The Brood - A Ninhada

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby annawen » 27 Apr 2010 19:08

Samwise wrote:Eu aceitaria esta explicação, mas há surpresa genuína na raiva que ela demonstra quando vê que ele está a mentir. Mesmo assim, não deixa de ser verdade que aquilo é uma espécie de teste de sinceridade. Penso é que ela não estava à espera do estratagema da mentira.


Eu tenho uma explicação para isso. Nunca te aconteceu preveres a reacção de uma pessoa e quando essa pessoa tem a reacção que tu estavas a contar, tu não ficares zangado, como se não estivesses à espera? A mim já me aconteceu muitas vezes. Penso que é um pouco isto que explica a histeria de Nola.

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Samwise
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 27 Apr 2010 21:48

annawen wrote:
Samwise wrote:Eu aceitaria esta explicação, mas há surpresa genuína na raiva que ela demonstra quando vê que ele está a mentir. Mesmo assim, não deixa de ser verdade que aquilo é uma espécie de teste de sinceridade. Penso é que ela não estava à espera do estratagema da mentira.


Eu tenho uma explicação para isso. Nunca te aconteceu preveres a reacção de uma pessoa e quando essa pessoa tem a reacção que tu estavas a contar, tu não ficares zangado, como se não estivesses à espera? A mim já me aconteceu muitas vezes. Penso que é um pouco isto que explica a histeria de Nola.


urukai wrote:Eu acho que ela nao acreditava nele. O tom dela ao inicio é jocoso. Mas tb acho q no fundo ela queria acreditar. Dai a raiva quando a derradeira e imperceptível esperança a abandonou....


Está certo. Vi a cena pela terceira vez (descontando uma quarta de que já nem me recordo em que idade foi) e concedo que os dois têm razão. Ela não acreditou na patranha desde o início. Pode é não ter previsto para que é que servia.

------

annawen wrote:
Samwise wrote:E a filha "normal" é também alguém em quem ela se revê enquanto criança - aquela questão que hitckockiana que referes na tua primeira intervenção, das mães e das filhas, ganha um contorno bastante concreto no momento em que Frank mata Nola. Hás-de ver essa cena outra vez e reparar no modo como o grito da filha substitui o grito da mãe na altura do estrangulamento. ;)


Já revi essa cena e está bem apanhado. Mais uma coisa, a música dessa cena em particular não te faz lembrar nenhum filme?


Filme, composição musical, e cena... ;) (adoro estas discussões!!!)

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A trecho sonoro, nas duas cenas, é praticamente idêntico: short, repeated, high-pitch violin riffs...

------

Location: Canada. :mrgreen:

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Quanto à cena do assassinato na cozinha, usei um pressuposto sem bases para o fazer: o do transporte do cadáver de Juliana para perto da escadaria. Estive a ver outra vez a cena. Não se sabe/vê o que sucede nos últimos segundos do crime, mas uma possibilidade concreta é a de ela ter rastejado até perto da escada enquanto o monstro lhe batia e ter morrido aí. A cozinha é adjacente às escadas. Quando a miúda chega ao local, a avó já está na posição em que as fitas brancas mais tarde vão delimitar.

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Mesmo assim, considero que a escolha de este local específico, o fundo das escada, para deixar o cadáver pode à mesma servir para o raciocínio que fiz lá atrás. Simboliza um elo para o episódio do passado em que a avó maltratou Nola.

O próprio sangue que a criatura deixa nas escadas, na tal cena de que a annawen diz ter gostado, serve também como elo simbólico dualista: marca o local dos dois crimes juntando os momentos e juntado os protagonistas. É a Nola, personificada pelo monstro, numa dualidade intemporal de passado e presente e de vítima e algoz, que com as mãos imprime essa marca.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 27 Apr 2010 21:50

Rip, aqui vai:

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Não sei se melhora alguma coisa, pois perde definição. Falta identificar os senhores das duas fotos assinaladas.
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 27 Apr 2010 21:56

Foi filme em dois locais no Canadá, Toronto e uma cidade com nome indio.

Quanto às pessoas vou googlar... Não podemos ser os primeiros a falar disto.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 27 Apr 2010 22:15

urukai wrote:Quanto às pessoas vou googlar... Não podemos ser os primeiros a falar disto.

.
Aposto que somos. Pelo menos em termos de publicação da conversa na Internet (nem fui à procura, mas penso que não vais encontrar nada).

Curiosidade: enquanto esse shot passa no filme, o Frank está a falar e o que ele diz é o seguinte: "No, it´s not a coincidence..." ;)
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby annawen » 27 Apr 2010 22:16

Samwise wrote:Filme, composição musical, e cena... ;) (adoro estas discussões!!!)


Exactly! :D

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Adoro esta imagem. Um objecto vulgar, uns varões de escada, marcado por um elemento que perturba essa normalidade. E tal como a fita que contorna o corpo da morta também a marca dos dedos vêm definir uma ausência, mas uma ausência que implica uma presença passada. Ali esteve um assassino.

E mais uma coisa que eu gosto nessa cena é a rapidez com que a criatura desaparece, deixando esse rasto de sangue.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 27 Apr 2010 22:21

E esta pérola que descobri:

http://simpsons-episodes.com/the-simpsons-season-13-episode-19-the-sweetest-apu/701.html

Começa a partir dos 11min30seg até aos 12min10seg!

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 27 Apr 2010 23:14

Also, the ‘plasma’ of Psychoplasmics comes from the Latin meaning ‘form’ and the Greek meaning ’shape’. Interestingly, the word ‘psychedelic’ is nearly a synonym of psychoplasmics—it literally means ‘mind-manifesting’

O gajo escolhia bem as palavras! ;)

Retirado de:
http://dreamflesh.com/essays/psychoplasmics/

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 27 Apr 2010 23:47

Samwise wrote:
urukai wrote:Quanto às pessoas vou googlar... Não podemos ser os primeiros a falar disto.

.
Aposto que somos. Pelo menos em termos de publicação da conversa na Internet (nem fui à procura, mas penso que não vais encontrar nada).


Encontrei muita coisa. Algumas análises quase tão profundas como as que tivémos aqui mas nenhuma analisou o frame das fotos e dos livros! :(

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 28 Apr 2010 10:29

urukai wrote:Also, the ‘plasma’ of Psychoplasmics comes from the Latin meaning ‘form’ and the Greek meaning ’shape’. Interestingly, the word ‘psychedelic’ is nearly a synonym of psychoplasmics—it literally means ‘mind-manifesting’

O gajo escolhia bem as palavras! ;)

Retirado de:
http://dreamflesh.com/essays/psychoplasmics/


Ainda só li um pequeno excerto desse ensaio e fiquei de água na boca. A imagem que está no início é retirada do Videodrome, um filme que é Cronenberg até à medula ( <--- escolha interessante de palavras, esta :mrgreen: ). Já acabei de o ver e é mesmo mind-blowing, embora a partir de certa altura encadeamento das alucinações dê cabo do efeito de continuidade: perdi-me a tentar perceber onde começava e acabava cada efeito ilusório. Mesmo que tenha sido propositado (para dar ao espectador um trago da desorientação e da falta de controlo que o protagonista estava a sentir), é difícil de apreciar na totalidade.

Quanto às ideias do filme, são devastadoras: os efeitos da televisão levados ao extremo do controlo sobre o indivíduo, a ponto de servirem como instrumento de domínio da sociedade. Face àquilo que temos hoje em dia, isto não parece nada de irreal... :mrgreen: . Pois, mas aqui entram os habituais temas de Cronenberg e fazem estragos a valer.

E se houvesse determinado tipo de programas que pela sua violência extrema permitissem abrir portas nos mecanismos de defesa nos indivíduos que os estivessem a ver e criar um ponto de acesso à mente através do exterior? No filme a palavra utilizada é mesmo "tumor" (e isto lembra-me a discussão sobre o The Brood). Esse programa, o Videodrome, algo com a aparência de um snuff-movie autêntico, cria esse tumor na mente do indivíduo, que passa a ter alucinações que podem ser programadas por quem as souber trabalhar - no caso, um conjunto de empresas corporativas com finalidades obscuras. O corpo do individuo sofre mutações (que são fisicamente alucinatórias, mas psiquicamente reais.... ou será ao contrário?) e torna-se uma espécie de vídeo de reprodução, onde uma "vulgar" cassete com um filme pode ser inserida, e que vai passar a "transmitir" cá para fora o seu conteúdo - "transmitir" no sentido de "agir". À medida que o controlo aperta, o tumor vai crescendo, as mutações tornam-se mais acentuadas e a fronteira entre o real e o ilusório deixa de existir.

É algo demasiado complexo e tentacular para eu conseguir explicar de forma simples num texto. É um filme que, pelo efeito das alucinações e da inexistência de fronteiras entre a realidade e a ilusão, se aproxima da estranheza extrema do The Naked Lunch. E está recheado com as "perversões carnais" (a um limite quase pornográfico) que são uma das imagem de marca do realizador.
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby annawen » 28 Apr 2010 10:53

Tenho estado a pensar na forma como a Nola apresenta o corpo ao marido na cena final. Ela levanta o vestido com um júbilo que é muito semelhante à euforia que, no princípio, o indivíduo da "Mosca" sente, quando se percebe que está mais forte, que pode subir pelas paredes, etc. Mas são um júbilo e uma euforia que andam muito perto da histeria.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby urukai » 28 Apr 2010 11:08

annawen wrote:Tenho estado a pensar na forma como a Nola apresenta o corpo ao marido na cena final. Ela levanta o vestido com um júbilo que é muito semelhante à euforia que, no princípio, o indivíduo da "Mosca" sente, quando se percebe que está mais forte, que pode subir pelas paredes, etc. Mas são um júbilo e uma euforia que andam muito perto da histeria.


Essa cena tmb me ficou na retina. Ha ali qq coisa de reconhecivel na postura dela, do formato do vestido e das pregas. Parece quase uma divindade grega. Talvez esteja mal sugestionado mas nao me admirava se aquilo tivesse sido copiado de alguma pintura famosa de antigamente. Excepto o saco vitelino exterior. Esse é o tal impacto nao natural que brutaliza o espectador.
Last edited by urukai on 28 Apr 2010 11:26, edited 1 time in total.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby annawen » 28 Apr 2010 11:24

Como disse anteriormente, parece uma deusa profana.

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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 28 Apr 2010 11:34

A mim faz-me mais pensar num insecto a abrir as asas, em sinal de demonstração poder.

Não seria descabido tenso em conta o universo conceptual de Cronenberg, pensado no The Fly, tal como referiste, annawen, e no The Naked Lunch, em que as criaturas da interzone se assemelhavam a insectos.
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Re: The Brood - A Ninhada

Postby Samwise » 28 Apr 2010 12:23

Acho que tenho uma "positive ID" para o sujeito da foto de baixo: o psiquiatra R. D. Laing.

Image

In Sanity, Madness and the Family (1964), Laing and Esterton give accounts of several families, analysing how their members see each other and what they actually communicate to each other. The startling way in which lies are perpetuated in the interest of family politics rings true to many readers from 'normal' families, and Laing's view is that in some cases these lies are so strongly maintained as to make it impossible for a vulnerable child to be able to determine what truth actually is, let alone what the truth of their situation is.

(...)

A paradox arising from Laing's interpretations is that it is the very need for ontological security Laing discussed in his first book that is the driving force that builds societies. Laing characterised the family nexus as often placing children in a 'double bind', unable to obey conflicting injunctions from family members, but he does not 'blame' those family members. The family members are usually unaware that they are doing such things, and are just as confused as the children within the situation. The Preface to the Second Edition and Introduction to Sanity, Madness and the Family offer a concise articulation of this issue.
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