O apito do comboio

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João Arctico
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O apito do comboio

Postby João Arctico » 22 Nov 2009 02:37

Era um final de tarde igual a tantos outros finais de tarde.
Lá longe, escuto o apito do comboio que transportará, para os subúrbios, homens e mulheres que trabalham aqui na capital.
Olho para dois idosos que jogam uma partida de xadrez numa mesa deste jardim.
Eles, imóveis, pensam na próxima jogada a executar… fiquei como eles… estático… a pensar…

Rei
Serei eu seu rei? O alvo… o objectivo… o objecto do seu desejo? A peça – chave do seu jogo? O verdadeiro soberano do seu coração?
Bispo
Serei seu confessor, confidente, ouvinte? O pastor da sua doce alma? A peça que fielmente se coloca ao seu lado?
Torre
Sim. Gostaria de ser como uma torre. Ser a fortaleza que a protege; a muralha onde ela se sentirá sempre segura. Alto e Forte. O monumento que ela admirará fascinada.
Cavalo
Poderia ser seu cavalo, branco e majestoso. E poder levá-la a passear pelos prados e pradarias do nosso contentamento…
Peão
"Tu não passas de um mero peão. És mais um entre muitos outros. Serás movimentado ao seu bel-prazer. Serás colocado estrategicamente onde ela quiser te colocar e serás sacrificado assim que ela não precisar de ti. Tu és um Zé-Ninguém."

Naquele final de tarde ao escutar o comboio que lá longe apitava para levar para os subúrbios o homem e a mulher que trabalham na grande cidade apercebi-me o quanto eu era pequeno.
Naquele final de tarde, compreendi que tardei a compreender o que obviamente era óbvio: Não sou nem serei de facto o rei para aquela Rainha.
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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