The Brood - A Ninhada

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 26 Apr 2010 16:43

Uma outra caracteristica interessante do filme é a quase total ausência de referências geográficas. se me dissessem q o filme se passava na Europa, eu nao estranhava. Tem de pouco de americano.

E uma outra pergunta: porque não direccionou a Nola o seu odio para o ex-marido? Porque nao mandou um exercito de putos malignos matálo?

Seguindo a linha de raciocinio da Annawen e analisando a coisa filosofica e psicologicamente, a fisiologia e metabolismo dos putos maus (com a evidente limitacao do tempo de vida) passa a mensagem de q o odio se consome a si próprio. Ou seja, de que os bursts de violência nascidos da raiva sao intensos mas finitos enquanto que a criança nascida do amor deles os dois, viverá mt mais tempo e de forma auto-suficiente.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby annawen » 26 Apr 2010 17:03

urukai wrote:Uma outra caracteristica interessante do filme é a quase total ausência de referências geográficas. se me dissessem q o filme se passava na Europa, eu nao estranhava. Tem de pouco de americano.


A ideia que tenho é que se passa no Canadá. Mas tens razão neste ponto.

E uma outra pergunta: porque não direccionou a Nola o seu odio para o ex-marido? Porque nao mandou um exercito de putos malignos matálo?

O marido nunca lhe fez mal. Ela direcciona o ódio a quem lhe fez mal ou lhe vem prejudicar a família (daí o ataque à professora). Um dos desejos dela é que o marido volte para ela. A família é o núcleo a partir do qual se constrói a fantasia de Nola. A partir do qual era organiza o mundo. Não nos podemos esquecer que ela nunca foi amada, nem pelo pai, nem pela mãe. É esse trauma que a leva ao psicólogo. Não está evidente no filme, mas é a minha interpretação.

Seguindo a linha de raciocinio da Annawen e analisando a coisa filosofica e psicologicamente, a fisiologia e metabolismo dos putos maus (com a evidente limitacao do tempo de vida) passa a mensagem de q o odio se consome a si próprio. Ou seja, de que os bursts de violência nascidos da raiva sao intensos mas finitos enquanto que a criança nascida do amor deles os dois, viverá mt mais tempo e de forma auto-suficiente.


Sim, mas temos que ter em atenção a repetição. Ela não cessa de ter "filhos". Mesmo no fim, enquanto conversa com o marido, está a ter outro e na altura ela não tem motivos para atacar ninguém. Os "filhos" são manifestações do inconsciente da Nola mas eles não nascem só quando ela tem um alvo. Estão sempre a nascer. Daí ela ter muitos, daí os outros doentes lhe chamarem a "Rainha Mestra" (importante), daí o fascínio que o psiquiatra sente por ela e a vontade que ele tem da controlar. Portanto eles vão morrendo, mas outros ocupam o seu lugar, numa processo de substituição que não tem fim. Nesse aspecto, Nola é como uma máquina: não há um propósito no nascimento das criaturas só há o próprio acto, e esse é imparável.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 26 Apr 2010 17:19

Pois, Canada faz mais sentido.

Quanto ao restante o teu ponto de vista tem me ajudado a virar a minha perspectiva de algo indefinido, quiça a raiar o sobrenatural/inexplicavel, para uma orientação biologica e fisiologica da coisa.
Ou seja, se a Nola fosse um mutante com aquelas capacidades estaria num estado evolutivo mais avançado que os restantes doentes do centro. Mas ela não nasceu assim. Em principio so na fase adulta e depois da separacao é q começaram a nascer gémeos o que quer dizer que os seus tumores poderão eles proprios possuir diferentes estágios de maturação. Será q um dia seriam seres normais? Pensantes e autonomos?
Quando começamos a enveredar por este tipo de raciocinio as coisas começam a soar pior e a ideia (que era o que segurava o filme) fica a parecer pouco burilada. Bem pelo menos o filme tem um final conclusivo, não é como ExistenZ que vi para ai como 15 anos e achei que acabava estupidamente!!

ps- fui só eu a achar q o filme nao mete medo nenhum? Quer dizer, fisicamente nao senti nada. Nem goosebumps, nem sustos, nada. Algum desconforto psicologico mas nada mais.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 26 Apr 2010 18:42

annawen wrote:
E uma outra pergunta: porque não direccionou a Nola o seu odio para o ex-marido? Porque nao mandou um exercito de putos malignos matálo?

O marido nunca lhe fez mal. Ela direcciona o ódio a quem lhe fez mal ou lhe vem prejudicar a família (daí o ataque à professora). Um dos desejos dela é que o marido volte para ela. A família é o núcleo a partir do qual se constrói a fantasia de Nola. A partir do qual era organiza o mundo.


Sim. O desejo dela é voltar a reunir a família e voltar a estar com o ex-marido. O telefona que ela faz para casa dele, e que apanha por acaso a professora, é um bom exemplo demonstrativo.

Não nos podemos esquecer que ela nunca foi amada, nem pelo pai, nem pela mãe. É esse trauma que a leva ao psicólogo. Não está evidente no filme, mas é a minha interpretação.


Para mim o trauma que a leva à terapia é mesmo o divórcio (dela). O resto vem por acréscimo, já que o processo traz por arrasto as recordações do divorcio dos pais e a consequente lembrança de não ter sido amada em criança.

Uma questão: quem, na vossa opinião, maltrata a filha? Quem lhe provoca as mazelas?

urukai wrote:Pois, Canada faz mais sentido.


Nem tinha pensado na localização geográfica, mas como sei que o realizador e canadiano acho que sempre associei inconscientemente a localização ao Canadá.

Ou seja, se a Nola fosse um mutante com aquelas capacidades estaria num estado evolutivo mais avançado que os restantes doentes do centro. Mas ela não nasceu assim. Em principio so na fase adulta e depois da separacao é q começaram a nascer gémeos o que quer dizer que os seus tumores poderão eles proprios possuir diferentes estágios de maturação. Será q um dia seriam seres normais? Pensantes e autonomos?


A meu ver, não. Nunca seriam normais nem autónomos. Por um lado os monstros são manifestações do "mal" - estão calmos quando ela se sente bem, e quando agem é para matar ou para proteger as vontades de Nola, com recurso à força - a sua (dos montros) vontade é dependente e está associada psiquicamente ao subconsciente/inconsciente dela. Por outro lado, e complementarmente, eles são a expurga do trauma de Nola. O que sucederia em caso de cura? Das duas uma: ou deixariam de nascer, ou continuariam a nascer (e a morrer a prazo) mas manter-se-iam apáticos. Os monstros não têm pai físico. O pai é o trauma da mãe a meias com a "terapia" do médico.

Outra coisa: o monstro são como animais - o processo de nascimento, dentro de uma bolsa/placenta que é rasgada "cá fora", é semelhante, por exemplo, ao dos cães, e o facto da mãe lamber e limpar o filho, algo que também lhe serve de alimento, remete para uma relação que não é humana. Seres "normais", nascidos por este processo, estão fora de questão.

Quando começamos a enveredar por este tipo de raciocinio as coisas começam a soar pior e a ideia (que era o que segurava o filme) fica a parecer pouco burilada. Bem pelo menos o filme tem um final conclusivo, não é como ExistenZ que vi para ai como 15 anos e achei que acabava estupidamente!!


Para mim é ao contrário - estas discussões - e esta em particular - dão para revelar e entender muita coisa. O filme cada vez faz mais sentido para mim. Houve coisas que não apanhei e que andava bem longe de as entender no contexto geral.

ps- fui só eu a achar q o filme nao mete medo nenhum? Quer dizer, fisicamente nao senti nada. Nem goosebumps, nem sustos, nada. Algum desconforto psicologico mas nada mais.


Sim, também sinto o mesmo. O horror com o Cronenberg não é aquilo que os promotores e o marketing normal de filmes de terror impingem cá para fora (tal como mostra aquele cartaz que coloquei no post inicial). O medo, apesar dos monstros e das situações, raramente tem a ver com o "susto" ou com o suspense. Mesmo considerando aquela cena da porta (que antecede uma parecida e muito mais famosa: a do Shining de Kubrik) e as sequências de matança, a grande violência do filme é psicológica - é o desconforto de que falas e a perturbação decorrente das mutações carnais e daquilo que as origina.

Par mim, o pico artístico deste tipo de abordagem continua a ser o Dead Ringers. Creio que acharias enfadonho (bem mais do que o The Brood) mas também muito mais perturbante - é de ficar a bater mal durante uns tempos... :mrgreen: Fica a sugestão. E não tem monstros, pelo menos como este tem.
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 26 Apr 2010 19:39

Samwise wrote:Sim. O desejo dela é voltar a reunir a família e voltar a estar com o ex-marido. O telefona que ela faz para casa dele, e que apanha por acaso a professora, é um bom exemplo demonstrativo.


Então porque não mandou os putos atrás do marido? Dá-me ideia que a criança foi um chamariz para o marido que era quem ela realmente amava/odiava...

Samwise wrote:Para mim o trauma que a leva à terapia é mesmo o divórcio (dela). O resto vem por acréscimo, já que o processo traz por arrasto as recordações do divorcio dos pais e a consequente lembrança de não ter sido amada em criança.


Concordo e reforça a minha teoria acima.

Samwise wrote:
Uma questão: quem, na vossa opinião, maltrata a filha? Quem lhe provoca as mazelas?


Tenho três teorias:
1. Seguindo a minha linha de raciocínio acima foi a Nola para construir uma teia que lhe permitisse atrair o marido.
2. Foram os putos malvados numa dinâmica de matilha/lei do mais forte (não acredito nesta porque seria dar razão ao Sam e daqui a algumas linhas vou destruir-lhe completamente a ideia de eles serem animais)
3. Foi o médico numa tentativa de obter reacções negativas (ou seja, mais prole) da Nola de modo a ter mais matéria para estudar;

Samwise wrote:Outra coisa: o monstro são como animais - o processo de nascimento, dentro de uma bolsa/placenta que é rasgada "cá fora", é semelhante, por exemplo, ao dos cães, e o facto da mãe lamber e limpar o filho, algo que também lhe serve de alimento, remete para uma relação que não é humana. Seres "normais", nascidos por este processo, estão fora de questão.


Lamento Sam mas esta não pega pois os putos malvados estão vestidos. Têm anoraks e isto representa uma caracteristica humana que os afasta definitivamente dessa categoria animalesca. Mais, o acto de os vestir demonstra carinho e amor. Das duas uma, ou foi a Nola que os vestiu e dá razão a tudo o que tenho dito, que ela demonstra amor e que há aqui uma tendência evolutiva que destrói a ideia de mutações malignas e exclusivamente filhas do ódio. Ou foi o médico que as vestiu, o que não acredito pq ele limitava-se a prendê-las no sotão.
Para além disso é interessante analisar qual a razão por detrás delas estarem vestidas, serem crianças e muito parecidas com a criança filha. Será propositado em termos da narrativa? Será que a razão é a tal "mancha" que o realizador queria criar? Se assim for ficamos com a incoerência que defendo acima. Ou será que a razão é antes uma concessão ao politicamente correcto da época? Uma mão cheia de crianças despidas não devia ser muito bem encarado em termos cinematográficos, o que também destrói a ideia com que se fica do filme. Tipo, ele põe a lamber um tumor disforme mas não filma uma criança deformada e nua.

Samwise wrote: Mesmo considerando aquela cena da porta (que antecede uma parecida e muito mais famosa: a do Shining de Kubrik)


Acreditas que pensei que o Cronenberg se tinha inspirado (feito tributo) ao Kubric? É tal impregnação cultural dessa cena que nunca ponderei ser o contrário... :D

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby annawen » 26 Apr 2010 19:59

O que nao faz sentido é a afeiçao que a nola sentia pelas criaturas. Ha ai um contrasenso. se as mesmas eram uma externalizacao fisica do seu odio, porque raio as lamberia como um filho?


Vais argumentar q a Nola mãe que lambe os filhos maus não é uma Nola consciente. É o seu super-ego alterado, psicótico e inconsciente que o faz. Eu respondo:Tudo bem! Mas entao como é que a psique da Nola, apenas capaz de ódio e raiva é capaz de um gesto de ternura e amor como o é lamber os filhos que acabaram de nascer. Eu consegui destrinçar naquela cena grostesca algum amor, doentio sem duvida, mas amor e para mim é ai que está o contrasenso. É claro que podes contra argumentar que é apenas empatia ou instinto protector. Ou entao surpreendes-me e tens outra abordagem!


No filme "The Prevert's Guide to Cinema", Zizek, referindo-se a uma determinada sequência de "Psico", associa o super-ego ao Id. Diz ele: "Super-ego and Id are deeply connected."

Eu vejo essa ligação no filme precisamente na sequência em que ela dá à luz outro filho e o lambe. Sendo ela uma representação do super-ego, até do "maternal super-ego" (como fica provado nos telefonemas que ela faz para casa do marido, o segundo bastante agressivo), e as criaturas manifestações do Id, isto é, dos reprimidos. Para mim esse gesto mostra a ligação profunda que existe entre o Super-ego e o Id. Não vejo o gesto de Nola como um gesto de amor, empatia ou instinto protector. Vejo como a prova da obscenidade que se esconde na autoridade do Super-ego, obscenidade essa que o liga ao Id. Penso que essa cena foi apresentada para causar repulsa no espectador. Isto é, o espectador encara a cena como o marido dela. Com nojo e repulsa. Pelo menos foi assim que eu a encarei. Escusado será dizer que a Nola aí já não é mais humana. Eu, pelo menos, já não a vejo como humana. Nem ela própria se considera, uma vez que ela percebe que o marido lhe está a mentir. E mostra-lhe o corpo precisamente para o confrontar com a realidade.

Eis o que Zizek diz em relação ao super-ego e ao Id: "Super-ego and Id are deeply connected. Super-ego is not an ethical agency. Super-ego is an obscene agency, bombarding us with impossible orders. Laughing at us when, of course, we cannot never fulfill its demand. The more we obey it, the more it makes us guilty. There is always some aspect of an obscene madman in the agency of the super-ego."

Para mim o trauma que a leva à terapia é mesmo o divórcio (dela).


Aqui discordo. Nem sei se eles estão realmente divorciados. Não percebi isso no filme. Ou então escapou-me esse pormenor.

Uma questão: quem, na vossa opinião, maltrata a filha? Quem lhe provoca as mazelas?


Isso é respondido no filme. Foram as criaturas quando a Nola uma vez se zangou com a filha. No filme é dito que durante um tempo a miúda viveu com a mãe no sanatório.

ps- fui só eu a achar q o filme nao mete medo nenhum? Quer dizer, fisicamente nao senti nada. Nem goosebumps, nem sustos, nada. Algum desconforto psicologico mas nada mais.


O filme é perturbador. Pelo menos para mim, que fico sempre interessada em deformações. Mas gosto mais do terror subtil dos filmes gore de terror que não me despertam interesse nenhum. Para mim, o melhor dele é "A Mosca".

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby annawen » 26 Apr 2010 20:08

urukai wrote:Lamento Sam mas esta não pega pois os putos malvados estão vestidos. Têm anoraks e isto representa uma caracteristica humana que os afasta definitivamente dessa categoria animalesca. Mais, o acto de os vestir demonstra carinho e amor. Das duas uma, ou foi a Nola que os vestiu e dá razão a tudo o que tenho dito, que ela demonstra amor e que há aqui uma tendência evolutiva que destrói a ideia de mutações malignas e exclusivamente filhas do ódio. Ou foi o médico que as vestiu, o que não acredito pq ele limitava-se a prendê-las no sotão.
Para além disso é interessante analisar qual a razão por detrás delas estarem vestidas, serem crianças e muito parecidas com a criança filha. Será propositado em termos da narrativa? Será que a razão é a tal "mancha" que o realizador queria criar? Se assim for ficamos com a incoerência que defendo acima. Ou será que a razão é antes uma concessão ao politicamente correcto da época? Uma mão cheia de crianças despidas não devia ser muito bem encarado em termos cinematográficos, o que também destrói a ideia com que se fica do filme. Tipo, ele põe a lamber um tumor disforme mas não filma uma criança deformada e nua.


Urukai, estás a entrar num tipo de raciocínio lógico que, do meu ponto de vista, está fora das intenções do realizador. O que interessa quem os vestiu? Sim, a vestimenta é para reforçar a parecença com a filha (e daí também não lhe interessar mostrar os monstros nus). E fisicamente eles também são parecidos com ela. Também têm cabelos louros com franja. E devem tê-los compridos. Sim, eles são a "mancha" de que falava no meu primeiro post. Não é por acaso que o anorak da filha e do primeiro monstro é vermelho.

Mais uma vez, a Nola não sente amor pelas criaturas. Sinceramente, duvido que ela sinta amor por alguém. Pelo menos, não no final.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Thanatos » 26 Apr 2010 20:15

Não estão divorciados. Estão em processo de divórcio e separados de facto. O que vem dar ao mesmo, ao fim e ao cabo.

Para mim o mais interessante é o entrosamento da música com as imagens (e notem que os diálogos são meramente funcionais, apenas pretendendo esclarecer algo ou avançar um pouco a intriga) que tem desde o Slithers sido a imagem de marca de Cronenberg.

Um outro filme é que o desejo ou a sublimação dele mutaciona a carne é Videodrome que no meu entender está uns furos abaixo deste filme.

Curiosamente em 1990 Cronenberg participou como actor num filme de Clive Barker, baseado na sua noveleta, Cabal - The Nightbreed, em que o mesmo interpretava um psicopata que por debaixo do verniz da normalidade assumia contornos grotescos, ao passo que os chamados monstros nos eram apresentados como criaturas iguais a nós próprias, com vivências sociais, culturais e até religiosas em tudo idênticas às nossas. De certa forma essa preocupação temática espelha-se neste filme.

Para quem tiver o DVD da Anchor Bay UK recomendo a leitura das notas nos extras que elucidam bastante sobre a feitura do filme.

Como curio final a personagem de Cronenberg no filme de Barker chama-se Philip K. Decker. ^_^
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 26 Apr 2010 20:42

Acho que vou ver o filme outra vez. Já me estou a perder no meio de tantos pormenores - e como entretanto as perspectivas já se alargaram, há muitos aspectos novos a considerar.

annawen wrote:No filme "The Prevert's Guide to Cinema", Zizek, referindo-se a uma determinada sequência de "Psico", associa o super-ego ao Id. Diz ele: "Super-ego and Id are deeply connected."

Eu vejo essa ligação no filme precisamente na sequência em que ela dá à luz outro filho e o lambe. Sendo ela uma representação do super-ego, até do "maternal super-ego" (como fica provado nos telefonemas que ela faz para casa do marido, o segundo bastante agressivo), e as criaturas manifestações do Id, isto é, dos reprimidos. Para mim esse gesto mostra a ligação profunda que existe entre o Super-ego e o Id. Não vejo o gesto de Nola como um gesto de amor, empatia ou instinto protector. Vejo como a prova da obscenidade que se esconde na autoridade do Super-ego, obscenidade essa que o liga ao Id. Penso que essa cena foi apresentada para causar repulsa no espectador. Isto é, o espectador encara a cena como o marido dela. Com nojo e repulsa. Pelo menos foi assim que eu a encarei. Escusado será dizer que a Nola aí já não é mais humana. Eu, pelo menos, já não a vejo como humana. Nem ela própria se considera, uma vez que ela percebe que o marido lhe está a mentir. E mostra-lhe o corpo precisamente para o confrontar com a realidade.

Eis o que Zizek diz em relação ao super-ego e ao Id: "Super-ego and Id are deeply connected. Super-ego is not an ethical agency. Super-ego is an obscene agency, bombarding us with impossible orders. Laughing at us when, of course, we cannot never fulfill its demand. The more we obey it, the more it makes us guilty. There is always some aspect of an obscene madman in the agency of the super-ego."


Holy sh...!!! :stars:

Esta é forte de mais para mim. Vou ter de mastigar isto com mais calma.

Contudo, esta parte faz algum sentido:
Escusado será dizer que a Nola aí já não é mais humana. Eu, pelo menos, já não a vejo como humana. Nem ela própria se considera, uma vez que ela percebe que o marido lhe está a mentir. E mostra-lhe o corpo precisamente para o confrontar com a realidade.


Não tenho é tanta certeza de que ela já não se sinta humana, e sobretudo que não sinta necessidade/vontade de ser aceite como tal.

Para mim o trauma que a leva à terapia é mesmo o divórcio (dela).


Aqui discordo. Nem sei se eles estão realmente divorciados. Não percebi isso no filme. Ou então escapou-me esse pormenor.


Fiquei com essa ideia de uma conversa entre o Pai da Nola e o Frank, onde é dito algo parecido com: "Custa-me a ver vocês a passaram pelo mesmo processo que eu e a Juliana, quando nos separámos..."

Em todo o caso, o casamento está em ruptura, com o sem o processo burocrático resolvido.

Uma questão: quem, na vossa opinião, maltrata a filha? Quem lhe provoca as mazelas?


Isso é respondido no filme. Foram as criaturas quando a Nola uma vez se zangou com a filha. No filme é dito que durante um tempo a miúda viveu com a mãe no sanatório.


Este pormenor passou-me.

Pela lógica normal da situação, também me pareceu que tivessem sido as criaturas, mas como a mãe era inconstante nos humores, também não punha de parte que num acesso de fúria tivesse espancando a filha - mas sem intenções terceiras, como o urukai sugere. O médico, para mim, está fora das possibilidades - ele pode ter alguns defeitos profissionais e pessoais, mas bater na criança em prole da "ciência"... hmmm... não.

Outra coisa, foi impressão minha ou o tal fascínio que o médico sentia por aquele caso (de Nola) ia um pouco para além do interesse profissional? Há uma parte em que ele quase a beija na boca.
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 26 Apr 2010 20:48

Samwise wrote:Acho que vou ver o filme outra vez. Já me estou a perder no meio de tantos pormenores - e como entretanto as perspectivas já se alargaram, há muitos aspectos novos a considerar.

annawen wrote:No filme "The Prevert's Guide to Cinema", Zizek, referindo-se a uma determinada sequência de "Psico", associa o super-ego ao Id. Diz ele: "Super-ego and Id are deeply connected."

Eu vejo essa ligação no filme precisamente na sequência em que ela dá à luz outro filho e o lambe. Sendo ela uma representação do super-ego, até do "maternal super-ego" (como fica provado nos telefonemas que ela faz para casa do marido, o segundo bastante agressivo), e as criaturas manifestações do Id, isto é, dos reprimidos. Para mim esse gesto mostra a ligação profunda que existe entre o Super-ego e o Id. Não vejo o gesto de Nola como um gesto de amor, empatia ou instinto protector. Vejo como a prova da obscenidade que se esconde na autoridade do Super-ego, obscenidade essa que o liga ao Id. Penso que essa cena foi apresentada para causar repulsa no espectador. Isto é, o espectador encara a cena como o marido dela. Com nojo e repulsa. Pelo menos foi assim que eu a encarei. Escusado será dizer que a Nola aí já não é mais humana. Eu, pelo menos, já não a vejo como humana. Nem ela própria se considera, uma vez que ela percebe que o marido lhe está a mentir. E mostra-lhe o corpo precisamente para o confrontar com a realidade.

Eis o que Zizek diz em relação ao super-ego e ao Id: "Super-ego and Id are deeply connected. Super-ego is not an ethical agency. Super-ego is an obscene agency, bombarding us with impossible orders. Laughing at us when, of course, we cannot never fulfill its demand. The more we obey it, the more it makes us guilty. There is always some aspect of an obscene madman in the agency of the super-ego."


Holy sh...!!! :stars:

Esta é forte de mais para mim. Vou ter de mastigar isto com mais calma.



Sim, também empanquei neste comentário... E acho que vou ter de pedir explicações... :ph34r:

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby annawen » 26 Apr 2010 22:11

Samwise wrote:Holy sh...!!! :stars:
Esta é forte de mais para mim. Vou ter de mastigar isto com mais calma.


Sim, também empanquei neste comentário... E acho que vou ter de pedir explicações... :ph34r:


E eu que tentei explicar o mais simples possível. Talvez ajudasse se eu tivesse explicitado a sequência do "Psico" de que Zizek fala, mas não posso, nem quero, dizer por causa dos spoilers.

Vou tentar explicar melhor. A Nola criou as criaturas inconscientemente. Elas são filhas do trauma (e aqui, para mim, o trauma é a mãe, claramente). Ela reprimiu durante anos a raiva que sentia pela mãe, e a terapia fez com que essa energia negativa viesse à tona sob a forma de monstros (são o Id, ou representantes do Id) "The shape of Rage" como diz o livro que foi escrito (acabei de confirmar) pelo psiquiatra Raglan. Mas os monstros agem de acordo com os desejos dela, transformam os desejos em acção (matam aqueles que ela odeia). Portanto ela tem o controlo, inconsciente no início, mas progressivamente mais consciente. Então ela assume dois papéis: por um lado, dá vida aos desejos reprimidos = Id, por outro, ela tem o controlo desses desejos (eles não se revoltam contra ela, mas sim contra os outros. Como vingança, como reprimenda) = super-ego. A cena em que ela lambe o "filho" une estas duas entidades: a entidade fruto do reprimido, e a entidade que está em controlo. E ao mostrar essa junção, o Cronenberg mostra aquilo que Zizek chama de obscenidade do super-ego. Isto é, a entidade que controla as nossas acções (as acções do Ego), que reprime os nossos desejos, que nos ameaça com a culpa, não é nenhuma força moral, no sentido de ética, isso é só um disfarce. É sim uma força poderosa feita, ela própria, de desejos reprimidos. A obscenidade, de que o Zizek fala e que o Cronenberg mostra visualmente, é precisamente esse disfarce. Essa hipocrisia. Pelo menos eu percebi assim o que Zizek quis dizer. Mas é só uma interpretação.

Em todo o caso, o casamento está em ruptura, com o sem o processo burocrático resolvido.


O casamento pode estar em ruptura mas ainda não é definitivo e, isso, para uma pessoa como a Nola deve fazer toda a diferença do mundo.

Pela lógica normal da situação, também me pareceu que tivessem sido as criaturas, mas como a mãe era inconstante nos humores, também não punha de parte que num acesso de fúria tivesse espancando a filha


De uma certa forma foi a mãe, através das criaturas.

Outra coisa, foi impressão minha ou o tal fascínio que o médico sentia por aquele caso (de Nola) ia um pouco para além do interesse profissional? Há uma parte em que ele quase a beija na boca.

Sim, há um fascínio mas não acho que seja de natureza sexual. Acho que ele está fascinado por a terapia da Nola ter dado resultados tão inesperados.
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 26 Apr 2010 22:20

Por acaso tinha aqui um livro de entrevistas ao Cronenberg e tem alguns parágrafos sobre o Brood:

Image

Image

Espero não estar a infringir copyright. Se estiver, digam que eu retiro.

È interessante ver que ele considera a personagem do pai secundária. Os lead são o médico e a Nola!
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 26 Apr 2010 22:20

Já vi meia hora de filme e deu para esclarecer uma enormidade de dúvidas e pontos de vista surgidos do nosso debate. É inacreditável o que uma segunda visualização coloca a limpo. Sugiro que façam o mesmo - vão ficar espantados pelos pormenores que vos escaparam.

Mudei de ideias quanto ao psiquiatra. Excelente profissional, pelo menos até esta altura do filme. É o Frank que lhe chama charlatão ("rip-off", "I've this show a dozen times") por não o compreender.

A Nola está internada por causa de uma depressão que tem a ver com as sequelas dos espancamentos que sofreu em criança, e que a tornaram, por sua vez, agressiva para com a filha. Quando ela era pequena a mãe espancava-a com frequência e metia-a no hospital a torto e a direito. Há várias sequências que no seu conjunto explicam os factos (uma delas é a fotografia que a neta mostra à avó, da mãe no hospital, lhe diz ser a sua favorita, e lhe pede explicações sobre o historial por detrás dela, outra é da primeira sessão de terapia onde a Nola diz que a mãe é "fucked up and bad", e outra ainda é a segunda sessão de terapia, em que a Nola revela que o Pai virava as costas quando a mãe lhe batia - não participava, mas também não interferia, algo que a magoava tanto quanto os espancamentos).

A depressão não advém da separação dos pais, que de facto ocorreu 10 anos antes. O que é dado a entender é que a Nola começa também a bater na filha - do mesmo modo que a mãe lhe fazia - e que o marido - de facto não estão separados - começa a tentar proteger a filha e a afastá-la da mãe. Este conjunto de situações acabou com a harmonia familiar e levou ao tratamento psiquiátrico. O médico está a tentar descobrir o historial passado. É interessante os vários papéis que ele vai desempenhando, quer de filha, quer de mãe de Nola, e quer inclusivamente de seu Pai. É quando está a fazer de Pai que quase lhe dá um beijo na boca - não tem nada a ver com atracção ou fascínio - é uma demonstração natural de afecto de um pai para com uma filha daquela idade (5/6 anos) - é o médico a desempenhar um papel.

Segundo esta perspectiva, aparentemente foi Nola quem bateu na filha - directamente. Não fica claro se a criança sabia da existência dos irmãos nesta fase do filme, mas creio que seria bastante arriscado para o psiquiatra colocá-la em contacto com os monstros.

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Duas notas à parte: grande banda sonora, de facto, e interpretações excepcionais de Oliver Reed (psiquiatra) e de Samantha Eggar (Nola).

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Vou ver o resto... :P
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 26 Apr 2010 22:23

urukai wrote:É interessante ver que ele considera a personagem do pai secundária. Os lead são o médico e a Nola!


Também estou a ficar com essa sensação.
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 26 Apr 2010 22:45

Apercebi-me agora porque é que o filme não me tocou assim tanto.

É que inconscientemente eu sabia qual era o enredo. Li uma sinopse algures e nunca me perguntei que crianças eram aquelas... Daí o impacto da cena final não ter sido tão estrondoso! :(


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