Um Simples Conto de Natal

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João Arctico
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Um Simples Conto de Natal

Postby João Arctico » 25 Oct 2009 14:42

Vasco e Afonso – amigos duma infância passada em Lisboa – foram sempre como dois irmãos. Mas, se por um lado, algo de especial os unia, por outro as diferenças entre eles eram muitas: Vasco, muito consciente e trabalhador, era como uma formiga a amealhar migalhas para o Inverno. Afonso era o oposto. A vida para ele era só farra e borgas. Tinha uma única paixão. A sua mota. Com ela passava horas a fio: lubrificando, polindo, acariciando...
A paixão do Vasco era outra: a sua bela Beatriz. Com ela se casou, assim que conseguiu juntar o seu pé-de-meia: o quanto baste para terem uma vida remediada. Entretanto, quis o futuro abençoa-los com a vinda de uma criança que, embora não planeada, seria decerto muito amada. Porém, no meio duma efusiva felicidade, uma pequena sombra os atormentava. Ainda antes da boa nova, tinham ouvido falar na recolha das células estaminais e prometeram a eles próprios que só iriam pensar numa gravidez assim que novas economias conseguissem fazer. Mas, neste ano, onde o sonho da boda se concretizou, apenas lhe tinham restado algumas dívidas para liquidar. E, uma criança dá sempre "algumas" despesas a mais… Vivendo naquela inquietação, o natal aproximava-se…
Numa bela e fria tarde ouviram os roncos dum motor. Devia ser o Afonso a chegar para mais uma visita. Estavam certos. Instantes depois tocava a campainha. Afonso entrou e num gesto efusivo e cerimonial ofereceu um embrulho em forma de garrafa e um envelope – Ora aqui está uma pequena lembrança para ti, Vasco, e uma outra para toda a família – Aberto o envelope, Afonso comunicou que o cheque seria para o primeiro enxoval da criança e para adquirir o kit de recolha do cordão umbilical. Uma condição: gostaria de ser o padrinho. Mas isso já tinha sido uma decisão há muito tomada.
Já a noite se aproximava quando Afonso saiu. Lá dentro, Vasco e Beatriz sorriram quando ouviram de novo o motor a acelerar…
E assim, naquele final de tarde de Dezembro, Afonso, de gola levantada e mãos enfiadas nos bolsos, caminhou por entre os ramos secos caídos no passeio, provindas da arvore que um empregado da câmara terminava de aparar com uma serra eléctrica… E recordando o som motorizado da sua "velha amiga", pensou – Ter vendido a sua mota tinha valido a pena! ...
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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