La Belle et la Bête

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La Belle et la Bête

Postby Samwise » 13 Apr 2010 00:54

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Realizado pelo artista avant-garde e homem de muitos ofícios Jean Cocteau em 1946, A Bela e o Monstro é um filme de fantasia que adapta uma fábula tradicional popular originalmente publicada no século XVIII.

Com maiores ou menores variações, a história é relativamente bem conhecida (com algum mérito a ter de ser dado à Disney e à sua versão de 1991 - o primeiro filme de animação a ser nomeado para o Oscar na categoria principal): o patriarca de uma família nobre caída em desgraça perde-se no bosque e vai ter a um castelo que parece ter ficado perdido no tempo. O local é habitado por um monstro irascível que o aprisiona e lhe propõe uma alternativa à morte: que uma das suas filhas tome o lugar dele. Sob a promessa de que regressará ao castelo para cumprir a sentença, o nobre parte para casa com uma certeza no coração, que apenas uma das três filhas, Bela, aquela de quem mais gosta, se oferecerá para o substituir. O plano traçado pelo monstro muda de objectivos assim que este põe os olhos em Bela, já que imediatamente se apaixona pela rapariga. Em vez de a matar, o monstro, apesar da sua aparência medonha, decide tentar conquistar o seu amor, mantendo-a prisioneira ao mesmo tempo que a trata como uma rainha. Bela respeita a veneração que lhe é prestada e começa a perceber que há um fundo nobre e puro no monstro, mas nunca poderá ser feliz enquanto não estiver segura da saúde do pai, entretanto prostrado pela doença, de cama, devido à situação que julga ter criado. Contudo, para a libertar, o monstro terá agora de lhe confiar o seu segredo mais importante...

Há algo de sublime que distingue e eleva este filme ao estatuto de obra-prima absoluta que tem a ver com a sensibilidade artística de Cocteau: não se trata de uma adaptação de um conto popular, trata-se de uma reinvenção e do estabelecimento de uma nova realidade para esse conto. Uma realidade sustentada num ambiente visual fabuloso, que transmite de forma grandiosa e saturada toda a fantasia e magia de que o conto necessita para se tornar algo mais do que uma fábula - a nossa imaginação não mais se libertará destas imagens - para o espectador, a fábula tornar-se-á neste filme. Pode parecer paradoxal (e é mesmo) que eu esteja a mencionar um conceito de "realidade" quando de uma fábula fantasiosa se trata, mas o certo é que o filme é irredutível na forma como agarra e envolve o espectador à conta da envolvente cénica, tirando-lhe qualquer vontade de questionar ideias que à partida lhe serão bastante estranhas (o sentimento que subsiste em nós é o de deslumbramento, o querer ver mais, e mais, e mais...), mas deixando-lhe, contudo, uma constante vontade de contrapor e contrariar alguns excessos propositadamente encenados - e que são, segundo fontes conhecidas, tentativas de evocação de obras de Vermeer e Doré. Mais do que tentativas, diria, são concretizações!

Certo que haverá mais por onde pegar, deixo como primeiro exemplo uma figura sobejamente conhecida, o quadro de Jan Vermeer, Girl with a Pearl Earring.

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A confluência de "géneros" e de "autores" dotou este filme de um ambiente de fortes contrastes no que toca ao preenchimento de cenários e ao uso da iluminação. Ao excesso natural e quase sufocante de uma natureza descontrolada, caótica, perdida na malhas do tempo (folhagens densas, folhas caídas sempre a cobrirem o chão, raízes que emergiram da terra e que estrangulam as construções de pedra erguidas pelo homem, escadarias, estátuas, vasos, etc ) contrapõem-se um espaço interior que é feito sintonia, simetria e de pormenores e detalhes evidenciados por efeitos de claridade - quase tudo o que é background está oculto, as paredes são escuras, estão por decorar, como se nada disso interessasse - ou como se a ocultação fosse deliberada para quem observa do exterior... - um possível espelho da maldição que aprisiona o monstro dentro daquele corpo. O caos e a ordem exibem-se e dominam aquele lugar e aquele ser amaldiçoado, e nesse jogo de forças encetam um precário e elegante equilíbrio.

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Re: La Belle et la Bête

Postby Anibunny » 13 Apr 2010 10:18

Alguém sabe onde arranjar o filme? Como não arranjei na net ia passar ontem pelo Clube de Video no Campo Alegre e descobri que tinha fechado :(

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Re: La Belle et la Bête

Postby Samwise » 13 Apr 2010 10:45

Bom, já que o filme está disponível no youtube, e para quem não arranjar alternativa, fica aqui o link:

http://www.youtube.com/watch?v=DaG3zns3 ... 1&index=12
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Re: La Belle et la Bête

Postby annawen » 13 Apr 2010 12:40

Boa abertura de tópico, Sam :tu: e excelente cartaz. Ontem só cheguei a ver um bocadinho. Vou ver se vejo o resto hoje.

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Re: La Belle et la Bête

Postby annawen » 14 Apr 2010 00:16

Acabei agora de ver o filme. Concordo com a apreciação que o Sam fez do filme mas fiquei a pensar na razão porque o Monstro, quando o feitiço desaparece, fica parecido (é o mesmo actor) com o Avenant. Há ali uma relação de dualidade entre o Monstro e o Avenant. No final, a ideia que dá é que eles trocaram de lugar. Deve com certeza haver uma explicação freudiana para o facto, qualquer coisa a ver com desejo, fantasia e sublimação, embora eu ainda tenha que pensar nela. Porque se o Monstro se transformasse noutro rapaz qualquer seria uma questão de "feio por fora, bonito por dentro". Mas ele assume a forma da pessoa por quem a Bela está apaixonada (ou estava antes de conhecer o Monstro), embora só fiquemos a saber isso no final. Também há o comportamento estranho do Monstro quando a Bela lhe fala do Avenant. É nessa altura que ele corre para a floresta e regressa ao quarto dela coberto de sangue. Tenho que confessar que a ligação Monstro / Avenant perturba-me e não sei se ficaria tão contente como a Bela ficou pelo Monstro se parecer com o Avenant. Talvez seja por não gostar muito dessa personagem. Sintomático é o facto de o Avenant se transformar num monstro (ou, mais precisamente, no Monstro) quando a seta de Diana o atinge, na altura em que entra o espaço que simboliza a alma do Monstro (como ele diz à Bela: "se alguém entrar lá, eu morro"). É uma duplicidade que dá que pensar.

É um filme mágico e realizado com muita imaginação. Adorei os cenários do castelo, a floresta, os objectos/caras, a maquilhagem/máscara do Monstro. E começa com "era uma vez" que me fez lembrar logo o início de "A Sombra do Caçador".

Lembrei-me muito da série americana "A Bela e o Monstro". Adorava ver essa série, principalmente do Monstro, o Vincent.

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Re: La Belle et la Bête

Postby Samwise » 14 Apr 2010 12:40

annawen wrote:... mas fiquei a pensar na razão porque o Monstro, quando o feitiço desaparece, fica parecido (é o mesmo actor) com o Avenant. Há ali uma relação de dualidade entre o Monstro e o Avenant. No final, a ideia que dá é que eles trocaram de lugar. Deve com certeza haver uma explicação freudiana para o facto, qualquer coisa a ver com desejo, fantasia e sublimação, embora eu ainda tenha que pensar nela. Porque se o Monstro se transformasse noutro rapaz qualquer seria uma questão de "feio por fora, bonito por dentro". Mas ele assume a forma da pessoa por quem a Bela está apaixonada (ou estava antes de conhecer o Monstro), embora só fiquemos a saber isso no final. Também há o comportamento estranho do Monstro quando a Bela lhe fala do Avenant. É nessa altura que ele corre para a floresta e regressa ao quarto dela coberto de sangue. Tenho que confessar que a ligação Monstro / Avenant perturba-me e não sei se ficaria tão contente como a Bela ficou pelo Monstro se parecer com o Avenant. Talvez seja por não gostar muito dessa personagem. Sintomático é o facto de o Avenant se transformar num monstro (ou, mais precisamente, no Monstro) quando a seta de Diana o atinge, na altura em que entra o espaço que simboliza a alma do Monstro (como ele diz à Bela: "se alguém entrar lá, eu morro"). É uma duplicidade que dá que pensar.


Antes de começar a comentar o que dizes, também tenho a confessar uma coisa: a "fábula" da Bela e do Monstro nunca me entusiasmou por aí além e esta adaptação em concreto, e com as liberdades narrativas que toma, só agrava a situação (facto que me impediu de apreciar o filme a 100%). Normalmente as fábulas têm um fundo moral (?) qualquer, um ensinamento de vida, a suportar as ideais; nesta adaptação depreendo que seja a tal questão do "quem vê caras não vê corações", mas depois, no filme, há tantas "pequenas" facadas na lógica que me deixam com as ideias trocadas. A cena final da transformação, ou da troca de lugares entre o monstro e o Avenant, é apenas mais uma delas.

O problema principal com a questão do monstro assumir o físico do Avenant, e independentemente da lógica de funcionamento da maldição, tem a ver com o passado dele (monstro): quem era ele - e, mais importante, que aspecto físico tinha - antes te ter sido amaldiçoado? Ou já nasceu monstro? É que ele aceitou a nova condição sem nenhuma estranheza e com um sorriso na cara. Assim como a Bela. Não parece ter-lhe feito diferença alguma que o novo aspecto da besta fosse a da sua antiga paixão, mesmo que não concretizada. Também parece não lhe fazer diferenças as implicações dessa transformação sobre p próprio Avenant - se o monstro toma o aspecto dele, o que poderá ter sucedido ao seu antigo amado para que tal mudança tenha ocorrido? Ou seja, para Bela, Avenant já não importa para nada. Se morreu ou ficou cativo da maldição, para ela é indiferente. O que lhe interessa agora é "gozar a vida" com o novo amado. Não se conjuga bem com a personalidade dela - alguém completamente dedicado àqueles que mais gosta, a ponto de anteriormente ter sacrificado o amor em função do pai e do bem estar familiar.

Se há uma explicação freudiana para esta troca de físicos, então é algo bem bizarro... :mrgreen:

Quanto à lógica da transformação, há várias hipóteses: 1 - A maldição era recursiva e implicava uma simples troca de lugares. O infeliz que penetrar no espaço encantado troca de lugar com o monstro - fica prisioneiro do corpo de besta enquanto que o antigo monstro toma o corpo do novo aprisionado. 2 - Aquilo era uma maldição de "uma vez só", que terminava naquele momento. O novo monstro morreu com a flecha de Diana e o lugar ficou como o seu túmulo. 3 - Algo a ver como poder transformador do amor, e daí também a simbologia da flecha de Diana, deusa caçadora que passaria igualmente a fazer o papel de "cúpido" - no momento em que a besta fosse amada por uma mulher, assumiria uma presença física que a esta agradasse. Esta terceira hipótese é complementar às outras duas, pode servir em qualquer uma delas.

É um filme mágico e realizado com muita imaginação. Adorei os cenários do castelo, a floresta, os objectos/caras, a maquilhagem/máscara do Monstro. E começa com "era uma vez" que me fez lembrar logo o início de "A Sombra do Caçador".


Não tenho a certeza - ainda tenho de ir ver com mais atenção - mas o tipo que está a escrever e a apagar os nomes da equipa técnica no quadro, no ínício do filme, antes desse texto do "era uma vez", parece ser o próprio Cocteau. E a voz que o lê é dele.

Lembrei-me muito da série americana "A Bela e o Monstro". Adorava ver essa série, principalmente do Monstro, o Vincent.


Eu também via, mas não ligava assim muito. Se bem me recordo gostei bastante do episódio piloto, mas dos outros nem por isso.
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Re: La Belle et la Bête

Postby annawen » 14 Apr 2010 13:48

Bem, antes de tudo, acho que estás à procura de explicações racionais num filme que é essencialmente simbólico. O que torna qualquer explicação realista irrisória.

Samwise wrote:Normalmente as fábulas têm um fundo moral (?) qualquer, um ensinamento de vida, a suportar as ideais; nesta adaptação depreendo que seja a tal questão do "quem vê caras não vê corações", mas depois, no filme, há tantas "pequenas" facadas na lógica que me deixam com as ideias trocadas. A cena final da transformação, ou da troca de lugares entre o monstro e o Avenant, é apenas mais uma delas.


Não sei se a moral será bem essa. A minha explicação freudiana é a seguinte: tem tudo a ver com sexo (surpresa!). A Bela gosta do Avenant mas não consegue avançar na relação com medo do acto sexual, representado no filme pelo Monstro. (É importante não esquecer o amor quase obsessivo que ela tem pelo pai.) Quando conhece o Monstro, esse medo vai desaparecendo, até ela estar pronta para ter uma relação plena com um homem. É o momento em que ela diz ao Monstro que o ama e que se dá a troca de lugares. Superado o medo ela pode ir viver com o homem que ama, o Avenant (ou a projecção do Avenant). Daí o facto de ela não se interessar pelo destino do Avenant, nem do pai. O filme termina com os dois a subirem pelos ares. Resumindo: o Monstro só existe como manifestação física do medo da Bela, logo que esse medo é ultrapassado, o Monstro deixa de existir. Seguindo esta explicação, podemos dizer que o Monstro é uma criação da Bela. No entanto, esta explicação deixa em aberto a transformação do Avenant no Monstro.

O problema principal com a questão do monstro assumir o físico do Avenant, e independentemente da lógica de funcionamento da maldição, tem a ver com o passado dele (monstro): quem era ele - e, mais importante, que aspecto físico tinha - antes te ter sido amaldiçoado? Ou já nasceu monstro? É que ele aceitou a nova condição sem nenhuma estranheza e com um sorriso na cara.


Ele não nasceu Monstro. Não está explícito no filme, mas parece-me evidente.

Assim como a Bela. Não parece ter-lhe feito diferença alguma que o novo aspecto da besta fosse a da sua antiga paixão, mesmo que não concretizada. Também parece não lhe fazer diferenças as implicações dessa transformação sobre o próprio Avenant - se o monstro toma o aspecto dele, o que poderá ter sucedido ao seu antigo amado para que tal mudança tenha ocorrido? Ou seja, para Bela, Avenant já não importa para nada.


Ela não ficou a saber o que aconteceu ao Avenant.

Quanto à lógica da transformação, há várias hipóteses: 1 - A maldição era recursiva e implicava uma simples troca de lugares. O infeliz que penetrar no espaço encantado troca de lugar com o monstro - fica prisioneiro do corpo de besta enquanto que o antigo monstro toma o corpo do novo aprisionado. 2 - Aquilo era uma maldição de "uma vez só", que terminava naquele momento. O novo monstro morreu com a flecha de Diana e o lugar ficou como o seu túmulo. 3 - Algo a ver como poder transformador do amor, e daí também a simbologia da flecha de Diana, deusa caçadora que passaria igualmente a fazer o papel de "cúpido" - no momento em que a besta fosse amada por uma mulher, assumiria uma presença física que a esta agradasse. Esta terceira hipótese é complementar às outras duas, pode servir em qualquer uma delas.


Talvez a resposta 2 seja a mais correcta, embora a 3 também não seja má. Podemos talvez dizer que a verdadeira alma do Avenant era a de um Monstro (ou seja, feia), e que a verdadeira alma do Monstro era bela (daí assumir o aspecto do Avenant). Mas aí voltaríamos a cair numa interpretação mais tradicional, e não sei se é isso que o filme pede. Também não podemos esquecer que a Diana não era só a deusa da caça, mas também é uma das deusas virgens do panteão clássico. E esta particularidade poderá estar associada à minha interpretação "freudiana".

Não tenho a certeza - ainda tenho de ir ver com mais atenção - mas o tipo que está a escrever e a apagar os nomes da equipa técnica no quadro, no ínício do filme, antes desse texto do "era uma vez", parece ser o próprio Cocteau. E a voz que o lê é dele.


Sim, é o Jean Cocteau.

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Re: La Belle et la Bête

Postby Samwise » 14 Apr 2010 17:49

annawen wrote:Não sei se a moral será bem essa. A minha explicação freudiana é a seguinte: tem tudo a ver com sexo (surpresa!). A Bela gosta do Avenant mas não consegue avançar na relação com medo do acto sexual, representado no filme pelo Monstro. (É importante não esquecer o amor quase obsessivo que ela tem pelo pai.) Quando conhece o Monstro, esse medo vai desaparecendo, até ela estar pronta para ter uma relação plena com um homem. É o momento em que ela diz ao Monstro que o ama e que se dá a troca de lugares. Superado o medo ela pode ir viver com o homem que ama, o Avenant (ou a projecção do Avenant). Daí o facto de ela não se interessar pelo destino do Avenant, nem do pai. O filme termina com os dois a subirem pelos ares. Resumindo: o Monstro só existe como manifestação física do medo da Bela, logo que esse medo é ultrapassado, o Monstro deixa de existir. Seguindo esta explicação, podemos dizer que o Monstro é uma criação da Bela. No entanto, esta explicação deixa em aberto a transformação do Avenant no Monstro.


Gostei deste raciocínio, mas tenho de pensar mais calmamente - ruminar- sobre nos meandros do caso. Levanta alguns problemas que se calhar é preciso "fazer encaixar". Por exemplo, se o monstro é a personificação física do medo de Bela pelo acto sexual, um medo que vai desaparecendo aos poucos, à medida que ela vai percebendo melhor este que não significa a coisa horrenda que porventura uma sociedade moralizadora lhe tentou impor, porque é que é o levantamento da maldição estava dependente de uma chave que nunca seria ela a utilizar? O acontecimento que "mudou tudo" foi provocado por uma tentativa de "entrada ilícita" de Avenant e Loduvic no tal espaço secreto. Embora a mentalidade de Bela em relação ao monstro tenha de facto mudado, não foi por acção directa dela que o este desapareceu - aliás, foi precisamente por um factor inverso: foi um desleixo dela que levou àquela situação - não tomou bem conta da chave e permitiu que as irmãs a roubassem (outras das situações que para mim não faz sentido - depois mais tarde falarei de outras...). Foi o plano maquiavélico dos irmãos - e que se pensarmos bem até tinha uma vertente bem intencionada - a ditar aquele desfecho.
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Re: La Belle et la Bête

Postby Samwise » 14 Apr 2010 18:14

Ainda ao abrigo do teu raciocínio, lembrei-me de uma cena que, analisada desse ponto de vista, ganha um significado bem mais profundo, quando o Ludovic apanha o Avenant a tentar submeter Bela e a beijá-la, e ela intervém a seu favor dizendo que ele apenas queria declarar a sua intenção de casamento, a frase que sai é mais ou menos esta: "Eu posso ser um vadio que gosta da má-vida, mas nunca permitirei que cases com um. Raspa-te, traste!" :D
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Re: La Belle et la Bête

Postby annawen » 14 Apr 2010 18:27

Pois... a minha explicação também não procura abarcar todos os aspectos da questão. É possível, e muito provável, que haja outras explicações. Eu só avancei com o ponto de vista da Bela, mas poderá haver outras que sigam outros pontos de vista. Uma coisa não nos podemos esquecer: o Jean Cocteau era um intelectual e um poeta. Este é um filme claramente pessoal (a história e diálogos são dele). Daí que este tem de ser visto e interpretado com a maior profundidade, uma vez que não se trata de uma obra comercial. Se há coisas que não conseguimos explicar, isso não significa que elas não tenham significado. Também não podemos aplicar uma lógica racional, ou demasiado literal, a um universo onírico.

Por exemplo, se o monstro é a personificação física do medo de Bela pelo acto sexual, um medo que vai desaparecendo aos poucos, à medida que ela vai percebendo melhor este que não significa a coisa horrenda que porventura uma sociedade moralizadora lhe tentou impor, porque é que é o levantamento da maldição estava dependente de uma chave que nunca seria ela a utilizar?


Mas ele deu-lhe a chave. A chave para a alma dele. E se ela não a usou em sentido literal, usou-a em sentido figurado, ao dizer-lhe que o amava. Repara que a chave não é utilizada por Avenant e pelo irmão da Bela. Eles entram no santuário pelo telhado de vidro. Como objecto físico, a chave cumpre a função de fazer avançar a narrativa. A chave é um símbolo, e, como símbolo, a Bela usa-a para quebrar o feitiço. "Se alguém entrar no santuário de Diana, eu morro", são mais ou menos as palavras do Monstro. Ela "entra" no santuário (alma) ao dizer-lhe que o ama. E o "morro" também é simbólico, uma vez que quem "morre" é o Monstro (a máscara), não o homem.

O acontecimento que "mudou tudo" foi provocado por uma tentativa de "entrada ilícita" de Avenant e Loduvic no tal espaço secreto.

Não acho que tenha sido esse o acontecimento que mudou tudo. Foi o facto da Bela dizer ao Monstro que o amava que deu início à transformação. Ele só precisava que o Avenant morresse para assumir a sua parecença, para ver restaurada a sua figura de homem.

Ainda ao abrigo do teu raciocínio, lembrei-me de uma cena que, analisada desse ponto de vista, ganha um significado bem mais profundo, quando o Ludovic apanha o Avenant a tentar submeter Bela e a beijá-la, e ela intervém a seu favor dizendo que ele apenas queria declarar a sua intenção de casamento, a frase que sai é mais ou menos esta: "Eu posso ser um vadio que gosta da má-vida, mas nunca permitirei que cases com um. Raspa-te, traste!"


Pois... o filme estabelece um contraste entre a sexualidade mais intrusiva do Avenant e a sexualidade reprimida do Monstro.

E também não podemos esquecer da conotação sexual que tem o verbo "comer", usado tantas vezes no filme. Como a Bela diz a certo momento: "ele (Monstro) não me comeu".

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Re: La Belle et la Bête

Postby Samwise » 14 Apr 2010 23:25

Estas discussões, e aquilo que puxam cá para dentro, são mesmo do melhor.

Novidades fresquinhas, estive a olhar para uns quadros do Vermeer para tentar apanhar semelhanças and guess what I found:

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Nome do quadro: Diana and Her Companions

Diana... Diana... a Deusa da Caça que aparece representada no final do filme, a estátua que puxa do arco e trespassa Avenant na sequência enigmática que transfere a maldição de uma personagem para outra. Diana pode ser vista, desta perspectiva, como uma personificação de Bela. É ela que protege o segredo e a alma do monstro e é dela que parte a iniciativa de desenlace do triângulo amoroso.
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Re: La Belle et la Bête

Postby annawen » 15 Apr 2010 00:03

Samwise wrote:Diana... Diana... a Deusa da Caça que aparece representada no final do filme, a estátua que puxa do arco e trespassa Avenant na sequência enigmática que transfere a maldição de uma personagem para outra. Diana pode ser vista, desta perspectiva, como uma personificação de Bela. É ela que protege o segredo e a alma do monstro e é dela que parte a iniciativa de desenlace do triângulo amoroso.


Não está mal visto. Boa malha do Vermeer. A sequência final, com os amantes a levantarem voo fez-me lembrar Fragonard, um pintor rococó francês. Por causa das roupagens ao vento.

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Re: La Belle et la Bête

Postby Samwise » 15 Apr 2010 15:26

Já alguém olhou para as ilustrações de Gustave Doré?

Espectaculares!!! - Exemplos -
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Re: La Belle et la Bête

Postby annawen » 15 Apr 2010 17:17

Samwise wrote:Já alguém olhou para as ilustrações de Gustave Doré?


Sim. As ilustrações dele para a "Divina Comédia" são muito conhecidas.

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Re: La Belle et la Bête

Postby Samwise » 15 Apr 2010 18:48

Estou mesmo arrebatado pela arte do Doré... Acho que mais dias menos dia vou iniciar um tópico com ilustrações dele. Mas adiante, enquanto não encontro algumas imagens para colocar em paralelo com o filme de Cocteau, deixo um pequeno docito...



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Nunca cheguei a gostar do filme da Disney. :(
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