Na rua, à noite

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Arsénio Mata
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Na rua, à noite

Postby Arsénio Mata » 26 Nov 2010 03:31

Caminho pela cidade durante a noite muitas vezes, gosto de ver a forma como as sombras se movem pelos prédios, ruas e vielas, gosto de contar os candeeiros que têm as luzes fundidas e de sentir o cheiro a mijo álcool humidade vomitado e rio podre. Caminho pela zona ribeirinha da cidade e vejo um junkie a queimar a sopa, e depois a injectar-se. Lá ao fundo, junto aos contentores do lixo, uma cigana romena envolvida em xailes obriga os dois filhos a vasculharem o lixo. A miúda encontra qualquer coisa e entrega à mãe que observa durante dois segundos e depois come. O rapaz chora muito e ela grita com ele, e fá-lo incrivelmente rápido. Está um frio de morte e quando bocejo consigo ver o meu bafo, como se um nevoeiro enorme nascesse de dentro de mim. As crianças não trazem mais que umas calças e uma t-shirt no corpo.

Decido segui-los e inevitavelmente acabo por visitar várias ilhas ecológicas da cidade. A mãe obriga sempre os filhos a remexerem nos sacos de lixo que ficaram de fora dos contentores e nunca se digna a ser ela a procurar pelos restos. Numa das ilhas um cão vadio antecipou-se-lhes e devastou os sacos e agora o lixo está todo espalhado pelo chão. Caminho atrás deles e ouço a gravilha resmungar debaixo dos meus pés e sonho com o dia em que tudo isto não seja real. Mais à frente, enquanto os miúdos estão enfiados dentro dum contentor, a mãe distrai-se com qualquer coisa que brilha num bueiro numa rua mais à frente e vai para lá, põe-se de cócoras a tentar agarrar o que muito provavelmente é um colar ou uma moeda sem valor. Entretanto chega um camião do lixo e ela nem sequer se apercebe, ou finge que não se apercebe, não sei bem. Os homens já se estão a preparar para despejar o contentor para dentro do camião quando eu intervenho. Mas tão depressa como apareci, desapareço desta tela da vida real, e fico a observar, enojado, a mulher mandar vir com os homens numa língua que nenhum dos dois entende e depois abraçar-se às crianças, como se elas fossem os seus pequenos tesouros. Viro as costas. Vou-me embora.

No caminho para casa passo por uma mulher que leva um saco de serapilheira na mão. O saco contorce-se de uma maneira bizarra e não consigo resistir, embora sinta de antemão que me vou arrepender, a ir falar com ela. Ao aproximar-me ouço um miar e percebo que são gatos que ela transporta no saco.
Pergunto-lhe: para que são os gatos. Ela é velha e parece completamente louca mas acima de tudo o seu olhar parece ainda mais louco do que ela, e não se apercebe logo que eu estou ali e que estou a falar com ela. Quando lhe pergunto pela segunda vez para que são os gatos, olha para mim, ri-se e numa voz realmente calma e tranquilizadora diz-me: são para comer, para que é que havia de ser.

Chego a casa dispo-me apago as luzes e durmo. No dia seguinte estou na rua outra vez. Tudo é brilhante e maravilhoso, tudo se move à velocidade da luz, tudo é cibernético e apologético e civilizado e transparente e limpo e evoluído. Cheira a civilização no ar e as pessoas sorriem uma para as outras. Infelizmente há sombras que se movem eternamente. Acaba-se o dia e estou na rua outra vez. É de noite. Caminho e noto que cada vez menos reparo nas subtilezas da rua, à noite, e cada vez mais olho para o chão, indiferente, ou talvez até com medo, do que se possa passar se levantar a cara e olhar o mundo, olhos nos olhos.

Talvez seja à noite que as pessoas são mais verdadeiras. Mais humanas.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

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João Arctico
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Re: Na rua, à noite

Postby João Arctico » 26 Nov 2010 10:31

Talvez seja à noite que as pessoas são mais verdadeiras. Mais humanas.

Não sei se as pessoas à noite são mais verdadeiras, mais humanas... Mas uma coisa é certa: as pessoas à (da) noite também são pessoas, também são seres humanos.
Este não é (mais) um texto; não é uma simples imagem, uma aguarela a preto-e-branco. É um retrato urbano... em pleno século XXI
:tu: :tu: :tu:
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
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Re: Na rua, à noite

Postby Arsénio Mata » 26 Nov 2010 17:25

Obrigado João. :)
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Re: Na rua, à noite

Postby Pedro Farinha » 26 Nov 2010 19:54

Gostei do texto, acho que conseguiste criar imagens chocantes mas ao mesmo tempo contidas e cruas. Apenas não gosto do fim:

Arsénio Mata wrote:Talvez seja à noite que as pessoas são mais verdadeiras. Mais humanas.


Preferia:

Talvez seja à noite que as pessoas são mais verdadeiras. Mais inumanas.


Porque talvez o que querias dizer, era que à noite elas mostravam o seu lado mais verdadeiro, e esse não é o "humano", é antes o inumano sem a maquilhagem com que se disfarça diariamente na hipocrisia do politicamente correcto.

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Re: Na rua, à noite

Postby Arsénio Mata » 28 Nov 2010 01:18

Pedro, antes de mais obrigado pelo comentário. :)
Compreendo o que queres dizer, mas talvez o lado mais humano da Humanidade seja um lado mau e perverso e talvez, assim sendo, o adjectivo "humano" não devesse ter uma conotação positiva mas sim negativa. Era essa a minha intenção.
Mas isto sou eu, que não tenho uma visão, muito, ahhhhh, bonita da humanidade... :X
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