com um respeito que estaria próximo da amizade, mesmo que um soubesse toda a verdade e se mantivesse fiel aos seus princípios e o outro estivesse bem enganado.
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Re: White Heat

Postby Gaminha » 28 Oct 2009 11:20

annawen wrote:A melhor forma é tentar ver o filme como se ele tivesse sido feito hoje, isto é, mantê-lo actual, vivo. Não o cristalizar colocando-lhe uma data à frente. Abordar o filme com um certo ar inocente (que não tem nada a ver com ingénuo). Afinal os filmes de agora como os do início do século falam dos mesmos problemas: amor, morte, solidão, etc.
É preciso uma nova maneira de olhar para o cinema, senão corremos o risco de um legado artístico muito importante ficar, não a se encher de pó nas bibliotecas, mas encher-se de pó nas caixas de lata. E esse olhar, acredito eu, não deveria ser historiográfico. (Sam, esta última parte já não é tanto para ti, mas é mais um desabafo sobre algumas coisas que tenho lido ultimamente sobre arte e história da arte).


Acho que não se pode olhar para estes filmes como se fossem realizados hoje. No cinema (e claro que vocês poderão falar disto com mais a vontade que eu) há uma grande evolução/mudança a todos os níveis. E nem estou a restringir-me às técnicas de montagem, do uso do computador, etc. etc.
A maneira como se explorava a musica, o modo como se representava, o simples facto de nos filmes mais antigos evitarem-se os silêncios, tudo isto faz parte do filme, e influencia a maneira como os vemos.
Não estando habituada a ver filmes mais antigos, repara-se de imediato no excesso de musica em certos momentos, no tipo de caracterização de ladrões e dos policias, até na caracterização da loira muito típica, até os momentos de perseguições e em que os actores correm e lutam diferem do que vemos actualmente.

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Re: White Heat

Postby Gaminha » 28 Oct 2009 11:24

annawen wrote:Em relação ao filme propriamente dito, lembrei-me de uma coisa: A solidão da personagem principal. Não há amizade dentro daquele gangue, só medo. O Cody não tem amigos. Mesmo dentro da prisão, não sabemos a motivação das pessoas que o ajudam: medo, uma vaga noção de lealdade? Não amizade certamente. A cena para mim mais sintomática é quando o Cagney mata um dos assaltantes que estava com ele no último assalto. O assaltante vai-se se render, e o Cody, lá em cima, dá-lhe um tiro nas costas. O que dizer desta cena? Como interpretar a atitude da personagem? "Ninguém me abandona", parece pensar; ou um gozo especial pela morte?


É curioso essa atitude, acho que Cody estabelece uma meta de confiança. E essa meta ninguém atinge excepto a mãe e o polícia infiltrado, com esse, Cody simpatiza e chega a confiar nele. Porque o acha capaz e de confiança.

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Re: White Heat

Postby Gaminha » 28 Oct 2009 11:27

Samwise wrote:A minha interpretação: Cody nunca permitiria que um homem debaixo do seu comando abandonasse o barco numa situação de afundamento. Se Cody ia morrer como um bravo (fazendo explodir o reservatório), então os seus generais deveriam manter-se a seu lado e morrer como ele. Para Cody, a fuga do outro foi um acto de traição punível com a morte pelas costas.

Mas reparem que não se trata de uma questão de principio, porque ele abandona e mata quem for preciso e quem estiver no seu caminho.

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Re: White Heat

Postby Samwise » 28 Oct 2009 11:45

Gaminha wrote:Mas reparem que não se trata de uma questão de principio, porque ele abandona e mata quem for preciso e quem estiver no seu caminho.


Sim, mas nenhuma destas situações se passa nessa cena. É mais um: "Com que então vais fugir, hein? Toma lá uma bala nas costas para aprenderes que não se me abandona!"

Curioso os pormenores em que nos detemos.

Ainda ninguém mencionou a cena em que o infiltrado foge, a meio da noite, tem uma briga com o sentinela (que despacha a golpes de judo e aikido !), e depois, do meio do nada nada, do escuro do bosque, surge o Cody, fresco que nem uma alface, fato e gravata, a perguntar calmamente (e malevolamente) o que se passa. Inesperado e divertido.
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Re: White Heat

Postby grayfox » 28 Oct 2009 11:58

Samwise wrote:Ainda ninguém mencionou a cena em que o infiltrado foge, a meio da noite, tem uma briga com o sentinela (que despacha a golpes de judo e aikido !), e depois, do meio do nada nada, do escuro do bosque, surge o Cody, fresco que nem uma alface, fato e gravata, a perguntar calmamente (e malevolamente) o que se passa. Inesperado e divertido.


Fiquei com a ideia de que quando o Cody aparece eles ainda estavam à bulha.

Algo que achei interessante foi a interacção entre o Cody e o Big Ed. Eu perguntava-me porque é que o Cody mantinha um homem que sabia era capaz de o trair assim que possivel:

"If I turned arround long enough for Ed to put hole in my head... there'd be a hole in my head" (estou a citar de cor, podem não ser estas exactas palavras)

A conclusão a que eu chego é que o Cody tem tanta confiança em si próprio e da sua superioridade sobre o Ed que se dá ao luxo de o ter por perto para ajudar nos golpes que dão, sabendo que assim que o Ed tentar alguma coisa não será bem sucedido:

"You know why they call him Big Ed? Because he has big ideas. One day he will have one about me... it will be his last one."

Concordam com esta análise?
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Re: White Heat

Postby Samwise » 28 Oct 2009 12:07

grayfox wrote:Fiquei com a ideia de que quando o Cody aparece eles ainda estavam à bulha.

Algo que achei interessante foi a interacção entre o Cody e o Big Ed. Eu perguntava-me porque é que o Cody mantinha um homem que sabia era capaz de o trair assim que possivel:

"If I turned arround long enough for Ed to put hole in my head... there'd be a hole in my head" (estou a citar de cor, podem não ser estas exactas palavras)

A conclusão a que eu chego é que o Cody tem tanta confiança em si próprio e da sua superioridade sobre o Ed que se dá ao luxo de o ter por perto para ajudar nos golpes que dão, sabendo que assim que o Ed tentar alguma coisa não será bem sucedido:

"You know why they call him Big Ed? Because he has big ideas. One day he will have one about me... it will be his last one."

Concordam com esta análise?


Sim. Acrescento que ele tem as costas largas à conta da mãe, que funciona como uma espécie de anjo-da-guarda, sempre atenta, protegendo e avisando.

As linhas de diálogo que mencionas são mesmo muito boas. Na altura fiquei com elas na cabeça, mas depois esqueci-me. Estes dinossauros clássicos do passado (teasing, annwen, teasing :tongue:) costumam estar carregados delas - é um dos grandes prazeres destes filmes.
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Re: White Heat

Postby annawen » 28 Oct 2009 12:17

Samwise wrote:Aliás, mais à frente defendes (e bem) o caso do personagem no Public Enemies, um filme que dessa "ingenuidade" de que falo nada tem - é um apóstolo do realismo cru e sem concessões (mesmo considerando as ideias puramente cinematográfica que por lá habitam, como a sequência em que o Dillinger entra no edifício do FBI e passa revista ao escritório da equipa que o persegue).


Quando digo contaminado é precisamente no sentido desse "realismo" que existe hoje em dia, no cinema de Hollywood. Não estava a referir-me a todo o cinema moderno, como é óbvio. As pessoas esperam ver um filme realizado de uma determinada maneira, e dessa maneira. Repara que para o Michael Mann filmar a urgência precisou de usar a câmara à mão o filme todo. Tivesse sido o filme realizado no tempo em que decorre a história esse dispositivo, altamente artificial, não seria necessário. "White Heat" também é realista e sem concessões. É um filme extremamente violento (repara bem a quantidade de mortos que existem), que não precisa desses "truques", para estar vivo.

Em relação à questão do olhar, o teu testemunho e o da Gaminha dão-me razão: "Não consigo olhar para um filme de há 60 anos como se tivesse sido feito hoje, [...]. Pelo contrário, gosto de olhar para ele estritamente como um produto dessa época (nem sei que conseguiria fazê-lo de outra forma)."; "Acho que não se pode olhar para estes filmes como se fossem realizados hoje. [...] A maneira como se explorava a musica, o modo como se representava, o simples facto de nos filmes mais antigos evitarem-se os silêncios, tudo isto faz parte do filme, e influencia a maneira como os vemos."

Como disse atrás essa atitude retira vitalidade aos filmes, e faz-lhes uma grande injustiça. Não querendo adiantar-me muito, só acrescento que o "Black Rain" é um filme muito mais esteriotipado, datado e irrealista do que o "White Heat".

Ainda ninguém mencionou a cena em que o infiltrado foge, a meio da noite, tem uma briga com o sentinela (que despacha a golpes de judo e aikido !), e depois, do meio do nada nada, do escuro do bosque, surge o Cody, fresco que nem uma alface, fato e gravata, a perguntar calmamente (e malevolamente) o que se passa. Inesperado e divertido.


E é nessa sequência que ele fala da mãe. Onde ele diz que esteve a falar com a mãe. Mas reparem na inteligência do Cagney, que não sentimentaliza a cena. Não a leva por um caminho fácil. Muito bonito.

Gray: Quanto ao Big Ed. É possível, mas também é possível que ele o mantenha no gangue só para ver o que ele vai fazer e ter o prazer de o matar. Eu acho que a motivação principal desta personagem é a destruição total.

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Re: White Heat

Postby Samwise » 28 Oct 2009 13:12

annawen wrote:Como disse atrás essa atitude retira vitalidade aos filmes, e faz-lhes uma grande injustiça.


Algumas notas: 1 - não o consigo evitar (no sentido em que não é uma atitude, é um sentimento),
2 - não vejo a questão como potenciadora de injustiças ou olhares complacentes. Pelo menos no meu caso. Se assim fosse não conseguiria gostar de filmes do passado, 3 - por outro lado, e contrariando o que disse em 2, nalguns casos a antiguidade evidente dos meios consegue estragar-me o prazer do espectáculo, sendo o exemplo perfeito desta situação o King Kong original, por causa dos efeitos especiais.

Não querendo adiantar-me muito, só acrescento que o "Black Rain" é um filme muito mais estereotipado, datado e irrealista do que o "White Heat".


Estereoripado sim, datado sim, quanto ao irrealista: nem por isso - não porque o filme não o seja, mas porque o White Heat também é - algo que estou em desacordo contigo, pelo que dizes anteriormente ("White Heat" também é realista e sem concessões.") . Mas não vou avaliar a qualidade do filme com base na sua abordagem ao "real" - nunca faria isso, senão o cinema deixava quase de ter interesse.
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Re: White Heat

Postby Lovecraft » 28 Oct 2009 23:58

White Heat leva 7/10.


Raoul Walsh é um excelente realizador, mas a verdade é que o filme sobre um bocado com a estética quer cinematográfica, quer representativa.

O filme foge um pouco ao definido para este ciclo, mas apresenta-nos um criminoso implacável. Cagney encarna bem o personagem, mas não deixa de hoje a sua técnica de representação parecer coxa. Para oq ue se pretendia à época é excelente, o que implica que nunca nos possamos alhear da data de feitura do filme. A intemporalidade exige mais.

Não se fique com a impressão que não gostei do filme. Gostei sobretudo pela manifesta qualidade na filmagem e na fotografia.

Na excelente interpretação de Margaret Wycherly que nos apresenta uma mãe de criminoso que ainda é mais fria que ele. E é por causa dela que se assiste a um dos erros de representação de Cagney quando recebe a notícia da morte da mãe. A sua actuação teria de ser mais sentida, atendendo ao facto da relação de excepção que tinha com a mãe.


O final também peca por demasiado "relaxado".

Se durante quase todo o filme não se notam falhas, o final, bem pelo contrário, pela pouca verosimilhança com que as personagens agem, os enquadramentos são apresentados e as explosões finais imperdoavelmente artificiais.

Não sei se poderia ser melhor, mas o que conta é o que nos é apresentado.

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Re: White Heat

Postby MAGG » 29 Oct 2009 01:42

Como disse noutro tópico ... ah ,James Cagney ... que força tinham as tuas personagens.

Devo dizer que desde o início fiquei hipnotizada por toda uma série de personagens ( o Cody , obviamente, a Ma Jarret , o Big Ed e a Verna ) .
O James Cagney com aquele sotaque inesquecível, mostra-nos uma representação muito forte que fragiliza um pouco na cena quando o informam da morte da mãe ( aqui concordo com o Lovecraft ). Esperava nesta cena um maior "excesso emocional". Também a construção desta personagem tem os seus "soluços". Um gangster que mata todas as testemunhas que lhe aparecem à frente ( inclusivé parceiros do gang ) na primeira metade do filme , não deixa umas outras tantas continuar a viver na segunda parte.
Além disso o inicio da amizade entre este e o Vic Pardo pareceu-me forçada. O Vic Pardo ( ou melhor o Hank Fallon ) apresenta-se como uma personagem muito pouco dada à malícia. Esperaria nesta personagem mais um toque à Big Ed.
A Ma Jarret ...uau ...what a cold lady ! ... Margaret Wycherly consegue personificar melhor esta figura no filme.
O filme está cheio de falas que, de tão bem construídas, ficam retidas na nossa mente.

Em relação à forma de visionar os filmes mais antigos devo dizer que concordo com o Samwise no aspecto em que certos efeitos especiais ( na altura não tão evoluidos como no presente ) reorientam a nossa atenção para a altura em que foram feitos.

Por outro lado, a riqueza da expressividade emocional e linguística dos actores transformam este filme numa jóia de visionamento intemporal ( aqui concordo com a Annawen ).

p.s. - espera aí ..acabei de concordar com "gregos e troianos" ? :whistling:

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Re: White Heat

Postby Samwise » 29 Oct 2009 10:53

MAGG wrote:p.s. - espera aí ..acabei de concordar com "gregos e troianos" ? :whistling:


Helena, Helena.... :biggrin:

Este tópico ainda não está terminado. Depois do post do Lovecraft fiquei a pensar em dois assuntos que, tendo já sido debatido por alto, merecem mais desenvolvimento, e que até estão relacionados. Um é a violência apresentada , outro é a intemporalidade do filme. Face àquilo a que estamos habitados a ver nas obras de hoje, diria que o filme fica irremediavelmente datado face à maneira como expõe a violência.

Acharam o filme violento?

A annawen achou que sim, eu não achei - até penso que é contido em muito do que poderia mostrar. Há inúmeras mortes a tiro ao longo do filme, mas nunca nenhuma delas chegou sequer a fazer-me pensar no acto. Vi-as como se visse outra cena qualquer. Foram mortes-pipoca (:tongue:). Ou seja, é violência que está lá, que é evidente, mas que não me afecta como violência.

A única verdadeira violência que senti emanar do filme vem da interpretação endiabrada do Cagney, a espaços.

É um dos factores que para mim torna, então, a obra datada. Posso citar o exemplo de um outro filme da época, The Big Heat, 1953, que não sendo do mesmo género (mais policial e menos gangsters - um noir de gema), toma liberdades completamente diferentes quanto à violência, muito mais expressivas e surpreendentes - a ponto de nos interrogarmos: mas isto foi feito nos anos 50?
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Re: White Heat

Postby annawen » 29 Oct 2009 11:30

Samwise wrote:Estereoripado sim, datado sim, quanto ao irrealista: nem por isso - não porque o filme não o seja, mas porque o White Heat também é - algo que estou em desacordo contigo, pelo que dizes anteriormente ("White Heat" também é realista e sem concessões.") . Mas não vou avaliar a qualidade do filme com base na sua abordagem ao "real" - nunca faria isso, senão o cinema deixava quase de ter interesse.


Eu trouxe o realismo à baila porque tu o trouxeste num post anterior. Eu não vejo os filmes por terem menos ou mais realismo. Senão não poderia de gostar de Hitchcock e Bergman, por exemplo.

Não concordo nada com o que o Lovecraft disse. Principalmente na cena da cantina. Mas pronto.

O filme é violento. Talvez as pessoas não o sintam tanto por serem sobre personagens que não estão suficientemente desenvolvidas, ou são extras. O que não acontece em "The Big Heat".

Uma coisa singular: a morte da mãe ocorre fora de campo.

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Re: White Heat

Postby Samwise » 29 Oct 2009 11:51

annawen wrote:Não concordo nada com o Lovecraft disse. Principalmente na cena da cantina. Mas pronto.


Aqui estou 100% contigo. Let's take another look at it:



Lovecraft, não vejo como é que a perda da mãe poderia ter sido representada de forma "mais sentida". É brilhante por parte do Cagney.

O filme é violento. Talvez as pessoas não o sintam tanto por serem sobre personagens que não estão suficientemente desenvolvidas, ou são extras. O que não acontece em "The Big Heat".
É verdade que sim, mas o argumento vai de encontro ao que eu disse: a violência existente não tem impacto no espectador.

Uma coisa singular: a morte da mãe ocorre fora de campo.


Possivelmente para aumentar o impacto da cena da cantina... possivelmente...
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