Guerra

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Arsénio Mata
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Postby Arsénio Mata » 22 Jan 2011 01:26

Agarrou-se as mãos da mãe e pressentido o que ia acontecer, gritou: mãe, não faças isso, não faças isso por favor, e o seu grito tinha a força do fim do mundo, tinha a força de mil sóis em combustão e ele gritava ainda: por favor, não faças isso, pareciam ser estas as únicas palavras que conhecia.

Lá ao fundo, noutras cidades, outras mães e outros filhos ouviam estes gritos e ouviam também o som das bombas a cair e antes destas atingirem o solo e rebentarem, abraçavam-se, abraçavam-se muito e com muita força.

A mãe sabia o que acontecia a quem sobrevivia ao impacto destas bombas, tinha visto fotografias, conhecia estórias, rumores que eram certamente estilhaços da detonação. A criança ainda implorava, chorando. A mãe chorava também e as lágrimas de ambos caiam no rio ou na terra. Segurou-o com força. Apertou-lhe o pescoço e mergulhou a cabeça da criança na água. O corpo miúdo tremia, as mãos lutavam, a vida esperança e vontade. A certa altura a mãe arrependeu-se, puxou-o à tona, abraçou-se chorou e sussurrou: filho. O coração daquele pequeno corpo já estava morto. Talvez o corpo também o estivesse.

As bombas continuaram a cair, cidade após cidade, dia após dia. As lágrimas também.
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Re: Guerra

Postby pco69 » 22 Jan 2011 17:51

Não percebi.
Ela matou o filho porque estavam a cair bombas? Ou seja, havia guerra?
Matou-o para ele no futuro não vir a fazer guerra? :X
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Guerra

Postby João Arctico » 23 Jan 2011 01:27

A verdadeira guerra passava-se dentro daquela mãe.
pareciam ser estas as únicas palavras que conhecia.

Podiam não ser as únicas palavras que conhecia... mas eram aquelas que mais importavam naquele momento... eram verdadeiramente "únicas".
Por vezes, que importa o arrependimento? Que interessa dizer que a decisão foi tomada por informação errada dos serviços secretos? O arrependimento não traz de volta a vida de inocentes mortos... não traz de volta a vida do filho...
Muito intenso :tu: :tu: :tu:
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
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Re: Guerra

Postby Arsénio Mata » 25 Jan 2011 01:51

pco69 wrote:Não percebi.
Ela matou o filho porque estavam a cair bombas? Ou seja, havia guerra?
Matou-o para ele no futuro não vir a fazer guerra? :X


Não gosto muito de explicar, a minha ideia neste texto é mesmo deixar a dúvida no ar, mas aqui a questão não é a guerra em si, mas o medo da guerra e do que a guerra pode trazer e como o João disse, e muito bem, a guerra interior da mãe, que sabia que talvez estivesse a fazer o melhor para o filho, mas que era algo impossível a uma mãe fazer. Para mim o amor entre uma mãe e um filho é algo muito puro e muito bonito e embora possa parecer que o intuito deste texto é chocar, o objectivo que tinha ao escreve-lo era mostrar a beleza desse amor, mas mostrar também que nada é imortal, nem o amor entre uma mãe e um filho.

Arsénio Mata wrote:A certa altura a mãe arrependeu-se, puxou-o à tona, abraçou-se chorou e sussurrou: filho. O coração daquele pequeno corpo já estava morto. Talvez o corpo também o estivesse.

Porque aqui o coração estar morto é no sentido figurado. Não sei se isto faz sentido, mas pronto. Para quem não gostava de explicar, com esta explicação já devo ter escrito mais do que com o texto em si... :mrgreen:

Obrigado aos dois pelos comentários.
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