Urukai 2010

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Urukai 2010

Postby urukai » 19 Apr 2010 10:38

Lidos:
Leviathan, Paul Auster - Leva um 5 porque está cuidadosamente escrito mas revela-se enfadonho lá pelo meio.
O Estrangeiro, Albert Camus - Leva um 7 pelo início e por certas passagens bem conseguidas.
Pet Sematary, Stephen King - Leva um 6 pela ideia conceptual que é por demais pertinente.
Filho de Deus, Cormac McCarthy - Leva um 5 porque fica aquém do hype com que o encetei.
Fevre Dream, George Martin - Leva um 4 porque parecia entreter mais do que entreteve.
1984, George Orwell - Merece um 9 por aquilo que me deu por pensar.
Sempre vivemos num Castelo, Shirley Jackson - Dou-lhe um 6 na Terra e um 7 na Lua.
A Catcher in the Rye, JD Salinger - Leva um 8 for real. Nothing phony about this opinion.
Fahrenheit 451, Ray Bradbury - Leva um 7 porque o 1984 leva um 9, o Admirável Mundo Novo leva um 8 e temos de hierarquizar obras que não estão ao mesmo nível. Não há cá tríades nesta lista!
Horns, Joe Hill - Leva um 6 porque o Diabo gosta do número.
A Biblioteca, Zoran Zivkovic - Leva um 7 porque me deu uma bela ideia!

Suspensos:
O Mistério da Estrada de Sintra, Eça Queirós e Ramalho Ortigão
The Long Walk, Stephen King
2666, Roberto Bolano
Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago
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Re: Urukai 2010

Postby annawen » 19 Apr 2010 11:31

urukai wrote:Filho de Deus, Cormac McCarthy - Leva um 5 porque fica aquém do hype com que o encetei.


É pena. Eu gostei muito. Até é um dos livros que mais gosto dele.

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Re: Urukai 2010

Postby urukai » 19 Apr 2010 11:42

Não achaste que ele aborda muito pela rama um personagem que tinha tudo para vingar como um vilão incompreendido e real?
Eu senti algum distanciamento excessivo do autor para com o universo criado e alguma confusão na estrutura narrativa. Eu sei que é estilo do Cormac mas, ao contrário da estrada, em que o foco é apenas sobre o pai e o filho com uma evidente e natural irrelevancia cronologica, aqui por vezes sentime perdido no meio de um mar de apatia com algunas ilhotas de passagens geniais (os nomes das filhas do da lixeira ou o puto deficiente mais o passaro ou os gostos do personagem principal)
Por acaso foi por tua causa Annawen que li o livro e não dei o tempo nada por perdido mas estive sempre á espera de um murro no estomago que acabou por nunca ser desferido.

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Re: Urukai 2010

Postby annawen » 19 Apr 2010 12:57

urukai wrote:Não achaste que ele aborda muito pela rama um personagem que tinha tudo para vingar como um vilão incompreendido e real?

Não, de maneira nenhuma. A personagem é o centro da narrativa e o leitor está sempre com ele. Na mente dele, o que é assustador, pois é uma personagem assustadora. Acompanha todas as suas acções. O sofrimento da personagem, a solidão extrema, a tragédia daquele homem ... o leitor sente tudo isso. O escritor convida-nos a entrar na mente de um assassino. O desconforto do leitor vem dessa companhia.

Um dos meus momentos favoritos: Quando ele emerge da gruta, após vários dias debaixo de terra e olha para o vale em baixo. Vê as pessoas a trabalharem, a luz, os campos arados, a natureza, e começa a chorar. Ele vê uma vida normal que ele nunca teve. A alegria de uma vida normal. Eu compreendi esse sofrimento, que é muito profundo. Mais profundo ainda por o McCarthy não se expandir em palavras e limitar-se a dizer que ele está a chorar. É que há coisas que os seres humanos sentem que não podem ser expressas em palavras, ou melhor, a linguagem fica aquém. Os grandes escritores sabem disso, e por isso usam o silêncio.

Eu senti algum distanciamento excessivo do autor para com o universo criado e alguma confusão na estrutura narrativa. Eu sei que é estilo do Cormac mas, ao contrário da estrada, em que o foco é apenas sobre o pai e o filho com uma evidente e natural irrelevancia cronologica, aqui por vezes sentime perdido no meio de um mar de apatia com algunas ilhotas de passagens geniais (os nomes das filhas do da lixeira ou o puto deficiente mais o passaro ou os gostos do personagem principal)
Por acaso foi por tua causa Annawen que li o livro e não dei o tempo nada por perdido mas estive sempre á espera de um murro no estomago que acabou por nunca ser desferido.


Sinto alguma perplexidade com o teu comentário uma vez que considero este livro muito concentrado, isto é, muito coeso. Não vejo dispersão nenhuma, em nenhum ponto, sinceramente. Nunca senti apatia ao ler o livro. Achei-o muito intenso. O foco aqui também é a personagem principal. E só. Todas as outras são muito secundárias. Ou melhor, as outras só existem para realçar a personagem principal.

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Re: Urukai 2010

Postby urukai » 19 Apr 2010 13:14

Concordo contigo relativamente á coesão em torno de Ballard, mas o que eu queria dizer é q nem sempre estamos com Ballard. Dou dois exemplos:
- Na primeira parte do livro existe um narrador que nao cheguei a perceber quem era e que acaba por desaparecer;
- Quando surgem outros personagens, o caso. do xerife por exemplo, os. dialogos tornamse confusos e soltos;
Ou seja, admito que o problema possa passar um pouco por mim que gosto de coisas directas e nada sub-entendidas, mas na verdade penso que o livro só tinha a ganhar se fosse mais directo. Com uma cronologia mais vincada e dados mais concretos.
O final foi refrescante mas podia ter sido mais marcante se a idea subjacente ao titulo tivesse sido mais vincada: Mesmo tendo feito o que fez será Ballard um filho de Deus?

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Re: Urukai 2010

Postby annawen » 19 Apr 2010 14:06

urukai wrote:- Na primeira parte do livro existe um narrador que nao cheguei a perceber quem era e que acaba por desaparecer;


Já li o livro há um certo tempo (e neste momento não estou em casa para confirmar) mas parece-me que o narrador é sempre o mesmo e que não aparece personificado (é um narrador omnisciente). Mas posso estar errada. Tenho que confirmar.

- Quando surgem outros personagens, o caso. do xerife por exemplo, os. dialogos tornamse confusos e soltos;
Ou seja, admito que o problema possa passar um pouco por mim que gosto de coisas directas e nada sub-entendidas, mas na verdade penso que o livro só tinha a ganhar se fosse mais directo. Com uma cronologia mais vincada e dados mais concretos.


Bem, isso já entramos numa questão de gosto pessoal. No meu entender, os saltos no tempo não me incomodaram nada. Até me pareceram necessários, pois a personagem começa a construir-se como um puzzle e quando as analepses surgem servem para reforçar certos aspectos da personalidade da personagem que não sei se teriam tanta força se fossem mostrados por ordem cronológica. Até porque não é a vida toda de Ballard que interessa a McCarthy, é o momento em que ele começa a cometer os crimes. As memórias da infância são fragmentos que vão sendo contados ao leitor, presumo que à medida que o Ballard se lembra deles.

Em relação ao Xerife, não me lembro.

O final foi refrescante mas podia ter sido mais marcante se a idea subjacente ao titulo tivesse sido mais vincada: Mesmo tendo feito o que fez será Ballard um filho de Deus?


Não sei se "refrescante" seria a palavra que utilizaria. Para mim foi aterrador. Quanto à pergunta: cabe a cada leitor a resposta. Também não podemos esquecer que o título tem algo de irónico. Ele é um filho de Deus porque é um homem e os crimes que cometeu são frutos de necessidades humanas, espelham a tragédia da condição humana. São humanos e ao mesmo tempo monstruosos, mas há algo de humano nessa monstruosidade. Por outro lado, se ele é um homem (e se é um filho de Deus), vê como terminou. Por isso, para mim, o final é terrível. Somos filhos de Deus mas não somos nada, ao mesmo tempo.

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Re: Urukai 2010

Postby urukai » 19 Apr 2010 14:17

É bom discutir estas coisas porque ficamos com outra visão daquilo que para nós era mais ou menos claro.

Considero o final refrescante por nao estar à espera e ser original e diferente, mas sim tem o seu quê de perturbante.

O tal narrador dáme ideia de ser alguem da aldeia. Um antigo colega de escola do ballard que até sofreu algum bullying por parte dele.

E depois, na minha experiéncia com o livro, existe um sentimento de frustação relacionado com o que eu achava que era o Ballard. Desde o inicio, e há alguns indicios nesse sentido, que achei que o tema fosse a pedofilia. Fiquei um pouco desiludido por assim nao ser. Contudi a alternativa é igualmente repugnante, quiçá, até mais nojenta de um ponto de vista sensorial.

Ps- obrigado pela tua opinião Annawen. Desculpa os meus erros, acentuação e falta de quotes mas estou no pda e escrever estas linhas num touch screen já é uma tarefa herculea...

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Re: Urukai 2010

Postby annawen » 19 Apr 2010 14:43

urukai wrote:O tal narrador dáme ideia de ser alguem da aldeia. Um antigo colega de escola do ballard que até sofreu algum bullying por parte dele.


Nunca o entendi como uma personagem.

Desde o inicio, e há alguns indicios nesse sentido, que achei que o tema fosse a pedofilia. Fiquei um pouco desiludido por assim nao ser.


É, não tem nada a ver.

Ps- obrigado pela tua opinião Annawen. Desculpa os meus erros, acentuação e falta de quotes mas estou no pda e escrever estas linhas num touch screen já é uma tarefa herculea...


No problem. Entende-se muito bem.

Bem, pelo menos não deste a leitura como tempo perdido. ;)

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Re: Urukai 2010

Postby urukai » 19 Apr 2010 14:52

Nada disso!
E como já disse tem lá passagens que valem por outros livros inteiros. A descrição daquele episodio de voyeurismo no carro é deliciosa.

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Re: Urukai 2010

Postby urukai » 14 Jul 2010 01:29

Update na lista de lidos com a entrada de 3 obras de peso! E o meu primeiro 9!

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Re: Urukai 2010

Postby Samwise » 14 Jul 2010 10:34

monicaleal wrote:Já acabaste de ler o 2666, ou ainda estás a ler? Não sei se o post é antigo ou é um update.


O urukai anda a ler (ou a fingir que lê) o 2666 há muito tempo. Acho que até começou antes do livro ter sido publicado ( :mrgreen: ).
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Re: Urukai 2010

Postby Sharky » 14 Jul 2010 11:01

Também tenho o livro lá em casa, é um rico tijolo, fica tão bem na estante :mrgreen:
Mas compreendo porque o urukai não pega nele, deve ser um projecto que requer muito tempo e dedicação B)

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Re: Urukai 2010

Postby urukai » 14 Jul 2010 11:19

Olá Mó!
Não ligues ao Sam e ao Sharky que nao perdem uma oportunidade para me desancar à conta do 2666. :D
Efectivamente tenho tido alguma dificuldade em recomeçar o livro. Fiquei no fim da primeira parte e estava a gostar mas é grande demais para ser um livro portatil e em casa tenho tido outras distrações. De qq maneira, tal como diz a Tzimbi, todos temos a nossa servidão humana... mas hei-de acabá-lo...

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Re: Urukai 2010

Postby pageHunter » 14 Jul 2010 12:03

monicaleal wrote:Mas será que alguém leu este livro? Eu também demorei um pouco mais que o habitual a termina-lo. Acho que demorei um mês e meio. Mas eu só tenho tempo no caminho casa/trabalho e o livro é grande.

A primeira vez que li algumas páginas na casa de uns amigos que o tinham lá, fiquei tão curiosa que já não queria participar no churrasco. (supostamente estava lá para conviver)

De qualquer forma, o livro tem vários capítulos, todos eles com um tipo de escrita diferente, com histórias e personagens diferentes mas que se cruzam algures na história, ou que acabam por estar ligadas pelo enredo. Todas elas a dirigirem-se para um mesmo centro.

O Livro não chegou a ser terminado, uma vez que Bolano morreu antes da sua conclusão. Era sobre isso que gostaria de falar, entre outras coisas.

M.

Olá Mónica,

Porque não criar um tópico sobre o livro na secção de críticas/opiniões? Deixas a tua opinião sobre o livro e vais ver que mais cedo ou mais tarde alguém vai lá "postar umas ideias" :tu:

P.S.: Antes de criares o tópico não te esqueças de procurar a ver se já existe um para esse livro ;)
Read
Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores
Different Seasons, Stephen king
The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald

Reading
Sunset Park, Paul Auster



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Re: Urukai 2010

Postby Anibunny » 14 Jul 2010 12:07

Ph ainda ninguém conseguiu terminar aquilo XD
Eu vi a versão inglesa à venda na FNAC a 7€... mas depois lembrei-me do número de páginas e desisti


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