Everything Went Black

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Arsénio Mata
Livro Raro
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Everything Went Black

Postby Arsénio Mata » 01 Sep 2010 04:06

Streetlights bend into the void, cars enveloped whole, darkness deeper than a blind
man's sleep soon to paint the world.
- Everything Went Black - The Black Dahlia Murder


O início de cada noite representa sempre o nascer de cada dia.

Estava uma noite tempestuosa, quente e abafada. Uma noite clara, tragicamente clara. Um homem, velho, tão velho que já era impossível dizer qual era a sua idade, quedava-se numa cadeira no seu alpendre, olhando em frente. O seu olhar era uma força estática inquebrável e ele próprio parecia não se mexer, olhando o horizonte. A força do seu olhar era tanta que dir-se-ia que ele era cego. À sua frente, no jardim, as árvores e os ramos das árvores e as folhas nos ramos das árvores abanavam fortemente às mãos da força do vento e várias pedras estavam deitadas no chão, mortas. O velho via isto tudo reflectido no seu olhar, via esta imagem, esta espécie de fotografia e sorria e pensava: isto sou eu e muitos outros, e o que nós somos, o que a nossa idade representa para os jovens é a clarividência. É o pensamento. Somos o estereótipo da reflexão. E isto é tudo muito natural, visto que o pensar está morto para a juventude.
Ao seu lado, pelo chão, milhares de formigas caminhavam ortodoxamente em busca de alimento, obedientes, assemelhavam-se a uma força infernal.
Estava uma noite reflectora. E o velho sorria, observando as formigas.

O início de cada dia representa sempre o nascer de cada noite.

Foi uma noite quente e clara e abafada. Uma noite em que poucos dormiram, não muito por causa da claridade, mas mais por uma inquietação que podiam cheirar no ar. Foi uma noite em que um pó prateado parecia voar no céu.
E de manhã poucos acordaram, porque também poucos haviam dormido, e todos se levantaram e tomaram banho e vestiram-se e comeram e foram para o trabalho ou para a escola ou à procura de trabalho. Houve ainda alguns que se deixaram ficar na cama, a dormir ou a pensar, inimigos da labuta.
Nas ruas o movimento habitual, carros nas estradas, pessoas nos passeios, e o alcatrão e a calçada e o cimento cada vez mais gastos, espezinhados pelos pés e pelas rodas. O Homem, o Homem Moderno em movimento, comboios e túneis e subterrâneos esculpidos na face da Terra, uma força infernal e imparável.

E os telefones tocaram, olá quem fala, ring-ring, por favor tente mais tarde, e fumo subiu para o céu acompanhado pela melodia de vários motores a funcionar e um alarme apitou, pipipipipipi, e as pessoas olharam e comentaram e um esquentador aqueceu a água e o metro movia-se por baixo de nós e dentro de nós, as vibrações emitidas também dentro do nosso corpo e alguém falou e um tiro foi disparado e ao mesmo tempo uma mina rebentou, estilhaçando uma perna, a carne destrinçada voando pelo ar e houve fios a tocaram-se no ar, fios de alta tensão enviando informação e essa informação foi descodificada em forma de pixeis.

Nas ruas as pessoas caminhavam, apressadas, quase correndo, sem tempo para se cumprimentarem, sem tempo para sorrirem sequer, caminhavam em passo apressado, tentavam acompanhar o movimento do mundo e às vezes também a sua rotação.
E caminhavam tão depressa que nem reparam que havia algo de estranho no céu e teve que ser uma criança a gritar e a dizer mãe o que é aquilo e a mãe olhou e também ela viu e gritou e mais olharam até que o poder da massa humana reunida, o poder da relação humana com a catástrofe reuniu todos os olhares e todos viram e quase todos gritaram. Os poucos que não o fizeram morreram, mudos.

Do céu nascia uma escuridão imensa, negra negra negra. E esta escuridão formava uma parede até ao chão, assentando a sua negritude no solo, uma imensa parede negra nascida do nada. E o mais assustador era que este negro todo não era nenhum tipo de estranho fenómeno da natureza, não era nenhum fumo que por acaso tivesse nascido de alguma explosão. Esta escuridão era sólida. Densa.

E as pessoas fugiram, agora sim correndo, fugiram por labirintos de torres feitas de tijolo e cimento e aço, mastodontes erguidos pelas mãos do Homem Moderno, mãos essas que agora amparavam quedas no chão, que aconteciam na ânsia de correr ainda mais depressa. E as pessoas fugiram porque a escuridão avançava atrás de si, galopava, engolindo tudo o que estava à sua frente, apesar da sua solidez.

E as pessoas fugiram sem saber do quê, fugiram como se vê nos filmes quando uma cidade é atacada por um monstro mutante ou como quando há um tiroteio. Fugiram na ânsia de viver, apercebendo-se que até agora tinham estado mortos. Mas inevitavelmente todas foram engolidas, todos os carros, todos os prédios, todas as cidades e vilas e aldeias e florestas, todos os monumentos históricos, todas as ideias e pensamentos, todas as palavras escritas, todas as formas de arte, todas as acções e reacções, tudo de bom e tudo de mau. Desapareceu. Tudo tudo tudo. Abraçado por uma escuridão histórica. Tão rápido que nem a televisão teve tempo de noticiar.

Misteriosamente, o velho foi o último homem a vê-la chegar. O último a ser engolido. Ao vê-la caminhar na sua direcção, ao ver a sua força imensa mover-se, ao ver todo aquele negro e cruel escuro, finalmente viu o que sempre desejou. Luz.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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