The Maltese Falcon

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Re: The Maltese Falcon

Postby Samwise » 02 Nov 2009 19:39

annawen wrote:Não esquecer que a frase evoca o verso "We are such stuff that dreams are made on", dito por Prospero, em "A Tempestade" de Shakespeare. Na peça, o verso refere-se à vida humana como um sonho, uma ilusão passageira. Deixo aqui a passagem (cena I, 4º acto): "We are such stuff as dreams are made on; and our little life is rounded with a sleep."


Não é "não esquecer". No meu caso é "ficar a saber." :biggrin:

Tens razão quanto ao Bogart. Por mais adequada que seja a interpretação, é standard em relação àquilo que consegue fazer.

O que me faz lembrar de outra coisa. Lá consegui ter tempo para enfiar a murro o Angels With Dirty Faces (lembro-me de ter sido uma sugestão do Thanatos para a lista dos noir) nas actividades deste fim de semana. É um filme (ou um dos filmes) em que o Cagney contracena com o Bogart. Só tenho pena de não terem o mesmo grau de protagonismo e importância, porque o Cagney tem um papel para brilhar (plenamente aproveitado) e o Bogart é um secundário, com uma interpretação low-key. O filme vale bem a pena. Não será uma obra-prima, mas é um daqueles com pinta de clássico!
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Re: The Maltese Falcon

Postby Gaminha » 02 Nov 2009 20:12

annawen wrote:Gosto também como termina: "The stuff that dreams are made of", e enquanto diz isto desvia o olhar da estatueta e olha para a mulher.


Curiosamente a frase não faz parte do romance.
Mas acho fulcral no filme.

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Re: The Maltese Falcon

Postby annawen » 02 Nov 2009 20:25

Samwise wrote:O que me faz lembrar de outra coisa. Lá consegui ter tempo para enfiar a murro o Angels With Dirty Faces (lembro-me de ter sido uma sugestão do Thanatos para a lista dos noir) nas actividades deste fim de semana. É um filme (ou um dos filmes) em que o Cagney contracena com o Bogart. Só tenho pena de não terem o mesmo grau de protagonismo e importância, porque o Cagney tem um papel para brilhar (plenamente aproveitado) e o Bogart é um secundário, com uma interpretação low-key. O filme vale bem a pena. Não será uma obra-prima, mas é um daqueles com pinta de clássico!


No início da carreira o Humphrey Bogart era o vilão de serviço nos filmes de gangsters. Geralmente a fazer personagens desprezíveis e cobardes. Contracena em muitos com o James Cagney, Edward G. Robinson, George Raft. Uma característica é que morria em todos os filmes, ou quase todos.

Curiosamente a frase não faz parte do romance.
Mas acho fulcral no filme.


Olha, essa não sabia. Nesse caso ainda faz mais sentido, uma vez que o John Huston também assina o argumento. Como eu disse atrás, o desejo por uma coisa (poder, dinheiro, etc) com o consequente fracasso, é um dos temas do realizador.

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Re: The Maltese Falcon

Postby Samwise » 02 Nov 2009 23:38

annawen wrote:Olha, essa não sabia. Nesse caso ainda faz mais sentido, uma vez que o John Huston também assina o argumento. Como eu disse atrás, o desejo por uma coisa (poder, dinheiro, etc) com o consequente fracasso, é um dos temas do realizador.


Também fá fui cuscar ao livro. A sequência nem sequer termina com a parte do elevador (outra cena que no filme é mítica: o conformismo no rosto da Brigid enquanto a porta, com barras que anunciam a prisão - e possivelmente a morte -, se vai fechando, e as palavras que quase saem da sua boca, mas que ficam suspensas... um pedido de desculpa?) e não tem o polícia a perguntar de que é que o objecto é feito.
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Re: The Maltese Falcon

Postby annawen » 03 Nov 2009 01:50

Yeah, o filme é fixe.

Samwise wrote:[...] as palavras que quase saem da sua boca, mas que ficam suspensas... um pedido de desculpa?) [...]


Isso já não sei. Acho que ela estava mais a armar-se em forte, mas cheia de medo. Não me parece que a Brigid fosse mulher para pedir desculpas.

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Re: The Maltese Falcon

Postby Samwise » 03 Nov 2009 02:33

annawen wrote:Isso já não sei. Acho que ela estava mais a armar-se em forte, mas cheia de medo. Não me parece que a Brigid fosse mulher para pedir desculpas.


Sim, tanto não era que não pediu.

O engraçado destas coisas que ficam ambíguas, ou totalmente amplas quanto a hipóteses, é precisamente as possibilidades de teorizar, com toda a liberdade do mundo, sobre "o que se estaria a passar na mente do personagem", caso a situação fosse real.

Eu fiz uma interpretação entre muitas possíveis, e mesmo assim usei um ponto de interrogação porque a ideia era um pouco rebuscada. Mas gosto de imaginar a Brigid a acabar assim - com uma ponta de arrependimento e com um pouco do seu coração perdido pelo Spade - vítima do seu próprio veneno.
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Re: The Maltese Falcon

Postby annawen » 03 Nov 2009 11:07

Samwise wrote:O engraçado destas coisas que ficam ambíguas, ou totalmente amplas quanto a hipóteses, é precisamente as possibilidades de teorizar, com toda a liberdade do mundo, sobre "o que se estaria a passar na mente do personagem", caso a situação fosse real.


Certo. E foi dentro dessa onda que respondi.

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Re: The Maltese Falcon

Postby Samwise » 04 Nov 2009 13:45

annawen wrote:
Samwise wrote:O engraçado destas coisas que ficam ambíguas, ou totalmente amplas quanto a hipóteses, é precisamente as possibilidades de teorizar, com toda a liberdade do mundo, sobre "o que se estaria a passar na mente do personagem", caso a situação fosse real.


Certo. E foi dentro dessa onda que respondi.


Esta lógica de teorizar hipóteses para o desenvolvimento de cenas que não existem tem a seu quê de desconcertante. Estamos a falar discussões, às vezes acérrimas, sobre pensamentos na mente de seres que não existem a não se em função dos papeis que os estão a representar. Quando referimos que a Brigid está com medo ou está arrependida, ela não está nada disso, ela não existe, o que existe é uma actriz a fazer aquela expressão enquanto estiver a ser filmada pela câmara. O que se passa na cabeça da Brigid é uma impossibilidade existencial; o que se passa na cabeça da Astor é que é mais importante: que emoções estará ela a tentar passar para fora enquanto representa o papel. Desconcertante é que, uma coisa ou outra, tudo vai dar ao mesmo. Quando pensamos mais a fundo nestas coisas parece que descemos com os pés à terra (local de onde nunca os teremos tirado em primeiro lugar).


Entretanto dei-me conta que me enganei no título em português do filme: não é o Falcão de Malta, é a Relíquia Macabra. Provavelmente induzido em erro pelo tradução do título do livro.

(uma pesquisa no google por "O falcão de malta" devolve em primeiro lugar o tópico do lançamento no BBdE :smile: )
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Re: The Maltese Falcon

Postby MAGG » 04 Nov 2009 23:59

Só agora acabei de rever o filme. :mrgreen4nw:

É engraçado perceber como a diferença de idades entre o primeiro visionamento e os restantes ( em idades mais maduras) alteram a nossa percepção do filme... Lembro-me que na altura gostei muito do filme e da forma como a acção se desenrolava rapidamente à custa de grandes diálogos. Na altura achei a personagem do Bogart fantástica mas fria e manipuladora por demais.

Hoje acho que essa frieza e sagacidade complementam e enquadram esplendidamente as emoções das restantes personagens. É um grande elo de ligação ...nada na interacção das personagens parece estranho... é um equilibrio de temperamentos que funciona bem por demais.

Rever Peter Lorre com aquela vozinha inconfundivel lembra-me sempre os filmes deste com Vicent Price

( hum... :blink: que tal um ciclo de cinema com Vicent Price ??? ... :cool: ).

Gostei de todos os actores ... nada a apontar a nenhuma das interpretações...um clássico do cinema ...se bem que é um registo a que o Bogart sempre nos acostumou mas, funciona ...e nunca me canso de o rever .

Então os 10 m finais ... étaient magnifique! :buba:

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Re: The Maltese Falcon

Postby Samwise » 05 Nov 2009 00:11

- Lets talk about the falcon...
- Lets.

:mrgreen4nw:
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Re: The Maltese Falcon

Postby MAGG » 05 Nov 2009 00:44

Samwise wrote:- Lets talk about the falcon...
- Lets.

:mrgreen4nw:



Ooopss ... não reparei ... andava perdida na música :tongue: .

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Re: The Maltese Falcon

Postby annawen » 05 Nov 2009 01:19

Samwise wrote:Esta lógica de teorizar hipóteses para o desenvolvimento de cenas que não existem tem a seu quê de desconcertante. Estamos a falar discussões, às vezes acérrimas, sobre pensamentos na mente de seres que não existem a não se em função dos papeis que os estão a representar.


Mas isso é que tem piada, Sam. Começar a entrar na personalidade das personagens. O cinema permite mais especulações que a literatura porque, como vive da imagem, não dá acesso ao íntimo das personagens. Excepto nos casos em que usa técnicas como a voz-off, por exemplo.

Na construção que o espectador faz de uma personagem cinematográfica entram 3 factores: o actor, a personagem e o próprio espectador. No caso concreto a Brigid que eu vejo é uma mistura da Mary Astor (não é possível, em cinema, a separação do actor e da personagem), da Brigid (uma mistura da personagem do livro e das próprias interpretações da actriz, do argumentista e do realizador), e minha (uma vez que eu preencho os vazios com a minha própria interpretação). Não estou a dizer que o resultado é o certo, ou que é o que a actriz pretendia fazer, mas, sim, que o espectador é também, um pouco, criador.

O mesmo se passa, mutatis mutandis, em relação à leitura. O resultado final é sempre uma construção do escritor e do leitor. Não é por acaso que Harold Bloom fala do talento do leitor, da leitura como uma arte. Acho que o Lobo Antunes nas entrevistas também fala um pouco deste assunto. E um livro como "Num noite de inverno um viajante" tenha como tema não só a escrita mas também a leitura.

Quando referimos que a Brigid está com medo ou está arrependida, ela não está nada disso, ela não existe, o que existe é uma actriz a fazer aquela expressão enquanto estiver a ser filmada pela câmara. O que se passa na cabeça da Brigid é uma impossibilidade existencial; o que se passa na cabeça da Astor é que é mais importante: que emoções estará ela a tentar passar para fora enquanto representa o papel. Desconcertante é que, uma coisa ou outra, tudo vai dar ao mesmo.


Não sei se conheces a história do grande plano final da "Rainha Cristina". O filme termina com um grande plano da cara da Greta Garbo a olhar em frente (penso que não directamente para a câmara, mas ligeiramente de lado). A actriz perguntou ao realizador, Ruben Mamoulian, como devia transmitir tudo o que queria, uma vez que não havia voz-off, nem música, nem nenhum suporte. Só ela e a câmara. E o Mamoulian disse-lhe: "Não te preocupes. Olha em frente e tenta não pensar em nada. Esquece a personagem, as motivações, a câmara. Esvazia a mente. Será o espectador a descobrir aquilo em que a personagem está a pensar. Será ele a preencher o teu vazio." E assim foi. E esse é um dos mais míticos planos do cinema.

Portanto eu não diria que o que interessa é o que a Mary Astor está a pensar no momento da representação. Ela até pode não estar a pensar em nada. É indiferente. O que interessa é o que nós pensamos. Que pode mudar com várias visualizações.

E, mais importante ainda, não pensar que já descobrimos tudo, porque há sempre coisas para descobrir.

A arte é um mistério.

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Re: The Maltese Falcon

Postby MAGG » 05 Nov 2009 01:43

annawen wrote:Portanto eu não diria que o que interessa é o que a Mary Astor está a pensar no momento da representação. Ela até pode não estar a pensar em nada. É indiferente. O que interessa é o que nós pensamos. Que pode mudar com várias visualizações.

E, mais importante ainda, não pensar que já descobrimos tudo, porque há sempre coisas para descobrir.

A arte é um mistério.


Exacto senti isso desta vez ...a percepção altera-se com as experiências adquiridas ao longo da vida.

Mas Annawen eu por acaso até acho que seria interessante indaguar sobre o que a actriz pensava n altura da cena e então comparar com as nossas próprias percepções. Acrescentaria riqueza ao debate perante o contraste ( entre emissor e receptor ) na percepção da leitura emocional.

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Re: The Maltese Falcon

Postby MAGG » 05 Nov 2009 01:46

annawen wrote:E, mais importante ainda, não pensar que já descobrimos tudo, porque há sempre coisas para descobrir.

A arte é um mistério.


:blink: mas... ainda existe alguém assim ,nos tempos que correm, com as constantes actualizações emitidas por esse mundo fora?

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Re: The Maltese Falcon

Postby MAGG » 05 Nov 2009 01:58

annawen wrote:A arte é um mistério.



Eu diria mais ..." A arte é um mistério que se revela de um modo diferente consoante o espectador."
A intuição própria é a grande matriz da percepção.

...são os filtros ...são os filtros ( os meus ultimamente andam bastante noir ... será da chuva ?).


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