Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby Samwise » 26 Mar 2010 11:57

annawen wrote:E o plano da perna a bailar, que ainda fica durante muito tempo em transparência, enquanto os amigos vão descendo as escadas. O plano de pormenor da perna a bailar começa por ser um plano objectivo mas, ao manter-se no ecrã, depois da câmara sair do quarto de Ivy, torna-se num plano subjectivo, por representar os pensamentos do Dr Jekyll.

Quase que se poderia dizer: o que um homem precisa de fazer para dormir com uma mulher. :devil:


A questão que fica no ar é parecida com essa: teria o Jekyll passado a noite com a Ivy se o Lanyon não estivesse com ele?

É que toda esta cena está condicionada por esse factor. A brincadeira da sedução que o Jekyll se dispõe a aceitar sem grande pudor está condenada à partida a não ter consequências de maior.

No diálogo que eles estão a ter antes de depararem com a Ivy a levar pancada no meio da rua, e que sucede à recusa do general em ceder a mão da filha a curto prazo, o Jekyll diz qualquer coisa parecida com: "Wait?! Why the devil should I wait?".
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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby annawen » 26 Mar 2010 14:59

Samwise wrote:A questão que fica no ar é parecida com essa: teria o Jekyll passado a noite com a Ivy se o Lanyon não estivesse com ele?


Isso não sei. Penso que não, porque na conversa que ele tem com o amigo fica-se a saber que são só as convenções que o impedem de fazer certas coisas. Daí a transformação no Hyde. Ele através do Hyde pode fazer o que lhe apetece sem consequências para ele, Jekyll, uma vez que o Hyde não existe. Os problemas começam quando é a existência do Jekyll que corre perigo. A partir do momento é que ele precisa de tomar o remédio para reverter ao estado original. Quer dizer a brincadeira custou-lhe a identidade. E é isso que ele diz à noiva da última vez que a vê.

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby Samwise » 26 Mar 2010 16:21

annawen wrote:
Samwise wrote:A questão que fica no ar é parecida com essa: teria o Jekyll passado a noite com a Ivy se o Lanyon não estivesse com ele?


Isso não sei. Penso que não, porque na conversa que ele tem com o amigo fica-se a saber que são só as convenções que o impedem de fazer certas coisas. Daí a transformação no Hyde. Ele através do Hyde pode fazer o que lhe apetece sem consequências para ele, Jekyll, uma vez que o Hyde não existe. Os problemas começam quando é a existência do Jekyll que corre perigo. A partir do momento é que ele precisa de tomar o remédio para reverter ao estado original. Quer dizer a brincadeira custou-lhe a identidade. E é isso que ele diz à noiva da última vez que a vê.


Concordo com o que dizes, e tendo também isso em conta diria que naquela cena o Jekyll já foi longe de mais. A convenções não o impediram de apreciar o strip e também não o impulsionaram a afastar a rapariga no momento do beijo. Ele deixou-se ir, conscientemente ou não.

--- EDIT ---
Outra coisa, fiquei com ideia de que o Hyde precisou sempre de ingerir a fórmula para regressar a Jekyll. O que sucede é um pouco diferente: às tantas o Hyde não precisa é de fórmula nenhuma para aparecer. A sua personalidade já tem força suficiente para se sobrepor ao Jekyll. Talvez até a suficiente para ter uma consciência própria.
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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby annawen » 28 Mar 2010 03:17

Samwise wrote:Outra coisa, fiquei com ideia de que o Hyde precisou sempre de ingerir a fórmula para regressar a Jekyll. O que sucede é um pouco diferente: às tantas o Hyde não precisa é de fórmula nenhuma para aparecer. A sua personalidade já tem força suficiente para se sobrepor ao Jekyll. Talvez até a suficiente para ter uma consciência própria.


Deves ter razão. Em também fiquei com essa ideia, mas outra possibilidade de que me lembrei era de que a poção tinha uma duração. Estive a rever a 1ª transformação do Jekyll em Hyde e não se chega a ver o reverso. Já não me lembro como é o livro. Mas para o caso não interessa muito. No final, é a existência do Jekyll que está em perigo, uma vez que o Hyde só recorre à transformação porque andam atrás dele. O controle que o Jekyll tinha sobre a transformação e a situação desaparece. Esta última fase é muito pungente no livro. Ainda não vi nenhuma adaptação que foque o sofrimento do Jekyll e da luta que ele tem para se manter em controle, para não desaparecer.

---

Aqui está o final do 1º encontro do Mr Hyde com a Ivy. Acho que contrasta com a cena do 1º encontro da Muriel com o Jekyll. Já não estamos num jardim, mas sim numa taberna. Não está a decorrer um baile, mas sim um music-hall. A Ivy é uma prostituta, a Muriel uma rapariga de boas famílias. O primeiro enquadramento estabelece logo uma relação de poder. A figura de Hyde sobrepõe-se à de Ivy, enquanto que na outra cena, os dois novos aparecem, de perfil, ao mesmo nível. Ambos ocupam um estrato social semelhante. Ambos se amam. Ivy não ama Hyde, mas isso não lhe interessa a ele. Não é amor que ele pretende. Aqui o sexo está associado ao poder e, mais tarde, à morte. Os diálogos sublinham isso mesmo. E é curioso como são o reflexo dos diálogos da cena Jekyll/Muriel. Aqui não há frustração e impotência, só há vontade: "What I want I get".


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HYDE: Forgive me my dear. You see... I hurt you because I love you.

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HYDE: I want you. And what I want... I get.

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HYDE: Now, I grant you, I am no beauty...

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HYDE: ... but under this exterior...

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HYDE: ... you'll find a very flower.

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HYDE: Look at me. You suppose I let anyone stand in my way?

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HYDE: I love you. I love you, you understand?

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HYDE: You'll come with me.

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HYDE: You'll come with me.

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No grande plano do Jekyll, este diz: "Then who shall ever separate us?" Uma pergunta que já contém em si a possibilidade de existir alguém que os vai conseguir separar. No grande plano do Hyde (reflexo do GP do Jekyll), este diz: "You'll come with me." Já é uma afirmação de uma vontade.

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby MAGG » 02 Apr 2010 03:29

O início do filme, demarcado com a utilização da câmara subjectiva, impressionou-me devido à utilização inteligente de cenários muito reduzidos, que caracterizam o decorrer da acção em variados e distintos ambientes.
A utilização da técnica chamou-me a atenção devido a uma crescente sensação de claustrofobia perante a visualização dos mesmos... esta técnica afectou-me e bem...

Concordo com a Annawen em relação ao facto de que a separação desejada e proclamada pelo Dr é contrastante com o seus pensamentos. O dr ,em quase todo o filme, proclama que o Homem encerra em si os dois lados contrários que se complementam e o completam. Todo o filme encerra esta dicotomia , logo a ideia subjacente não é a da separação mas a da união das partes diferentes. A poção vejo-a como um meio que enaltece apenas um dos lados mas sem nunca apagar o outro por completo. A separação vejo-a essencialmente na vida dupla que o mesmo leva aquando as transformações ( duas relações com mulheres tão distintas ).
Se o livro não encerra esta acção amorosa, no filme a mesma surge como um dos elementos centrais que intensificam a diferença subjacente nos dois lados desenvolvidos alternadamente.

A parte da transformação está muito bem conseguida , ainda mais tendo em conta a época em que o filme foi feito, as alternações entre os planos fixos e entre os vários ambientes cinematográficos atribuem uma grande riqueza ao mesmo.
O Fredric March tem uma prestação absolutamente carismática e a Miriam Hopkins não lhe fica atrás.

Nunca tinho visto o filme e até agora fiquei com uma impressão muito boa acerca do mesmo .
Tendo em conta que ainda me faltam vêr os 30 m finais ... :thumbup:

Samwise wrote:Outra coisa, fiquei com ideia de que o Hyde precisou sempre de ingerir a fórmula para regressar a Jekyll.

Também me deu essa impressão, especialmente devido à cena em que ocorre a primeira transformação no Mr Hyde (se não estou em erro ), pouco tempo antes do empregado chamar pelo Dr Jekyll e este mesmo depois aparecer à porta.

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby Samwise » 04 Apr 2010 00:22

Mais vale tarde que nunca... :friends:

Já comecei a ver o A Bela e o Monstro, mas amanhã ainda venho aqui comentar algumas deixas.
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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby Samwise » 05 Apr 2010 01:23

MAGG wrote:Concordo com a Annawen em relação ao facto de que a separação desejada e proclamada pelo Dr é contrastante com o seus pensamentos. O dr ,em quase todo o filme, proclama que o Homem encerra em si os dois lados contrários que se complementam e o completam. Todo o filme encerra esta dicotomia , logo a ideia subjacente não é a da separação mas a da união das partes diferentes. A poção vejo-a como um meio que enaltece apenas um dos lados mas sem nunca apagar o outro por completo. A separação vejo-a essencialmente na vida dupla que o mesmo leva aquando as transformações ( duas relações com mulheres tão distintas ).


À luz destas ideias, annawen (e MAGG?) , sugiro que vejas novamente o Mary Reilly e a forma como subverte as ideias da adaptação de Mamoulian. Neste filme de Stephen Frears, tanto o Jeckyll como o Hyde amam a mesma mulher, e de certa forma a transformação em monstro permite a desinibição do desejo de estar perto dela, para além de "outras coisas". É um filme muito conseguido. Mesmo tendo gostado dele da primeira vez que o vi, agora que tenho outro background sobre o assunto vejo-o com interesse renovado. Lembro-me de teres referido na anteriormente que achavas o filme uma seca. Vê-o novamente. Creio que a tua perspectiva vai mudar para melhor. Dos três, é o filme mais frio e cruel, e é aquele onde a sociedade da época está mais profundamente detalhada e se envolve mais na narrativa principal (que é basicamente uma história de amor). É um filme interessante em vários domínios. Até dá para suportar o sotaque horrível da Julia Roberts... :mrgreen:

----

Em relação às três versões que vi, a do Mamoulian é a única em que o monstro é apresentado como uma figura animalesca, fantasiosa, fora de qualquer noção de possível realismo. Não que isso altere a força do filme (nem para melhor nem para pior), mas ao início deu-me um pouco de vontade de rir com a ingenuidade daquela escolha - que parecia um macaco com feições mais humanas, para todos os feitos. Mais tarde essa vontade de rir desapareceu... ;)

Comparando as figuras:

Mamoulian - 1931

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Fleming - 1941

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Frears - 1996

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby annawen » 05 Apr 2010 09:49

Samwise wrote: Em relação às três versões que vi, a do Mamoulian é a única em que o monstro é apresentado como uma figura animalesca, fantasiosa, fora de qualquer noção de possível realismo. Não que isso altere a força do filme (nem para melhor nem para pior), mas ao início deu-me um pouco de vontade de rir com a ingenuidade daquela escolha - que parecia um macaco com feições mais humanas, para todos os feitos. Mais tarde essa vontade de rir desapareceu... ;)


Apesar do que disse no primeiro post, o Spencer Tracy consegue um Mr Hyde que transpira maldade.

Quanto ao facto do Hyde de Mamoulian parecer um macaco, é propositado. Um dos temas do livro é a degeneração: de como um homem fora da civilização (ou quando há um relaxamento das regras da civilização) reverte à sua condição natural de animal. Este é uma preocupação que percorre a 2ª metade do século XIX e está presente em vários romances, novelas e contos de muitos autores. Sabendo, desde as teorias de Darwin, que o homem descende do macaco, é natural que o Hyde seja representado como um macaco, uma vez que para a época, a degeneração estava associada ao mal. No livro ele é descrito como uma figura simiesca. Há um conto do Sherlock Holmes que foca esta temática, ainda que o faça de uma forma algo humorística: "The tale of the Creeping Man". Outras histórias da mesma linha: "O Coração das Trevas" (Conrad); "A Máquina do Tempo" e "A Ilha do Dr Moreau" (entre outros) de Wells; os livros de Zola. "O retrato de Dorian Gray" também pode ser lido à luz desta temática. O próprio Stevenson tem vários contos que continuam o mesmo tema.

À luz destas ideias, annawen (e MAGG?) , sugiro que vejas novamente o Mary Reilly e a forma como subverte as ideias da adaptação de Mamoulian. Neste filme de Stephen Frears, tanto o Jeckyll como o Hyde amam a mesma mulher, e de certa forma a transformação em monstro permite a desinibição do desejo de estar perto dela, para além de "outras coisas". É um filme muito conseguido.


No fundo não subverte assim tanto, pois podemos deduzir que o que o Hyde fez à prostituta, era o que o Jekyll quereria fazer à noiva. No fundo, ambas representam a mesma mulher. Para não dizer que a prostituição, para a sociedade da época, era uma outra forma de degeneração. Mais perigosa, pois vivia no coração da cidade, símbolo da civilização.

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby Samwise » 05 Apr 2010 10:36

annawen wrote:
Samwise wrote: Em relação às três versões que vi, a do Mamoulian é a única em que o monstro é apresentado como uma figura animalesca, fantasiosa, fora de qualquer noção de possível realismo. Não que isso altere a força do filme (nem para melhor nem para pior), mas ao início deu-me um pouco de vontade de rir com a ingenuidade daquela escolha - que parecia um macaco com feições mais humanas, para todos os feitos. Mais tarde essa vontade de rir desapareceu... ;)


Apesar do que disse no primeiro post, o Spencer Tracy consegue um Mr Hyde que transpira maldade.


Não vejo as razões que levaram a interpretação dele a ser tão mal acolhida quando o filme foi lançado - a personagem que ele interpreta (ou, as personagens) tem pouco a ver com a do Fredric March. É um Jeckyll muito diferente e é um Hyde muito diferente, e é coisa do argumento, apesar do filme ser um remake que segue o outro quase a par e passo.

O Jeckyll do March é muito, mas muito mais impetuoso e impaciente, e o Hyde do March é mais animalesco e irracional - e fisicamente é mais interventivo.

Há uma cena no filme do Fleming em que o Hyde está com a prostituta e começa calmamente a tocar piano. ^_^

Quanto ao facto do Hyde de Mamoulian parecer um macaco, é propositado. Um dos temas do livro é a degeneração: de como um homem fora da civilização (ou quando há um relaxamento das regras da civilização) reverte à sua condição natural de animal. Este é uma preocupação que percorre a 2ª metade do século XIX e está presente em vários romances, novelas e contos de muitos autores. Sabendo, desde as teorias de Darwin, que o homem descende do macaco, é natural que o Hyde seja representado como um macaco, uma vez que para a época, a degeneração estava associada ao mal. No livro ele é descrito como uma figura simiesca. Há um conto do Sherlock Holmes que foca esta temática, ainda que o faça de uma forma algo humorística: "The tale of the Creeping Man". Outras histórias da mesma linha: "O Coração das Trevas" (Conrad); "A Máquina do Tempo" e "A Ilha do Dr Moreau" (entre outros) de Wells; os livros de Zola. "O retrato de Dorian Gray" também pode ser lido à luz desta temática. O próprio Stevenson tem vários contos que continuam o mesmo tema.


Não contesto nada disto, mas o facto é que as outras versões alteram esta ideia.

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No fundo não subverte assim tanto, pois podemos deduzir que o que o Hyde fez à prostituta, era o que o Jekyll quereria fazer à noiva. No fundo, ambas representam a mesma mulher. Para não dizer que a prostituição, para a sociedade da época, era uma outra forma de degeneração. Mais perigosa, pois vivia no coração da cidade, símbolo da civilização.


A subversão vai mais longe do que aquilo eu mencionei - não sei o quanto te recordas do filme e não quero estragar as surpresas, mas achei muito interessante o triângulo amoroso que se estabelece entre o Jeckyll, a Mary e o Hyde.

E também há um bordel no filme do Frears, mas tem propósitos diversos...
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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby annawen » 05 Apr 2010 11:26

Samwise wrote:Não vejo as razões que levaram a interpretação dele a ser tão mal acolhida quando o filme foi lançado - a personagem que ele interpreta (ou, as personagens) tem pouco a ver com a do Fredric March. É um Jeckyll muito diferente e é um Hyde muito diferente, e é coisa do argumento, apesar do filme ser um remake que segue o outro quase a par e passo.


Eu penso que as pessoas estavam à espera de ver uma transformação radical entre Jekyll e Hyde e isso não acontece nesse filme. A maldade do Hyde do Tracy é mais interior do que exterior, daí talvez ser mais assustadora. Os momentos dele com a Ingrid Bergman são reveladores disso mesmo

O Jeckyll do March é muito, mas muito mais impetuoso e impaciente, e o Hyde do March é mais animalesco e irracional - e fisicamente é mais interventivo.


Por isso, gosto mais do Jekyll do March. O Jekyll do Spencer Tracy é demasiado boa pessoa, o que me faz lembrar um erro comum em que caiem muitas pessoas que nunca leram o livro mas conhecem a história. O erro é considerar o Jekyll como o Bem e o Hyde como o Mal. O Jekyll não simboliza o Bem. O Jekyll tem o bem e o mal dentro dele, como qualquer ser humano. Parece-me que a versão do Fleming e a interpretação do Spencer Tracy perpetuam este erro.

Numa nota à parte: a Ingrid Bergman é excelente neste filme, as usual.

Quanto ao facto do Hyde de Mamoulian parecer um macaco, é propositado. Um dos temas do livro é a degeneração: de como um homem fora da civilização (ou quando há um relaxamento das regras da civilização) reverte à sua condição natural de animal. Este é uma preocupação que percorre a 2ª metade do século XIX e está presente em vários romances, novelas e contos de muitos autores. Sabendo, desde as teorias de Darwin, que o homem descende do macaco, é natural que o Hyde seja representado como um macaco, uma vez que para a época, a degeneração estava associada ao mal. [...]


Não contesto nada disto, mas o facto é que as outras versões alteram esta ideia.


Sim, alteram, porque à medida que a história foi sendo contada a ligação entre o mal e o evolucionismo perdeu-se. Mas o que disse explica a razão para o Hyde do March se parecer com um macaco. Para um regresso a esta linha de pensamento vê a BD do Alan Moore, "A Liga dos Cavalheiros Extraordinária". Nela, o Hyde aparece sob a forma de um gorila gigante.

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Interessante é o facto de nas duas versões o Hyde reverter para o Jekyll depois de morrer, coisa que não acontece no livro. O que Stevenson quer dizer é que a partir do momento em que o homem "desce", não pode mais voltar.

A subversão vai mais longe do que aquilo eu mencionei - não sei o quanto te recordas do filme e não quero estragar as surpresas, mas achei muito interessante o triângulo amoroso que se estabelece entre o Jeckyll, a Mary e o Hyde.


Não me recordo de quase nada. Vi o filme na televisão e, confesso, sem grande atenção.

Vi outra versão, penso que um telefilme, com o Michael Caine. Esta tem um twist final. E a transformação é interessante. É uma versão que puxa mais para o filme de terror. Como filme é fraco.

---

Um filme interessante como complemento a este é "O Retrato de Dorian Gray" (1945), de Albert Lewin. Não tem um monstro (no sentido que estamos a usar), mas também é sobre a duplicidade da natureza humana.

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby Samwise » 05 Apr 2010 12:36

annawen wrote:Numa nota à parte: a Ingrid Bergman é excelente neste filme, as usual.


Sim - está muito bem no papel. Também gostei bastante da Miriam Hopkins (no filme anterior).


Sim, alteram, porque à medida que a história foi sendo contada a ligação entre o mal e o evolucionismo perdeu-se. Mas o que disse explica a razão para o Hyde do March se parecer com um macaco. Para um regresso a esta linha de pensamento vê a BD do Alan Moore, "A Liga dos Cavalheiros Extraordinária". Nela, o Hyde aparece sob a forma de um gorila gigante.


Já não me lembrava dessa "adaptação". Por acaso gosto bastante dela. Bom, o Hyde aí aparece como um monstro sanguinário que limpa virtualmente pela força qualquer foco de oposição que lhes surja pela frente. :mrgreen:
Faz mais lembrar a personagem Hulk da Marvel, que por seu turno deve ter sido baseada nas personagens do Stevenson,


Interessante é o facto de nas duas versões o Hyde reverter para o Jekyll depois de morrer, coisa que não acontece no livro. O que Stevenson quer dizer é que a partir do momento em que o homem "desce", não pode mais voltar.


O final do Mary Reilly é meio estranho/ambíguo nesta questão. E a forma como ele morre também é um achado.

A subversão vai mais longe do que aquilo eu mencionei - não sei o quanto te recordas do filme e não quero estragar as surpresas, mas achei muito interessante o triângulo amoroso que se estabelece entre o Jeckyll, a Mary e o Hyde.


Não me recordo de quase nada. Vi o filme na televisão e, confesso, sem grande atenção.


A ideia de juntar na mesma mulher o interesse amoroso/sexual do Jeckyll e do Hyde permite um jogo de sedução mais subtil e complexo - cada uma das três personagens tem um papel completamente diferente do dos filmes anteriores, uma vez que não há a dispersão simples Jeckyll/Muriel para um lado e Hyde/Ivy para outro. O Hyde não tem um "escape sexual" para dominar e atormentar neste filme - nem precisa, já que partilha da paixão do Jeckyll pela criada e não se consegue livrar dela.
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Postby annawen » 05 Apr 2010 12:50

Samwise wrote:Já não me lembrava dessa "adaptação". Por acaso gosto bastante dela. Bom, o Hyde aí aparece como um monstro sanguinário que limpa virtualmente pela força qualquer foco de oposição que lhes surja pela frente. :mrgreen:


Eu por acaso não. Acho dos trabalhos mais fracos do Moore. O Hyde está demasiado monstro, uma vez que no livro ele é descrito como sendo de estatura pequena, mancando de um lado, mas de grande agilidade e força física. A forma de andar do March está de acordo com esta descrição.

Faz mais lembrar a personagem Hulk da Marvel, que por seu turno deve ter sido baseada nas personagens do Stevenson,


Sim, o Hulk / Dr Banner foram baseados no Hyde / Jekyll.

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby MAGG » 05 Apr 2010 14:25

annawen wrote:Sim, o Hulk / Dr Banner foram baseados no Hyde / Jekyll.


E também no Frankenstein ( de todas as personagens esta na minha opinião parece-me uma inspiração mais directa da personagem Hulk... :)).

Em relação à Mary Reilly, lembro-me que na altura não gostei assim tanto da personagem da Julia Roberts .
Neste momento a amnésia fez me esquecer quase por completo a obra .

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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby Samwise » 05 Apr 2010 18:29

annawen wrote:
Samwise wrote:Já não me lembrava dessa "adaptação". Por acaso gosto bastante dela. Bom, o Hyde aí aparece como um monstro sanguinário que limpa virtualmente pela força qualquer foco de oposição que lhes surja pela frente. :mrgreen:


Eu por acaso não. Acho dos trabalhos mais fracos do Moore. O Hyde está demasiado monstro, uma vez que no livro ele é descrito como sendo de estatura pequena, mancando de um lado, mas de grande agilidade e força física. A forma de andar do March está de acordo com esta descrição.


Gostei muito da primeira série do Leage (da segunda nem tanto - aquela que parodia o War of the Worlds). As personagens foram todas alteradas em relação ao material original de onde provieram e o Hyde é das mais divertidas, em conjunto com o Homem Invisível. Em relação ao material do Moore não posso comparar grandemente porque só conheço outras duas obras, o Watchmen e o V, mas em termos de "simples" BD está acima de tanta coisa...

O enquadramento social está muito fixe também, com os anúncios da altura e com historietas do passado das personagens.


MAGG wrote:
annawen wrote:Sim, o Hulk / Dr Banner foram baseados no Hyde / Jekyll.


E também no Frankenstein ( de todas as personagens esta na minha opinião parece-me uma inspiração mais directa da personagem Hulk... :)).

No Frankenstein? Mas aí tens mesmo duas personagens distintas, que não se transformam uma na outra.. :unsure:

Em relação à Mary Reilly, lembro-me que na altura não gostei assim tanto da personagem da Julia Roberts .
Neste momento a amnésia fez me esquecer quase por completo a obra .


Mete na fila. ;)
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Re: Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Rouben Mamoulian

Postby Thanatos » 05 Apr 2010 18:33

Xiiii. O tempo passa e não consigo encaixar umas horitas para ver os filmes. :( É a última vez que me comprometo com coisas destas. A ver se hoje faço serão.

Verdade seja dita que com a quantidade de texto que o Samwise e a annawen já escreveram vir aqui dar bitaites já pouco ou nada acrescenta. Até já analisam outros filmes laterais ao tema. :P
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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