Ignorância

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Arsénio Mata
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Ignorância

Postby Arsénio Mata » 02 Jun 2010 17:48

Blocos maciços erguem-se nas ruas, rodeando-nos da praga moderna. Movimento-me, soerguido, cambaleante, porque me sinto infimamente pequeno em toda esta imensa magnitude. Erecções. O homem branco chegou e criou. Vini, vidi, vici, one might say.

Lembro-me de quando era moço pequeno e ia ao supermercado. Era atendido por uma pessoa, uma pessoa real. Hoje, uma voz (?) mecânica instrui-me a passar o código de barras em frente ao leitor. Obedeço, receoso de não me integrar. E até coloco as moedas antes de inserir as notas. Maravilhoso mundo, que empregas máquinas em lugar de homens.
Vejo rostos siderados com o progresso, os seus olhos espelhos do vazio que os preenche por dentro. Leio frases defensoras do ideal futurista que perseguem, as suas almas há muito rendidas ao poder da máquina.

No futuro, no futuro seremos todos escravos, não das máquinas, mas de quem as maneja. Mas seremos escravos felizes, porque fundamentalmente a ignorância é felicidade. E é isso que no fundo todos somos. Ignorantes e felizes. Talvez o futuro seja o presente.

Do alto da minha varanda, no 56º andar, ainda tenho que fazer um esforço para olhar para os prédios que chegam mais alto do que o meu. O seu poder, omnipresente e omnipotente, intimida-me e há alturas em que receio olhar para cima. Um corpo que aterre em cima de outro corpo, desta altura, significa morte instantânea para ambos os corpos. Talvez isso possa significar que apesar da minha insignificância perante o massivo poder de tudo, eu ainda detenho algum controlo sobre a minha vida e poder sobre a vida dos outros. Talvez nesse momento que os nossos corpos chocam a uma velocidade de 137 km/h um contra o outro e depois contra o chão, nesse momento em que o meu sangue e o sangue da minha vitima se unem e formam um só, indistinto e social, talvez nesse momento eu seja Deus reincarnado para ambos, ditando o dia, hora e local da nossa morte. Talvez nesse momento o meu corpo seja insignificante e vazio mas as minhas decisões não. Veremos.

Enquanto caio penso como, e apesar de tudo, é bem mais fácil olhar para baixo e encarar o fim do que levantar a cabeça e combater o poder
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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Re: Ignorância

Postby MAGG » 03 Jun 2010 12:39

Gostei muito de ler o teu texto . Consequência da tua incursão por caminhos huxleyianos e burgessianos?

Reparo apenas que a punch line final não tem tanta força quanto o restante corpo do texto ... factor que ocorre nos teus textos anteriores e ao qual já associava como sendo a tua marca pessoal ...

A mudança anda sempre de mãos dadas com a evolução ... ;)

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João Arctico
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Re: Ignorância

Postby João Arctico » 03 Jun 2010 15:53

Arsénio Mata wrote:Enquanto caio penso como, e apesar de tudo, é bem mais fácil olhar para baixo e encarar o fim do que levantar a cabeça e combater o poder

Achei espectacular a forma como o texto termina pois não coloca um "the end" na estória: é uma frase cheia de conteúdo que nos leva a meditar sobre ela :tu:
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Re: Ignorância

Postby Arsénio Mata » 13 Jun 2010 21:51

Obrigado pelos comentários MAGG e João. É engraçado ver a diferença na opinião em relação à última frase. Eu, modéstia à parte, gosto muito dela.

Quanto à influência tens toda a razão MAGG, se bem que é bastante mais influenciado pelo Huxley. Mas, e se reparares bem, nada impede que estes acontecimentos relatados no texto se passem num presente bem real e não num futuro distante.

Mais uma vez obrigado pelos comentários. :)
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