Funeral

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Arsénio Mata
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Funeral

Postby Arsénio Mata » 09 Dec 2011 04:03

Hoje morreu um amigo. São sete da tarde e o telemóvel toca e vibra sob o tampo da mesa, despertando-me da inércia que vive dentro do desinteressante zapping que parece ser requisito obrigatório de quem passa uma parte da vida no sofá, quer seja sentado ou deitado. Doem-me as costas e levanto-me para atender o aparelho que ainda toca numa urgência que eu nunca poderia adivinhar como verdadeira. Do outro lado, uma voz soluça a notícia com real transtorno e tristeza e hoje, aqui sentado a carregar nestas teclas, ainda me pergunto se não percebi à primeira ou se não quis perceber. Digo: tem calma, o que é que aconteceu. A resposta demora uns segundos a chegar, mas desta vez as palavras são inequívocas: o João morreu.

Visto qualquer coisa e saio para a rua. As mãos tremem-me no volante enquanto a cinza do cigarro se acumula no borrão, esquecida, até que inevitavelmente acaba por cair para o fundo alcatifado do carro. Chego a casa dos pais do João e a tristeza parece voar pelo ar, infiltrando-se em cada partícula de oxigénio como se de um vírus se tratasse. O silêncio do choro da mãe é tão duro e pesado que me parece sufocar e a minha tristeza, que até então não era mais do que um sussurro de uma criança que conta um segredo ao ouvido dos pais, explode dentro de mim num grito lancinante de velha louca. Os meus lábios não se mexem. Dói-me o corpo.

*

Hoje há um velório. O funeral é só amanhã porque há leis no nosso país, que em conjunto com as nossas riquíssimas tradições de solo católico, parecem apenas destinadas a prolongar o nevoeiro torturante do insustentável peso da morte. Assim, hoje vela-se, amanhã enterra-se. São sete horas agora, o que faz com que o João esteja morto há um dia. Sentado nesta cadeira, dentro desta semi-capela adjunta ao hospital, toda ela simples e eficaz, pouco mais do que uma sala de espera de um consultório, custa-me a acreditar que seja o meu amigo que se deita naquele caixão fechado. Lá fora reúnem-se comadres e compadres em peculiar romaria, quase todos de cigarro na mão, quase todos com a sua melhor expressão de luto nas já avançadas linhas das rugas, quase todos a pôr a conversa em dia. Aperto a mão direita na esquerda e a esquerda na direita. Estalo os ossos. Não me levanto quando a família chega e abrem o caixão.

*

Hoje há um funeral. É o primeiro a que assisto e as expectativas não são altas. Uma cidade em peso aparece e o cortejo segue lentamente atrás da carrinha funerária, seguindo o curto caminho de ruas e vielas que dista o hospital do cemitério. A última viagem de um homem. Na rua, idosos olham com respeito a procissão que passa e tiram as boinas da cabeça, encostando-as com a mão direita ao peito. Uma senhora pergunta: era aquele rapaz que teve o acidente de mota. Os meus lábios movem-se com a mesma distracção e com o mesmo automatismo com que se movem os meus pés, as minhas pernas: sim, era. Era. Passado.

No cemitério os coveiros prendem o caixão com uma corda grossa e baixam-no, baixam-no, baixam-no. Durante o caminho uma amiga falava-me de como tinha sido difícil quando o seu avô morreu, ela diz faleceu, como se tivesse medo de dizer morrer, como se falecer fosse menos verdadeiro do que a morte na sua forma conjugada. Enquanto ela falava a minha única vontade era provocar o seu falecimento, empurra-la contra um carro, tapar-lhe a boca até ela se silenciar e depois desfrutar desse silêncio. Agora, envolto neste silêncio (já) sepulcral, apenas interrompido pelo alegre e irónico cantar dos pássaros, posso apenas desejar que ela venha ter comigo e me conte o que jantou ontem, quais são os seus planos de vida, quem ama e quem odeia e qual é a sua cor favorita.

O silêncio aumenta ainda mais quando os coveiros pegam nas pás, até os pássaros se parecem calar e então, vindo do nada

bac

nada me podia preparar para aquilo

bac

nada neste mundo ou noutro qualquer

bac

o som tremendo e definitivo do fim.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

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Pedro Farinha
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Re: Funeral

Postby Pedro Farinha » 09 Dec 2011 23:26

Gostei.

Acho que começaste melhor do que acabaste. A parte final, intervalada pelos bacs, acho que não ficou bem conseguida. Mas de início consegues muito bem exprimir a dor e o ridículo do ritual que acaba por prolongar a dor e, pior ainda, exibi-la.

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Re: Funeral

Postby Sharky » 10 Dec 2011 00:36

Esse " Bac " já merecia algo intrusivo de modo a despertar um acontecimento inesperado, vindo do fundo. Acho que sou a querer mais da história, qualquer coisa no ambiente negro.
Os teus textos desejam algo mais a sair cá para fora. Desculpa, mas acho que tens mais para dar. Continua :tu:

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Re: Funeral

Postby João Arctico » 10 Dec 2011 01:01

Deixo a perspectiva do escritor para quem tem essas competências.
Fica aqui a minha visão como leitor: fizeste-me sentir a estória. :bow: :bow: :bow:
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Arsénio Mata
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Re: Funeral

Postby Arsénio Mata » 12 Dec 2011 22:05

Obrigado pelos comentários. :)

Esses bacs pretendiam representar o som que se ouve quando a terra cai por cima do caixão.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
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A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
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Pedro Farinha
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Re: Funeral

Postby Pedro Farinha » 12 Dec 2011 22:09

Percebo Arsénio, mas então poderias ter escrito isso mesmo. Por exemplo com um parêntesis a seguir ao primeiro "bac"

bac (ouviu-se a terra a cair sobre o caixão)

Mas claro, é só uma sugestão :)


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