É a vida...

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Arsénio Mata
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É a vida...

Postby Arsénio Mata » 22 Jan 2010 18:14

As minhas pernas tremiam enquanto andava. Acabava de receber a noticia de que ia morrer. O médico disse-me:
você tem trés meses de vida
e o que eu ouvi foi:
vida, vida, vida, vida, vida
como o bip de uma máquina, daquelas que contam os últimos segundos de uma vida. Daquelas que se silenciam com o nascer de uma morte. Eu só conseguia pensar na morte que me esperava e na vida que nunca tive no sentido figurado e que agora deixaria de ter no sentido literal. Só pensava em todos os segundos em que apenas respirei. Em todas as coisas que não fiz porque não pude e porque não quis. Todas as conversas que tive e que foram na verdade monólogos, quer da minha parte, quer da parte de quem supostamente falava comigo.
Olho para o rio e ele parece disposto a ouvir-me. Três meses é demasiado tempo para pensar no que poderia ter sido, e pouco para de facto sê-lo. A frieza da água pela primeira vez aqueceu-me os ossos, como se esta matasse o vírus que me matava a mim.

No dia seguinte a minha mãe receberia um telefonema a avisar que tinha havido um erro nos exames, e que estava tudo bem comigo.

E pela primeira vez está.
Only in the bloodline is this terror exposed
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Sharky
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Re: É a vida...

Postby Sharky » 22 Jan 2010 18:28

Gostei, dá para imaginar a cena de pausa temporal no momento da noticia :tu:

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Re: É a vida...

Postby MAGG » 22 Jan 2010 18:36

Apesar do final previsivel, este foi o teu texto de que mais gostei , até agora ( tendo em conta que ainda não os li todos ). Só considero que se a mãe não "aparecesse" a sensação de desamparo da personagem seria maior.

p.s. - não sei bem porquê mas releio sempre uma frase deste teu texto da seguinte forma : "(...) Todas as conversas que tive contigo e que foram na verdade monólogos, quer da minha parte, quer da parte de quem supostamente falava comigo.(...)" :devil:

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Re: É a vida...

Postby Samwise » 22 Jan 2010 19:19

No texto, gostei particularmente destas frases:

Daquelas [máquinas] que se silenciam com o nascer de uma morte.


Três meses é demasiado tempo para pensar no que poderia ter sido, e pouco para de facto sê-lo.


Quanto ao resto do texto, parece-me bem composto, mas vulgar - no sentindo em que as palavras e as expressões correspondem ao mínimo que se pode esperar encontrar num texto sobre esta temática. Como também é curto, a profundidade das emoções não alcança muito longe. O tempo que passa entre a altura em que sabemos da notícia e o desmentido oficial não chega quase para puxar por nós...
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Re: É a vida...

Postby Aignes » 23 Jan 2010 00:08

Eu gostei, once again. :tu:
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Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Arsénio Mata
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Re: É a vida...

Postby Arsénio Mata » 24 Jan 2010 01:34

MAGG wrote:Apesar do final previsivel, este foi o teu texto de que mais gostei , até agora ( tendo em conta que ainda não os li todos ). Só considero que se a mãe não "aparecesse" a sensação de desamparo da personagem seria maior.

p.s. - não sei bem porquê mas releio sempre uma frase deste teu texto da seguinte forma : "(...) Todas as conversas que tive contigo e que foram na verdade monólogos, quer da minha parte, quer da parte de quem supostamente falava comigo.(...)" :devil:


No comments... :whistle:
Obrigado a todos pelos comentários.
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