Quando o Diabo Reza - Mário de Carvalho

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Quando o Diabo Reza - Mário de Carvalho

Postby Cerridwen » 28 Oct 2011 11:56

Quando o Diabo Reza
Mário de Carvalho


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Editora: Tinta da China Edições
Colecção de ficção portuguesa
Classificação: Literatura Portuguesa, Romance
N.º de páginas: 168
ISBN: 9789896711009

Sinopse: «Quando um galdério tem uma ideia brilhante partilha-a logo com outro vadio. Colectivização intelectual. Uma grande ideia fica a secar se não for disponibilizada. E como não há dois sem três, estende-se a rede e monta-se a urdidura. Vala grande, saltar de trás. Ponderadas as valências de cada factor e os recursos disponíveis, o projecto avança, científico e inseguro.

Quando duas irmãs, já entradas na vida, sonham com teres e haveres, mundos melhores, segurança de estado e paz de espírito, o destino costuma intrometer-se, turvar os planos, rasteirar os desígnios. Dessas contrariedades é feita a literatura que se dá mal com os harpejos dos anjos nas nuvens e prefere o Diabo, sempre atrás da porta, vigilante, até a rezar.
Quando um ancião rabugento anda por aí a bengalar à solta, ocorre a alguns visionários que ele está mesmo a pedi-las.»

Mário de Carvalho nasceu em Lisboa, em 1944. Licenciou-se em Direito e esteve preso em Caxias e em Peniche, devido a actividade política contra a ditadura nos tempos de estudante. Exilou-se em França e na Suécia e, regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974. É autor de obras como A Paixão do Conde de Fróis, Os Alferes, Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, A Arte de Morrer Longe e Sala Magenta. Venceu o Grande Prémio de Literatura ITF/DST em 2004.

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Re: Quando o Diabo Reza - Mário de Carvalho

Postby Cerridwen » 03 Jan 2012 16:01


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Re: Quando o Diabo Reza - Mário de Carvalho

Postby Cerridwen » 17 Jan 2012 13:40

«Escrevo ainda sobre Quando o Diabo Reza, vadiário lisboeta de Mário de Carvalho (n. 1944), que entra com o pé direito no catálogo da Tinta da China. A malta mais nova é capaz de ficar desorientada com o vocabulário: basófio, narigonço, camandro, belfas, trambolho, serrazina, niquices, beque, facha, palheta, frosques, cassa, os verbos abichar e afincar, etc. Ainda bem. A literatura não pode ficar confinada a autores que fazem livros à volta de cinco palavras. Quando o Diabo Reza é um thriller contemporâneo sobre a malandragem portuguesa.» - Eduardo Pitta, in Da Literatura

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Re: Quando o Diabo Reza - Mário de Carvalho

Postby Bugman » 08 Jan 2013 12:04

O autor e Ricardo Araújo Pereira sobre a obra mútua, com o vadiário do tópico como desculpa.
A PENA online | O Bug Cultural

Normalcy was a majority concept, the standard of many and not the standard of just one man. Robert Neville
O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
"No, Señoría, no es lo mismo estar dormido que estar durmiendo, porque no es lo mismo estar jodido que estar jodiendo". Camilo Jose Cela

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Re: Quando o Diabo Reza - Mário de Carvalho

Postby Bugman » 14 Jun 2013 10:46

Publicado ontem no meu cantinho:

R.B. NorTør wrote:A melhor forma de começar a falar deste Quando o Diabo reza, de Mário de Carvalho, é retroceder trinta anos e falar sobre uma obra de outro Mário, esse Zambujal, e a sua Crónica dos Bons Malandros, porque no fundo esta obra é, por assim dizer, uma crónica de malandrinhos.

O paralelismo entre as obras está derramado sobre a escrita, desde os criminosos que falam como criminosos, como disse Ricardo Araújo Pereira, ao esquema rocambolesco com imprevistos de última hora. A única coisa que falta é a história dos personagens, mas ao contrário das personagens de Zambujal, aos criminosos de Carvalho falta-lhes história. Não que tenham muita. Facilmente se percebe que não há ali muita história para contar, que não são vítimas das amarguras da vida, personagens trágicas, são apenas apologistas da malandragem, gente sem jeito para outras coisas, nunca ficando muito claro se por não quererem, se por não poderem. Ou dito de outra forma, onde Zambujal faz quase que uma apologia da malandragem, onde sentimos que podemos fazer amizade com os seus malandros, os malandros de Mário de Carvalho são gente que não queremos convidar para nossa casa desde o momento zero, ao momento final.

O centro da pequena malandragem de Carvalho é um velho. Um velho que se diz ser endinheirado apesar de nunca o sabermos e ficar sempre a impressão que a sua fortuna não será tão fortuna assim. Como velho que se diz ser endinheirado, num meio pequeno, esse velho é alvo do interesse de um grupo de meliantes e da própria família, que não se lembra dele até as contas começarem a chegar, até a vontade de comprar um carro ser grande, até... São esses malandros, nas palavras do autor, dois vadios, uma galdéria e duas irmãs, estas filhas do velho, uma que vive com ele, a outra que vive amarguradamente distante.

A narrativa decorre em Lisboa, com uma ligeira incursão aos arredores, mas pode ser num bairro qualquer onde haja uma igreja daquelas onde se paga o dízimo e que se especializam em pobres, porque os ricos vão para a outra (como a páginas tantas um dos vadios diz). Esta indefinição geográfica e a falta de história das personagens são o ponto em que as obras dos Mários, ambas narrativas da malandragem que facilmente se encontra nas esplanadas e ruelas de Lisboa, se afastam. Onde Mário Zambujal nos premiou com um romance curto, Mário de Carvalho brinda-nos com um conto longo.

Enquanto conto revela-se no entanto uma autêntica lição de como escrever. As personagens podem ser gente oca, mas não são vagas e indefinidas, a narrativa é bem estruturada e com um ritmo que encontra paralelismo na acção (de facto a fase inicial, em que se monta o palco para a farsa final, é de leitura um pouco mais lenta, mas torna-se mais fluída com o desenrolar da narrativa) e a escrita flutua com as personagens, sendo mais vadia com os vadios e galdéria com a galdéria, sem exagerar nem forçar. Ler este Quando o Diabo reza podia ser um acto de estar sentado numa esplanada a ouvi-los contar as suas aventuras e isso, essa arte de nos dar fatias da realidade que podiam ter sido vividas por nós, é uma sublime arte que merece ser apreciada.
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