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João Arctico
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Postby João Arctico » 31 Jul 2010 22:28

Lágrimas. Já não as suporto. Ou já não suporto a ela? Que importa?!... Que coisa. Ela tem tudo. – “Tens que arranjar algo para fazer. Essa vida de dondoca é que te provoca isso!...” – disse-lhe. Mas ela continuou a chorar. Depressão. Ansiedade. Diz ela. Parvoíces, digo eu. Macaquinhos no sótão… Liguei a aparelhagem e deixei fluir Puccini pelos headphones. Lamentos por lamentos pelo menos algo que me alimente a alma. Passei o dia em revista: a reunião da direcção pela manhã, o almoço com os clientes japoneses… como eles gostaram da Sandra… Eh! Eh! Mas quem pode ficar incólume perante aquela brasa. Mas não chegou a vez dela. Ainda! … Por enquanto, quero desfrutar a boazona da Sofia… Golfe à tarde; o encontro com o Secretário de Estado. Falta de gosto aquele; meu Deus, que gravata. As jornadas sobre o hypercluster do mar…

Xiii. 3 da manhã… adormeci aqui… a vaca nem me acordou… olha também está ali a dormir agarrada à almofada… Grande camada de drunfos… deixa… antes assim “drogada”… Vou-me deitar sozinho. Ela na cama já não me serve de nada. Os ansiolíticos deixa-a mais fria que o gelo que eu ponho no meu whisky. Há quanto tempo não fazemos amor?... Amor… o que será isso? Bem, amanhã o dia vai ser duro. Caminha que está bem na hora.

“Querido, a Cláudia já colocou o pequeno-almoço na mesa”. Querido… Até me dá calafrios. “Deixa. Como qualquer coisa pelo caminho. Tenho uma assembleia de accionistas”. Bem, a Cláudia eu até comia. Bem boa esta nova empregada brasileira. Mas passar o pequeno-almoço a olhar para o focinho da minha mulher… Que coisa mais fraca e frágil. Não consigo perceber o que ela tem. Bem lhe pago as sessões com a melhor psiquiatra da cidade. Que merda! Tudo me corre bem na vida, menos ela. Não a compreendo. Nunca a compreendi. Aquilo é tudo mimos. É o que dá ser filha única. Se tivesse uma vida tão ocupada como a minha não teria tempo para estas lamechices. Porra! Já estou atrasado!

Mesmo a tempo! Vá lá que o trânsito ajudou. “Serafim. Podes voltar para a empresa. Vem-me buscar daqui a uma hora e traz-me a mala com os documentos que eu deixei no maple do meu escritório. Aquela castanha, sim”.

Estranho, esta sensação de formigueiro na cabeça… “A solução é procurar a fusão com a empresa espanhola, sem dúvida”. Parece que não estou a ver bem o engenheiro… “Então, combinado. Nova reunião, depois de amanhã em Nova Iorque”. Impressão estranha, esta…

“Serafim. Rápido para a sede da empresa”. Este formigueiro… este nó na garganta… tenho que desapertar a gravata. Ai! Que pontada aqui no peito. Ei, minha mão esquerda está a mexer sozinha. E que dor é esta pelo braço abaixo?! NÃO PODE SER, ESTOU A TER UM ATAQUE CARDIACO! “SERAFIM, CORTA AÍ PELA DIREITA E LEVA-ME JÁ AO HOSPITAL. RÁPIDO!”

“Doutor, estou a ter um ataque cardíaco…”. “Calma. Deixe-me observá-lo”. O que estarão à espera? Quererão que eu morra? Terei despedido algum familiar dos médicos deste hospital? Ai esta sensação… Exames, análises, exames… porque não me ligam já a uma máquina. Estou-me a sentir tão mal…

“Alta? Mas e o ataque cardíaco? ATAQUE DE PÂNICO? MAS ‘TÁ A GOZAR COM QUEM? ACHA QUE EU TENHO MEDO DE ALGUMA COISA? O que eu senti foi físico, doutor! Nada emocional. OUVIU? Deixa que eu vou processá-los a todos. Mas só quando me sentir melhor… POR FAVOR, interne-me já. Ao meu médico particular? Quem, um psiquiatra?... Não, isto não me está a acontecer… estão a gozar comigo. Porra!”. Serotonina… serotonina… serotonina… ai, estes ecos na minha cabeça… Quero ir para casa, já….


E assim, tudo mudou na vida do patrão do Serafim:
Chegou a casa, abraçou a mulher e chorou.
Chegou a noite, abraçou a almofada e chorou.
Chegou a manhã, abraçou os dias e chorou...
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Re: Imune

Postby Ripley » 02 Aug 2010 11:36

Jaun, no teu texto "vi" um executivo tipo Wall Street, daqueles para quem as pessoas que o rodeiam ou servem os seus propósitos ou são inúteis que não merecem atenção/consideração, alheios a sentimentos reais e cuja única "emoção" é o breve desejo físico.
Não entendi a escolha do título à primeira - mas em segunda leitura pareceu fazer bastante sentido.

Os cavalos são fortes mas também se abatem...
Last edited by Ripley on 04 Aug 2010 11:11, edited 1 time in total.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
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"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Imune

Postby João Arctico » 04 Aug 2010 09:33

Obrigado pelo comentário, Ripley :)
Uma das coisas engraçadas nos textos é, para além do foco narrativo (já por si muitas vezes difuso...), o foco estabelecido por cada um dos leitores ;)
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo


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