Freaks - Tod Browning

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Freaks - Tod Browning

Postby Samwise » 10 Mar 2010 03:37

Tod Browning, actor e realizador de cinema americano, nasceu em 1880 e morreu em 1962. O seu contributo para mundo da sétima arte estendeu-se ao longo de cerca de três décadas, entre 1910 e 1940, tendo trabalhado com D.W. Griffith, como actor, e dirigido pela sua mão algumas dezenas de filmes durante a época muda, até 1929. Contudo, foi através de dois filmes do período sonoro que Browning garantiu a "imortalidade" no meio: Dracula, de 1931, e Freaks (Aberrações), de 1932, sendo que este último, devido à controvérsia que gerou e aos fracos resultados de bilheteira, viria a determinar o final da sua carreira como cineasta. Browning ainda chegou a realizar outros filmes depois de Freaks, mas raramente os estúdios lhe voltaram a confiar a possibilidade de filmar projectos próprios, o que fez com que o autor se afastasse progressivamente do meio, para uma vida de exclusão e encarceramento na sua residência.

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Baseado vagamente no conto Spurs, de Tod Robbins, Freaks causou polémica (e foi banido em vários estados e países) por integrar no seu elenco artistas com profundas deformações físicas, actores em papéis que representavam aquilo que faziam na vida real, espectáculos de variedades em circos itinerantes, numa encenação em que as fronteiras da realidade e do artístico por vezes colidem e se confundem. Obrigado a cortar da fita quase trinta minutos - supostamente com as cenas mais chocantes - Browning viu a sua obra ser apupada pelos críticos da época e sofrer o desprezo do público na afluência às salas.

Desde então, e até aos dias de hoje, Freaks ficou sujeito à avaliação e ao escrutínio que o tempo normalmente impõe (para glória de algumas obras e desgraça de outras) e acabou por se tornar num reconhecido filme de culto.

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Subversivo em quase todas a matérias que foca (a mais óbvia é a associação da palavra "aberrações" ao intelecto de alguns personagens, por contraste com a sua aparência física dita "normal"), frequentemente incomodativo (as deformidades profundas que mostra, o tratamento de animais que estes seres diferentes recebiam de terceiros, a conotação sexual de algumas sequências), ligeiro noutros momentos (há uma série de gags humorísticos espalhados pelo filme), Freaks é um filme que impressiona pela carga de sentimentos ambíguos e estranheza que gera no espectador.

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O mote "ofendam um deles e estarão a ofendê-los a todos" serve de suporte a uma história de vingança passada numa comunidade mista de artistas de circo, nos bastidores do espectáculo, com uma situação de cobiça material a erguer-se no meio da cíclica rotina do dia-a-dia. Cleopatra, a trapezista da companhia (alguém que encaixaria bem na expressão orewlliana "alguns são mais iguais do que outros" se esta fosse transposta para a realidade do filme), ao saber que Hans, um dos anões, recebeu uma herança elevada, vai servir-se da sua beleza física para o seduzir.

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Não é por acaso que a celebração da festa do casamento (o casamento em si parece ter sido cortado do filme) é a sequência mais importante e subversiva do filme todo: é a comunidade de aberrações, respeitando um código existencial implícito, que organiza um ritual de aceitação ao "estranho" (que neste caso é à noiva), e não o contrário (como seria de esperar, uma vez que foi Hans que abandonou a "sua comunidade" para se juntar com alguém "normal"), sequência essa que no desfecho profetiza outra outra posterior, passada na lama, em que a sentença do grupo, já sob a forma de "justa retribuição" vai desabara sobre Cleopatra.

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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Thanatos » 10 Mar 2010 10:17

Há uma cena no filme que é de certa forma muito tocante... mas a seu tempo falaremos dela. ;)

Boa introdução, Samwise. Foi uma pena não podermos ter incluído também o Dracula dele no ciclo. Ficava a matar. ^_^
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Samwise » 10 Mar 2010 11:50

Thanatos wrote:Foi uma pena não podermos ter incluído também o Dracula dele no ciclo. Ficava a matar. ^_^


Com a periodicidade fixada por alto em duas semana de intervalo entre cada filme, há sempre oportunidade de sugerir obras que complementem a experiência daquele que está a ser debatido, tal como aconteceu no Bride of Frankenstein (à conta do Frankenstein inicial e do Gods and Monsters). Não vejo porque não possa ser de igual modo com o Freaks e com os restantes filme do ciclo. ;)

Por acaso não me perco de amores pelo Dracula de 1931 e não o escolheria para cabeça de cartaz nesta iniciativa. É um bom filme tendo em conta a época, tem estatuto de clássico, mas é muito, muito teatral. Nesse aspecto está a anos-luz do mais directo "rival": Frankenstein de Whales.

Sugiro outra obra para complementar o Freaks: o The Unknown, considerado o seu precedente espiritual. A introdução que está na wiki dá para ficar com água na boca:

The Unknown is a 1927 American silent horror film directed by Tod Browning and featuring Lon Chaney as carnival knife thrower Alonzo the Armless and Joan Crawford as the scantily clad carnival girl he hopes to marry.

The Unknown is by far the most intense and demented of director Tod Browning's films (which include Dracula and Freaks). Joan Crawford always said that she learned more about acting from working with Chaney in this movie than from everything else in her long career put together, and critics often cite Chaney's performance as one of the greatest ever captured on film. Burt Lancaster always maintained that Chaney's portrayal in The Unknown was the most emotionally compelling film performance he had ever seen an actor give. Chaney also did remarkable and convincing collaborative scenes with real-life armless double Paul Desmuke (sometimes credited as Peter Dismuki), whose legs and feet were used to manipulate objects such as knives and cigarettes in frame with Chaney's upper body and face.

As with Freaks, contemporary reviewers were sometimes less appreciative. "A visit to the dissecting room in a hospital would be quite as pleasant," opined the New York Evening Post, "and at the same time more instructive." Modern viewers can discern the same macabre style of this film (and other Browning-Chaney collaborations) in later productions ranging from the 1930s Universal Studios horror films to the 1960s Twilight Zone and Alfred Hitchcock Presents programs.
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Thanatos » 10 Mar 2010 11:54

Samwise wrote:(...)
Por acaso não me perco de amores pelo Dracula de 1931 e não o escolheria para cabeça de cartaz nesta iniciativa. É um bom filme tendo em conta a época, tem estatuto de clássico, mas é muito, muito teatral. (...)



Não é de estranhar visto que foi uma adaptação directa da peça de teatro e não do romance. :P

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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Samwise » 10 Mar 2010 13:47

Thanatos wrote:
Samwise wrote:(...)
Por acaso não me perco de amores pelo Dracula de 1931 e não o escolheria para cabeça de cartaz nesta iniciativa. É um bom filme tendo em conta a época, tem estatuto de clássico, mas é muito, muito teatral. (...)


Não é de estranhar visto que foi uma adaptação directa da peça de teatro e não do romance. :P

Eu adoro-o e com a música do Glass então é um mimo.


Um mimo são aqueles "efeitos especiais" do morcego a esvoaçar à entrada da janela (também há um desses no Frankenstein). :mrgreen:

Voltando ao Freaks, e enquanto esperamos pelo texto da annawen (normalmente com o dom de espicaçar a conversa), o que é que acharam do ambiente do filme?

Parece-me que passa por várias fases algo autónomas.

O texto inicial, por um lado, logo seguido da apresentação do espectáculo ao público por um "barker" (um "cargo" que o próprio Browning desempenhou nos seus anos de circo) definem à partida, sem o revelarem por imagens, que a experiência que se segue não vai ser propriamente "normal" e que pode chocar os espíritos mais sensíveis. Ao mesmo tempo, espicaçam a curiosidade pelo grotesco que ocorre no espectador, de uma forma semelhante àquela que leva as pessoas ao circo para ver as deformidades. Mas se a leitura do texto resulta, de certa forma, num sentimento de empatia para com a desgraça, o discurso do apresentador é pautado por algo dissonante e agressivo: o enaltecer das características particulares da "comunidade de aberrações" para provocar o temor e a repulsa no público.

Uma analepse transporta-nos depois para o tempo principal da narrativa, e o tom regressa um pouco à suavidade da empatia: o proprietário do terreno onde o circo está instalado desloca-se ao local para ver as aberrações, impelido pelo seu capataz, que está visivelmente irritado com a afronta (para ele, estes seres deviam ser escorraçados como animais). O juízo do proprietário ao ver a realidade é, contudo, bastante diferente. É um de entendimento e empatia.

Logo de seguida inicia-se uma fase episódica que dura até ao momento do casamento. Vemos várias cenas da vida em comunidade, as relações que juntam e afastam os personagens uns dos outros, e uma panorâmica, em jeito de visita guiada, demonstrativa das deformidades particulares de cada uma das aberrações. Há quatro personagens que são "normais", não têm deformações físicas, duas delas criteriosamente definidas como "estranhas" à comunidade - olham para as aberrações com desprezo e chacota -, e outra duas que são o oposto ("os bons da fita"). Durante esta fase, o tom dominante é mesmo o humor (não só, mas este será o principal) - e o contraste entre a imagem visual e o conteúdo da encenação chega a ser grotesco.

A partir daí, e quase até ao final, o tom torna-se pesado e trágico. Um acontecimento particular no jantar de casamento vai originar uma acção de vingança concertada por parte das aberrações. Há um gag quase a fechar o filme (no momento em que a analepse termina e nos é revelada a aparência de Cleopatra), mas até lá a sequência de acontecimentos é narrada em tons de negro.
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby annawen » 10 Mar 2010 15:20

Bom, ainda vou a meio do resto do comentário, mas vou pôr aqui o que já fui pensando.

Acima de tudo, este filme levanta várias questões éticas relacionadas com o facto de estarmos a ver pessoas reais e não actores com maquilhagem. Este aspecto para mim é essencial e aquele que torna o filme tão interessante, até como reflexão sobre a própria natureza do cinema, do olhar do espectador. A grande questão que se coloca é: este é um filme que retrata com humanidade uma pequena comunidade de pessoas com graves deformações ou, pelo contrário, é um filme que se serve dessas deformações para entretenimento, como as "Casas de Horrores" do século XIX?

O historiador do meu DVD (infelizmente não me lembro do nome) é da opinião que cabe a cada espectador encontrar a resposta. Pois, a minha resposta, é que o filme é as duas coisas. Por uma razão muito simples: a existência da câmara. O real visto por uma câmara é sempre problemático, pelo menos para mim. Uma coisa que muitos documentaristas não referem, mas já abordado por Zizek, por exemplo. Parafraseando alguém: quando a câmara cinematográfica entra pela porta, a inocência sai pela janela. Na minha opinião (mas não só minha, neste aspecto tenho a companhia do próprio Zizek, Hitchcock e Michael Powell), há sempre uma perversidade na câmara. Por melhores intenções que o realizador tenha. Há também um rasto de perversidade no olhar do espectador, não interessando se essa perversidade é consciente ou não. O cinema é uma arte dos voyeurs e quem vê cinema é um voyeur. Não é possível fugir a isto. Assim, "Freaks" parece-me um objecto híbrido: por um lado apresenta-nos, quase em forma de documentário, a vida de uma comunidade de "freaks" circenses, e por outro, há um lado não tão inocente na maneira como essa vida é apresentada perante a câmara (precisamente por existir uma câmara).

Assim, o que é interessante neste filme é o que essa dupla natureza faz ao espectador. Digamos que "Freaks" obriga o espectador o olhar para si próprio. A analisar os seus próprios sentimentos para descobrir se o que ele sente é curiosidade por estar a ver deformidades ou se realmente vê os "monstros" como pessoas, ou então se pensa "ainda bem que não sou como eles". Que o espectador navegue por estes sentimentos ao longo do filme é uma das mais valias deste, na minha opinião. E a sua singularidade. Porque o próprio filme vacila nestes sentimentos. O olhar da câmara é entre o curioso, o documental, uma certa simpatia e uma certa perversidade também. Porque nós ficamos interessados nas vidas daquelas pessoas mas, ao mesmo tempo, não nos identificamos completamente com elas (como poderíamos?). Penso que o mesmo sucede quando vemos as fotografias da Diane Arbus, uma fotógrafa que, tal como Browning, tinha o fascínio pelo "outro", pela deformidade, pelo marginal. Nós não somos a Cleópatra e o Hércules mas também "não somos um deles" (numa das sequências mais emblemáticas da história do cinema). Mas o filme apresenta este aspecto perverso: nós não queremos ser um deles, mas ao mesmo tempo estamos com eles na altura da vingança. Isto é, nós queremos ver o que é que eles vão fazer aos maus, e desejamos o pior possível. Queremos saber que ser é que está na caixa que é mostrada no início do filme.

E o mais interessante é a maneira como os "monstros" nos são apresentados: Há momentos de grande ternura (com a Madame e as suas "crianças", por exemplo); há momentos de humor (as gémeas siamesas, ...), mas estes "monstros" não são indefesos. A partir da festa de casamento, o filme muda de tom e passa a ser muito mais negro. A vingança dos "monstros" é terrível e, se pensarmos bem nela, excessiva (demasiado excessiva porque afinal os planos da Cleópatra foram descobertos a tempo, o Hans não morreu). Assim como é excessiva, e assustadora por causa desse excesso, a cantilena do "one of us". A partir daqui os "monstros" são perigosos. E dei por mim a pensar que não gostaria de estar na pele dos maus. Um dos planos mais terríveis é o grande plano do Hans quando dá o sinal aos outros para atacarem a mulher e o amante. Outro é o plano que mostra uma das "crianças" da mulher italiana a empunhar uma faca.

Para terminar (por agora): "Freaks" foi sujeito a muitos cortes. Há pelo menos 3 finais alternativos. Muitas sequências, algumas de cariz sexual, foram cortadas. Mas os cortes mais importantes, para mim, pelo menos, são os referentes à perseguição. Presumo que essas cenas tenham desaparecido senão o DVD com certeza as incluía. Nelas viam-se os "monstros" a atacar a Cleópatra, depois desta ter ficado presa debaixo de uma árvore.
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Samwise » 10 Mar 2010 16:19

annawen wrote:. A grande questão que se coloca é: este é um filme que retrata com humanidade uma pequena comunidade de pessoas com graves deformações ou, pelo contrário, é um filme que se serve dessas deformações para entretenimento, como as "Casas de Horrores" do século XIX?

O historiador do meu DVD (infelizmente não me lembro do nome) é da opinião que cabe a cada espectador encontrar a resposta. Pois, a minha resposta, é que o filme é as duas coisas. Por uma razão muito simples: a existência da câmara. O real visto por uma câmara é sempre problemático, pelo menos para mim. Uma coisa que muitos documentaristas não referem, mas já abordado por Zizek, por exemplo. Parafraseando alguém: quando a câmara cinematográfica entra pela porta, a inocência sai pela janela. Na minha opinião (mas não só minha, neste aspecto tenho a companhia do próprio Zizek, Hitchcock e Michael Powell), há sempre uma perversidade na câmara. Por melhores intenções que o realizador tenha. Há também um rasto de perversidade no olhar do espectador, não interessando se essa perversidade é consciente ou não. O cinema é uma arte dos voyeurs e quem vê cinema é um voyeur. Não é possível fugir a isto. Assim, "Freaks" parece-me um objecto híbrido: por um lado apresenta-nos, quase em forma de documentário, a vida de uma comunidade de "freaks" circenses, e por outro, há um lado não tão inocente na maneira como essa vida é apresentada perante a câmara (precisamente por existir uma câmara).

Assim, o que é interessante neste filme é o que essa dupla natureza faz ao espectador. Digamos que "Freaks" obriga o espectador o olhar para si próprio. A analisar os seus próprios sentimentos para descobrir se o que ele sente é curiosidade por estar a ver deformidades ou se realmente vê os "monstros" como pessoas, ou então se pensa "ainda bem que não sou como eles". Que o espectador navegue por estes sentimentos ao longo do filme é uma das mais valias deste, na minha opinião. E a sua singularidade. Porque o próprio filme vacila nestes sentimentos. O olhar da câmara é entre o curioso, o documental, uma certa simpatia e uma certa perversidade também. Porque nós ficamos interessados nas vidas daquelas pessoas mas, ao mesmo tempo, não nos identificamos completamente com elas (como poderíamos?).


Pegando nisto, e servindo-me também da abordagem que fiz antes desta:

Samwise wrote:Logo de seguida inicia-se uma fase episódica que dura até ao momento do casamento. Vemos várias cenas da vida em comunidade, as relações que juntam e afastam os personagens uns dos outros, e uma panorâmica, em jeito de visita guiada, demonstrativa das deformidades particulares de cada uma das aberrações. Há quatro personagens que são "normais", não têm deformações físicas, duas delas criteriosamente definidas como "estranhas" à comunidade - olham para as aberrações com desprezo e chacota -, e outra duas que são o oposto ("os bons da fita"). Durante esta fase, o tom dominante é mesmo o humor (não só, mas este será o principal) - e o contraste entre a imagem visual e o conteúdo da encenação chega a ser grotesco.


Quero dizer que concordo contigo quanto à noção de que as duas perspectivas (a do voyeur inevitável que somos e a da mostra da humanidade tal como ela é) convivem no mesmo filme de mãos dadas, embora cada uma arrumada no seu cantinho - sendo que aqui os cantinhos são mais ou menos segmentados de acordo com as secções do filme.

A secção episódica que descrevo tem, a meu ver, um propósito estrutural muito bem definido: mostrar por todo os meios possíveis que a vida das aberrações é *igual* à das pessoas "normais". A visita guiada pelo quotidiano da comunidade circense expõe a cru e banaliza os hábitos e costumes das aberrações; coloca em evidência que a vida profissional, a vida familiar, os sentimentos e as emoções daquela gente são indestrinçáveis das de qualquer outra pessoa, mesmo que sujeita às condições adversas da prisão em que vivem.

É um "módulo" do filme que serve de aproximação entre protagonistas e espectadores - mostra aquilo que é comum às duas comunidades.

Bons exemplos disto são as várias cenas das aberrações sem membros a comerem, a beberem e a fumarem; a novela sentimental/melodramática despoletada pelo devaneio amoroso de Hans; as cenas da vida conjugal das gémeas siamesas, cada uma com o respectivo amante a convidar o outro para "aparecer lá por casa quando tiver tempo" (genial gag); e até as conversas corriqueiras que vão tendo uns com os outros, como normais vizinhos, a propósito de tudo e de nada.

Partindo deste pressuposto de identificação entre o espectador e as personagens, entra agora o critério de ruptura: "mas, ao mesmo tempo, não nos identificamos completamente com elas (como poderíamos?)" - uma ruptura que é provocada pela deformação física, algo que mais tarde vai ser levado até aos limites pela exploração do lado perverso e agressivo daquela gente.

A questão que se levanta nesse momento é ainda mais perturbante: e não será nessa altura, na altura em que a violência premeditada toma conta dos actos da comunidade de aberrações, que nos sentimos humanamente mais próximos deles (monstros) ?
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Samwise » 10 Mar 2010 16:34

annawen wrote:A partir da festa de casamento, o filme muda de tom e passa a ser muito mais negro. A vingança dos "monstros" é terrível e, se pensarmos bem nela, excessiva (demasiado excessiva porque afinal os planos da Cleópatra foram descobertos a tempo, o Hans não morreu). Assim como é excessiva, e assustadora por causa desse excesso, a cantilena do "one of us". A partir daqui os "monstros" são perigosos.


Ahh, mas a vingança dos monstro não é o resultado directo da tentativa de envenenamento de Hans - essa questão serviu-lhes foi de justificação para agirem . A vingança dos monstros vem de algo bem mais profundo, a ofensa à sua condição de humanos. O que originou essa ofensa: a reacção de Cleopatra quando a taça do ritual lhe foi passada para as mãos. Vejo aquele ritual de aceitação de um estranho como a honra máxima que a comunidade de aberrações poderia conceder a uma pessoa "normal". É a aceitação de alguém de um mundo que a eles lhes negou à nascença qualquer hipótese de terem uma boa vida. É dizerem: "o vosso mundo tratou-nos como animais mas mesmo assim consideramos que tu és uma pessoa à parte e aceitamos-te como um dos nossos."

O ritual veio por inerência ao casamento de Hans com Cleopatra. Foi um sinal de boa-vontade da comunidade para como o casal.

E o que faz Cleopatra? Olha para a taça de vinho como sendo a bacia de água de onde bebem os cães.
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Thanatos » 10 Mar 2010 18:38

Olha! Afinal já estamos em plena discussão! :o Apanharam-me desprevenido.

O tal momento tocante para mim é a cena em que Hans anuncia à noiva que vai sair porque a Cleopatra o ama e ele a ama. A expressão da noiva, repudiada, abandonada e percebendo claramente a ilusão em que o seu amor está a embarcar é simplesmente tocante.
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Samwise » 10 Mar 2010 20:19

annawen wrote:Para terminar (por agora): "Freaks" foi sujeito a muitos cortes.

A narrativa está toda retalhada. O processo de aproximação do Hans à Cleopatra, e o consequente afastamento da sua anterior companheira, por exemplo, está ao saltos. Dá para adivinhar o que sucede pelo meio, mas nota-se que falta ali qualquer coisa...

Há pelo menos 3 finais alternativos. Muitas sequências, algumas de cariz sexual, foram cortadas.
Mas os cortes mais importantes, para mim, pelo menos, são os referentes à perseguição. Presumo que essas cenas tenham desaparecido senão o DVD com certeza as incluía. Nelas viam-se os "monstros" a atacar a Cleópatra, depois desta ter ficado presa debaixo de uma árvore.


:stars:

Nunca se chega a perceber como é que ela ficou com aquele aspecto, mas isto já dá umas luzes...

Em termos de conotações sexuais, mesmo assim ainda sobraram alguns pequenos atrevimentos: uma das conversa entre Cleopatra e Hercules, a propósito da comida que ela está a preparar; o nascimento da filha da mulher barbuda e o ficarmos a perceber quem é o marido; os relacionamentos amorosos das gémeas siamesas e o que a nossa imaginação faz à conta disso..

Thanatos wrote:O tal momento tocante para mim é a cena em que Hans anuncia à noiva que vai sair porque a Cleopatra o ama e ele a ama. A expressão da noiva, repudiada, abandonada e percebendo claramente a ilusão em que o seu amor está a embarcar é simplesmente tocante.


Tenho de rever. Não me lembro nada dessa cena/conversa.

A interpretação da anã é algo sofrível... <_<
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby annawen » 10 Mar 2010 21:07

Samwise wrote:Ahh, mas a vingança dos monstro não é o resultado directo da tentativa de envenenamento de Hans - essa questão serviu-lhes foi de justificação para agirem .


Não tenho essa interpretação. Para mim é o resultado do envenenamento. É a comunidade a voltar-se contra alguém que está a fazer mal a um deles, exactamente como o narrador diz, no início do filme. Claro que não é possível dizer com certeza o que os "monstros" fariam depois do comportamento da Cleópatra uma vez que é na cena a seguir que eles descobrem que o Hans está a ser envenenado.

Nunca se chega a perceber como é que ela ficou com aquele aspecto, mas isto já dá umas luzes...


Quando a Cleópatra está a fugir, um raio acerta numa árvore, e a árvore cai em cima das pernas dela. Os "freaks" apanham-na e atacam-na. Segundo o historiador, o plano termina com uma quantidade de "Freaks" em redor e por cima dela, cobertos de lama.

Não se vê também o que aconteceu ao Hércules mas, segundo o tal historiador, os "monstros" caparam-no, e ele está numa daquelas caixas, no mesmo sítio onde está a Cleópatra.

Em termos de conotações sexuais, mesmo assim ainda sobraram alguns pequenos atrevimentos


Sim, mas muito poucos e nada comparado com as intenções do Browning. Um exemplo: Parece que ele filmou uma cena em que a foca que aparece no filme se entusiasma, digamos assim, com a miúda com pés e mãos que parecem barbatanas. Essa miúda, chamada "Turtle Girl" (acho), aparece muito poucas vezes porque a maioria das cenas dela foram cortadas. Podemos vê-la a brincar no lago, com a italiana e os outros.

A questão que se levanta nesse momento é ainda mais perturbante: e não será nessa altura, na altura em que a violência premeditada toma conta dos actos da comunidade de aberrações, que nos sentimos humanamente mais próximos deles (monstros)?


Não sei se será só nessa altura. Mas definitivamente estamos do lado dos "monstros" nessa cena, embora, pelo menos no meu caso, não iria ao ponto de dizer que me identifico completamente com eles. É claro que queremos que os maus tenham o castigo. Mas também estamos com curiosidade, uma curiosidade mórbida, de saber o que vai acontecer. O que é que eles vão fazer à Cleópatra que a vai levar às caixas das aberrações. É essa curiosidade e o facto de, no final, vermos o resultado, que torna o filme complexo. Porque se por um lado nós sentimos a humanidade dos "monstros", por outro, nós somos espectadores de aberrações, não muito diferentes das pessoas que iam ver o "Circo de Horrores". E a prova é o final, quando a câmara mostra a "mulher-galinha". A nossa posição, tal como a da câmara, é precisamente a das pessoas que vêem a "mulher-galinha". A motivação que levou aquelas pessoas a verem a "mulher-galinha", a curiosidade, também existe em nós. Passamos o filme todo dentro da comunidade dos "monstros", assistindo a cenas do dia-a-dia, mas a verdade é que aquelas pessoas serão sempre para nós uma incógnita.

O que eu quero dizer é que há sempre um afastamento em relação a eles, mas ao mesmo tempo um reconhecimento da sua humanidade. Na realidade eles agiram como qualquer comunidade age quando têm que se defender de inimigos. A verdade é que os verdadeiros monstros são os "normais": Cleópatra e Hércules. Essa é a posição do realizador. E a minha. Embora, como disse em cima, as coisas sejam um pouco mais complicadas do que isso. Porque os "outros" continuarão a ser "os outros". Acho que este filme questiona muitas coisas em nós.

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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Samwise » 11 Mar 2010 02:48

Vi o The Unknown. Estou sem palavras. A informação da wiki estava correcta, deve ser dos filmes mais doentios e retorcidos que já vi (and I've seen some pretty weird stuff)- mas está tão bem feito, realizado e interpretado que só merece que lhe chamem de "obra-prima".

O Lon Chaney está irrepreensível! Transpira malícia por todos os poros.

O filme tem de facto as suas ligações ao Freaks (deformidades, circo, relação amorosa de características "anormais"), mas em termos narrativos é como da noite e o dia. Beneficia, claro, da vantagem de não ter sido severamente retalhado.
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby annawen » 11 Mar 2010 13:04

Uma coisa que me fez pensar quando ouvia o comentário do DVD: a cenas tantas o comentador, referindo-se ao actor que faz de anão, diz que se ele tivesse ficado na Alemanha em vez de ter vindo para os EUA, tinha sido morto pelos nazis. O que me lembrou logo que se todas aquelas pessoas fossem alemãs e estivessem na Alemanha, todas teriam sido mortas pelos nazis. E não demoraria muito pois Hitler chegou ao poder em 1933.

Estou a rever a cena do banquete que é a minha favorita do filme. Muito poderosa.

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Re: Freaks - Tod Browning

Postby annawen » 11 Mar 2010 13:13

Aqui vai uma fotografia da Diane Arbus (a primeira que me surgiu na net). Parece-me que há muitas ligações entre esta fotógrafa e os filmes do Browning. Susan Sontag, no livro dela sobre fotografia "On Photography", tem um texto muito interessante sobre esta fotógrafa.

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Há um filme sobre ela: "Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus" com a Nicole Kidman. Nunca vi mas talvez seja interessante.
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Re: Freaks - Tod Browning

Postby Samwise » 11 Mar 2010 13:53

annawen wrote:Estou a rever a cena do banquete que é a minha favorita do filme. Muito poderosa.


Sim, também já estive a rever essa cena umas quantas vezes. É mesmo muito boa. A tal ladainha "estrepitante" do "one of us" é impressionante - é como uma sinfonia macabra, mas cheia de boas intenções.

Quando a Cleopatra finalmente se "passa da cabeça" (apesar do contentamento alarve que deriva de ter conseguido fisgar o peixe) e lhes atira com a taça para cima, chega mesmo a berrar-lhes: "Freaks!"

Uma coisa que me fez pensar quando ouvia o comentário do DVD: a cenas tantas o comentador, referindo-se ao actor que faz de anão, diz que se ele tivesse ficado na Alemanha em vez de ter vindo para os EUA, tinha sido morto pelos nazis. O que me lembrou logo que se todas aquelas pessoas fossem alemãs e estivessem na Alemanha, todas teriam sido mortas pelos nazis. E não demoraria muito pois Hitler chegou ao poder em 1933.


O actor chama-se Harry Earles.

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Ontem acabei de ver um outro filme do Browning que por acaso também é protagonizado por ele: The Unholy Three, onde faz parelha com o Chaney e com o Victor McLaglen (o futuro Sr. sargento dos westerns de Ford) - um trio de golpistas com um "método de ataque" bastante original e delirante.

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Annawen, só de digo uma coisa: faz com que os próximos filmes que vejas sejam este e o The Unknown. Não te vais arrepender. Até estou com curiosidade para ver o que fazes deles. Ouvimos falar tanto do Browning por causa do Dracula e do Freaks, mas depois há outras pérolas que ficam votadas ao esquecimento, infelizmente. Tu ainda por cima gostas do Lon Chaney... ^_^
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