Nosso Senhor dos Aflitos

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João Arctico
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Nosso Senhor dos Aflitos

Postby João Arctico » 25 Mar 2010 17:58

Era o final de uma manhã minhota de Agosto, cravada no verão quente de 75. Entediado, sem nada de aliciante para fazer, decidi rabiscar no pára-brisas de uma empoeirada carrinha Peugeot, nunca antes por mim vista, com lugares bastantes para locomover um rebanho de emigrantes das terras francas para o nosso luso recantozinho. A frase que projectava inscrever no vidro auto sustentado tinha-a visto meses antes num amontoado estacionamento, ali para os lados da avenida do aeroporto, em Lisboa, a propósito da efusiva comemoração do dia do trabalhador, no estádio agora baptizado de 1º de Maio: “Lava-me porco!”. Ainda o meu dedo indicador estabelecia a grafia do “p” e já um grito soava lá do alto do adro da igreja, berço dos imberbes preparativos para o arraial em honra do Nosso Senhor dos Aflitos: “Ei, garrroto que tás fazenduu”; ouvi , com acentuado sotaque, a repreensão estupefacta de um gaiato pouco mais velho que eu. Contudo, o seu porte atlético aconselhou-me a terminar por ali a minha façanha e iniciar uma retirada tida por estratégica, entrando com pequenos passos acelerados no quintal do chalé que me hospedava naquelas férias. O seu dono, o senhor Sousa, também conhecido pelo Africano, tinha feito fortuna em território ultramarino e decidira construir ali a casinha que haveria de acolhe-lo nas suas merecidas férias da última idade. Senhor de uma calma oriental, ponderado e de senso acima do comum, nutria pelos seus um descomunal amor que causava inveja a todos que com ele lidavam. No entanto, nos últimos dias, a sua quietude dera lugar a uma nervosa preocupação porque o seu filho, nos vinte muito bem entrados, houvera saído na antevéspera com uns amigos e até à data não dera mais notícias. O Carlos, assim se chamava o real descendente, era um rapaz de boa vivência, cujo rendimento nascia das fontes patrimoniais do seu progenitor. Para não referir as borgas e as mulheres, poderei dizer que tinha um interesse especial por carros, potenciado pela sua paixão pelas velocidades. Se amigo seu dizia que conseguia fazer de Lisboa ao Porto em 2 horas e 15 ele aparecia uma semana depois a dizer que o tinha feito em duas horas - “nas calminhas” - embevecido do seu negro Datsun 1200, de aileron cor de prata.
Enquanto aguardava pelo repasto, entretive-me a ler o Tarzan aos quadradinhos, espreitando, volta e meia pelo canto do olho, o constante vaivém do Africano. Nem vinte minutos decorreram quando se começou ouvir, ao de longe, um familiar ronco de “pronúncia japonesa”. Logo após o estacionamento, precedido de uma derrapagem ao som do “Light my fire”, dos The doors, assomaram por baixo da longa latada o Carlos e o seu fiel e boémio companheiro Vítor. “Bom dia, papá”, disse o Carlos aproximando-se do Sr. Sousa, pronto para o oscular na face. Todavia, não passou de mera intenção pois o vulcão emocional que se erigira no Africano, nestes últimos dias, entrou em descontrolada erupção, onde “vagabundo” foi o mais simpático adjectivo por ali proferido. Quando o amigo do filho tentou balbuciar algumas desculpas, para amenizar o “estado de sítio” ali instalado, apresentando um bafo com resquícios alcoólicos, o Africano apontou armas em sua direcção, iniciando uma corrida articulada com socos desferidos na atmosfera; enquanto isso, o desgraçado do Vítor “cobardemente” empreendia uma ajuizada e respeitosa fuga…

Felizmente, o Africano ainda viveu muitos anos, bem a tempo de assistir à maturidade tardia do seu primogénito que acabaria por assentar, arranjar um emprego e juntar fielmente os trapinhos com uma linda e responsável mulher. Hoje recordo-me das lições que aprendi naqueles dias do verão quente de 75: o amor pode envergar vários fatos e nem todas as cobardias devem ser menosprezadas. Ah! É verdade, o Peugeot apareceu, no dia seguinte aos acontecimentos, de cara bem lavada.
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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zé.chove
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Re: Nosso Senhor dos Aflitos

Postby zé.chove » 25 Mar 2010 18:55

Acho que está muito bem escrito, a cadência entre descrições e acções soa-me bem e o episódio tem graça.

Madame Butterfly
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Re: Nosso Senhor dos Aflitos

Postby Madame Butterfly » 29 Mar 2010 21:16

Decididamente, aprecio mais a narrativa ;)
Achei graça a todo o texto, a começar pelo título, mas devias ter sido mais compreensivo para com os emigrantes, taditos, que provavelmente ainda estavam a desfazer as malas quando te deparaste com o Peugeot todo empoeirado das longas horas de viagem. Este é um tema onde não sou nada parcial, nãããão :D


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