Pride and Prejudice / Orgulho e Preconceito - Jane Austen

Tzimbi
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Re: Pride and Prejudice

Postby Tzimbi » 09 Sep 2011 12:23

Ora bem, vamos por partes.
Primeiro, estive a reler por alto o tópico e descobri que o fã nº 1 da Austen é o Sam. És mesmo menina tu...
Segundo, não tinha reparado que já tinha “embirrado” com a autora num post anterior. Pronto, ficam a saber que a minha opinião não mudou com o tempo.

Agora tentando responder mais seriamente à annawen, eu não disse que é preciso fazer o enquadramento para se perceber que ela é uma grande escritora, disse que EU preciso disso para perceber, porque falamos aqui de uma opinião muito pessoal. Tal como tu, também sou fã do Bloom e do que ele escreve, o que não quer dizer que sinta o mesmo que ele (e já agora que vocês todos apreciadores de Jane Austen) ou que concorde sempre com as opiniões dele.

As minhas razões para não achar a Austen uma escritora genial foram curiosamente quase todas enunciadas por ti.
Vejamos:

1. “O mundo dela é um mundo limitado, e todos os livros, ou pelo menos os que conheço, narram as mesmas situações.”
Embora não possa confirmar a tua afirmação na totalidade, pois só li o Pride and Prejudice, é essa a sensação que tenho quando leio alguns resumos e algumas análises de outras obras dela. E além de limitado, é um mundo que não me fascina, aquelas mulheres irritantes, as preocupações constantes com os casamentos e as posições sociais.

2. “Ela não é uma escritora de grandes descrições, nem mesmo de grandes descrições psicológicas, mas, de uma forma subtil, quase sem se dar por isso, dá-nos momentos de bastante riqueza humana.”
Momentos de bastante riqueza não me chegam, não é suficiente.
E, ao contrário de ti, não acho que as relações entre as pessoas sobre as quais ela escreve tenham muito paralelismo com a atualidade. Sinceramente, acho as narrativas dela muito datadas e, mais do que datadas, apresentam uma abordagem pouco aprofundada a nível psicológico.

Em minha opinião (e repetindo-me), o Pride and Prejudice é um romance muito competente, mas não passa disso, de uma historiazinha de amor, com um punhado de peripécias e um final feliz. Documenta bem a época? Sim, perfeitamente. Com muita ironia? Talvez...dizem que sim. É uma leitura agradável? Sim, é. Apenas não é genial.
Mas curvo-me à vox populi que a considera uma das melhores escritoras de sempre. A incapacidade de a compreender deve estar em mim.

Termino só com duas frases do Twain que nutria uma simpatia especial pela Austen (encontrei estas frases há muito tempo, quando, logo depois de ler o Pride and Prejudice, andei à procura de análises críticas à obra que me convencessem da sua genialidade):

“Jane Austen? Why I go so far as to say that any library is a good library that does not contain a volume by Jane Austen.”

“Everytime I read 'Pride and Prejudice' I want to dig her up and beat her over the skull with her own shin-bone.”

Se bem que esta última frase tem várias leituras, ou seja, se é "everytime" é porque leu o livro várias vezes e se o leu várias vezes... Está tudo dito!

Como estou sempre pronta para admitir que estou errada :angel: , annawen qual é o próximo livro de Austen que devo ler para ser convertida?

S.

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Re: Pride and Prejudice

Postby Samwise » 09 Sep 2011 12:31

Tzimbi wrote:“Everytime I read 'Pride and Prejudice' I want to dig her up and beat her over the skull with her own shin-bone.”

Se bem que esta última frase tem várias leituras, ou seja, se é "everytime" é porque leu o livro várias vezes e se o leu várias vezes... Está tudo dito!


O "everytime" também pode ser interpretado como "cada vez que pegava nele para ler", e não que o tenha lido todo várias vezes. Ou seja, pode bem não ter passado da primeira página... :mrgreen:

---

Já mencionei que o charme do Mr. Darcy me deixa de rastos?... :devil:
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Re: Pride and Prejudice

Postby urukai » 09 Sep 2011 12:56

Diz que o problema dela é com a utilização excessiva da voz passiva.
Aqui ficam os inícios das suas obras mais conhecidas. Não desgosto dos mesmos:
Pride and Prejudice: It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune, must be in want of a wife.

Mansfield Park: About thirty years ago, Miss Maria Ward of Huntingdon, with only seven thousand pounds, had the good luck to captivate Sir Thomas Bertram, of Mansfield Park, in the county of Northampton, and to be thereby raised to the rank of a baronet’s lady, with all the comforts and consequences of an handsome house and large income.

Emma: Emma Woodhouse, handsome, clever, and rich, with a comfortable home and happy disposition, seemed to unite some of the best blessings of existence; and had lived nearly twenty-one years in the world with very little to distress or vex her.

Northanger Abbey: No one who had ever seen Catherine Morland in her infancy, would have supposed her born to be an heroine.

Sanditon: A gentleman and a lady travelling from Tunbridge towards that part of the Sussex coast which lies between Hastings and Eastbourne, being induced by business to quit the high road and attempt a very rough land, were overturned in toiling up its long ascent, half rock, half sand.

Sense and Sensibility: The family of Dashwood had long been settled in Sussex.


O começo menos interessante é capaz de ser o do Sense and Sensibility mas fiquei mt interessado com o Emma! Nos meus primeiros 21 de vida tive mta coisa que me aborreceu e algumas que me transtornaram.

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Re: Pride and Prejudice

Postby annawen » 09 Sep 2011 13:16

Estarei a ver bem... estaremos a discutir mesmo literatura no BBDE! :mrgreen:



1. “O mundo dela é um mundo limitado, e todos os livros, ou pelo menos os que conheço, narram as mesmas situações.”
Embora não possa confirmar a tua afirmação na totalidade, pois só li o Pride and Prejudice, é essa a sensação que tenho quando leio alguns resumos e algumas análises de outras obras dela. E além de limitado, é um mundo que não me fascina, aquelas mulheres irritantes, as preocupações constantes com os casamentos e as posições sociais.


Sim. As histórias andam à volta do mesmo. Mas é o mundo que ela conhecia. Quando disse limitado, queria dizer em enredo e interesses. Porque onde houver homem há riqueza humana.


2. “Ela não é uma escritora de grandes descrições, nem mesmo de grandes descrições psicológicas, mas, de uma forma subtil, quase sem se dar por isso, dá-nos momentos de bastante riqueza humana.”
Momentos de bastante riqueza não me chegam, não é suficiente.
E, ao contrário de ti, não acho que as relações entre as pessoas sobre as quais ela escreve tenham muito paralelismo com a atualidade. Sinceramente, acho as narrativas dela muito datadas e, mais do que datadas, apresentam uma abordagem pouco aprofundada a nível psicológico.


Quando disse "nem de grandes descrições psicológicas" queria dizer em termos de extensão, não de profundidade. A JA não é uma escritora que demore 5 páginas para tirar o retrato a uma pessoa. Ela é uma escritora de pinceladas rápidas. Os costumes sociais podem ter mudado mas as regras de civilidade, o falso interesse, a hipocrisisa escondida na amabilidade, as boas intenções que são um disfarce para a maldade, isso ainda existe, e sempre existirá.


Como estou sempre pronta para admitir que estou errada , annawen qual é o próximo livro de Austen que devo ler para ser convertida?


Receio bem que para ti, minha cara Tzimbi, não haja solução. Não recomendo nenhuma, mas recomendo que leias a parte sobre a Jane Austen no "Cânone Ocidental", do Harold Bloom.


Annawen, aquela série que menciono, bem como esta última adaptação ao cinema pelo Joe Wright, são obras muitos decentes, pelo que a minha recomendação mantém-se.


O filme não vi. Mas a série é boa. Eu só acho que a Elizabeth Bennet do livro é mais interessante do que a da série.

---

Podes por favor quotar a tal frase da felicidade com F grande à saída do teatro?


Isto é do livro "Persuasion" de que eu devia ter aberto um tópico próprio, mas não tenho tempo para escrever uma opinião longa. A frase é a última, mas para ela fazer sentido tenho que pôr o parágrafo que vem antes.

"Very, very happy were both Elizabeth and Anne Elliot as they walked in. Elizabeth arm in arm with Miss Carteret, and looking on the broad back of the dowager Viscountess Dalrymple before her, had nothing to wish for which did not seem within her reach; and Anne – but it would be an insult to the nature of Anne's felicity, to draw any comparison between it and her sister's; the origin of one all selfish vanity, of the other all generous attachment.

Anne saw nothing, thought nothing of the brilliancy of the room. Her happiness was from within."


---

O primeiro capítulo do "Orgulho e Preconceito", já disse antes, é perfeito. Quero lá saber se a JA tem problemas com a voz passiva ou deixa de os ter. Quem me dera era escrever como ela, isso sim.

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Re: Pride and Prejudice

Postby urukai » 09 Sep 2011 14:06

Aqui está o artigo da Voz Passiva. Tinha-o lido descontextualizado. Afinal o autor está a borrifar-se para a voz passiva (tal como a Annawen)

Inspired by Peter Leithart's new (and very fine) book, Miniatures and Morals, I recently began reading through Jane Austen. I had read a few of them many years ago, and am not quite sure which ones. So this time I started with Sense and Sensibility, which was fun, and then on to Pride and Prejudice, which was considerably better. But my time in Austen's work is also reinforcing some prejudices I have about writing and style. P & P begins with a dead construction ("It is"), and the style is heavy on abstraction, nominalization, and the passive voice, all contemporary no-no's. From the begining to the end, we know the color of virtually nothing, including Elizabeth Bennet's eyes, and are given no clue of what anything else looks like, at least in the kind of word painting we are used to. Austen tells as opposed to showing, and does so with determined ferocity. And yet, despite all this, it is a magnificent book. Perhaps we are confusing our local conventions for fundamental principles.

I remember reading (years ago) a criticism of John Calvin, written by Eugene Peterson of The Message fame. He wondered how a genius like Calvin could spend his writing and publishing life in Switzerland, and not ever have the grandeur of the Alps creep into his writing. What deep poverty of spirit must this indicate? And yet I suspect this is more a function of our provincialism (in our blind attachment to the conventions and styles we prefer). How does this criticism not also apply to Matthew, Mark, Luke and John, all of whom neglected to tell us the color of Jesus' hair, the knarled strength of His hands, or how a slight breeze ruffled the whitecaps on the Sea of Galilee?

I am inclined to think that good writing is that which displays to the thoughtful reader consistent signs of purpose, design, and intelligence on the part of the author. This should help answer the question of what Jane Austen, Annie Dillard, John Bunyan, Tom Wolfe, and Mark Twain all had in common. If we look at what distinguishes them, we are in the realm of conventions of style. If we look at what unites them, what one thing are we looking for?


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Re: Pride and Prejudice

Postby Samwise » 09 Sep 2011 16:02

annawen wrote:O filme não vi. Mas a série é boa. Eu só acho que a Elizabeth Bennet do livro é mais interessante do que a da série.


Provavelmente tens a memória mais fresca que eu. Na altura lembro-me de uma fidelidade muito grande entre a série e o livro, a ponto de pensar que nada tinha ficado de fora na adaptação e que as personagens eram um espelho exacto das descrições do livro (não estou a falar a nível de aparência física).

Já o filme não vai nesse sentido - não só porque não tem tempo, mas porque as explora de outra maneira - libertando-as um pouco dos convencionalismos do romance (como que que as moderniza). E consegue ao mesmo tempo ser minimamente fiel à memória do livro e inovar no formalismo estético.
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Re: Pride and Prejudice

Postby urukai » 09 Sep 2011 16:15

Samwise wrote:
annawen wrote:O filme não vi. Mas a série é boa. Eu só acho que a Elizabeth Bennet do livro é mais interessante do que a da série.


Provavelmente tens a memória mais fresca que eu. Na altura lembro-me de uma fidelidade muito grande entre a série e o livro, a ponto de pensar que nada tinha ficado de fora na adaptação e que as personagens eram um espelho exacto das descrições do livro (não estou a falar a nível de aparência física).

Já o filme não vai nesse sentido - não só porque não tem tempo, mas porque as explora de outra maneira - libertando-as um pouco dos convencionalismos do romance (como que que as moderniza). E consegue ao mesmo tempo ser minimamente fiel à memória do livro e inovar no formalismo estético.



SAM! ISTO É QUE NÃO PODE SER! ENCHERES A ÁREA DA LITERATURA COM OPINIÕES SOBRE FILMES E SÉRIES!
NÃO TENS CURA SAM! :twisted: :twisted: :twisted: :twisted: :twisted: :deadhorse:

Se o Sharky passa por aqui não se vai ficar apenas pelo "desabafo"! :pipoca: :D :D :D :D

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Re: Pride and Prejudice

Postby Samwise » 09 Sep 2011 16:21

Lamento, mas o desabafo do Sharky mencionava especificamente a área de Cinema, e nessa eu até tenho estado silencioso... :angel:

---

(reconheço que tenho a "doença", mas quem disse que queria ser curado?)
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Re: Pride and Prejudice

Postby annawen » 09 Sep 2011 17:16

Samwise wrote:Provavelmente tens a memória mais fresca que eu.


Isso já não sei. Foi o que me pareceu quando li o livro mas não ponho as mãos no fogo.


Post EDITADO por Samwise: transferi o resto da conversa para o tópico apropriado.

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Re: Pride and Prejudice (Jane Austen)

Postby Samwise » 28 Jan 2013 00:02

No Público: Elizabeth e Darcy celebram 200 anos de casados

Dois séculos após a sua primeira edição, Orgulho e Preconceito de Jane Austen continua a ser reeditado e lido e sucedem-se as adaptações ao cinema e à televisão

Há duzentos anos, no dia 28 de Janeiro de 1813, o editor Thomas Egerton tirava dos prelos o romance Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice). Nos três volumes dessa primeira edição, que esgotou em menos de um ano, não figurava o nome de Jane Austen (1775-1817), sendo a paternidade da obra atribuída à “autora de Sensibilidade e Bom-Senso (Sense and Sensibility), que fora publicado em 1811 sob o pseudónimo “Uma Senhora”.

Ao longo dos últimos dos últimos dois séculos, a história de Elizabeth Bennett e do orgulhoso Fitzwilliam Darcy nunca deixou de ser reeditada e calcula-se que ainda hoje venda anualmente no Reino Unido cerca de 50 mil exemplares, um número extraordinário, tendo em conta que não se trata de um novo livro de um romancista vivo e em voga. Mas também há que ter em conta que o romance de Austen reentrou na moda em 1995, quando foi adaptado à televisão pela BBC, numa série com o popular Colin Firth no papel de Darcy e Jennifer Ehle no de Elizabeth. O primeiro a representar Darcy no cinema tinha sido Laurence Olivier, em 1940, num filme que a MGM produziu por sugestão de Harpo Marx, a quem não terão escapado os brilhantes dotes de humorista de Jane Austen. E o mais recente foi Matthew Macfayden, que contracena com Keira Knightley no filme que Joe Wright realizou em 2005.

Além das suas várias adaptações ao audiovisual, o livro inspirou ainda um sem-número de obras literárias posteriores, incluindo, para citar apenas dois exemplos recentes, Death Comes to Pemberley (2011) – no qual P. D. James, a decana das escritoras policiais inglesas, abala o idílio de Elizabeth e Darcy com um crime em família – e o ainda mais provocatório Pride and Prejudice and Zombies (2009), de Seth Grahame-Smith, cujo título dispensa comentários.

Para comemorar o segundo centenário de Orgulho e Preconceito, o Centro Jane Austen da cidade inglesa de Bath, onde a romancista viveu de 1801 a 1806, organiza na segunda-feira uma maratona de leitura de 12 horas que envolverá especialistas da obra, escritores e fãs. Hoje já só falta determinar quem irá ter a honra de ler as célebres frases de abertura, que têm persuadido sucessivas gerações de leitores a não pousar precocemente o livro. Na tradução do poeta José Miguel Silva para a nova edição que a Relógio D'Água acaba de lançar, a história começa assim: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem rico e solteiro precisa de uma esposa. Tal verdade encontra-se tão firmemente implantada nas cabeças das pessoas que, independentemente dos sentimentos ou opiniões do cavalheiro a respeito do assunto, no momento em que ele chega a uma determinada terra, é imediatamente considerado propriedade legítima de algumas das filhas dos seus novos vizinhos”.

O cenário é, pois, a Inglaterra rural e provinciana, o país dos landed gentry, uma elite de proprietários suficientemente abastados para poderem viver das rendas das suas quintas. E como as frases de abertura sugerem com ironia, o principal desporto local é, para as donzelas e respectivas mães, arranjar maridos e genros economicamente promissores.

Admiradores e críticos

Janet Todd, responsável pela edição de referência das obras de Jane Austen acha que o perene sucesso de Orgulho e Preconceito – sem dúvida o mais popular dos seis romances da autora – se deve à “história romântica da rapariga que apanha um homem da classe alta com fortuna, um macho arrogante que é vencido pelo amor”. É possível que tenha razão, mas não faltam outras e melhores razões para um leitor do século XXI se poder deliciar com este livro, como o incrível talento de Austen para criar personagens memoráveis, a começar por Elizabeth Bennet, um espírito livre e vivíssimo numa sociedade e numa época em que a inteligência e a ironia não eram necessariamente vistos como atributos desejáveis numa jovem mulher.

A história de Orgulho e Preconceito é o relato de como o enlace de Elizabeth e Darcy vai sendo protelado pelo orgulho e pelos preconceitos de ambos. Na sua versão original, o livro chamava-se First Impressions, um título que também seria adequado, já que a trama desta espécie de sofisticada comédia de costumes tem origem no modo como os dois protagonistas se deixam iludir pelas suas primeiras impressões. É provável que o relativo êxito de Sense and Sensibility tenha levado Austen a apostar num título que ecoasse o do livro anterior.

Mas se Elizabeth é uma criação inesquecível, Austen rodeia-a de uma extraordinária galeria de personagens secundários, incluindo uma vasta parentela, da mais chegada – a mãe (fútil e interesseira), o pai (divertido e negligente) e as quatro irmãs – até primos afastados, como o impagavelmente obtuso reverendo Collins. O crítico Harold Bloom chama a atenção para que as figuras criadas por Austen, as suas heroínas, mas também as personagens menores, têm todas um registo discursivo tão singular como consistente, que as distingue imediatamente de todas as outras. É sobretudo por esse talento que não hesita em a comparar a Shakespeare, uma associação que não foi o primeiro a fazer. Já em 1843, o poeta e historiador Thomas Macaulay sustentava que Austen era a escritora que mais se aproximara da arte do grande dramaturgo. Um feito bastante notável para esta filha do reverendo George Austen, sétimo rebento da sua numerosa prole, que morreu aos 41 anos, conheceu pouco mundo, embora apreciasse o convívio social, nunca se casou e, tanto quanto se sabe ao certo, não terá tido ligações sentimentais significativas.

Embora tenha começado a escrever cedo, Jane Austen só começou a editar nos seus últimos anos de vida. Entre 1811 e 1816 publicou cinco romances – Sensibilidade e Bom-Senso, Orgulho e Preconceito, A Abadia de Northanger, Mansfield Park e Emma – , tendo deixado pronto um sexto, Persuasão, que sairia em 1918, um ano após a sua morte. Ainda pôde ler, na imprensa, as críticas aos seus primeiros livros, geralmente favoráveis, como a de Walter Scott, que lhe gabava a verosimilhança dos enredos e a “originalidade e precisão” com que desenhava “as senhoras e cavalheiros da província”.

Mas Austen também teve detractores. Charlotte Brontë, que tinha um ano quando Austen morreu, não suportava os seus romances: “as paixões são-lhe perfeitamente desconhecidas”, ajuizava a autora de Jane Eyre. E basta ler esse livro, para já não falar de O Monte dos Vendavais, a obra-prima da irmã de Charlotte, Emily, para perceber que, aos olhos das Brontë, as histórias de Jane Austen deviam parecer objectos gelados e desprovidos de quaisquer sentimentos profundos.

Já Virginia Woolf disse que, “de todos os grandes escritores”, Austen era “a mais difícil de se apanhar em pleno acto de grandeza”.

A própria Jane Austen revela a visão que tinha do seu ofício através de uma personagem feminina de A Abadia de Northanger a quem perguntam o que está a ler: “Oh, é só um romance (…), ou, em resumo, um trabalho onde estão representados os mais altos poderes da mente, onde o mais acabado conhecimento da natureza humana, a mais feliz descrição das suas variedades, as mais vivas efusões de humor e espírito, são servidos ao mundo na mais bem escolhida das linguagens”.
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Re: Pride and Prejudice / Orgulho e Preconceito - Jane Auste

Postby Cerridwen » 04 Mar 2014 19:10

A Ed. Presença lançou uma nova edição de Orgulho e Preconceito. Eis a sinopse:

«Orgulho e Preconceito é o romance mais conhecido de Jane Austen. Embora o universo que retrata seja circunscrito - a sociedade inglesa rural da época -, graças ao génio de Austen o seu apelo mantém-se intacto. É uma história de amor poderosa, entre Elizabeth Bennet, a filha de espírito vivo e independente de um pequeno proprietário rural, e Mr. Darcy, um aristocrata altivo da mais antiga linhagem. Mas é também uma deliciosa comédia social, à qual estão subjacentes temáticas mais profundas. A sua atmosfera é iluminada por uma jovialidade contagiante, por uma variedade de personagens e vozes que tornam o enredo vibrante e constantemente agitado pelo elemento surpresa, pela genialidade da inteligência e da ironia de Austen.»

E um excerto: http://www.presenca.pt/files//products/Exc01040571.pdf


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