6º Conto BBdE

- Sem título - Viagem de finalistas a Loiós
Pedro Farinha
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Postby Pedro Farinha » 05 Mar 2009 08:53

A casa situava-se em cima de um penhasco à beira da falésia. Quando o autocarro se imobilizou, frente aos degraus, depois de ter subido penosamente a rua íngreme e sinuosa, todos suspiraram de alívio – tinham finalmente chegado.

No topo dos degraus aguardavam-nos dois homens, o da frente abriu os braços num gesto de boas vindas e pigarreou para preparar o discurso enquanto as mãos se agitavam, desde já, como que para acompanhar as palavras que aí vinham. Dois passos atrás, o segundo homem tinha um aspecto sinistro. Muito alto e magro, com um casaco antiquado que lhe dançava nos ombros, não mexia um único músculo. Até a cara carecia de expressão.

Tiago foi o primeiro a descer do autocarro e atirou-se para o chão – Terra, terra – disse enquanto fazia a pantomina de um náufrago provocando um riso geral. O motorista apressou-se a abrir o porta-bagagens e a colocar as malas e mochilas fora como se tivesse uma enorme pressa em sair dali.

- Bem-vindos – começou o homem da frente voltando a mostrar os seus dentes muito brancos e num sorriso da amplitude de uma prancha de surf – espero que tenham feita uma boa viagem e que tenham uma boa estadia aqui na Casa da Falésia. Não se preocupem com a bagagem – disse ao ver que um dos rapazes já tinha pegado nas malas – aqui o Vicente – fez um gesto indicando o segundo homem – já as traz para dentro. Vocês vieram aqui para descansar um merecido repouso depois de terem concluído... – olhou para um pequeno papel que tirara do bolso – o curso de Comunicação Social da Faculdade de Lóios.

O pequeno semi-círculo que se formara em frente a ele agitou-se. Tratava-se de uma viagem de finalistas mas o curso só acabaria em Junho na melhor das hipóteses ou mais provavelmente em Setembro.

- Venham, vou mostrar-vos rapidamente a casa e depois já podem vir cá fora espreitar a vista magnífica e a piscina. Mas primeiro é melhor escolherem os quartos para que o Vicente possa colocar a bagagem de cada um no respectivo quarto. – voltou a consultar o papel – Temos oito quartos com um beliche cada, portanto têm de se agrupar dois a dois menos um que terá que ficar sozinho.

- Eu posso ficar com a Patrícia – disse o Tiago muito rapidamente olhando para a colega e piscando-lhe o olho.

- Isso querias tu.

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Re: 6º Conto BBdE

Postby azert » 05 Mar 2009 15:09

Os finalistas conferenciaram entre si e decidiram que para já iriam distribuir-se de forma moralmente correcta - rapazes para um lado e raparigas para outro. Depois.... logo se veria.

Subiram a imponente escadaria até ao primeiro andar e distribuiram-se aos pares pelos quartos: a Patrícia com a Ana, a Rute com a Sílvia e a Lara com a Joana. Do lado dos rapazes, ficaram o Tiago com o Pedro (para a pândega), o aplicado Ricardo com o implicativo Luis, o Rui com o Afonso, o Manel e o Tiago V. e, como não poderia deixar de ser, calhou ao Aníbal ficar sozinho num quarto. Ninguém queria partilhar um beliche com os seus dentes amarelos, a sua cara bexigosa e o seu lendário mau hálito.

Depois de instalados, desceram todos para explorar o exterior da casa. O motorista devia ter partido assim que o grupo entrara na casa, já que as marcas dos pneus apenas eram visíveis.

Quando chegaram ao jardim, onde estava a piscina, o Tiago deixou-se ficar um pouco para trás enquanto o resto do grupo correu para de volta da água, convidativa naqueles dias quentes de Abril. Quando retomaram a marcha, para irem espreitar as vistas, Tiago puxou pelo braço de Patrícia e ofereceu-lhe uma rosa roubada do jardim.
- Oh, que galante! Só é pena que tivesses que desfalcar as roseiras para isso - disse ela, num tom trocista.
Ao agarrar na flor, Patrícia soltou um "Au!" e levou o dedo à boca. Quando o retirou, era visível uma gota de sangue.
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Samwise » 08 Mar 2009 02:23

12 de Abril, 2009

Queridos pais,

A vossa filha está bem de saúde. Chegámos sãos e salvos, apesar do interminável caminho de curvas e contracurvas na subida e da viagem de três dias de comboio. Estamos todos bem. Isto se descontarmos um espinho de rosa que ficou cravado no dedo da Patrícia… hahaha.

Perdoem-me o atraso na mensagem, mas desta vez a culpa não foi mesmo minha. Estou certa de que a agência já vos deve ter contactado a explicar a ausência de comunicações a que ficámos sujeitos. Os telemóveis não apanham rede neste local (nem uma barra), como de resto sabíamos de antemão e, logo por azar, no início da semana, uma forte tempestade deitou abaixo uma série de postes. Entre estes, houve alguns da companhia dos telefones.

Fora este pequeno azar, que de certeza se resolverá em pouco tempo, tudo o resto é maravilhoso. O nosso quarto - meu e da Sílvia - dá para as traseiras, directamente para a falésia. São quase oitenta metros até lá abaixo aos rochedos, aos sítios onde rebentam as ondas. A paisagem é magnífica, mesmo que só se veja a extensão do mar até ao fio do horizonte. Estou desejosa que venha outra dessas grandes tempestades, para poder ver o mar revolto em toda a sua fúria. Há pesadas grades de ferro por fora dos vidros, pelo que não há qualquer risco de uma queda acidental.

Esta carta segue amanhã com o Boris, o motorista de serviço, um rapaz moldavo mal encarado mas muito prestável. Ele está encarregue de ir à vila a cada três dias, para assegurar que não faltam mantimentos e para entregar o correio. A povoação fica a cerca de quarenta quilómetros de distância, mas devido ao estado irregular do pavimento são necessárias quase duas horas para a percorrer. Isto fica no fim do mundo. Só mesmo nós para escolhermos este local – estou tão contente por não termos ido para Cancun!

Agora vou dormir. O cansaço da viagem está a tomar conta de mim. Estou mesmo boa para ir para a cama. Quando os telefones estiverem a funcionar ligo-vos. Prometo.

Beijinhos,

Rute

P.S. Quanto àquele outro assunto de que falámos, não se preocupem. Não tenho nada em mente. Se acontecer alguma coisa inesperada, tomarei todas as precauções.
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: 6º Conto BBdE

Postby anavicenteferreira » 08 Mar 2009 18:47

Sílvia ainda não estava bem a dormir quando ouviu Rute a levantar-se e a abrir a porta. Houve um cochichar de vozes no corredor e ela sorriu. Não conseguira identificar a segunda voz, mas não era preciso muita imaginação para saber quem era. A Rute e o Tiago V. (vulgo Canal 2, ou Dois, por ser mais prático) andavam a dançar à volta um do outro há semanas. Parecia que finalmente se tinham decidido.

Bocejou e aconchegou-se mais nos lençóis. Ao menos tinham tido a decência de não vir ali para o quarto; não se sentia minimamente voyeurística. Perguntou-se ociosamente para onde teriam ido, a imagem do celeiro a pouca distância da casa passou-lhe pela cabeça e adormeceu.

Parecera-lhe que só dormira uns minutos quando acordou alagada em suor. Estivera a ter uim sonho estranho de que não se conseguia lembrar, mas que lhe deixara uma forte sensação de ameça. Levantou-se e dirigiu-se à cómoda onde estavam pousados um decantador cheio de água e dois copos.

A cama de Rute continuava vazia, a colorida manta de sobras de lã ainda cuidadosamente esticada sobre ela. O luar entrava pela janela, iluminando-o e escurecendo as sobras nos pontos a que não chegava. Devia ser mais tarde do que ela pensara; a lua ainda nem se tinha erguido sobre o horizonte quando ela adormecera.

Bebendo pequenos golos do seu copo de água, aproximou-se da janela e abriu-a. Uma brisa fresca entrou pelo quarto, arrepiando-lhe a pele húmida. Encostou o rosto às barras de ferro. O oceano à sua frente parecia uma enorme placa de mercúrio em movimento. Olhou para baixo, para a falésia e quase deixou cair o copo.
Ana

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Re: 6º Conto BBdE

Postby urukai » 09 Mar 2009 12:35

A praia estava vazia. Mas quando Sílvia estava prestes a respirar de alívio, um vulto branco atraiu-lhe a retina para o canto do olho.

No topo da falésia, à sua direita, estava a mulher vestida de branco.

Silvia quis fechar os olhos mas não conseguiu. Um medo que nunca sentira invadiu-a pela primeira vez como uma onda gelada e paralisante.
A mulher olhava na sua direcção e aqueles olhos... Aqueles olhos! Eram mais do que conseguia aguentar. Tentou afastar-se mas as mãos agarravam-se firmemente às barras de ferro como se aquele contacto real e físico pudesse afastar-lhe a ideia de que os cabelos da mulher tinham vida própria. Mais negros que a noite dançavam num rodopio incessante e ritualesco em volta dos olhos brancos e redondos. Silvia gritou mas nada ouviu. A pele do seu corpo arrepiava-se a ponto de se arrancar dos ossos mas Silvia continuava imóvel, incapaz de desviar o olhar daquelas órbitas brancas e intensas. A própria lua cheia era uma pálida farsa ao pé delas.
A mulher começou a levantar a mão na direcção de Silvia mas, no mesmo instante, a porta do quarto bateu e o barulho retirou Silvia do transe. Em pânico, virou-se e Rute estava à sua frente, lívida, com o rosto transfigurado de lágrimas e uma mão erguida na sua direcção. Silvia sentiu as pernas a ceder e o sangue vermelho rubro que cobria a mão de Rute, foi a última coisa que viu, antes de abraçar a escuridão aliviante que o desmaio em direcção ao chão de madeira lhe proporcionou.

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Re: 6º Conto BBdE

Postby Aignes » 10 Mar 2009 12:09

Um rosto vermelho, desfigurado e trémulo sobre si. Abriu os olhos para o tecto alto e branco e uma náusea atingiu-a. Estava deitada no pesado chão de madeira, a Rute debruçada sobre si de uma forma aflitiva.
- Finalmente acordaste. - O tom era preocupado, mas ausente. Ela tinha a mão ensanguentada enrolada num pano qualquer e na cara havia ainda sulcos vermelhos de lágrimas.
- O que aconteceu?- Sílvia tentava agora levantar-se, aqueles olhos intensos ainda na sua visão, tão claros como se os estivesse a ver ainda. Não se atreveu a olhar de novo para a falésia. Não agora, com a Rute no quarto.
A Rute tinha um silêncio enorme entre elas e o olhar fixo na parede em frente.
- Algo... correu mal.- as palavras eram saídas a custo.- Eu não...não era a intenção. Eu não queria que as coisas tivessem corrido daquela maneira.
- Mas o que foi? Algo com o Tiago? O que te aconteceu à mão?
- Oh, a mão...nada.- dispersou as perguntas de Sílvia com um abanar de cabeça. - Espetei a mão, mas não é nada de mais. Já lhe ponho qualquer coisa.
- Então porque é que vinhas a chorar?
Olhou para Sílvia com uns olhos enormes, velados, uma expressão perturbadora. Sílvia teve um arrepio e atribuiu-o a tudo o resto, não a esta sensação que o olhar de Rute causara.
- Amanhã.- disse- Amanhã as coisas ficam mais claras.
Sem protestar, por ter ainda a mulher na mente, Sílvia deitou-se na cama como uma pedra. Os pensamentos revolutearam na sua cabeça algum tempo, até o cansaço tomar conta de si. Dormiu um sono sem sonhos.
Acordou com pancadas na porta. Sílvia entreabriu os olhos e o quarto era todo ele claridade. Devia ser tarde, a Rute estava já vestida, uma faixa branca de gaze à volta da mão. Viu-a dirigir-se à porta e falar em palavras baixas. Quando voltou sentou-se na cama, mãos nos joelhos, expressão perturbada.
- Quem era?
Rute levantou os olhos para Sílvia.
- Ainda bem que já acordaste, são quase 11 horas. Eles queriam sair e ir dar uma volta não sei onde.
Começou a dobrar algumas roupas que estavam espalhadas na cama. Sílvia percebeu que os acontecimentos da noite passada não tinham desaparecido com as horas de descanso.
- Rute, quem era? E quando é que me vais dizer o que se passou ontem à noite?
Uma pausa. Um silêncio. Rute virou-se lentamente.
- Não sabem do Tiago. Não voltou ao quarto ontem à noite depois de... me ter deixado. Sílvia, eu fui a última pessoa a vê-lo e agora eles não sabem dele. Eles acham que ele está caído bêbado algures pela casa, mas... - os olhos enormes outra vez. Uns olhos enormes que levaram Sílvia de volta à mulher da praia.- Sílvia, não podes contar a ninguém como é que eu cheguei ontem ao quarto. Eu cheguei...normalmente, percebes? Cheguei, despi-me e deitei-me, ok? Nada de mais. Prometes?
A faixa branca na mão apertada de Rute escurecia no centro. Pequenas gotas de sangue mancharam o chão antigo.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: 6º Conto BBdE

Postby Bubbles » 13 Mar 2009 17:46

Sílvia respirou fundo. Ela e Rute eram melhores amigas desde o primeiro ano de curso. Desde aquele primeiro dia de praxe que se tinham tornado inseparáveis. Sílvia sabia bem que se não fosse o eterno bom humor e optimismo de Rute a sua vida tinham sido muito mais complicada. Foi ela que esteve a seu lado nos piores momentos, quando o Ricardo a trocou por outra e acabou por ficar tão devastada que esteve em vias de chumbar o ano. Se não tivesse sido o seu apoio… não sabe que estupidez teria cometido. Devia-lhe o que Rute lhe estava a pedir.

-Prometo, claro que prometo… mas tens de me contar o que aconteceu ontem.

Rute olhou-a nos olhos. Nesse instante a rapariga que estava à sua frente não era a Rute que ela tão bem conhecia. Tudo nela se parecia ter alterado, a postura, a respiração… até mesmo o olhar. Especialmente o olhar. Medo, puro e primitivo, era o que ela transparecia.

- Nem eu própria sei bem o que aconteceu… não me parece real. O Tiago convidou-me para passear na praia, ao luar… eu achei tão romântico. Mas depois…

A frase foi interrompida por um grito vindo do exterior. Feminino, histérico. Rute enterrou a cara nas mãos e começou a chorar.
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Ripley » 13 Mar 2009 21:56

Sílvia levantou-se de um salto e dirigiu-se para a porta. Atrás de si Rute hesitava, gaguejando.

- O ... o que achas ... o que será?
- Ficas bem sozinha?
- A-acho ... que sim ...

Sílvia saiu do quarto sem mesmo vestir o casaco. Desceu as escadas numa corrida e contornou a esquina da casa onde se deparou com alguns colegas. Atrás de si chegaram a correr Pedro, Afonso e Rui.
Lara tremia, num choro angustiante. Devia mesmo estar em estado de choque, pensou Sílvia, senão porque carga de água deixaria que aquele bexigoso do Aníbal a abraçasse?

- O que aconteceu?
- Ela viu qualquer coisa ... mas o quê?

Luís chegou-se cautelosamente à beira da falésia e olhou para baixo, onde alguns rochedos bordejavam a estreita língua de areia.

- Epá! Está alguém lá em baixo nas rochas! Deve ter caído!

Afonso acorreu, quase fazendo Luís cair também.

- Ó minha besta! Tem mais cuidado, sim?
- Mas quem é?
- Tem um polo amarelo ... Quem é que tinha vestido um polo amarelo hoje?
- Será o ... ?

Enquanto discutiam, Vicente tinha dado a volta pelo carreiro e descido até à praia, seguido de Manel e Ana. Os outros decidiram fazer o mesmo, deixando Sílvia com Lara e Aníbal.

- Lara, o que aconteceu?
- Eu ... eu estava a espreitar para baixo a ver se havia algum caminho para descer ... ontem à noite pareceu-me ver o Tiago na praia com alguém e queria ir lá abaixo ... mas quando olhei vi ... vi aquilo ...

Recomeçou a chorar convulsivamente. Aníbal olhou para Sílvia com ar de repreensão dizendo entredentes que do que Lara não precisava era de mais perguntas.
Sílvia chegou-se então à beira da falésia. Com medo de cair, deitou-se sobre os chorões e esticou a cabeça sobre o rebordo.
Lá em baixo, os outros pareciam paralisados. Vicente agachara-se junto do corpo caído tentando ver algum sinal de vida.

- Morto.

Ana gritou e escondeu o rosto nas mãos. Afonso abraçou-a, pálido e silencioso.
Vicente virou o corpo para cima. Era Ricardo, com a face ensanguentada e as roupas rasgadas como se tivesse lutado com alguém. Do pulso direito pendia uma correia vazia. A mão esquerda tinha desaparecido, como se tivesse sido cortada.

- O corpo já está frio, deve estar aqui há horas - disse Vicente no seu tom soturno. - Esta correia será de quê?

Luís respondeu em voz trémula.

- Ele nunca ia para lado nenhum sem a sua máquina fotográfica, era a menina dos olhos dele ...

No alto da falésia Sílvia chegou-se para trás lentamente e levantou-se. Era imprescindível falar com Rute agora. Lara estava agora sentada no chão e Aníbal embalava-a como uma criancinha.
Sílvia subiu a escadaria. Em vez de majestosa, achava-a agora sinistra. Respirou fundo antes de abrir a porta do quarto.

- Rute?

O quarto estava vazio.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: 6º Conto BBdE

Postby pictish scout » 16 Mar 2009 03:43

Procurou-a rapidamente pelo corredor e pelas outras divisões da casa, em pânico. Encontrou-a, por fim, de joelhos, soluçando debruçada sobre a sanita.
- O Ricardo… o.. – A voz de Sílvia extinguiu-se logo nas primeiras palavras. Deixou finalmente envolver-se pelas lágrimas.
- Eu sei, Sílvia – Rute levantou-se lentamente. Estava calma e impotente, aceitando o destino terrível de Ricardo. Abraçou Sílvia como se a tentasse consolar, mas Sílvia estremeceu, confusa.
- Como é que sabes?
- Foi o Tiago… ele viu-nos. Seguiu-nos e o Tiago não gostou… ele… – Rita recomeçou a chorar. Baixou a tampa da sanita e sentou-se escondendo o rosto nas palmas das mãos.
- Que estupidez… o Ricardo seguiu-nos e pôs-se a tirar fotos – continuou ela. – Eles já tinham tido problemas antes. O Tiago passou-se e … estava completamente descontrolado. Tentei separá-los mas empurraram-me para o lado… - Sílvia olhou instintivamente para a mão ferida de Rute. – Quando dei por mim, era tarde de mais. O Ricardo escorregou e caiu da falésia. O Tiago tentou descer, mas estava muito escuro e ele não queria arriscar…
- Meu deus! – Foi a única coisa que Sílvia conseguiu dizer.
- Não sei o que fazer, Sílvia…
- E o Tiago V.?
- Não sei – respondeu Rute com o rosto desfalecido. – Estava tão aterrorizado como eu. Despediu-se de mim e correu para cá. Não sei, deve ter fugido…não sei.

- Leva a tua amiga lá para dentro – ordenou Vicente num tom monocórdico. Aníbal aquiesceu prontamente e ajudou Lara a levantar-se. Manel ficou uns segundos a observá-los a caminhar sobre as rochas na direcção da casa, recordando o quão maldosa Lara sempre fora com Aníbal. Recordou-se de todas as suas intrigas, todas as tramas tecidas contra o rapaz nas suas costas nos últimos três anos. Agora, Aníbal levava-a debaixo do braço, tentando protege-la da tragédia que os rodeava.
- Vamos ter de levar o corpo para cima. – A voz de Vicente arrancou Manel das suas divagações e trouxe-o de volta à realidade. – Vou precisar de ajuda.
- Não é melhor chamar a polícia primeiro? – perguntou Luís olhando de forma inquisitiva para Vicente.
Vicente inspirou lentamente o ar salgado. Pela primeira vez os jovens viram transparecer nos seus olhos sem brilho um rasgo de emoção. Talvez um ténue cansaço, uma sombra de preocupação, como um velho marinheiro prestes a medir forças com o mar revolto. As rugas do seu rosto pálido agudizaram-se.
Vicente olhou para as ondas. Sob os seus pés, as manchas de sangue ressequido misturavam-se com o sal preso às rochas. Como uma libação a Neptuno, as gotas de sangue de Ricardo tinham caído sobre o mar.
Vicente esboçou um sorriso triste, mas os olhos voltaram a engolir a pouco emoção que tinham exprimido.
- Não há forma de comunicar com o exterior – afirmou Vicente. – A polícia não nos pode valer agora, nem uma ambulância. Dentro de três dias, quando o Boris regressar tratamos de tudo. Até lá, tentem manter a calma e não andem por aí. Fiquem dentro de casa, sobretudo à noite. E vocês – olhou para Ana e Afonso -, vejam se encontram a máquina fotográfica do rapaz. Se não caiu no mar deve estar por aqui ou mesmo lá em cima.
Ana e Afonso puseram-se rapidamente a postos para iniciar a busca, sem tirar os olhos de Vicente, Manel, Tiago, Rui e Luís que transportavam com grande custo o corpo inerte de Ricardo. Os outros três limitaram-se a olhar, ainda sob o efeito do choque.
O mar, porém, murmurava indiferente.
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Thanatos » 16 Mar 2009 21:40

O Tiago não fazia ideia de há quanto tempo ali estava. Horas? Dias? A avaliar pelas refeições – refeições que não tivera, note-se - não deviam ter passado mais de 12, vá lá 14 horas desde que o tinham enfiado naquela cave.

Uma coisa era certa! O drip, drip da torneira estava a dar com ele em maluco. Isso e a imobilidade e o silêncio da mulher de branco sentada num canto da divisão. Não que contra o silêncio ele conseguisse, da sua parte, fazer algo. Também estava mudo. Aquele bastardo do Vicente tinha-lhe administrado uma droga qualquer, uma injecção mesmo no pescoço, e desde então não conseguia articular um som. Tinha sido tão eficaz quanto removerem-lhe cirurgicamente as cordas vocais.

Estava confuso. A última coisa de que se lembrava era do Aníbal a aparecer a meio do caminho para a praia. Recordava-se perfeitamente de ter pensado que estava aquele cromo a fazer ali, estragando-lhe o arranjinho com a Rute. Mas depois a Rute falara com ele, algo parvo, idiota mesmo, sobre visões e sinais. Quando dera por si tinha os dois a caírem-lhe em cima e daí a pouco surgira o Vicente para ajudar à festa. Ainda tentara dar uns valentes pontapés e gritos mas três contra um eram demais, mesmo para ele! Sucumbira às pancadas e ao pano com éter ou lá que raio o tinha posto a dormir. Acordara preso a uma cadeira naquela cave. Uma luzinha amarelada fazia companhia a ele e à mulher de branco, sentada imóvel, como que catatónica, numa cadeira. Tanto quanto ele conseguisse perceber ela não estava atada mas também não se tinha movido um centímetro desde que ele acordara.

Tinha uma valente dor de cabeça, fruto concerteza do anestesiante, da falta de alimento e das pancadas que levara. Sentia a bochecha meio dormente e a língua já explorara um buraco onde horas (dias?) antes estivera alojado um dente! Ai quando ele se livrasse daqueles atilhos! Que merda, agora prendiam-se as pessoas com braçadeiras de plástico. Nos bons velhos filmes do antigamente era sempre com cordas. Pelo menos com essas dava para um gajo se safar. Agora com aquelas merdas de plástico mais depressa cortava um pulso e ficava para ali a esvaziar-se de sangue do que se conseguia soltar.

E o raio da torneira que não parava!

Olhou pela nonagésima vez em redor. A cave era pequena. Não lhe parecia que pertencesse à pousada mas nunca se sabia! Podiam ter feito uma divisória para aproveitar melhor o espaço. Devia ter feito o tour da pousada quando o gajo da agência se tinha oferecido, mas andava mais preocupado com a Rute. A vaca da Rute! Mas que merda tinha sido aquela com o Aníbal e o gato-pingado do Vicente? Já matara a cabeça a pensar no que tudo aquilo queria dizer mas por mais voltas que desse ao miolo não percebia bem o que se tinha passado no caminho para a praia. O que sabia é que tinha caído que nem um patinho. Ele mais a sua mania dos rabos-de-saia! Bem feito. Já se tinha enrascado uma vez por causa das miúdas. Era bem de ver que mais tarde ou mais cedo lhe ia acontecer merda da grossa por só saber pensar com a cabeça de baixo. E mais grossa que esta não podia haver. Ou podia? Olhou para a companheira de prisão. Parecera-lhe que se mexera. Um movimento imperceptível. O movimento lembrara-lhe algo... mas o quê? E lá estava ele outra vez. Era um movimento mesmo muito ténue, quase no limiar do perceptível pelos sentidos.

E de repente o Tiago recordou-se o que tal movimento lhe lembrava. Fã como era de cinema de terror papava tudo o que era filme do género. Quase que não acompanhara os colegas no curso por estar sempre a faltar às aulas para ir ao cinema. Sim, aquele movimento lembrava-lhe o Blair Witch. Não o primeiro, mas sim o segundo. Olha a merda de que se fora lembrar!

Agora queria gritar e não tinha voz!

A mulher de branco de estremecimento em estremecimento atravessou o espaço que os separava e ficou defronte dele. Os longos cabelos negros tapavam-lhe as faces mas Tiago pressentia o olhar dela sobre ele. Involuntariamente arrepiou-se, aquela presença era tudo menos natural. Mas que merda queria ela dele? Não via que ele estava preso? Ia fazer-lhe o quê? A mulher em dois passos rápidos passou para detrás dele e Tiago tentou acompanhar-lhe o movimento girando na cadeira mas o movimento foi brusco demais e caiu de lado. Bateu com a cabeça no chão poeirento. Luzes abriram-se no cérebro e sentiu-se quase no limiar da inconsciência mas o pó entrou-lhe nas narinas dando-lhe um ataque de espirros.

Da posição em que estava só conseguia ver até à altura dos joelhos da mulher que se voltara a colocar de frente para ele. Ou antes veria até aos joelhos não fosse a longa saia branca que ela vestia. Um branco já um bocado sujo nas bainhas, sujo de terra, areia e, com um bocado de imaginação, algum do sujo pareciam nódoas de sangue.

Lá estava ele a deixar-se levar pela imaginação. Revirou os olhos e o pescoço o melhor que conseguia para tentar estabelecer contacto visual com a desgraçada mas não dava mesmo. Sentiu, mais do que viu, ela agachar-se e erguê-lo em peso. Sem muitas cerimónias estava de novo com a cadeira erecta. Xiça que a gaja devia ser forte que nem um touro para conseguir tê-lo virado assim na boa. Uma gaja porreira para ter como amiga. Podia era ser mais comunicativa. Tiago já se estava a habituar à mudez dele mas fazia-lhe espécie nela. E mesmo que ela se mexesse como um espectro e não mostrasse a cara isso não era razão para que ele não sentisse algum prazer na presença dela. Engraçado como um gajo rapidamente se habitua a tudo. Agora porreiro era se ela o soltasse. Isso sim é que era perfeito como a Super Bock!

Assim congeminava quando ouviu uma porta abrir-se no cimo dos degraus. Uma lança de luz forte feriu a semi-obscuridade amarelenta. Alguém descia à cave.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

croquete
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Re: 6º Conto BBdE

Postby croquete » 18 Mar 2009 14:34

A vida corria-lhe bem.
O som ritmado do mar e aquele ar húmido que lhe prendia a garganta aumentavam a sensação de enjoo que subia do estômago como um vómito. Mesmo assim Aníbal estava satisfeito.
Lara fascinava-o, aos seus olhos, as rejeições dela, as provocações, eram desafios que apenas aumentavam a sua adoração.
Entretanto o contrato com o tio Vicente estava a ser cumprido, aquele bando de idiotas deixara-se convencer a visitar o Hotel e a besta do Tiago estava agora aos cuidados do staff.
Lara parecia agora mais calma, determinada. E ele faria o que fosse preciso para ter aquela mulher.
Abraçados entraram no quarto de Aníbal em silêncio.


Havia um espelho no tecto, reflectia dois corpos despidos.
Deitada de costas, Lara deixou que Aníbal se satisfizesse no seu corpo. Mas tinha sido demasiado descuidado, convencido. - Pensou quase com pena.
Na mão dela um estilete de forma estranha foi cravado com precisão no pescoço do infeliz.
Chamas a isso amor, meu imbecil? – Perguntou com raiva.
Ajoelhou-se na cama e outra, e outra vez o estilete movia-se com precisão na direcção do corpo.
Calmamente Lara levantou-se, saboreou com a língua o sangue quente que escorria da lâmina enquanto uma gota maior, meio perdida, escorria do seu ombro para o peito nu.
Agora…é preciso descer à cave…Pensou satisfeita.

Pedro Farinha
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Pedro Farinha » 20 Mar 2009 10:36

Após o desaparecimento de Lara o grupo reunira-se de emergência no salão. Ricardo sempre tinha sido o líder natural do grupo e com a sua morte, era um pouco como se todos estivessem órfãos.

Afonso olhou á sua volta. Era ele que tinha tido a ideia de se juntarem todos e discutir o que fazer. Talvez por isso os rostos viravam-se na sua direcção. Assustados. Até o Pedro, normalmente risonho, tinha um ar sério fruto do desaparecimento do seu companheiro de partidas. Ao lado dele estava a Sílvia, em estado de choque e lançando de quando em vez olhares furtivos à Rute. Do outro lado da sala, no velho sofá de molas rangentes, estiraçava-se a Patrícia mostrando as pernas morenas em contraste com os minúsculos calções brancos.

De repente Afonso sentiu uma mão na perna dele, era a Ana. Olhou-a e ela fez-lhe sinal para falar. Ele não sabia como começar.

- Como todos sabem o Ricardo e o Aníbal morreram. Se o Ricardo pode ter morrido de morte natural, o Aníbal não há qualquer dúvida que foi assassinado. O Tiago e a Lara desapareceram. Se calhar estão mortos também.

O silêncio era total na sala. A Joana começou a chorar sem fazer qualquer barulho, as lágrimas limitavam-se a traçar sulcos húmidos na sua face. A Ana levantou-se a apoiou a mão no ombro do Afonso - A questão que se põe é: o que vamos fazer.

Antes que alguém tivesse tempo de responder ouviu-se um grito estridente. A Patrícia apontava para a porta onde tinha aparecido uma mulher vestida de branco. Todos se viraram para ela, tentando perscrutar os seus olhos negros e os cabelos esvoaçantes. Um cheiro invadiu a sala enquanto um frio gélido se instalou.

A misteriosa mulher levantou o braço e apontou para a parede defronte onde apareceram letras rubras de sangue na parede:
Todos os que pecaram irão pagar

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Re: 6º Conto BBdE

Postby azert » 20 Mar 2009 15:00

A visão desapareceu tão rapidamente como tinha surgido. Os olhos de todos, demasiado absortos nas letras, mal deram por ela.

Os nervos estavam à flor da pele e as raparigas, culturalmente habituadas a demonstrá-lo, choravam e tremiam. Os rapazes viam-se obrigados a tentar manter a calma e a procurar uma explicação lógica para todos aqueles acontecimentos, onde não parecia haver nenhuma.

«Todos os que pecaram», atreveu-se a ler em voz alta o Afonso, como se vocalizar pudesse quebrar o pânico encantatório em que tinham mergulhado. Deu uns passos em direcção à parede e passou o indicador sobre o último r, cheirando-o e provando-o depois. O sabor era inconfundível - sangue.

Tacitamente designado líder pelo desenrolar dos acontecimentos e pela ausência do Ricardo, Afonso tomou em mãos a tarefa de ordenar os acontecimentos e de instar os outros a estabelecer um plano de acção.

Afonso virou-se para Ana que aparentava algum sangue-frio e pediu-lhe que fosse para junto de Joana. A seguir, enfrentou o grupo e disse:

- Eu sei que tudo isto parece estranho, mas estou certo de que tudo tem uma explicação. E nós vamos encontrá-la. Somos ou não somos os futuros jornalistas deste país? Estamos ou não estamos preparados para perseguir a verdade com todo o empenho e a todo o custo?

Enquanto escutava o Afonso, Luis entretinha um pensamento sarcástico «Este descobriu a sua vocação. Vai dar-se bem nos corredores do poder.»

Afonso continuou:

- Temos de organizar-nos. Eu e a Ana encontrámos a máquina fotográfica do Ricardo. A máquina está desfeita, mas o cartão de memória pode ter imagens que nos ajudem a perceber o que se passou. Quando o Boris chegar, vamos com ele à vila procurar uma máquina onde visualizar as imagens. Se não conseguirmos, mandamos o cartão por correio. Os rapazes vamos formar um grupo de busca e percorrer todos os centímetros desta propriedade para tentar descobrir onde está o Dois; ele não pode ter-se esfumado. Os... os corpos do Ricardo e do Aníbal vão ser levados para a vila. Concerteza irão ser examinados. Espero que os resultados sejam esclarecedores. Quanto à... à mulher de branco, da próxima vez que alguém a vir, avise os outros - havemos de saber quem é e o que pretende com estas encenações. Entretanto, sugiro que a partir de agora sejamos cuidadosos e, de preferência, que andemos sempre aos pares. Não podemos deixar-nos vencer pelo medo!

Como qualquer outro grupo, este também só precisava que alguém tomasse a iniciativa de pensar por eles e de orientar-lhes as acções. Mas, como em qualquer outro grupo, também neste a liderança não convencia toda a gente; há sempre algum céptico.
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Samwise » 22 Mar 2009 13:38

Tiago nem queria acreditar quando viu Lara descer até ali. Quis alertá-la para a mulher de branco que aguardava encostada à parede, no vão das escadas. Tentou furiosamente libertar-se das amarras, mas só conseguiu cair para o lado outra vez.
Lara desceu as escadas com uma passividade enervante. Foi até perto do amigo mas não lhe tocou. Estava coberta de sangue fresco, e segurava um instrumento esquisito na mão direita, também ele a escorrer sangue. Tiago tentou afastar-se batendo com os pés.
- Calma, Tiago, falta muito pouco para que compreendas tudo. Vais compreender. Tal com eu compreendi.
Virou-se para trás e caminhou até junto da mulher de branco. Olharam-se nos olhos. Depois, Lara ficou estática. Parecia olhar em frente e nada ver.
A mulher de branco aproximou-se de Tiago. Ele tentou não olhar para ela, mas ela ajoelhou-se e segurou-lhe no rosto com as mãos macias. Os seus olhos envolveram-no numa espiral de luz e escuridão.

---

Mas, como em qualquer outro grupo, também neste a liderança não convencia toda a gente; há sempre algum céptico.


Foi a Ana que decidiu intervir. Estavam todos confusos, baralhados e sobretudo assustados. Menos ela. Largou os ombros de Joana, levantou-se e dirigiu-se até perto de Afonso, que se mantinha em pé no centro da sala, à espera que alguém dissesse alguma coisa.
Ao ver aquele corpo imponente a aproximar-se, todo ele músculo seco e reflexos felinos adquiridos ao longo de uma vida de treino em full-contact, Afonso recuou dois passos. Apesar da aparência de fuzileiro, a Ana não tinha hábitos de protagonista no grupo - raramente abrir a boca para comentar o que quer que fosse. Que pretenderia ela fazer?
-Afonso, és um gajo porreiro, diplomático e tal, mas tens um cérebro de passarinho. Essa de lamber o sangue foi mesmo má ideia. Que raio te passou pela cabeça? Espero que não tenhas apanhado um vírus qualquer.
Afonso baixou os olhos e mordeu o lábio.
- Passa-me aí a máquina do Ricardo outra vez... Obrigado... agora faz-nos um favor e senta-te caladinho e quietinho. Ora vejamos... um cartão XD, igual ao da minha. Parece-me que já podemos ver o que está nas fotografias.
Sem dar tempo a que ninguém reagisse, Ana caminhou até ao intercomunicador junto da porta, parou para ler os números nas indicações, e discou "53".
- Sim? Sr. Max? Pode vir até aqui à sala? Sim... já chegámos a alguma conclusões sobre o que vamos fazer... Sim... Pedia-lhe que trouxesse uma planta detalhada da mansão e outra da herdade toda. Traga o Vicente também. Precisamos todos de ter uma conversa séria. Até já.
- O que pretendes fazer, Ana -, perguntou o Manel
- Para já quero entender quem é essa dama de branco e porque nos tentou assustar. Depois quero ir à procura do Tiago e da Lara, como o Afonso sugeriu. Deu-me ideia que o Aníbal tentou violar a Lara e acabou morto por ela - reparem que estava nu e que as roupas estavam cuidadosamente dobradas sobre a cadeira, sem um traço de sangue. A Lara deve ter reagido à tentativa. Não me surpreenderia nada que estivesse escondida nalgum outro quarto, em estado de choque.
Bateram à porta, três toques com os nós dos dedos.
- Sim?.
O Sr. Max e o Vicente entraram e deram de caras com a mensagem na parede.
- O que significa isto? - perguntou o Sr. Max
Ana fechou a porta atrás deles.
- Estávamos à espera que fossem os senhores a explicarem. E quem é essa dama de branco que anda por aí a aparecer?
- Dama de branco?!!!-, exclamou Vicente em tom alarmista. - A dama de branco apar... - A sua voz foi cortada pela mão de Max no seu ombro, esmagando-lhe a carne. Puxou Vicente para trás de si.
- Não conhecemos nenhuma dama de branco!
A porta abriu-se de rompão. Boris entrou. Pareceu espantado por ver ali tanta gente reunida. Não reparou na mensagem a sangue.
- A estrada para a vila está cortada num dos desfiladeiros. Houve um desabamento de terras. Levará dias até que o caminho esteja desimpedido... Não há como chegar até lá. A não ser o caminho alternativo, a pé...
Antes que mais alguém dissesse alguma coisa, Ana agiu com rapidez. Um golpe na nuca de Max e este caiu redondo no chão.
- Boris, pegue numa cadeira e sente-se. Não quero ouvir nem uma palavra sua enquanto não o solicitar.
Ana agarrou Vicente pelos colarinhos e encostou-o à parede.
- Começa a falar, pulha!
Ao canto da sala, Rute desatou a chorar.


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Re: 6º Conto BBdE

Postby anavicenteferreira » 23 Mar 2009 23:07

13 Abril 1809

Minha muito amada mãe,

Lamento se vós e o senhor meu pai tendes estado em preocupações por minha causa, mas a carruagem ficou atolada no caminho para cá e isso atrasou a nossa chegada. Tem chovido terivelmente nos últimos dias. Felizmente, eu e o Mateus encontrámos abrigo numa quinta próxima, enquanto os homens tratavam da carruagem. O Mateus queria ajudar, mas eu não o permiti. Chorei e pedi até que ele concedeu ficar perto de mim.

Preocupa-me tanto a sua fragilidade. Sei que o Doutor Bernardes nos assegurou que ele não está tuberculoso, mas quando o vejo tão pálido e frágil, temo o pior. Nem quero pensar no que aconteceria se ele se pusesse a fazer esforços à chuva. A caseira da quinta parecia concordar comigo; arranjou-nos um belo jantar e umas maravilhosas malgas de vinho quente e não parava de insistir com o Mateus para que comesse. Infelizmente, o meu pobre querido continua sem apetite: comeu um pouco de morcela e bebeu uns goles de vinho, nada mais.

Nada disso interessa agora, porém, chegámos finalmente à casa velha. Foi maravilhoso da parte do tio Deodato dar-nos uso dela para a nossa lua-de-mel. Sei que o ar do mar fará maravilhas pelo apetite do Mateus. A janela do nosso quarto abre para a falésia. A Dona Ermengarda, que cuida da casa, disse-nos que o tio Deodato está a pensar pôr grades na janela, por segurança, mas eu acho um disparate: o parapeito é alto, não vejo como alguém possa cair dali por acidente.

Estamos a planear voltar a casa daqui a um mês. Não se preocupe, vou mandar na posta uma nota à Maria Teresa para me ir abrir a casa e arejar os colchões no dia anterior à nossa chegada.

Sua filha devotada,

Letícia

P.S. Aproveito que ainda não tinha selado esta carta para lhe contar uma coisa estranha que aconteceu esta noite. Tinha ido fechar a janela, porque estava a areefecer e vi uma mulher no cimo da falésia a olhar para a casa. Não sei de onde ela poderá ter vindo, já que a aldeia mais próxima ainda fica a alguma distância; mas o que me perturbou realmente foi que me pareceu que ela usava o meu vestido de noiva, o mesmo que deixei aí em casa quando me vesti para a viagem.
Ana


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