Ponyo à Beira-Mar

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Ponyo à Beira-Mar

Postby Samwise » 18 Jan 2013 22:47

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Ponyo à Beira-Mar, a última incursão do realizador Hayao Miyazaki no cinema (é de 2008 – aguarda-se com expectativa um novo filme de animação já este ano, com o título Kaze Tachinu), adapta livremente o conto de Hans Christian Andersen, “A Pequena Sereia”, dotando-o de um cunho autoral facilmente identificável, quer pela abordagem técnica ao desenho propriamente dito (tudo feito “à mão”, de forma tradicional, sem recurso a computadores), quer pelas temáticas que são caras ao autor, e que têm pontuado a sua obra de forma regular – o apelo sentido à necessidade de conviver em harmonia com a natureza; a infância como globo ocular narrativo, “verdadeiro”, incorrupto, mas sobretudo incorruptível; a inocência, a justeza, a generosidade e a amizade incondicional como referências basilares da forma de partilhar a vida; e uma penetrante dose de subversão comportamental humana, utilizada ora de forma subtil, ora de de forma descarada e espalhafatosa, e que nos deixa constantemente desarmados face ao modo como a “realidade” é aceite pelas personagens. A envolver tudo, o realismo mágico e a fantasia pura. .

Ponyo é uma pequena sereia de 5 anos (de aspecto muito diferente daquilo que será a “visão clássica ocidental” de tais seres) que um dia decide, à revelia do Pai, conhecer o mundo da superfície. Fujimoto, uma espécie de clone do Capitão Nemo convertido por Miyazaki ao seu universo muito próprio, é um cientista-alquimista-feiticeiro carrancudo, que vagueia solitário pelo fundo dos oceanos enquanto planeia a sua vingança contra a raça humana (e que consiste, de forma simplificada, em dotar os seres marinhos de uma força sobre-humana que os faça crescer e desenvolver geneticamente, através de uma poção mágica por si desenvolvida). Depois de uma série de peripécias, e uma vez “desembarcada” em terra, Ponyo é recolhida num balde de praia por Sôsuke, um rapaz da sua idade - a afinidade entre ambos é imediata, e Ponyo decide torna-se humana para poder estar sempre junto de Sôsuke, uma resolução que vai desencadear uma catástrofe à escala planetária (não, não me enganei a escrever).

Se em termos narrativos Ponyo é um filme sereno e deliberadamente simples de seguir (o mais simples de todos os de Miyazaki, embora contenha algumas camadas de entendimento menos óbvias), em termos visuais a energia que emana é transcendente e transbordante (de forma literal) – mais do que o normal nas suas obras. Há uma imensa generosidade e abundância nas formas, nos feitios, nas cores, nos movimentos (revoltos e incessantes), na magia com que a vida é projectad no ecrã – a habitual celebração da natureza é aqui uma explosão contagiante e imparável de alegria, e o mais interessante é que resulta por completo da materialização física do intelecto de Ponyo – da sua vontade inconsciente. Há um elo directo que liga a “catástrofe natural” (convém agora usar as aspas, pela tal questão da subversão comportamental, mesmo que em causa esteja um maremoto devastador e uma subida do nível das águas na ordem de umas dezenas de metros) ao estado de espírito de Ponyo, e ao seu desejo incontido de chegar junto de Sôsuke. Na melhor sequência do filme (provavelmente uma das melhores de todo o repertório de Miyazaki), a garota de cinco anos corre sobre as ondas de um vagalhão gigantesco de água, galgando tudo no seu caminho, ao som de um tema musical que evoca com espectacularidade “A Cavalgada das Valquírias”, de Wagner. E o que diz o capitão de um cargueiro depois deste “monstro” quase ter afundado o navio em que seguia? “Uma menina sobre as ondas? Devia ter a idade do meu filho”….

Ponyo à Beira-Mar é um filme sobre a capacidade que a amizade e amor têm de eliminar fronteiras difíceis, e sobre o desejo de unir dois mundos que cada vez se vão distanciando mais, o da natureza e o do homem, um desejo que no filme se materializa personificando o primeiro e dotando o segundo de um espírito mais generoso e consciente. Nos dois, permanece contudo o olhar inocente e doce de uma criança - o factor que faz este "sonho" tornar-se palpável, ainda que inatingível, porque todos passámos por ele no início das nossas vidas. É um filme que tem um pouco de quase todas as obras anteriores deste realizador – desde o saudoso Conan, o Rapaz do Futuro (são inúmeras as referências a esta série magnífica), ao mundo alternativo de A Viagem de Chihiro, passando pela emoção ternurenta de Totoro.

Um festim para os sentidos, portanto.
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Anibunny » 19 Jan 2013 01:46

Dizer o nome do Ponyo é tao awesome! Mas enfim ainda ontem estive a chatear um amigo meu para ver ^^ Gosto tanto das cores *.*

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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Samwise » 19 Jan 2013 03:43

Anibunny wrote:Dizer o nome do Ponyo é tao awesome!


Diz-se "Pônhiô" e é um fonema "inventado" pelo Miyazaky com um conceito muito específico em mente:

Ponyo's name is an onomatopoeia, based on Miyazaki's idea of what a "soft, squishy softness" sounds like when touched.


^_^
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Bugman » 19 Jan 2013 17:54

O Ponyo nunca vi, mas há bocado vi um Pony by the shore! :mrgreen:
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Ripley » 20 Jan 2013 01:04

Um filme que se consegue ver facilmente com crianças mais pequenas que, embora não abarcando "tudo", entendem o principal.

Adorei este filme quando o vi pela primeira vez. Se com Chihiro me senti levada para uma dimensão fantástica semelhante àquelas cujas portas me foram abertas por livros, com Ponyo deliciei-me com o típico traço-Miyazaki que conhecemos há tanto tempo, com a doçura e persistência da pequena sereia e com os momentos de humor inocente (pernas de galinha!?!?!?!?!) que me arrancaram gargalhadas ao lado dos meus filhos.

Os idosos, ao contrário do que se vê noutros anime dirigidos aos mais pequenos, não são pessoas sábias de humor plácido; são muito humanos, têm as suas picuinhices, embirram mas também se divertem.

Um filme carinhoso :)
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Bubbles » 20 Jan 2013 03:36

Ah Ponyo ^_^ O filme mais fofinho de Miyazaki que eu ja vi, e que tao bem retrata a inocencia das crianças. E impossivel nao se gostar da Ponyo e do Sosuke, e da relaçao que desenvolvem durante o filme :hug:

A fuga de Ponyo e corrida sobre as ondas e sem duvida uma das melhores sequencias de animaçao que ja tive o prazer de ver, e a musica (Ponyo rides a sea of Fish & Ponyo Flies) encaixa perfeitamente na sequencia. Miyazaki no seu melhor!
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Samwise » 21 Jan 2013 20:00

Bugman wrote:O Ponyo nunca vi, mas há bocado vi um Pony by the shore! :mrgreen:

Não o "ponhyas" dentro de um balde com água nem o mimes... é só um conselho. :D

Ripley wrote:Adorei este filme quando o vi pela primeira vez. Se com Chihiro me senti levada para uma dimensão fantástica semelhante àquelas cujas portas me foram abertas por livros, com Ponyo deliciei-me com o típico traço-Miyazaki que conhecemos há tanto tempo, com a doçura e persistência da pequena sereia e com os momentos de humor inocente (pernas de galinha!?!?!?!?!) que me arrancaram gargalhadas ao lado dos meus filhos.

Os idosos, ao contrário do que se vê noutros anime dirigidos aos mais pequenos, não são pessoas sábias de humor plácido; são muito humanos, têm as suas picuinhices, embirram mas também se divertem.


Ripley!!! :friends: :)

Eu confesso que me ri mais com a teimosia e irredutibilidade da miúda em acatar as ordens do pai e com a fervura em pouca água do lado deste. :mrgreen:

Os idosos, não. As idosas. Alías, o filme assenta todo sobre um matriarcado. As mulheres rulam big-time neste filme. :mrgreen: Apenas ao pequeno Sôsuke é permitido algum espaço de manobra, talvez deixando em aberto uma esperança para o futuro da responsabilização conscienciosa masculina... :P

Bubbles wrote:Ah Ponyo ^_^ O filme mais fofinho de Miyazaki que eu ja vi, e que tao bem retrata a inocencia das crianças. E impossivel nao se gostar da Ponyo e do Sosuke, e da relaçao que desenvolvem durante o filme :hug:


Não posso usar fofinho nem fofura para descrever o filme, ou ainda me acusam de ser menina.

Talvez se eu colocar assim deste tamanho a coisa passe despercebida... :-)
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Thanatos » 21 Jan 2013 21:41

Samwise wrote:Talvez se eu colocar assim deste tamanho a coisa passe despercebida... :-)



Desculpa Sam. Ando com problemas na vista. Precisei aumentar para ler melhor. :twisted:

Hmmm quanto ao matriarcado é fácil perceber que todos os filmes (ou quase todos, há dois que escapam a esta "teoria") do Miyazaki têm a figura feminina como central portanto por aí não me admira nada o papel central de Ponyo, da mãe do garoto, da mãe da Ponyo etc., etc. Lembrar também que Gaia é uma personificação da "alma/espírito" da Terra e é apresentada como feminina.

No entanto isso não significa que os papéis masculinos estejam de todo afastados dos holofotes na obra de Miyazaki. Acontece que a maior parte da sua inspiração deriva de obras de fantasia/folclore e de conhecidas autoras do fantástico com grande pendor feminista como são Ursula K. Le Guin e Dianne Wynne-Jones.
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Samwise » 21 Jan 2013 21:58

Ora... onde é que eu guardei mesmo o disfarce de Boba Fett... ? :buba: :mrgreen:
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Bubbles » 22 Jan 2013 02:43

Thanatos wrote:
Samwise wrote:Talvez se eu colocar assim deste tamanho a coisa passe despercebida... :-)



Desculpa Sam. Ando com problemas na vista. Precisei aumentar para ler melhor. :twisted:


La esta, a culpa e sempre do T :devil:
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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby nimzabo » 22 Jan 2013 13:43

Das animações dos estudios ghibli que vi até agora o Ponyo não foi dos que mais gostei.
Os meus preferidos são o Totoro, o dos pirilampos e o Chihiro seguidos de perto pelo Nausicaa.

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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Thanatos » 22 Jan 2013 14:04

Penso que os pirilampos não é da Ghibli.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby nimzabo » 11 Feb 2013 23:20

Novo Ghibli

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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby nimzabo » 06 Mar 2013 22:18

Hoje vi o Kiki - A Aprendiz de Feiticeira
http://www.imdb.com/title/tt0097814/?ref_=sr_1
Não gostei muito do final, o desenlace da história é algo fraco, mas até perto do fim estava a achar um dos melhores.
Em termos gerais é muito giro. Penso que é daqueles que vale mais minuto a minuto do que pela história como um todo.

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Re: Ponyo à Beira-Mar

Postby Samwise » 07 Mar 2013 14:20

Partilho um pouco da tua opinião em relação ao fim, mas estendo-a ao resto do filme: os desenlaces narrativos são os mais óbvios e simples. Não é que seja um mau filme (o Miyazaki não saberia fazer um mau filme ainda que tentasse), mas comparando com o grosso das outras obras deles, sente-se a falta de qualquer coisa mas espessa e subversiva (entre peso psicológico dramático e atrevimento dentro daquilo que a Fantasia possibilita).
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