Raquel

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Arsénio Mata
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Raquel

Postby Arsénio Mata » 12 Dec 2011 22:35

Lembras-te quando passávamos aulas inteiras a falar um com o outro, cachopos imberbes deslumbrados com a possibilidade de uma vida futura que nem tu nem eu acreditávamos como real e que no entanto se avizinhava ali, já à porta? E lembraste como era doce enganar os professores que insistiam que não nos podíamos sentar juntos, garantindo-lhes que as nossas bocas não seriam mais que tumbas eternamente fechadas? Essas eram as nossas vitórias pessoais contra aqueles tiranos que não nos compreendiam, não compreendiam que a beleza das nossas palavras um para o outro naquela sala eram a promessa de um amor eterno que nunca o poderia ser, não compreendiam que palavras como: empresta-me a tua caneta, eram o nosso na saúde e na doença, até que a morte nos separe. Aquela carteira escolar, com o seu tampo escrito e re-escrito a tinta azul e preta, com frases como Y love X, e com o meu nome e o teu lá gravados também, era o nosso leito conjugal.

Agora, aqui sentado, enquanto olho para a mancha branca no meu dedo de um anel que se esfumaçou no ar, junto com promessas e desejos, ouço a minha filha rir sozinha, no quarto, enquanto brinca com bonecas. Agora só tenho lembranças e a minha filha só tem promessas. Até quando resistirá ela à ilusão do amor?

Lembras-te quando jogávamos ao jogo do galo? E quando fazias desenhos nas folhas do fim do caderno, desenhos que evocavam músicas que gostavas e das quais querias que eu adivinhasse o nome? E das palermices que eu fazia em frente ao quadro, com o giz na mão, só para te ver sorrir? Esse tempo morreu e nunca vai voltar.

A minha filha chama-se Raquel como tu. A minha ex-mulher pensa que a razão pela qual eu insisti tanto neste nome se prende com uma tia que morreu e com a qual mal me relacionei. Gosto que ela pense isto. Gosto de ter este pequeno segredo só para mim.

Lembras-te que nunca nos beijamos? Provavelmente não. Éramos crianças pequenas e ingénuas e provavelmente nem te lembras de mim. Escrevo esta carta mais para o vazio que sinto do que para ti.

Lembras-te de mim? Eu juro que me lembro da tua cara, mas é uma jura tão falsa quanto o nosso amor.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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