6º Conto BBdE

- Sem título - Viagem de finalistas a Loiós
urukai
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Re: 6º Conto BBdE

Postby urukai » 29 Mar 2009 13:52

– AAAAHHHHH! – o grito ecoou sozinho no escuro da divisão.

Lara tinha a boca seca e parecia ter acabado de acordar mas estava de pé e não se lembrava de ter aberto os olhos. Os seus braços estavam estendidos e ela tocava alguém. Recolheu-os de imediato contra o seu corpo e com um gemido deu alguns passos assustados para trás. Doiam-lhe os todos os musculos e a cabeça, agora que estava totalmente disperta, começava a latejar-lhe impediosamente.

Os seus sentidos começaram a comunicar com ela. Cheirava a pó. A sua visão, já habituada à pouca luminosidade do sítio onde estava, permitia-lhe discernir um vulto à sua frente, parecia um buraco negro silhuetado contra a própria escuridão daquilo que parecia ser uma cave pois eram vísiveis umas escadas que subiam na parede mais afastada.

Esfregou as mãos suadas na roupa e aproximou-se do vulto. Desde que ela retomara a consciência que não se mexera. Nem parecia respirar, tal era o silêncio que dele emanava. Havia algo de conhecido nele mas a escuridão não a deixava discernir mais. De repente lembrou-se do telemóvel. Retirou-o rapidamente do bolso e avançou na direcção da sombra. A luz fraca e artificial do visor quase não se fez sentir na negritude anormal daquela cave mas foi o suficiente para reconhecer o rosto que sorria para ela.

Novo grito e o telemóvel cai em direcção ao chão empoeirado. Dá uns solavancos e, resistente, imobiliza-se aos pés do agora reconhecível vulto.

Lara não se consegue mexer. À sua frente está o Tiago, com uma cara esculpida a pedra e um ligeiro arquear dos lábios, estáticos, num sorriso demoníaco. O telemóvel continua a emitir um foco de luz que sobe pelo corpo dele pronunciando cada sombra e reflectindo cada pormenor do fraque negro e escuro que ele enverga. O cérebro de Lara não consegue processar tudo o que vê. Aquele quadro irreal escapa-se-lhe por entre os dedos da consciência e ela arranca movida a pânico na direcção das escadas.

Assim que dá o primeiro passo ouve uma voz impossível. Como se nascesse dentro da sua cabeça sem lá nunca ter entrado.

“Tão bonito...”

Lara pára. A luz do telemóvel apaga-se e a escuridão abate-se sobre a cave. O Tiago, volta a ser uma sombra enegrecida e o tempo parece parar quando se ouvem as palvaras seguintes:

“Fizeste um excelente trabalho com o meu noivo.”

A voz acalmava-lhe a dor de cabeça e enchia-lhe o corpo com uma vontade que não a sua. Queria encontrar a sua proveniência mas não sabia donde vinha. Virou-se para trás. Nada.

“Espero que não te queiras ir embora, agora que a festa vai começar”

Não, Lara já não se queria ir embora. Não sem um último vislumbre de quem lhe falava daquela maneira. De quem lhe tocava assim o espirito.

Virou-se na direcção das escadas. O branco invadiu-lhe os olhos, as narinas, a pele e a lama. A mulher de branco olhava para ela com o vazio dos seus olhos. De repente lembrou-se de tudo e um terceiro grito preencheu a cave antes de tudo se apagar.

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Aignes
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Aignes » 31 Mar 2009 20:57

- A-Ana... A-Ana... - a voz de Rute era um sussurro ao quanto da sala. As lágrimas tentavam secar nas suas faces vermelhas. A expressão de Ana era ainda de impaciência e exaltação quando grunhiu:
- O que é?
- S-se calhar já vos devia ter mostrado isto. Estava...estava caído por trás das gavetas da... mesinha do meu quarto.- Rute retirou um papel dobrado em quatro do bolso. Um papel amarelado, velho, que Sílvia, a mais próxima de Rute, leu em voz alta.

16 Maio 1809

Minha mãe,

O mês que vos prometi já veio e já foi sem que tivésseis recebido quaisquer notícias minhas. Sei como odiais que eu viaje, ainda para mais com o Mateus neste estado. Apesar da maresia, não tem melhorado e não sabeis como me aflige ver o futuro pai dos meus filhos neste estado, principalmente quando suspeito que cresce já dentro de mim a minha filha. Não vos preocupais, ainda não posso confirmar com certeza, mas sei que será uma menina. Sei-o, no entanto, da maneira mais estranha, uma das razões pelas quais ainda não voltei para casa. Começou com um passeio que dei uma manhã cedo ao longo da linha do mar, no início deste mês presente, quando tencionava já começar a organizar tudo para voltar a casa. Aventurei-me mais do que devia, presumo, pois quando reparei tinha já passado as rochas que dividiam a nossa praia do resto da linha de costa. Já não vislumbrava a casa no cimo da falésia e a maré parecia estar a subir rapidamente. Mais me assustei quando, com intenções de voltar para trás, oiço um lamento, uma ladainha contínua de sofrimento. Minha mãe, o meu coração palpitou e senti-me desfalecer! Fosse o que fosse, não poderia nunca partir sem saber que criatura em desespero soltava tais prantos! Procurei um pouco, afastando-me do regresso a casa e facilmente encontrei uma pequena gruta por onde a maré enchente avançava devagar. O meu coração caiu-me aos pés quando vi a mulher de vestido de noiva da qual já lhe falei, minha mãe, a cabeça tombada sobre o peito numa posição derrotada, mas os braços… os braços eram suspensos do tecto de rocha por enormes correntes maciças e pequenas linhas de… sangue – oh, como ainda me brotam as lágrimas dos olhos quando vejo a sua figura com os olhos da mente! – de sangue escorriam pelos seus braços brancos abaixo. Corri pela água que me dava pelos tornozelos até àquela figura de joelhos e tentei levantar-lhe a cabeça, um emaranhado de cabelo negro cobria-a. Aqui a minha história fica incompleta, minha mãe, pois apenas me lembro de dois olhos hipnotizadores entre as minhas mãos, as minhas mãos que seguravam a sua cabeça, e de uma voz sibilante. A voz disse-me que eu carregava uma menina, minha mãe! Quando acordei encontrava-me na areia da praia, o mar lambendo-me os pés. Voltei para casa o mais depressa que pude, tropeçando em pedras e chorando lágrimas silenciosas até chegar a casa. Nada disse ao Mateus, temendo agravar o seu estado, mas nessa noite sonhei com a minha filha, minha mãe, que tinha os cabelos negros do Mateus… e no meu sonho a mulher de branco tinha as mãos ensanguentadas sobre os ombros da minha menina e…minha mãe, por agora não posso sair daqui, mesmo que seja o eu desejo mais profundo. Três dias depois disto o Mateus perguntou-me quem era a mulher que andava pela praia, o que me deu certeza de não ser tudo um cruel truque da minha imaginação! Tomei coragem e uns dias mais tarde voltei à gruta, mas encontrei-a vazia. Tenciono voltar lá amanhã de manhã, para clarificar tudo na minha mente. Mãe, nãos vos preocupais, mas sabeis quão determinada é a minha vontade e como não irei conseguir descansar enquanto tudo não fizer sentido. Tenciono enviar esta depois de amanhã, pelo que, se houver mais acontecimentos entretanto, ainda os descrevo.

Da sua

Letícia


Quando acabou de ler, Sílvia levantou os olhos e viu o silêncio da sala em cada face que a mirava. Boris tinha a cabeça entre as mãos, mas Vicente tinha a palidez do resto dos ouvintes. Rute foi a primeira a falar e disse, na sua voz sumida, o que todos pensavam:
- Essa...essa carta nunca chegou ao seu destino.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: 6º Conto BBdE

Postby Bubbles » 03 Apr 2009 13:19

- Isto não augura nada de bom… - disse Ana, voltando-se para Vicente – Vais-me explicar bem explicadinho quem é esta Dama de Branco! Se não ficas a desejar que ela tivesse apanhado e não eu!

Vicente olhou para Ana completamente derrotado, não pela sua ameaça vã, mas pelo que sabia que ia acontecer. Baixou os olhos, e num fio de voz, começou:

- Mais vale contar-vos tudo… ela vai matar-nos a todos à mesma… a minha família trabalha como caseiros nesta casa há várias gerações… os meus avôs trabalharam cá, os seus avós antes deles… e desde pequenos que ouvimos falar na Dama de Branco. Não sei como se chama, foi um dos pormenores que se perdeu com o tempo… ela era apenas uma aldeã, mas a sua beleza era inigualável. O filho varão do dono desta casa apaixonou-se loucamente por ela, mas o pai não lhe permitia que se casassem… ele era um nobre e ela uma mera aldeã. Claro que o amor falou mais alto e eles decidiram casar e fugir juntos. O padre estava do lado deles e quis casá-los cá…

Vicente levantou o olhar, para lá da janela, até à falésia.

- Ali, no topo da falésia havia uma pequena capela, onde o padre os ia casar, na noite da fuga. É claro que o pai descobriu e interrompeu a cerimónia… gritando que era pecado o que iam fazer. Arrastou o filho para fora da capela e, já no exterior, ela tentou impedi-lo… com a raiva que sentia o pai empurrou-a. Ela tropeçou no vestido de noiva e… caiu…

Um grito de gelar o sangue fez-se ouvir no exterior. O grupo olhou pela janela e viu algo a cair da falésia.
"Não sou obrigada a jurar obediência às palavras de qualquer mestre" Horácio
"Um coração saudável tem um comportamento caótico"
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Ripley » 03 Apr 2009 16:12

Mais uma vez Ana assumiu o controle, o seu porte algo militar impondo respeito aos outros.

- Joana e Rui ... vão ver o que se passa. Patrícia e Tiago, dêem a volta à casa. Há mais alguém aqui de certeza absoluta! Luís e Rute, verifiquem todas as divisões da casa. À mínima coisa estranha voltem aqui, e não quero ninguém a andar sozinho por aí, ouviram ?!?!
- Eu não vou! Tenho um medo horrível! Não, não, não! - gritou Rute tapando a cara.

Joana, Rui, Patrícia e Tiago saíram rapidamente, parecendo aliviados por se afastar dali. Ana abanou a cabeça e caminhando na direcção de Rute segurou-a firmemente pelos ombros.
- Assim não se chega a lado nenhum. Olha bem para mim. Controla-te! Não vais sozinha por isso não há problema! O Luís toma conta de ti, certo?
- Eu posso ir com o Luís - aventou Pedro.
- Não, não podes - respondeu rispidamente Ana. - Se algum destes cromos tenta alguma palermice fazes mais falta aqui do que a Rute e os seus nervos.
- Eu só queria ajudar, e ...
- Acabou a conversa! Quanto mais depressa conseguirmos descobrir o que se passa melhor!

Contrariado, Pedro encostou-se à parede de braços cruzados e ar carrancudo, lançando olhares de soslaio a Boris que os mirava de forma assustada.
- Então eu vou, pronto ... mas não te afastas de mim, Luís, prometes ? - soluçou Rute.
- Claro que não, tonta. Não é seguro para nenhum de nós andar por aí sozinho.

Joana voltou em passo de corrida, ofegante.
- Está um corpo lá em baixo na falésia! Parece ter um vestido branco. E ... encontrámos o Dois, mas há algo de errado com ele! Parece um zombie e está coberto de sangue!
As vozes sobrepuseram-se, cada um querendo perguntar qualquer coisa até Ana soltar um berro.

- CALEM-SEEEEEEE!!! Joana ... tu deixaste o Rui sozinho lá fora com o Dois?!?!?

Vicente sentou-se com a cabeça entre as mãos, gemendo.
- Outra vez não, outra vez não, outra vez não ...
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: 6º Conto BBdE

Postby pictish scout » 06 Apr 2009 17:51

Diário do Capitão Gonçalo Mateus de Abrunhosa e Castro, 16 de Maio de 1809
Só hoje recebi novidades sobre os nossos sucessos no norte. O Porto foi retomado pelos Ingleses há dois meses, e há 4 dias os nossos travaram os franceses em Serém. O que mais desejo neste momento é regressar à minha Companhia, embora tema que tal decisão causasse grande transtorno a Letícia e ao doutor Bernardes que me mantém prisioneiro neste local triste e desolador. Aqui ninguém teme os franceses e ignora por completo que a Pátria está em perigo. Temo que o mesmo se passe noutras regiões, onde o povo inculto se apega demasiado a conceitos ultrapassados de devoção religiosa obscura e escravizante.
Aqui, segundo o tio Zé, proprietário da casa e conhecedor dos costumes da terra, os vilãos continuam a acreditar em coisas absolutamente medievais, como se nada tivesse mudado desde os tempos mais remotos. Enquanto vivemos tempos de grande actividade e mudança, enquanto o mundo estremece face ao poder da modernidade, esta gente ainda teme as bruxas moiras que jazem em grutas na costa. E dizem que todos os que perdem a vida no mar são acolhidos pelas moiras até ao Juízo Final. Assim, no Dia de Todos os Santos costumam fazer romarias ao promontório para aplacarem os espíritos dos mortos e, nas suas rezas, proferem o nome do Pai Cariocecus, que veneram como santo, mas que não passa de uma qualquer divindade anterior aos tempos dos mouros e cristãos. O tio Zé também me contou, tentando impressionar-me certamente, que os vilãos costumavam sacrificar um murzelo como forma de selar a aliança com as moiras. Gostaria de saber o que pensa o pároco de tais manifestações pagãs. Talvez as encoraje! Em grande verdade, acredito que os padres e bispos deste reino necessitam do mesmo tratamento que o clero recebeu em França. A Pátria clama pela tão desejada modernidade.
Letícia parece preocupada, mas tem tratado bem de mim. Porém, é apenas uma mulher e não consegue compreender as convulsões no meu espírito, mesmo com o corpo tão debilitado. Temo que esta temporada esteja a tornar-se demasiado cansativa para ambos. Anseio pelas minhas melhoras e por dias de maior actividade.
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Thanatos » 07 Apr 2009 00:19

O Rui estava a ficar deveras preocupado com o Dois. Desde que ele e a Joana o tinham encontrado a vaguear junto ao caminho que descia para a praia que o colega não dizia coisa com coisa. Balbuciava nomes, dava risinhos histéricos e coçava-se como se estive coberto de chatos. Rui tentara já dialogar com ele mas para nada. Tudo o que conseguira perceber da algaraviada foram dois nomes: Asmodeus e Cariocecus.

Rui tinha uma vaga ideia de conhecer aqueles nomes de algures mas o significado escapava-lhe no aqui e agora.

Ansioso olhava para o caminho que ia até à residencial. A Joana fora chamar os outros mas estavam a demorar o seu rico tempo. Os nervos em franja e já assustado com o aspecto algo demente do Dois, Rui foi caminhando de regresso à residencial. O Dois que o seguisse se quisesse. E o corpo lá em baixo também não parecia que estivesse em condições de ir fosse onde fosse. Lançando olhares subreptícios por cima do ombro para ver a reacção do Tiago, foi-se aproximando da casa. A uns cinco metros de distância da porta lembrou-se do significado de Asmodeus. Um calafrio eriçou-lhe os cabelos da nuca. Nesse instante a porta das traseiras abriu-se e por ela saíram a Joana e a Ana.

***

A Patrícia e o Tiago deram a volta à casa em pouco tempo. Mas nada viram de estranho.

- Não achas que estamos a fazer um bocado figura de idiotas, Patrícia? - perguntou o sempre pragmático Tiago.
- Não sei bem. Não estou a conseguir raciocinar direito. Tudo isto, mortes e... e... - e desatou num soluço incontrolável. Tiago colocou-lhe um braço em redor dos ombros deixando-a soluçar livremente contra o seu peito.
- Chora, chora, solta isso tudo. Vais ver que te sentes melhor.

Tiago afagou-lhe a cabeça. Na penumbra da noite de luar conseguia ver perfeitamente o vulto de Lara junto ao barracão das ferramentas. Vestida de branco, vestida de noiva, virginal, branca e pura como Letícia na noite do sacrifício. Perfeita! Ainda Patrícia soluçava contra si quando Lara lhe espetou a adaga sacrificial na base da nuca. O corpo da jovem desfaleceu de imediato nos amplexo de Tiago.

- Não te esqueças do cartão de memória que está com a Ana – foi o aviso que Lara passou a ele antes de desaparecer silenciosamente na noite, qual visão de outrora.

O som duma porta a abrir-se quebrou o semi-feitiço em que Tiago se encontrava. Largando o corpo inerte de Patrícia correu para junto dos colegas. Ainda chegou a tempo de ver a Ana a falar com o Rui enquanto a Joana olhava esgazeada para o caminho que descia a falésia. O Dois viera atrás do Rui e de braços esticados ao ar clamava alto e bom som por Baal. O estúpido nem sequer sabia do que falava, pensou Tiago. Má jogada da Lara tê-lo querido usar para os sacrifícios. Mas o que estava feito, estava feito. Agora era hora de representar.

- Ajudem-me! Por favor ajudem-me! - gritou ofegante – A Patrícia... a Pa-pa-patrícia... mataram-na. Ali, ali, venham comigo. - e sem sequer esperar por uma resposta deles apontou para o barracão e voltou a correr na direcção do mesmo.
- Que esperam!? - ordenou a Ana – Atrás dele!

Os três seguiram o Tiago deixando o Dois a clamar: Baal! Baal! - de olhos vítreos e esgar histérico.

***

O Luís segurava a lanterna apontando para o tecto. Lera algures que era a forma mais eficaz de iluminar um espaço amplo e pelos vistos resultava na perfeição. Em todas as divisões a Rute experimentava os interruptores mas nem um funcionava.

- E se a gente encontrar a dona da casa? - perguntava chorosamente a Rute. O Luís nem lhe respondia. Cada coisa a seu tempo. Queria dar uma de forte mas de facto estava tão assustado quanto a Rute.

De divisão em divisão chegaram às escadas que davam para o sótão. Olharam-se e por comum acordo, daqueles que não precisam de palavras, passaram adiante. A Ana que fosse ela ao sótão. Quando dobraram o corredor cinco metros adiante já não tiveram oportunidade de ouvir a porta do sótão abrir-se. E muito menos tiveram hipótese de ver o vulto que por ela saiu.

***

Max voltou a si mas permaneceu quieto no chão da sala a avaliar a situação. A um canto estava o anormal do Vicente a balbuciar continuamente uma ladainha qualquer. O Boris estava sentado no maple como se fosse um lorde. Lacaio da treta! Pelo que percebeu além desses dois só três dos putos é que ainda ali estavam. Menos mal, menos mal! Cuidadosa e muito, muito, vagarosamente meteu uma mão por dentro do bolso das calças e tocou no amuleto. Que os cinco lhe dessem as forças necessárias. Esta noite era para terminar tudo.

***

A Ana olhava desconsoladamente para o cadáver. Joana refugiara-se no abraço de Rui e Tiago aproveitara o momento para ir até ao barracão procurar algo que servisse para tapar o corpo da Patrícia. Não havia necessidade de estar ali ao relento. A Ana percebendo o que ele fazia prontificou-se a ajudar. O barracão era uma velha construção em madeira e cheirava a óleos, ferrugem e teias de aranha. Tiago encontrou a um canto um velho oleado e chamou a Ana para o ajudar a sacudir o pó.

- Temos de ver esse cartão da máquina do Ricardo. - disse o Tiago.
- Para quê? Achas que numa altura destas isso nos vai adiantar alguma coisa? - perguntou Ana enquanto pegava numa das pontas do oleado e o arrastava para o centro do barracão.
- Nesta altura não faço a mínima do que é que nos pode ou não ajudar. Penso apenas que devíamos seguir todas as pistas para tentar perceber o que se passa aqui.
- Na boa, pá! Sacode o pó a esta porcaria que eu já te dou o cartão. Sabes onde tenho a máquina? Vais tu ver se ele tem alguma coisa que se aproveite. Eu tenho de ficar aqui com os dois para ver se não fazem mais disparates. Além disso não gosto nada do aspecto do Dois. Parece que se passou dos carretos de vez. Não é que o culpe. Sabe-se lá o que o gajo já viu hoje para ter ficado naquele estado. Pelo que vejo só tu e eu é que ainda estamos a pensar com clareza. O Afonso, a Silvia e o Pedro estão lá dentro na sala com os três estarolas. Antes de ires buscar a máquina passa por lá a ver como páram as modas. E depois volta aqui fora. Não percebi muito bem como é que a Patrícia se separou de ti...

A Ana passou-lhe o cartão para a mão e sem olhar sequer para ele arrastou em peso o oleado para fora do barracão. Quando ele saiu em direcção à casa já ela tapara o corpo da morta e falava em surdina com os outros dois. À porta das traseiras o Dois já sossegara e sentado no chão com os braços em volta dos joelhos balançava-se para a frente e para trás num perfeito autismo.

Nem por instantes o Tiago se deixara enganar pela conversa da Ana. A gaja não era parva nenhuma e já topara que alguma coisa ali não batia certo. Mas isso pouco lhe importava agora. Tinha o cartão em seu poder. As pontas soltas atavam-se lindamente. Agora era só esperar que o Max cumprisse a sua parte.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: 6º Conto BBdE

Postby croquete » 07 Apr 2009 18:44

Boris levantou-se decidido. "As coisas que um emigrante tem de fazer"
"Ele é enviar dinheiro para casa e ser comido nas comissões bancárias."
"Ele é pagar a estadia mesmo que a gente viva cá em casa."
"Ele é fazer o trabalho sujo dos patrões..."
"É pagar a comissão à máfia, que nos mete nas traseiras de uma carrinha para nos deixar num lugar amaldiçoado" – Acompanhou estes pensamentos com algumas asneiras em romeno.
- Eu desistir - disse enquanto se virou para Max – não participar mais nesta alegória animada.

Dirigiu-se para a porta mas viu barrado o caminho por um vulto branco que parecia olhar para ele com interesse, voltou-se de imediato, tentou a segunda porta, um novo vulto branco impedia a passagem, Boris recuou colocando os braços no ar como quem quer proteger-se de uma luz demasiado forte.
BAAL – Disseram Max e Vicente em conjunto, numa espécie de cântico enquanto se ajoelhavam de forma sincronizada.

Afonso e Pedro olharam um para o outro e desataram a rir, fruto dos charros que já tinham fumado.
Foi a Sílvia que conseguiu arrancar um balaústre do velho corrimão e agora parecia maneja-lo como se fosse um taco de baseball.

A Morte, a Morte não é, nunca é, coisa fácil, é definitiva, brutal, sem retorno, morre o passado o presente e o futuro, o afecto, o ódio, esperanças, morrem as ilusões.
Boris por exemplo, tem um filho de 4 anos chamado Viktor fruto de amor sincero com a sua amada mulher Helena pelo qual se sacrificou numa aventura de emigrante.

Os dois vultos entraram no compartimento indiferentes.

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Re: 6º Conto BBdE

Postby Titantropo » 10 Apr 2009 00:42

<div align="left"> </div> -E então, esse cartão de memória? Contém alguma pista? – Pergunta Ana.

-Nada. Deve ter-se danificado, apesar de não parecer. Talvez algum circuito interno. - Responde Tiago, mentindo.

-Eu posso verificar isso. Tenho um programa muito bom, que permite recuperar dados de material danificado. Basta inserir o cartão no meu portátil e ver se ainda dá para recuperar alguma informação. – diz Afonso, interiormente irritando Tiago. Pior para ele, pensou.

- Faz isso. Tiago, dá-lhe o cartão.

- Claro, está no meu quarto. Podemos ir lá agora os dois ver.

-Sim, óptima ideia. É mais seguro do que ir apenas um. Ponham-se ao trabalho, enquanto nós ficamos aqui a recapitular os acontecimentos e apertar com este pessoal, de modo a tentar obter algumas respostas.

Ainda mal se tinham acomodado, quando se ouve o barulho de algo a partir. Saindo para o corredor, Afonso está caído no chão e Tiago encostado a uma parede, agarrado ao ombro esquerdo que tem um pequeno fio de sangue.

- O que aconteceu? – Pergunta Ana, mas uma vez comandando.

-Fomos atacados! – Mente Tiago. - Ele surgiu de repente, cortou a garganta do Afonso e quando ia fazer-me o mesmo, eu ao tentar afastar-me tropecei neste móvel e o jarro que lá se encontrava caiu. Foi o que me salvou, pois ele fugiu antes que vocês aparecessem.

-Bom, vamos todos juntos buscar o portátil e ver se conseguimos recuperar as imagens. Não há-de ser assim tão difícil trabalhar com o programa. – Comanda Ana novamente.

-Trabalhar com o programa é fácil. Agora o difícil é conseguir adivinhar a password com que ele protegeu o computador. Não vamos sequer conseguir entrar no sistema operativo. – Mente Tiago mais uma vez, tentando fazer os colegas desistir de quererem espreitar o cartão.

- Então estamos condenados! - Desespera Joana.

- Não, chega de mortes! – Exclama Boris espantando os presentes - Não aguento mais! Tenho de contar tudo! Não posso permitir que haja mais mortes! O meu filho teria vergonha de mim! Eles contaram-me tudo e agora vou revelar-vos a verdade. Ameaçaram-me mas não me importo! Não quero ser mais cúmplice deles!

- Estamos a ouvir.

- Quando há duzentos anos, na noite do casamento do filho dos donos desta casa, a noiva morreu caindo da falésia, desgostoso de amor e louco de vingança, Gilberto o seu noivo, invocou Baal e pediu vingança, lançando uma maldição sobre as gerações futuras, que faria com que a cada cem anos, todos os descendentes de ambas as famílias, se vissem arrastados pelas superiores e malignas forças a reunirem-se aqui. A maldição só irá acabar quando todos morrerem ou dois deles se casarem, completando a cerimónia. Há cem anos, quatro descendentes conseguiram sobreviver. Desta vez, a maldição não parece querer parar. Os actuais donos da casa são devotos servidores de Baal que prometeram que desta vez ninguém escaparia.

-Mas o que tem essa maldição a ver connosco? – pergunta o Rui.

-Não percebem? De uma maneira ou de outra, vocês todos são os des…

Pedro Farinha
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Pedro Farinha » 12 Apr 2009 11:28

Um estampido seco cortou-lhe as palavras. De um orifício circular entre os olhos começou a sair sangue enquanto um cheiro a pólvora se espalhava no ar.

- Tiago, estás maluco – gritou o Manel – e onde arranjaste essa pistola.

Como única resposta um novo tiro trespassando o pescoço do Manel fazendo com que grandes golfadas de sangue escorressem pelo corpo abaixo enquanto tombava no chão.
Olharam uns para os outros. Tiago rodava a pistola apontando para cada um alternadamente.

- Tiago – pediu Silvia – por favor.

Max tentou fugir pela outra porta levando um tiro nas costas.

Pedro e Luís olharam um para o outro, não iam ficar especados à espera que aquele lunático os matasse um por um e se suicidasse no fim. Levantaram-se num salto e atiraram-se a ele, o novo disparo foi desviado pelo murro que sentiu no queixo e falhou o alvo indo acertar no velho retrato da noiva de branco. Enquanto lutavam no chão com o Tiago, esforçando-se por lhe tirar a arma, viram sangue espesso a escorrer do retrato.

A arma disparou uma última vez matando Tiago. Foi então que a Rute falou.

- Os meus pais avisaram-me – disse.

Todos os olhos fixaram-se nela.

- Mas eu sabia que nada podia fazer para o evitar, Baal convocou-nos e ninguém pode negar Baal.
- Ah, não – exclamou Luís com a arma na mão – eu renego Baal e toda essa confraria demoníaca. Perante o olhar espantado dos outros, o seu corpo liquefez-se, como se fosse estearina subitamente aquecida.

Joana chorava a um canto. Rui cerrava os punhos.

- Como vêem – continuou Rute – nós pertencemos a Baal, ele é o nosso senhor e o nosso amo.
- Queres dizer que não há fuga possível – perguntou a Ana – que não nos resta mais que ficar aqui à espera de sermos todos mortos pela dama de branco ou um dos seus seguidores.

Rute olhou para Vicente que não se tinha mexido desde que a contenda se iniciara – há uma solução, dois dos descendentes têm de se casar e de consumar em honra a Baal o seu casamento. Só assim a maldição será quebrada. Vicente, tu sabes preparar a cerimónia, certo?

Ouviu-se um novo tiro. Tiago V. aproveitara a distracção, apanhara a arma do chão e enfiara o cano da pistola dentro da boca. Agora jazia inerte por cima de Luís.
Pedro e Rui entreolharam-se, um deles ia ter de se casar.

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azert
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Re: 6º Conto BBdE

Postby azert » 13 Apr 2009 03:22

No meio do histerismo, Lara aproximou-se de Ana. "Ah, onde estava a força daquela rapariga, ainda há uns momentos atrás a única lúcida e com iniciativa do grupo? Era vê-la agora, tão confusa e enojada quanto os outros", pensou Lara.

O Aníbal, mais presto de quadris que de cabeça, tinha-se precipitado em consumar o casamento antes mesmor de ele ter podido ter lugar, inviabilizando assim a tentativa de quebrar a maldição e deitando por terra o plano do qual ele próprio fazia parte, juntamente com o tio, com ela e os Tiagos. A incapacidade do rapaz em conter-se perante a perspectiva de uma queca, concerteza a única da sua bexigosa existência, tinha deixado Lara fora de si, lançando-a numa missão sanguinária sem tréguas e sem retorno.

Dissimuladamente, Lara retirou o estilete da manga do vestido e com um gesto rápido e certeiro cravou-o na jugular de Ana.

Enquanto a valente Ana se esvaía em sangue aos pés de Lara, os outros permaneceram imóveis. Rute foi a primeira a reagir. Saltou sobre Lara, atirando-a ao chão. Instintivamente, o Pedro fez o mesmo e, quase de seguida, o Rui, a Sílvia e a Joana, também. Lara debateu-se, mas em vão. O peso dos outros sobre o seu corpo impediam-na de respirar.

Quando perceberam que Lara já não se debatia, os colegas foram saindo de cima dela, um a um. Mais uma vez, Rute tomou a iniciativa.

- Pedro... Rui... eu sei que não é uma decisão fácil, mas um de vocês tem de ajudar-me a acabar com esta loucura. Eu... eu ofereço-me para me casar. Não se pode dizer que seja muito romântico, mas prefiro um casamento a mais mortes. Pedro...

Pedro engoliu em seco. Ele sabia que lhe cabia a ele o papel de noivo conciliador dos espíritos ou dos demónios ou lá do raio que era, mesmo que não soubesse porquê. Sem dizer uma palavra, abeirou-se de Rute e pousou-lhe a mão no ombro.

- Vicente, está preparado para celebrar o casamento, não é assim? - perguntou a rapariga.

Vicente anuiu. Retirou um grosso e velho volume de uma estante e dispôs-se a iniciar a cerimónia, segundo o rito de Baal.
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Samwise » 15 Apr 2009 13:15

A sala estava agora iluminada por velas brancas, colocadas um pouco por todo o lado: em cima das mesas, no chão, aos cantos, nas prateleiras das estantes de livros, e uma na mão de Vicente. Servia-se dela para derramar gotas de parafina líquida sobre as mão unidas de Rute e Pedro, enquanto tentava erguer em voz fiel os temas do ritual de casamento segundo o livro. Uma pequena estátua antiga de Baal, coberta de verdete e com a pedra desgastada pela erosão do tempo, repousava em cima da mesa principal.

Mais pálida que a própria Mulher de Branco, e esforçando-se para não fazer soltar as ligaduras que a Joana e a Sílvia lhe haviam improvisado à volta do pescoço para estancar o sangue, Ana voltou a falar. Sabia que a sua condição era precária - um pequeno deslize, um esforço mal calculado, e a morte seria certa. A sua voz mal se fez ouvir no meio dos cânticos pagãos que Vicente entoava.

- Esperem! Pode haver outra solução...

Sílvia aconchegou-a melhor contra si. A cabeça de Ana repousava sobre o seu colo.

- Shhh, Ana, tenta manter-te quieta. As ligaduras têm de aguentar não sabemos por quanto tempo.

- O livro... não confiem no Vicente. Tentem decifrar o que diz o livro...

Soltando chispas pelos olhos, Vicente interrompeu os cânticos e gritou para Ana:

- Silêncio, mulher! O ritual não pode ser incomodado desta maneira.

Num último esforço antes de desfalecer, Ana disse:

- O que nos garante que a seguir à consumação não haverá mais vítimas...

- Ana... Ana... ANA!!!!!

- Está inconsciente, - respondeu Silvia, enquanto lhe afastava alguns cabelos da testa molhada.

- Talvez seja melhor assim. É da maneira que repousa.

As palavras de Ana não caíram em saco roto. Pedro e Rui trocaram um olhar cumplicidade e começaram a aproximar-se de Vicente.

Lá fora, uma forte tempestade começava a fazer-se ouvir. Algumas portadas bateram ao longe e o rugir de uma trovoada distante ecoou pela mansão.

Encurralado a um canto da sala, com o livro bem preso contra o peito por entre os braços cruzados, Vicente olhava alternadamente para os seus opositores.

- Se me tocarem estarão a cavar a vossa própria sepultura.

Pedro e Rui continuaram a avançar. Caminhavam com cautela, de braços estendidos e mãos abertas, de modo a cortar qualquer ângulo de fuga a Vicente.

- Calma, hombre, só queremos ver o que está no livro...

Rute aproximou-se da estátua de Ball e levantou-a com as mãos. A rudeza áspera e fria da pedra tomou-a de surpresa. A cara fazia-lhe lembrar a da estátua do demónio que havia visto no filme "O Exorcista".

- Têm a certeza que é Baal que estamos adorar?

- Não! Larga essa estátua, cabra! Não sabes o que estás a fazer - gritou Vicente, aterrado. - A Mulher de Branco não vai permitir essa afronta...

Encostada a Sílvia, Joana continuava a gemer baixinho.



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Re: 6º Conto BBdE

Postby Ripley » 28 Apr 2009 16:00

- O quadro! O quadro! Não!

Os olhos dos outros viraram-se na direcção do quadro enquanto Lara tentava levantar-se, rugindo. Ana estava de pé em frente do retrato da Dama de Branco segurando uma vela na mão direita erguida. O ombro segurava-lhe precariamente as ligaduras e a mão esquerda ostentava um crescente prateado.

- Tanith, a prateada, Tanith a Lua, Tanith vingadora, castiga os prevaricadores!

Ana virou-se devagar. O sangue parara de escorrer e ela ostentava agora um brilho terrível nos olhos. A Dama de Branco do quadro desaparecera e Lara gemeu de terror.

- Perdoa, Anat, perdoa! Mot forçou-me! Não me mates!

A voz de Ana soou de modo estranho.

- Castiguei Mot uma vez por ter tentado eliminar Baal, o meu adorado irmão. Achas que iria agora deixá-lo ser bem sucedido?

O seu olhar fulgurante fixou-se brevemente nos outros antes de se virar para Vicente.

- Tolos, não me deram ouvidos! Quanto a ti - não estavas à espera que eu me apercebesse do que tentaste fazer, pois não? Não suportaste ser desterrado para as profundezas e andaste todos estes séculos tentando voltar a imperar à superfície... Enganaste meio mundo fazendo-os pensar que Hades era a tua nova personificação - e nesse meio tempo disfarçaste-te muito bem... muito bem mesmo. Passaste de um corpo para outro dos teus seguidores. Mas Mot ou Thanatos, tanto faz – as filhas de Neith juraram não te deixar voltar mais!

O crescente prateado era afinal uma lâmina curva sacrificial que ela apontava à garganta de Vicente. Este retribuiu o olhar feroz e endireitou-se face à sua opositora, um esgar contorcendo-lhe os lábios num arremedo de sorriso.

- É demasiado tarde. Se já tiverem consumado o casamento não tardarão a transformar-se e nessa altura descerão para vos devorar a todos! E eu voltarei a imperar!

- Achas mesmo que eu iria deixar que isso sucedesse com essa facilidade toda? Só um deles vai descer a escadaria, meu caro ...


Nisto ouviu-se a porta do quarto a abrir, chiando devagar.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: 6º Conto BBdE

Postby pictish scout » 03 May 2009 04:17

Vicente sorriu tristemente, ficando o olhar para o crescente prateado.
- É tarde – disse ele num tom melancólico. – Baixa os braços e reconhece que não há volta a dar.
Lara franziu o cenho preparando-se física e mentalmente para a aberração que iria surgir por detrás da porta.
- Olha lá para fora – sugeriu Vicente.
Lara desviou o olhar. A tempestade ribombava lá fora, mas não era chuva que caía do céu. Uma torrente vermelha e negra embatia com força no vidro das janelas, um vento uivante arrancava a tinta das paredes. O mundo parecia enrolar-se como uma folha velha de pergaminho. Como se um mar de fogo e sangue o lavassem de todos os seus pecados.
- Isto não está a acontecer! – A voz agora estrondosa de Ana ressoou pela casa. Vicente esboçou um leve sorriso.
- O que sabes tu? – perguntou Vicente. – Tudo são mentiras, falsidades e ilusões. Tu mesma… tens a certeza que és real? Todas estas mortes, o sangue, o crescente prateado?
- Estás a jogar com a minha mente!
A porta abriu-se finalmente e a sala foi rapidamente inundada por uma luz dourada muito forte. Ana cobriu os olhos virando a palma da mão para fora. Viu surgir dois vultos, dois corpos nus, brilhando como se estivessem suados. Reconheceu Rute, mais bela que nunca e Pedro com o pénis murcho coberto de moscas.
O ventre de Rute começou lentamente a inchar, mas o seu sorriso permaneceu imaculado, como uma santa prestes a receber a glória divina. O pénis de Pedro caiu ao chão onde começou a ser devorado pelas moscas. Pedro não deu qualquer sinal de dor e continuou a caminhar ao lado de Rute, na direcção de Ana.
- Isto não está a acontecer!
- O teu erro, Anat, foi teres julgado que me queria apoderar da superfície do mundo – continuou Vicente. – Estás enganada. Contento-me com o inferno.
Quando parecia que o ventre de Rute não poderia inchar mais, encolheu repentinamente. Um dilúvio de sangue escorreu-lhe por entre as pernas. Uma massa disforme caiu ao chão, à semelhança do pénis de Pedro, mas começou a mover-se lentamente enquanto Rute desfalecia para trás, como que desprovida de energias para continuar a andar. Ana começou a vislumbrar melhor a massa disforme. Era uma criança com uma grande cabeça, barriga dilatada, olhos encovados e membros incrivelmente esqueléticos.
Pedro começou a sangrar como um estigmatizado, mas em vez de portar as chagas de Cristo, parecia ter sofrido ferimentos de balas e cortes profundos de armas brancas. Em breve caminhava sob um lago de sangue.
- O inferno não é um lugar assim tão mau – disse Vicente. – Apesar de crianças morrerem à fome, apesar de haver guerras, apesar de haver uma minoria que dita as regras, que governa, que cataloga, que explora, que pisa, que esmaga diariamente a maioria da humanidade… apesar de toda a indiferença, de toda inércia, apatia, estupidez, ignorância e hipocrisia, ainda é possível um grupo de jovens mimados tirarem umas férias agradáveis. Ainda é possível ser-se feliz no inferno, seja qual for o nome que dês a este mundo
- Isto não está a acontecer! – Ana gritou, mas Lara sentia-se terrivelmente só.
Vicente continuou a olhar para ela. O sorriso esboçado no seu rosto não era de triunfo nem de escárnio, mas de compaixão.
O crescente prateado derreteu e pingou para o chão.
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Re: 6º Conto BBdE

Postby Thanatos » 03 May 2009 22:20

Segredos!

Todos temos segredos escondidos dentro de nós. Daqueles que nem amantes, nem filhos, nem pais ou confessores nos arrancam da carne e da memória. Esses segredos vão para a tumba connosco. São o tipo de segredos que deram origem a Kaspar Hauser, o Mary Celeste, os Romanov e o Homem da Máscara de Ferro. São os enigmas que perduram na memória dos povos e que formam as raízes dos mitos que nos envolvem.

Uma residencial existe na região de Ístria que se diz assombrada. Embora a grande maioria das pessoas neste novo milénio de telecomunicações, internet e aldeia global já despreze as histórias de velhas a verdade é que de vez em quando, muito de vez em quando, e em certos locais abate-se um peso inexplicável e as gentes evitam passar por lá ou sequer falar ou reconhecer que ali em tempos existiu algo.

Assim foi com a Residencial do Sr. Max. Quando o motorista da empresa de turismo regressou para apanhar os finalistas deparou com uma casa abandonada. As portas estavam escancaradas e as portadas das janelas batiam ao ritmo do vento. O motorista vagueou pela casa, de divisão em divisão mas não encontrou vivalma. Pensando que tinham todos descido à praia para uma festa de despedida e que se tinham esquecido das horas ainda se prestou a descer a falésia mas logo do cimo pode ver a praia deserta e batida pelas ondas agrestes. Desorientado ligou para a agência de turismo que lhe recomendou avisar a guarda.

A notícia do desaparecimento dos 15 finalistas e do staff da residencial foi notícia durante algumas semanas mas perante a incapacidade da PJ de apresentarem provas ou factos e a aparente falta de colaboração das autoridades croatas o caso foi sendo esquecido pelos jornais e TVs e foi passando para a boca do povo que depressa embelezou o enigma com histórias de almas penadas, pactos satânicos e outros disparates supersticiosos.

A verdade é que quando o vento sopra por entre as paredes em ruínas da antiga residencial soa aos gemidos em lenta agonia de almas condenadas a um suplício eterno.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!


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