Scarface (1983)

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Scarface (1983)

Postby Samwise » 16 Nov 2009 23:11

Ok, algumas ideias que escrevinhei à pressa sobre o filme:


Tony Montana, interpretado por um Al Pacino transfigurado, num dos papéis mais icónicos da sua carreira (outro será a de Michael Corleone, um gangster de características bem diferentes das de Montana), é um dos milhares de criminosos deportados de Cuba para a America, numa operação política de contornos obscuros, e que é apanhado num ambiente de hostilidade e desconfiança na chegada ao continente (mas como ele diz: “não me podem fazer nada que o Castro já não tenha feito”). No submundo de Miami dos anos 80, terreno fértil para a proliferação do tráfico de drogas, Tony encontra as condições ideais para impor a sua personalidade violenta e destemida. Acolhido por um pequeno patrão do crime local, Tony não demora a suplantá-lo como líder da organização, roubando-lhe inclusivamente a “mulher”e deixando pelo caminho uma trilha de cadáveres. Forma uma aliança monopolista com um barão da droga colombiano e enriquece à conta da inserção e distribuição do produto no mercado americano. Esta ascensão meteórica até ao topo da pirâmide, e a consequente ideia de que manda no mundo, vai desencadear um vazio existencial que não coabita bem com a personalidade agressiva e egocêntrica de Tony, que acaba por cair de forma tão rápida quanto violenta.

Ao fim de quase trinta anos, e mesmo considerando que de certa forma é um filme muito agarrado à época, Scarface conserva uma frescura e uma agressividade raras mesmo para os dias de hoje. A força do filme assenta em numa série de qualidades que se conjugam de forma bem trabalhada num todo compacto: o argumento de Stone - muito forte definição do personagem, e sem se intimidar com os excessos de violência que pretende mostrar -, a interpretação de Al Pacino, a realização de Brian DePalma (mestre na movimentação da câmara, sempre suave, dando-nos travelings magníficos que definem logo os acontecimentos no espaço – algo que é uma sua imagem de marca), e toda uma montra de ambientes e decors carregados de cores berrante e de sons que são características determinantes na vivência naquele lugar e naquele tempo (o papel de parede no escritório de Frank Lopes é um must cinéfilo e vai ficar para a posteridade!!!).

Esta versão eighties de Scarface não se limita a ser um remake ou uma simples actualização temporal (e espacial) do clássico de Hawks, embora também preencha cada um desses papéis; mais taciturno, demente e violento, o filme de DePalma reinventa o personagem principal conferindo-lhe uma vertente psicológica mais densa e trabalhada, e colocando-o mais próximo da realidade humana - e com ele tudo à sua volta -, em contraste com a criança caricatural que enchia a tela na primeira versão. A história, no essencial, mantém-se a mesma, quer no fio narrativo, quer nas personagens que lhe dão vida. Mas há diferenças evidentes. Uma delas tem a ver com o ambiente criado: a versão de Hawks tinha algo de chique e de sóbrio, mesmo que Tony conservasse até ao fim uma pose de rufia, enquanto a versão de DePalma apresenta um ambiente assumidamente mais rasca e sebento, exibindo um contraste gritante ( que acaba por não ser contraste nenhum) entre a situação de pobreza inicial de Tony e a piroseira das roupas, dos carros, e das mansões e da “arte” que está lá dento. Outra diferença essencial de um filme para o outro tem a ver com a postura de Tony: neste Scarface fica patente um certo sentido de lealdade e uma perspectiva moralista (inexistente no outro) em relação às atitudes como criminoso. A determinada altura Tony recusa-se a ser cúmplice de um assassinato que mataria três pessoas inocentes – acto que acabará por ditar a sua queda. Há vestígios de nobreza nessa atitude. Assim como foi riscado do argumento o assassinato que logo no início do primeiro filme definia a falta de princípios de Tony (a morte do patrão a troco de dinheiro). De salientar também a abordagem completamente diferente ao humor. Li por aí num comentário de um crítico qualquer que este filme era desprovido de humor. Discordo completamente. Não é tão evidente e tão declarado como no filme de Hawks, mas existe, está presente de forma subversiva, mas em doses não pequenas. A naturalidade do discurso atrapalhado (por causa das diferenças de linguagem) de Tony é quase sempre um mote para o riso ("All I have in this world is my balls and my word, and I don't brake them for nobody",“This town like a great big pussy just waiting to get fucked. “,“You know what capitalism is? Getting fucked!”, “I’m gonna kick asses all over the place”, só para mencionar alguns exemplos). Por baixo de todo um manto decadente de violência e tragédia, está um filme muito divertido…
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Re: Scarface (1983)

Postby Samwise » 16 Nov 2009 23:24

:wink:

[img]http://img410.imageshack.us/img410/7507/theworldisyours1g.jpg[/img]

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Re: Scarface (1983)

Postby annawen » 18 Nov 2009 12:29

Ainda não o acabei de ver, e também não tenho muito tempo para escrever, por isso aqui vão as primeiras impressões:

- Grande performance do Al Pacino. De virtuoso. Ele foi buscar algumas coisas do Paul Muni e acrescentou-lhe muitas outras. Consegue dar um grande charme à personagem (o charme de um pintas com letra) mas ao mesmo tempo mantê-la perigosa, como se pode ver pela reacção dele quando é contratado para matar o gajo que vem de Cuba.

- Interessante a amizade entre o Tony e o amigo. Mais explorada aqui do que no original porque a personagem do amigo (neste momento não me estou a lembrar do nome) sofre uma mudança radical.

- Um argumento muito, mas muito inteligente, do Oliver Stone. Falarei mais sobre isto depois.

- A cena na esquadra da polícia é muito boa. Com a câmara a centrar-se no Tony e a não mostrar a cara dos polícias.

- A cena com os colombianos impressiona-me sempre.

- E aquele carro? "Parece saído de um pesadelo de alguém". Lol!

Depois falarei um pouco mais sobre o filme.

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Re: Scarface (1983)

Postby Samwise » 18 Nov 2009 12:38

annawen wrote:- E aquele carro? "Parece saído de um pesadelo de alguém". Lol!


Se mais ninguém o fizesse, planeava mencionar essa cena.

E outra, em que eles (actores e equipa) se devem ter desmanchado a rir: o Al Pacino quando vai para a pista de dança... :biggrin: :biggrin: :biggrin: :biggrin:
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Re: Scarface (1983)

Postby Thanatos » 18 Nov 2009 12:40

Chegaram a ver os extras que tocam nalguns aspectos interessantes? :unsure:

Por exemplo as cenas iniciais do êxodo são explicadas para quem não tem a perspectiva histórico-política da altura.

E a influência da música do Moroder numa geração inteira de rappers?

A relação incestuosa do Tony com a irmã (ok nunca se chega a consumar mas que está lá, está.)
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Re: Scarface (1983)

Postby virose_pt » 18 Nov 2009 13:34

"Say hello to my little friend!"

Imortal.

Comprei a edição especial por 4 euros.

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Re: Scarface (1983)

Postby Samwise » 18 Nov 2009 15:06

Thanatos wrote:Por exemplo as cenas iniciais do êxodo são explicadas para quem não tem a perspectiva histórico-política da altura.

E a influência da música do Moroder numa geração inteira de rappers?


Em relação a estes aspectos, e não querendo substituir o material apresentado nos extras do DVD, a wiki fornece algumas pistas no artigo sobre o filme.

Mas achei interessante as primeiras imagens serem logo com footage do Castro.

A relação incestuosa do Tony com a irmã (ok nunca se chega a consumar mas que está lá, está.)


Posso não estar a ver bem as coisas, mas nesta versão não apanho nada disso. Em altura nenhuma do filme. Olho para as atitudes dele como sendo próprias de um irmão hiper-protector, que não quer que ela se dê no mesmo mundo rasca em que ele próprio se movimenta. E em cima disso é a alegria do reencontro - eles estiveram separados muitos anos.

Inclusivamente na cena final, é dela que parte a sugestão de ele a desejar sexualmente - e que recebe como resposta dele um "what are you talking about?" meio gago.
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Re: Scarface (1983)

Postby Samwise » 18 Nov 2009 15:10

annawen wrote:- A cena com os colombianos impressiona-me sempre.


Qual? A da motoserra? :mrgreen4nw:

Mesmo assim ainda achei a outra do enforcamento pior. Essa é de chapa, sem estarmos à espera. A primeira vez que vemos aquilo... :blerk:

virose_pt wrote:Comprei a edição especial por 4 euros.


Recentemente? Onde? :smile:
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Re: Scarface (1983)

Postby virose_pt » 18 Nov 2009 15:47

Samwise wrote:Qual? A da motoserra? :mrgreen4nw:

Mesmo assim ainda achei a outra do enforcamento pior. Essa é de chapa, sem estarmos à espera. A primeira vez que vemos aquilo... :blerk:
Recentemente? Onde? :smile:


Há uns 2 ou 3 anos, naqueles "cestos" com filmes que colocam à entrada das grandes lojas. Na mesma altura comprei pelo mesmo preço uma edição especial do Psycho do Hitchcock, com 1 dvd com muitos extras.

Vale a pena dar uma olhada nesses locais, porque por vezes, entre dezenas de filmes de lixo, encontras dvd's fantásticos por meia dúzia de euros.

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Re: Scarface (1983)

Postby Thanatos » 18 Nov 2009 18:42

Samwise wrote:Posso não estar a ver bem as coisas, mas nesta versão não apanho nada disso. Em altura nenhuma do filme. Olho para as atitudes dele como sendo próprias de um irmão hiper-protector, que não quer que ela se dê no mesmo mundo rasca em que ele próprio se movimenta. E em cima disso é a alegria do reencontro - eles estiveram separados muitos anos.

Inclusivamente na cena final, é dela que parte a sugestão de ele a desejar sexualmente - e que recebe como resposta dele um "what are you talking about?" meio gago.


São pontos de vista. Esse é o teu. O meu é outro. De qualquer forma é interessante que menciones essa cena final. Decerto recordas-te das linhas dela em que diz algo (estou a citar de memória) como: É isto que tu queres? Sempre foi o que quiseste não foi Tony? - enquanto se desnudava. A resposta dele pareceu-me eivada de algum embaraço por se ter sentido tão exposto nos seus pensamentos íntimos.

Mas é como digo são interpretações diferentes duma mesma situação. Experimenta também googlar Tony Montana incest :wink:
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Re: Scarface (1983)

Postby Samwise » 18 Nov 2009 19:00

Thanatos wrote:São pontos de vista. Esse é o teu. O meu é outro. De qualquer forma é interessante que menciones essa cena final. Decerto recordas-te das linhas dela em que diz algo (estou a citar de memória) como: É isto que tu queres? Sempre foi o que quiseste não foi Tony? - enquanto se desnudava. A resposta dele pareceu-me eivada de algum embaraço por se ter sentido tão exposto nos seus pensamentos íntimos.


As palavras, se não são essas, são outras muito parecidas.

A questão, para mim, é que a situação se resume a essas palavras, proferidas num contexto especifico, durante o filme todo. Não há mais nada que indique, por palavras ou actos, que ele a desejava sexualmente. Portanto, tentar extrair dessas frases, que ainda por cima são ditas num estado de espírito totalmente alterado, uma conclusão tão... "dogmática", parece-me querer ver coisas onde elas não existem. Mas como tu dizes, é uma questão de opinião.

Para além disso, o homem baba-se mesmo é em frente à Elvira. Pelo menos até casar com ela. :devil:
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Re: Scarface (1983)

Postby annawen » 19 Nov 2009 01:33

Samwise wrote:Qual? A da motoserra? :mrgreen4nw:


Sim.

Mesmo assim ainda achei a outra do enforcamento pior. Essa é de chapa, sem estarmos à espera. A primeira vez que vemos aquilo... :blerk:


Sim, essa também. Para mim não é pior porque é vista ao longe. Enquanto a outra temos mesmo um grande plano da motoserra. E uma pessoa (eu) começa logo a pensar como será ficar sem um braço, etc. e não é muito agradável.


Entretanto já avancei um bocado do filme, mas por causa do raio da bateria do meu portátil, ainda não o consegui acabar. Falta-me para aí uns 20 minutos. Ele acabou de matar o Manny e está a chegar à mansão com a irmã. Em relação à história do incesto, a primeira vez que vi o filme achei que havia ali qualquer coisa. Falta-me fazer agora a confirmação. Mas, por exemplo, acho que essa relação também já está presente no primeiro Scarface. De uma forma subtil, mas presente.


As minhas impressões até agora:

1- O argumento: acho uma atitude extremamente inteligente do Oliver Stone ter optado por colocar a acção num período contemporâneo, em vez de optar por recriar os anos 30. Dá logo uma energia, vitalidade e actualidade ao filme. E principalmente uma urgência, que se perde sempre quando se faz um filme de época. E os diálogos estão fantásticos. Eu não sou grande fã do Oliver Stone, dele só gostei do "Nixon", mas o trabalho dele aqui é muito bom.

Isso leva-nos para a utilização das imagens documentais logo no início do filme. Mais que inserir a história do Tony Montana num contexto político, insere-a numa realidade que estava a acontecer na altura da feitura do filme. É um pedaço do real que aparece ali, e é isso que torna o início poderoso. Entrando em comparação com o 1º "Scarface", de uma certa maneira são o contraponto ao texto de aviso que aparece nesse filme. Apesar desse texto vir da censura e não sendo da autoria do realizador, acaba por funcionar como as imagens documentais funcionam no filme de De Palma. Dão-lhe um contexto social e inserem o filme na realidade da época. Imagino que para um espectador dos anos 30 aquele texto teria um significado prático. Provavelmente, o teor não andaria longe das notícias que ele leria nos jornais, todos os dias. Portanto, ambas as cenas dão actualidade aos filmes. Claro que para nós agora são história, mas não o eram para o espectador de 1932 e 1983.

2- A mesma coisa se passa com a relação entre o gangster e a sociedade civil. Neste ponto, os filmes entram em diálogo. Parece-me até que intencional por parte do Oliver Stone, mas isto já é especulação da minha parte (eu tenho o filme em DVD, com extras e já ouvi os extras e os comentários, mas como foi há algum tempo já não me lembro). De qualquer modo, se no "Scarface" (Hawks) temos a cena, mais uma vez filmada à revelia do realizador, em que o jornalista alerta a sociedade civil de que esta tem que fazer qualquer coisa se quer acabar com o crime organizado; no "Scarface" (de Palma) temos a sociedade civil não só a não acabar com o crime organizado mas precisamente a viver dele: o banqueiro, o polícia corrupto, o banco que lava o dinheiro da droga é o mesmo que financia a construção civil, os políticos e generais latino-americanos, os juízes e procuradores que o barão de droga Sosa compra para impedir que o Tony vá para a prisão, etc, etc. É como se o filme respondesse ao primeiro mostrando a promiscuidade que existe entre a lei e o crime. Ao panfleto do primeiro, o segundo dá-nos a visão política da realidade. Política no sentido em que desmacara o sistema legal e mostra-nos o que se esconde por baixo. Que toda a gente beneficia com a droga, não só os gangsters mas toda a sociedade e toda a economia. Porque a droga é dinheiro, e o dinheiro é o motor de tudo.

3- Para mim, há duas cenas capitais no filme: a cena em que Sosa pede a Tony que mate o político que combate o tráfico, e a cena seguinte, no restaurante. A primeira é importante por ser aí que o Tony descobre que apesar de ter chegado ao topo (reparem como os edíficos da "Montana (qualquer coisa)", e a própria mansão, são parecidos com mausoléus) e ganhar imenso dinheiro, continua a ser o gajo que é contratado para despachar outro. Continua a ser o mesmo indíviduo que matou o Ortega (acho que era assim que se chamava o apoiante de Castro que ele matou em Freedom Town). A cara do Al Pacino quando diz "não há problema", expressa bem que ele percebeu isto mesmo.

A cena do restaurante é a continuação lógica desta. Acredito que a bebedeira dele venha da percepção que ele realmente é um "falhado" como a Eliza lhe chama. E a parte final, em que ele se vira para os outros e diz, qualquer coisa como, "somos todos iguais vocês é que se escondem por trás de máscaras, eu digo sempre a verdade", vai de encontro ao que eu disse no ponto 2. A sociedade beneficia do "trabalho" do Tony, mas ele, no fundo, é o elo mais fágil da equação. Pode matar, ganhar muito dinheiro, comprar o que quiser, mas será sempre um bandido, que ou acabará preso ou morto. Com outro ocupar logo o lugar dele (como ele veio ocupar o lugar de Frank). Mas o banco continuará a lavar o dinheiro, o juíz e a polícia a receberem luvas, etc. A economia continuará a funcionar.

Adoro a forma como termina a cena: "Aqui vai um homem mau. Não se metam com o homem mau." Ele aqui tem plena consciência que não atingiu nada, não alcançou nada, ganhou um pouco de dinheiro, é só. Parece-me que é neste momento que a personagem ganha outra dimensão moral, uma dimensão que o coloca acima do resto as pessoas naquele restaurante, acima do resto de nós (parecem dizer o realizador e o argumentista). Porque afinal ele é que corre os riscos todos, ele é que tem coragem para matar e para morrer ("a coragem está nos tomates" não é o que ele diz?). Mas é, ao mesmo tempo, uma figura trágica precisamente por causa dessa coragem, dessa sinceridade (a verdade de que o Tony está sempre a falar). Isto é, essa forma de viver, que o vai levar ao topo do crime, tem contida nela, a sua própria perda. O jogo já estava perdido ainda mal o Tony o tinha começado a jogar. Assim como já estava perdido para o Tony Camonte, ou para o Cody (de "White Heat"). Eles querem o mundo, mas o mundo não é de homens como eles. Essa é a tragédia dessas personagens. A nossa tragédia é que o mundo é dos banqueiros, dos juízes, dos políticos, etc. É só reparar no que está acontecer em Portugal, neste momento.

4- Para reforçar o que disse no ponto 3: quando o Tony chega ao topo, a personalidade dele também muda. Aquele charme de pintas, as brincadeiras acabam.

5- O filme reforça muito bem a importância do dinheiro. Por mais dinheiro que o Tony ganhe nunca é dinheiro suficiente. Faz-me lembrar outro Tony, o Soprano, que também estava sempre à rasca de dinheiro.

6- "Scarface" é um filme extraordinário, quase perfeito. Não tem um único ponto morto e todas as cenas são importantes, não há desperdício nenhum. A mise-en-scène é muito rigorosa. Um dos melhores filmes de De Palma (um realizador muito irregular e de quem, confesso, não gosto muito). Talvez este remake seja melhor que o filme de Hawks. Mas, mais interessante do que o valor, é a "conversa" que estabelece com o original, uma vez que há várias cenas que respondem taco a taco com o filme anterior. No entanto parece que falha numa: a morte de Manny não tem o mesmo poder da morte de Guido. Parece-me que aqui a rapidez de Hawks é mais eficaz que a câmara lenta de De Palma.

E pronto, por agora foi o que me ocorreu. Quando acabar de ver o resto, ponho mais qualquer coisa. Desculpem o testamento.

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Re: Scarface (1983)

Postby Samwise » 19 Nov 2009 12:30

annawen wrote:E pronto, por agora foi o que me ocorreu. Quando acabar de ver o resto, ponho mais qualquer coisa. Desculpem o testamento.


Annawen, depois disto apetece-me dizer que o teu testamenteo merecia ser publicado nos Cahiers du Cinema. Está um analise E-S-P-E-C-T-A-C-U-L-A-R. Só por ter lido isto já valeu a pena o ciclo de cinema. :smile:

6- "Scarface" é um filme extraordinário, quase perfeito. Não tem um único ponto morto e todas as cenas são importantes, não há desperdício nenhum. A mise-en-scène é muito rigorosa. Um dos melhores filmes de De Palma (um realizador muito irregular e de quem, confesso, não gosto muito). Talvez este remake seja melhor que o filme de Hawks. Mas, mais interessante do que o valor, é a "conversa" que estabelece com o original, uma vez que há várias cenas que respondem taco a taco com o filme anterior. No entanto parece que falha numa: a morte de Manny não tem o mesmo poder da morte de Guido. Parece-me que aqui a rapidez de Hawks é mais eficaz que a câmara lenta de De Palma.


Alguma concordâncias e discordâncias. Mesmo achando que é um grande filme, não o considero superior ao do Hawks - esse, sim, é um filme perfeito: a quintissência do gangster-movie (mas reparei que usaste um "talvez" :smile: ).

A propósito do De Palma, concordo que seja uma das suas melhores e mais rigorosas realizações. Está sóbria e não perde tempo com prolongamentos desnecessários de cenas ou fetichismos pessoais. O De Palma tem uma panca qualquer por imitar/homenagear alguns clássicos (o estilo de Hitchcock no Dressed to Kill, a sequências das escadas do Couraçado Potemkin no The Untouchables, dos que me lembro...), mas neste filme, que é todo ele uma homenagem ao de Hawks, mantem-se focado na intriga e não envereda por "caminhos paralelos", por excessos visuais ou virtuosismos desnecessários.

Mesmo assim, toda a filmagem está virtuosa, com estilo. Há muitos exemplos que podia dar, mas vou escolher uma que já mencionaste para outros propósitos: a do Tony no restaurante, já com uns copos em cima. Os movimentos da câmara, que o acompanham quando ele se levanta da mesa, parecem espelhar por um lado o seu estado de embriagues, e por outro a percepção a que ele finalmente chegou de que "é só mais um" numa engrenagem económica que nunca pára. Very, very nice!
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Re: Scarface (1983)

Postby annawen » 19 Nov 2009 16:02

Samwise wrote:Annawen, depois disto apetece-me dizer que o teu testamenteo merecia ser publicado nos Cahiers du Cinema. Está um analise E-S-P-E-C-T-A-C-U-L-A-R. Só por ter lido isto já valeu a pena o ciclo de cinema. :smile:


É pá, Sam, que exagero. But thanks anyway. :friends:


E lá consegui acabar o filme, embora o meu portátil tivesse crashado uma data de vezes.

Já posso falar em relação ao incesto. Aqui, concordo com o Thanatos. Há um desejo por parte do Tony pela irmã que não é muito fraternal, digamos assim. E poderia ser mais se não tivessem escolhido a Mastrantonio como actriz. Ela tem uma cara demasiado inocente para a personagem, isto, claro, partindo do princípio que o realizador estava interessado em seguir a personagem do filme original. No "Scarface" do Hawks, a Ann Dvorak dá muito mais sensualidade e um toque de perversidade à personagem. Até porque no final é ela que ajuda o Tony.

Também achei que o filme do Hawks é superior na utilização das mulheres. Elas têm um papel muito mais activo. Por exemplo, a namorada do Tony Camonte é muito mais do que um enfeite no filme. O filme tem muitas cenas com eles em que se nota um jogo de sedução, e um olhar de igual para igual. Coisa que não acontece com a Elvira, que é pouco mais do que um adereço. Execepto na cena do restaurante em que ela diz ao Tony: "O teu trabalho é traficar droga e matar pessoas. Que grande contribuição para a Humanidade!". E no grande plano dela a desmaquilhar-se. Nessa pequena sequência, vê-se logo a "felicidade" do casamento com o Tony. De resto, a Michelle Pfeifer não tem grande coisa para fazer. Eu até iria mais longe e acrescentaria que o Hawks está mais interessado na relação entre o Tony Camonte e a rapariga loura (de que agora não me lembro o nome) e o De Palma na relação Tony/Manny. Mas o De Palma e o Oliver Stone não são conhecidos por tratarem muito bem as mulheres (especialmente o De Palma). Enquanto que a relação entre os sexos é uma das marcas de Hawks.

Gostei de ver o agradecimento ao Hawks e ao Ben Hecht no final do filme.

E há uma cena muito boa, aquela em que o Tony está no banho de espuma, em que ele diz "não preciso de ninguém" e a câmara mostra-o em plano picado. Um homem só.

Outra coisa: e os sotaques... Lol! Deve ser um tormento ver este filme sem legendas.

Ainda outra coisa: É sempre mau quando um chefe tem de dizer que é chefe. Como acontece com o Frank a determinada altura.

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Re: Scarface (1983)

Postby grayfox » 19 Nov 2009 22:12

Ao contrário de vocês não achei um filme magestoso, mas sim interessante com um ou outro momento memorável.
Em relação ao incesto concordo com o Thanatos, senti ao longo do filme algo mais do que apenas amor fraternal, e a cena final apenas me surpreendeu por abordar tão directamene algo que parece ser insinuado e contido no resto do filme.
Gostava de participar mais na discussão mas estou maneta e teclar com uma só mão é muito cansativo.
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