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Noite Noir [+18]

Posted: 06 Nov 2011 23:48
by Arsénio Mata
1- Noite Noir

Ainda agora começou a emissão, mas a verdade é que já me sinto exausto. Os meus amigos, os meus colegas, as pessoas em geral quando descobrem que sou radialista julgam-me sempre um daqueles palhaços das emissões da manhã, imaginam-me sentado numa cadeira rodeado de convidados ligados à música ou a outras áreas de entretenimento, fazem o esforço mental de visualizar a minha boa disposição e ouvem, no interior das suas diminutas cabecinhas, os comentários ora espirituosos, ora atrasado-mentais-engraçadinhos que eu devia fazer. A questão é que eu não faço as emissões da manhã, não sou um desses locutores que parecem ter sido banhados num imenso mar de alegria e boa disposição, estou preso às noites, às noites frias e solitárias, às noites onde a música é quase tão negra como a depressão de que são feitas as chamadas que recebo, a depressão que parece preencher cada um dos impulsos enviados pelos fios de cobre que permitem que me torne eu o ouvinte dos ouvintes. E ao ouvirem isto, os amigos, os colegas, as pessoas em geral perdem instantaneamente o interesse naquela que é sem dúvida uma peculiar profissão, mas que cedo se revela demasiado tardia.

São agora duas da madrugada. A música que me pediram para tocar tem uma letra curiosa, a cantora sibila qualquer coisa como: "i cant help you see the light out off your despair, you'll tie the rope, i'll kick the fucking chair". Sinto um arrepio nas costas, na espinha, na alma. Lá fora, a olhar para mim pela janela, está a lua, cheia, branca, majestosa. Olho-a também, sem embaraço, somos dois seres nocturnos ou noctívagos, não sei bem. A música acaba e é altura de atender outra chamada: KSFM, a noite toda, toda a noite, está no ar, esta é a altura de falar. A minha voz é rouca, pouco mais do que um sussurro, e parece vir das profundezas de um abismo vivo dentro de mim. A ouvinte, Cátia ou Carolina, diz-me que se sente mal com ela mesma, que sente necessidade de se cortar, mas que não tem vontade de morrer. Eu digo-lhe que a vida são dois dias e que a madrugada do primeiro dia anseia pelo nascer do segundo e que portanto talvez seja melhor descansar e acordar com toda a força e energia para suportar e talvez até aproveitar o sol que aí se avizinha. O mais provável é que esta miúda se corte toda hoje com a lâmina de barbear ferrugenta do seu querido pai, o Sr. Molestador.

À noite são poucas as pessoas que ouvem radio. Só os inadaptados, os indiferentes, os depressivos, os bipolares, os párias é que sintonizam as ondas FM da miséria e do desespero. Um puto qualquer liga e diz que tem um problema com as drogas. Eu também tenho, não consegui arranjar nada e estou completamente sóbrio. Acendo um cigarro. Vejo o fumo espalhar-se pelo ar, dançando a sua dança mesmerizante ao longo do escuro do estúdio, enquanto ouço uma música psi de prog-rock sueco dos anos 70 que o mesmo puto me pediu. Imagino-o a viajar e viajo também.

São quase quatro da manhã. Ainda há tempo para mais uma chamada e para mais uma música. Do outro lado da linha um suspiro deixa-se advinhar, espalhando o seu aroma nefasto num momento que pode muito bem ser único e raro, mas que provavelmente não o é. Mas esse suspiro é abafado e uma voz. ofegante. diz. Rua. do. Mistério. 34. Venha. já. Não. traga. ninguém.

A chamada cai e sei de antemão o que não devo fazer. E é precisamente isso que faço. Neste tipo de estórias uma voz destas é obrigatoriamente feminina. Pego na carteira e no tabaco e ponho uma última música a tocar, aleatoriamente. Antes de sair do estúdio ainda ouço o Bowie sugerir: Let's dance put on your red shoes and dance the blues.

Re: Noite Noir

Posted: 07 Nov 2011 01:27
by Pedro Farinha
De uma forma geral gostei Arsénio. Acho que conseguiste dar aquele ar de velho filme a preto e branco. Claro que soa a história já conhecida mas não acho que isso lhe tire o interesse, antes pelo contrário, ao ler reconhecemos o que vamos ler e visualizamos melhor o ambiente. Aliás quando escreves: “Neste tipo de estórias uma voz destas é obrigatoriamente feminina” piscas o olho ao leitor que já conhece a história.

Eu apenas daria uma atmosfera um pouco mais negra ao final, para que ficasse mais explícito que ele sabia que caminhava para o seu fim mas que ainda assim não deixava de comparecer à chamada.

Re: Noite Noir

Posted: 07 Nov 2011 21:29
by Arsénio Mata
Pedro Farinha wrote:Eu apenas daria uma atmosfera um pouco mais negra ao final, para que ficasse mais explícito que ele sabia que caminhava para o seu fim mas que ainda assim não deixava de comparecer à chamada.


Obrigado pelo comentário Pedro. :)

A estória é para continuar, daí que o final (desta parte :mrgreen: ) ainda não seja tão explícito.

Re: Noite Noir

Posted: 14 Nov 2011 16:39
by Sharky
Então? Continua ou não? B)

Re: Noite Noir

Posted: 14 Nov 2011 23:43
by Arsénio Mata
É sim senhor. Este foi um desafio que me impus a mim mesmo. Ainda esta semana a continuação vai ser publicada.

Re: Noite Noir [+18]

Posted: 17 Nov 2011 22:20
by Arsénio Mata
2 - Manhã Vermelha

Acordo de manhã e depressa me apercebo que já é de tarde. O meu hálito é pestilento. Estava sóbrio há três meses. Rodo na cama e o que os meus olhos vêem faz com que o meu coração palpite entre duas disposições diferentes, dois estados de espírito totalmente opostos. Por um lado sinto uma ânsia tremenda de me levantar e sair dali, por outro tenho uma vontade enorme de me deixar ficar deitado a observar aquele quadro macabro e medonho para o qual a noite negra de ontem não me preparou.

Digo isto apesar de ter perfeita noção de que ignorei pequenas sugestões que me foram sendo dadas, pequenos presságios que senti namoriscarem o meu lado supersticioso, mas que preferi ignorar. Houve aquele piscar de olhos da lua, aquele suave sopro no cachaço, como o de uma primeira namorada iniciante nas artes da sedução, que me eriçou o corpo e a alma e com o qual me parecia avisar: estás fodido. Houve também uma breve menção a uma cadeira e uma corda e ainda a chamada da miúda que se queria cortar, provavelmente ao som de uma faixa bem melodramática, onde o cantor, com a sua voz rouca de bagaço, nos informa que a miséria é uma competência necessária para adquirir uma semi-felicidade deprimente. E o Bowie, sempre o Bowie, com a sua pupila estranhamente dilatada, também ela destruída por uma mulher, e com a sua voz andrógina, também ele me avisou que naquela noite havia uma coreografia reservada para mim e que os figurinos para essa valsa no Vale dos Ventos eram todos eles vermelho-carmim. Olhando agora para trás percebo que fui inocente, ingénuo e que todos estes sinais se assemelhavam mais a uma puta que se oferece, quase gratuitamente, na berma da estrada, do que a uma jovem nervosa que alterna o seu olhar entre os lábios e os olhos do seu D. Juan, na ânsia do primeiro beijo.

No entanto, e apesar disto tudo, nada me podia preparar para o que jaz inerte na outra metade do colchão, nem mesmo a chamada de emergência para a Mistery Lane, que eu com tanta fome devorei. Não podia estar preparado para isto porque o meu lado céptico e racionalista sobrepõe-se sempre à infâmia da superstição e portanto parti para a noite abismal com a plena consciência de que muito provavelmente este abismo repleto de emoção pelo qual eu ansiava se revelaria ser apenas uma desapontante vasta planície, devastada pelo estio quente do tédio e onde cada raio de sol que queima a erva mirrada não passaria de mais uma vida triste e comum. Partia para a aventura com a triste convicção de que a mesma não chegaria a acontecer e que depois de tocar uma duas três quatro vezes no número 34 da Rua do Mistério e não obter resposta, desistiria da romanesca noite e iria para casa, cansado e conformado com mais um fim de dia banal e, sem interesse, abriria a porta de casa e olhar-me-ia ao espelho e os meus olhos iriam ver o reflexo dos meus olhos vermelhos. Depois um dedo carregaria num botão, um ecrã ligar-se-ia, uma seta no ecrã: clica aqui clica ali, e quem sabe, talvez pudesse acabar a noite a sentir o sol nascer lá fora, enquanto batia uma a ver jovens adolescentes de mamas de plástico serem humilhadas de todas as formas perversas que deus nosso senhor se permitiu criar - ao quarto, quinto dia? Ao sétimo já sabemos que se obrigou a descansar, dormindo o sono dos justos para sempre.

Divago. O importante é saber que nada disto aconteceu. Assim que toquei à campainha, e sentindo no meu coração as vibrações da mesma, a voz do telefone disse: suba, e lá em cima, no alto das escadas, aguardava-me uma mulher alta loira bela voluptuosa, e era como uma visão, era como se me despedisse agora de Virgilio e mergulhasse no rio Lete, e depois, finalmente no paraíso, purgado dos meus pecados, deus me aparecesse e dissesse: toma, meu filho, a minha mais bela criacção: o diabo. E tivesse esta mulher vivido em Israel D.C. e seria sem dúvida ela a sua última tentação. E ele cederia.

Por esta altura já advinha o leitor de que cor são as vestes da senhora. Pois bem, é verdade, a dama mortífera vestia um longo vestido vermelho como ditam as leis deste jogo, e se é verdade esta última afirmação, também o é que, ao vê-la, todas as outras cores do mundo se esmoreciam, até atingirem tons de preto, cinzento e branco sujo, ideais para contrastarem com a sua aura encarnada de mulher demónio.

Agora, deitado na cama, ainda indeciso se continue neste pingue-pongue sadomasoquista de me levantar ou não, as cores do quarto são bem cruas e reais e parecem querer alertar-me que o sonho acabou e que agora começa o pesadelo. O rosto que me olha de olhos bem abertos e baços e estáticos, como os de um peixe que apodrece no gelo da peixaria de um supermercado, é um rosto bem mais familiar do que o da lady in red com quem fodi ontem à noite. É o rosto da Cátia, a única mulher que amei na vida. Como ela veio aqui parar não sei, tenho falhas de memória patrocinadas pelo Mr. Jack Daniels, mas sei que também ela veste de vermelho. A tragédia da situação nem é tanto que uma semi-deusa como a da noite passada tenha sido misteriosamente substituída por uma mulher quase tão bela. Não há nada de trágico nisso e muitos homens sentir-se-iam bastante entusiamados com esta troca quase onírica, quase surrealista. O problema é que este vermelho não é sedoso como o vestido do demónio da noite passada. Este é um vermelho líquido, viscoso, pastoso, um vermelho que caprichosamente se permite manchar os lençois da cama, esses sim, sedosos.

Re: Noite Noir [+18]

Posted: 17 Nov 2011 22:28
by Arsénio Mata
Aí está, como prometido. E permiti-me fazer uma batota e editar o primeiro texto, pondo um número na porta onde o homem tem que ir tocar. Porque senão ia ser muito enfadonho vê-lo lá perdido na rua, sem fazer nada. :mrgreen:

Re: Noite Noir [+18]

Posted: 16 Jan 2012 22:27
by Arsénio Mata
3 - Tarde Cinzenta

Quando a vi pela primeira vez, a Alicia cantava as suas Horse Tears, aquele seu ahlalalalalala quente e misterioso e frágil e doentio e onírico, com o som mortífero do sintetizador a entranhar-se-me na pele aos intervalos da sua voz, e lá estava ela, quase tão loira como a Alicia. Estava numa festa pretensiosamente avant-garde, mais por obrigação do que por vontade própria, o director-geral da minha rádio tinha que lamber alguns cús para manter a posição e sentia a necessidade que os seus subordinados também sentissem o sabor da merda. Caminhei até à loira, copo de vinho numa mão e cigarro na ou

ahlalalalala lalalalala

tra, caminhava confiante mas com pouca noção do que iria fazer a seguir. Ela era deslumbrante, erguida triunfalmente no seu vestido preto de gala. Olhava a sala quase como se não soubesse que todos os homens desejavam estar com ela. Tinha uma beleza algo clássica, e se é verdade que podia ter optado por ser princesa numa qualquer corte burguesa, também o é que se notava, ainda antes de qualquer troca de palavras, que decidira viver uma vida mais marginal, mais suja, mais verdadeira. O que bebes, perg

ahlalalalala lalalalala

untei-lhe, consciente do quão ridículas aquelas palavras soavam, do quão foleiro se tornaria este diálogo caso ela lhe desse continuidade. E ela deu e pediu-me um cigarro e eu acendi-o e nessa noite dormimos juntos, e antes de dormirmos fodemos, sujando mais um pouc

ahlalalalala lalalalala

o os meus já de si lençois lazarentos.

não te perguntei o que fazias naquela festa
não fazia nada fazia o mesmo que tu bebia e fumava e fingia interessar-me por conversas que pouco me interessavam
sim mas o que te estou a perguntar é porquê que estavas lá
estava lá porque sim
porque sim
sim, porque não

ahlalalalala lalalalala

Mais tarde vim a descobrir a razão pela qual ela estava lá. Mas por essa altura já me tinha apaixonado. Um cínico como eu só se poderia apaixonar por alguém que se odiasse a si mesmo. E a força com que ela se odiava, meu deus, era magnífica. Penso até que tivesse ela tido a oportunidade de se ver, como eu a vi hoje de manhã, de olhos baços e carne fria, visse ela a sua púbis negra manchada de vermelho, rasgada até ao ventre delgado, visse ela o sangue que escorria num rio grosso desde o pescoço até aos seios nus, e penso que se sentiria feliz, penso que se perderia naquela visão semi-demoníaca com a sede de quem correu uma maratona e ainda teve de ir para casa a pé.

A Cátia está morta e não fui eu que a matei. Imagino que por esta altura algum leitor mais ávido de descobrir o final desta estória, habituado que está aos estrategemas utilizados pelos grandes romancistas/argumentistas neste genéro em particular, imagino, dizia, que o querido leitor já se põe a desenhar possíveis cenários para o desenlace da minha própria tragédia. Diz o leitor, no interior do seu cerébro matreiro e perspicaz, que aqui o anti-herói, aqui o radialista com queda para a depressão, não passa de um esquizofrénico que na necessidade de libertar a sua esquizofrenia matou com requintes de malvadez a mulher que pressupostamente amava. E tão bom que seria se isso fosse verdade. Mas tratasse aqui da vida real e na vida real até os casos complicados são bem mais simples e bem menos emocionantes que nos livros e nos filmes.

A Cátia morreu e eu sei quem a matou. As mulheres e os homens são mortos sempre por duas simples razões: ou dinheiro, ou ciúmes, ou os dois. Dinheiro ela não tinha, mas dinheiro não faltava ao seu amante, o homem que já a fodia antes de mim e que a continuou a foder enquanto ela estava comigo e que provavelmente ainda a fodeu depois de mim. Ele era um velho gordo, podre, asqueroso, como até convém a estória, mas também rico, muito rico, dono de uma fortuna que se diz ter crescido à base de tráfico de diamantes, na altura do retorno. Esse dinheiro comprou-lhe um lugar de presidente de uma freguesia pequena e como oferta teve direito ainda a uma noção megalômana da sua real importância para o mundo. Sentia-se como um barão de droga colombiano. Carlos da Luz não admitia a ninguém que fodessem com ele. Eu fodi-lhe a gaja que andava a foder com ele.