O Solista Canibal

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Arsénio Mata
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O Solista Canibal

Postby Arsénio Mata » 13 Jul 2010 01:46

O solista canibal nunca me disse quem era. Sonho hoje com ele, a sua língua no pescoço de jovens e belas raparigas. Poeirentas. O solista canibal tocava a carne como ninguém, embarcava-a com as mãos, destrinçava-a silencioso, pensativo. Olhava para a carne fresca sabendo-a podre, efémera. Ele tinha medo da carne e por isso dominava-a como ninguém.

Sonho com o solista canibal nos finais de tarde, tocando o seu instrumento ao pôr-do-sol, sentando numa cadeira de palha, e olhando o apressado mundo viver à sua frente. As pessoas olhavam-no, intrigadas, incertas. Pensavam: quem é este solista? Perguntavam-se: Que instrumento é o seu? Inquiriam: Comerá ele a minha carne?

As ratazanas passavam por ele, indiferentes à sua existência. Estes bichos alimentavam-se das carcaças, restos que o solista canibal não teve coragem para comer.

O solista canibal comia sempre a carne crua, fria e crua. Sem a lavar e sem a limpar. Não se livrava dos corpos depois de saciar a fome e o desejo. Os corpos livravam-se dele. O solista canibal sabia-se diferente e por isso comia pessoas. Desejava ser como elas. Tocava música na esperança de ser uma bela e longa nota, voando no ar sujo e pesado.

Também eu passei por ele e senti a dúvida no meu ser. Senti ardor de o conhecer, de saber porque vive alguém na ânsia de ser eterno. Odiei-o e nesse momento soube que as suas mãos percorreriam o meu corpo, soube que sentiria todo o seu ódio e que esse ódio seria equivalente, ou talvez até superior, a todo o ódio do mundo.

Iniciei a conversa: Quem és tu solista? A resposta que me deu foi um silencioso e eterno assobio que ainda posso ouvir. E que belo foi. Mas as palavras, as palavras subentendidas naquele assobio foram poucas e suficientes. O solista canibal não se acreditava em palavras. As palavras mentem, enganam. As palavras escondem-se, insidiosas, à procura de um ponto fraco sobre o qual atacar. O assobio que ainda posso ouvir continua a dizer-me: só a carne é verdadeira, só ela não engana. Ou está viva ou está morta. Ou é saudável ou é podre.

Durante longos serões tentei imitar o seu assobio, uni a língua molhada ao céu-da-boca seco e soprei, sentindo a saliva a mergulhar nas porosidades da língua, sentindo as cordas vocais vibrando na garganta, sentindo os tímpanos a aceitarem essas mesmas vibrações. Sentindo…

Mas por muito que tentasse o som nunca era o mesmo, as vicissitudes da vida não permitiram que também eu fosse um solista e a verdade é que não nasci para ser uma bela e longa nota. Serei talvez o suporte que segura a pauta. Plástico.

Na parede, branca como se espera sempre, o relógio está pendurado e diz-me: tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac. O seu som, o seu mecanismo, tão semelhante ao de um coração HUMANO é um sinal daquilo que nos espera. tic-tac.

A casa do solista canibal é tudo o que eu esperava que fosse. Limpa, luzidia, calma. O sofá é confortável como eu precisava de o sentir. O solista canibal pega-me na mão e leva-me para outra divisão. Metálica. Deita-me numa marquesa e espera que eu me acalme. Agarra no bisturi. Insere-o no meu olho direito e, metodicamente, arranca-o para fora. A dor é tão intensa e eu nunca vi tão claro na minha vida. Enquanto as suas mãos me percorrem o corpo, enquanto a frieza do metal se entranha em mim e a minha carne e sangue são devorados pela boca do mais puro animal que vi até hoje, percebo que também agora sou o solista canibal. O meu assobio diz:

Nada disto faz sentido.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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