Homens Sem Nome

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Arsénio Mata
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Homens Sem Nome

Postby Arsénio Mata » 22 Sep 2010 00:36

É de tarde, é de tarde e está sol e o sol é tão quente que queima as pedras da calçada, queima as pedras da calçada, pedras pretas e brancas, pedras calcadas, espezinhadas, pedras esmagadas pelo peso de corpos que se arrastam em passo fumegante.

As pessoas correm e parece mesmo que é a rua que se move, tal é a velocidade a que as pessoas se movem e não há aqui no meio desta multidão ninguém que se conheça, as pessoas olham-se, rodeadas de montras e não conhecem ninguém, nem querem conhecer. Olham os produtos nas montras e reconhecem-nos, desejam-nos, ávidas, querem travar amizade com estes objectos, querem mostrar-lhes quem são, usando-os, para mostrarem quem são. Olham as montras e vêem o próprio reflexo mas não se reconhecem.

Às vezes vou na rua, passo calmo, e sorrio, só por sorrir. Outras vezes cumprimento alguém, aleatoriamente, só para ver a sua reacção. A maior parte devolve-me o cumprimento, não por me conhecer, mas pelo medo de não me reconhecer.

A rua move-se e os olhos movem-se e milhares de passos existem e em frente a uma montra há um tapete vermelho, há modelos, há fotógrafos. Flash! Flash! Música de dança. Olhem para nós. E as pessoas abrandam o passo, tudo isto em câmara lenta, as pessoas estão fascinadas e curiosas e até embaraçadas por estarem fascinadas e curiosas e a música toca alto, o som sai das colunas e envolve-se na atmosfera fumegante que emana do chão e é tudo muito claro, tudo muito branco, como os dentes dos modelos que sorriem.

E mesmo ao lado desta acção publicitária, separado por cartazes gigantes com close-ups das caras que podemos ver ali, ao vivo, o som da música não chega, o único som é o som das moedas a baterem umas contra as outras, moedas de cêntimos que parecem nascer das mãos do mendigo, moedas ferrugentas, da cor das unhas dele.

Este mendigo nunca vai ver a sua cara num cartaz, nunca vai ver o seu rosto coberto de barba, coberto de lixo, coberto de fuligem, coberto de uma idade que ninguém merece ter. Nunca vai ver a sua cara retocada e ampliada porque ele obedece a uma regra simples dos mendigos: ele não tem nome.
A réstia de nome que ainda lhe permitem é homem-das-barbas, ou barbas, como lhe chamam os putos, nome que ele se vê obrigado a partilhar com um número infindável de caras que nunca serão a imagem de uma marca.

E as pessoas passam por ele e não ouvem quando ele pede dinheiro e as pessoas passam por ele e não ouvem quando ele pede um cigarro e as pessoas passam por ele e não ouvem quando ele pede água e as pessoas passam por ele e não ouvem quando ele pede comida e as pessoas passam por ele e não ouvem quando ele pede atenção. Ele não tem nome. Ele não existe.

O modelo sorri e as mulheres desejam todas beija-lo e a modelo sorri e os homens desejam todos fodê-la. E há ali uma espécie de religião subliminar, há um culto da imagem que está a ser cerimoniado e a música feita de sons electrónicos talvez seja a prece que estas almas desejam rezar. E mesmo os que ignoram tudo isto são seguidores desta doutrina, os seus olhares de esguelha e a sua imensa vontade de ignorar aquilo em que claramente reparam provas irrefutáveis da crença que partilham. Há, acima de tudo, nestas pessoas, uma vontade enorme de ser como os modelos, Nossos Senhores. Modelos que são um modelo.

O mendigo chama por mim e eu beijo-o na boca e choro. Ele é quem eu quero seguir, endeusar este homem que nem tem a certeza de existir. Eu também quero não ter nome.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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