Heart of Darkness (Joseph Conrad)

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Heart of Darkness (Joseph Conrad)

Postby Samwise » 08 May 2006 18:05

Image

Penguin Classics
Paperback
110 páginas
2.5€

Apontado com um dos romances mais influentes do início do século XX, "Heart of Darkness" é uma assombrosa narrativa que, ao mesmo tempo que acompanha a viagem de um homem ao interior das selvas africanas, nos leva ao abismo das tentações da mente e alma humana face ao desconhecido.

Foi em torno da ideia central deste livro que John Milius e Francis F. Coppola construiram o infernal "Apocalypse Now"...

Denso - cada vez mais denso à medida que, rio acima, penetramos na selva -, inquietante, perturbador e muitíssimo bem escrito, "Heart of Darkness" não escapou, no entanto, a diversas acusações de racismo por parte de algumas personalidades importantes no mundo literário.

Se à primeira vista as questões raciais são tratadas com alguma dignidade, observando melhor, uma série de juízos e interpretações podem tomar um sentido totalmente inverso... é ler e avaliar... O livro foi escrito numa época em que o colonialismo britânico estava talvez no seu auge...

Sobre esta polémica, podem ler mais nos seguintes links (atenção... podem conter eventuais spoilers):

<a href='http://www.cx.unibe.ch/ens/cg/africanfiction/conrad/bradley/bradley.html' target='_blank'>http://www.cx.unibe.ch/ens/cg/africanficti...ey/bradley.html</a>

<a href='http://www.erinyes.org/hod/image.of.africa.html' target='_blank'>http://www.erinyes.org/hod/image.of.africa.html</a>

Questões raciais à parte, "Heart of Darkness" é um documento impiedoso e cruel acerca do nosso fascínio pelo "lado negro"...

Imprescindível!

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
annawen
Livro Raro
Posts: 1953
Joined: 18 Jan 2006 11:34
Location: Gaia
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby annawen » 10 May 2006 11:54

Já li este livro embora tenha sido há muito tempo. É muito poderoso e intenso. Vai fundo na alma do leitor. Todos os livros do Conrad vão, pelo menos os que li.

Não vou discutir o racismo ou não do livro. Ainda só o li uma vez e já foi há muito tempo. Mas uma coisa é importante de referir: este livro, apesar de ter sido publicado já no século XX, insere-se nas preocupações do século anterior, nomeadamente no medo da degeneração da civilização. Este medo pode-se resumir da seguinte maneira: por mais avançada, industrializada e racional que uma civilização seja contém em si forças irracionais e atrasadas que se não forem irradicadas a tempo poderão levar à degeneração da dita civilização, isto é, poderão fazer com que esta regrida e regresse a um estado selvagem, caótico e primitivo. Isto era uma preocupação que no século XIX afectava todos os países civilizados da Europa Ocidental e a Inglaterra não era excepção.

User avatar
Thanatos
Edição Única
Posts: 13870
Joined: 31 Dec 2004 22:36
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby Thanatos » 10 May 2006 13:15

E já que mencionas Apocalypse Now não deixa de ser curioso que Peter Jackson também se dê a grandes peripécias para comparar a viagem do (Ad)Venture em busca da ilha perdida como o livro do Conrad embora duma forma muito menos subtil que Coppola, chegando ao cúmulo de termos uma citação em voz off (pelo menos uma que identifiquei) duma passagem do livro.

Este livro a par do "Lord Jim" deveriam ser de leitura obrigatória no secundário.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby Samwise » 10 May 2006 15:16

Em "King Kong" vemos um personagem em ler directamente deste livro... o problema é que não há nenhum Kurtz à espera deles no final da demanda! :mrgreen:
O "Apocalypse" não também não é assim tão subtil... há vertentes que são decalcadas tal e qual do livro...

A história de prórpio Joseph Conrad é no, mínino dos mínimos, recambolesca. O autor nasceu na Polónia e não tinha como primeira lingua o Inglês (o que é espantoso, dado o output final de obras como esta).
Aprentemente, numa altura em que acumulava dívida sobre dívida, Conrad tentou-se suicidar com um tiro no coração...e falhou!!! A bala passou ao lado do órgão.
Intencional ou não, o homem trespassou o peito com um bala em frente a um credor... :stars:

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
npipas
Dicionário
Posts: 668
Joined: 24 Aug 2008 18:29
Location: Cacem
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby npipas » 06 Nov 2008 15:56

É dos livros mais intensos que alguma vez li, não é à tôa que o Apocalypse Now é o meu filme preferido :lol2:
Mas é engraçado porque quando li pela 1ª vez o Heart of Darkness (com 15 ou 16 anos), ainda não sabia que o filme era um "copy/past" adaptado à guerra do Vietname desse livro, então achei a história muito familiar e fiquei a pensar, "de onde é que conheço isto? ", até que se fez "luz" depois investiguei e descobri a "verdade" sobre o filme...
Fiquem bem :dribble:

User avatar
nimzabo
Enciclopédia
Posts: 970
Joined: 26 Sep 2009 22:07
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby nimzabo » 13 Nov 2009 21:52

Só li o Lord Jim e apesar da história ser curiosa não fiquei fã do autor.

urukai
Edição Única
Posts: 3232
Joined: 07 Aug 2008 23:35
Location: Lisboa
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby urukai » 25 Jan 2011 11:39

Heart of Darkness, Joseph Conrad

Pensava eu que iria dar cabo de mais um clássico, e um bem pequeno e rápido por sinal, mas afinal foi este clássico que deu cabo de mim. É certo que o li em 5 dias mas na verdade a sua digestão está a revelar-se complicada e duradoura.

O enredo é simples mas a narrativa é complexa com uma linguagem intrincada e múltiplas camadas de sentidos que se sobrepõem umas às outras baralhando ambientes, localizações, estados e cronologias. Tento agarrar-me aos factos: a Marlow; à sua viagem; aos seus diálogos; às suas acções. É me suficiente para perceber o que acontece. Que o barco vai navegando rio acima. Que os perigos do desconhecido se adensam. Que a noite avança de acordo com o que estou habituado.

Mas essa leitura não me permite perceber o porquê do dia não nascer a seguir à tal noite. Mais, não percebo porque essa noite fica mais cerrada com o aproximar da manhã que acaba por não chegar nunca. Socorro-me então da expectativa crescente em torno de Kurtz. Reconheço o génio por detrás dessa manipulação da minha vontade em querer saber tudo sobre ele. Kurtz torna-se a força motriz que obriga o meu dedo a virar mais uma página e impulsiona o meu olhar através das linhas escritas. Entendo sub-contextos e derrubo metáforas. A ténue linha que separa a humanidade da animalidade esborrata-se e a febre inverte-me a evolução. Foi a cidade que nasceu da selva ou a selva que nasceu na cidade? A civilização expande-se para fora ou consome-se numa espiral em direcção ao seu centro negro e esquecido? Não consigo encontrar de imediato as respostas e prossigo com a leitura.

A determinada altura leio coisas que não sei se estão escritas e perco-me nas próprias suposições e expectativas de Marlow. Entrego-me aos seus medos, receios e esperanças. Parece-me que vislumbro Kurtz mas renego a ideia. Ele não pode ser apenas aquilo. Só posso estar perante um véu que esconde o rosto terrível. Uma última barreira no build-up do monstro que me espera. E então... Desilusão. Kurtz é um fragmento diáfano daquilo que foi. É uma voz perturbada que se escapa de uma carcaça velha. É um eco sumido que germinara num vale onde as atrocidades não são assim tão atrozes. A escadaria de maldade e horror que percorri desmorona-se e fico ali meio sozinho, desamparado e desolado no fim de um romance que não me deu aquilo que eu esperava dele. Talvez me tenha dado apenas aquilo que eu tive capacidade para receber, admito-o, pois não é a primeira vez que acontece.

Acerco-me das linhas finais e volta um gosto de prazer à ponta dos meus olhos. A mentira do último parágrafo é de certo modo irónica quando dita por alguém que se orgulhava de nunca mentir. De não ser sequer fisiologicamente capaz de o fazer. Mas é fogo de vista quando comparado com o espectáculo que fora prometido.

Resignado, fecho o livro e destruo uma lei da física. A de que um corpo ocupa um determinado espaço. Aquele fino livro ocupa um espaço infinitamente menor do que aquilo que contém. Mesmo que esse espaço esteja vedado a traunseuntes como a minha mente.

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby Samwise » 25 Jan 2011 16:34

Hmmmm, dir-se-ia que estavas à espera de encontrar um Marlon Brando no final da viagem...
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

urukai
Edição Única
Posts: 3232
Joined: 07 Aug 2008 23:35
Location: Lisboa
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby urukai » 25 Jan 2011 16:47

Por acaso quando comecei a ler não sabia que o Coppola se tinha inspirado no livro para realizar o filme.

Mas quando ia a meio pensei, espera aí, eu já vi isto em algum lado! Pesquisei no google e voilá! Fez-se luz! :pipoca:

Mas o problema foi mesmo esse, eu esperava encontrar tudo menos um Kurtz brando.

Os únicos actos maldosos de que me apercebi foram:

Spoiler! :
1 - O Kurtz ter autorizado o ataque ao Steamer
2- As cabeças cortadas
3- O facto de ser ladrão e enganador para obter todo o marfim que conseguia


Ora isto não me parece ser o suficiente para considerar Kurtz nas listas de maiores vilões da literatura, nem para todo aquele empolamento da personagem antes de a conhecer-mos. Estava à espera de coisas terríveis e surgem-me coisas mundanas e expectáveis! :s

User avatar
vampiregrave
Livro Raro
Posts: 1840
Joined: 11 Apr 2010 18:32
Location: Lisboa
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby vampiregrave » 21 Feb 2011 13:38

A minha opinião: :bbde:

"Heart of Darkness is experience...but it is experience pushed a little (and only a very little) beyond the actual facts of the case for the perfectly legitimate, I believe, purpose of bringing it home to the minds and bosoms of the readers."

Joseph Conrad

Transmitir a essência de uma época, preservar uma realidade que deixou de existir, é uma tarefa ingrata dada a sua impossibilidade. Não se trata, no entanto, de um exercício inútil, porque apesar de sermos incapazes de ressuscitar o passado, podemos recuperar os seus contornos essenciais, imortalizando-os através das palavras.
Baseado na experiência do autor, O Coração das Trevas transporta-nos até ao coração de África nos finais do séc. XIX, mais precisamente ao Estado Livre do Congo, reino privado de Leopoldo II da Bélgica, tirano que foi responsável pela brutal exploração dos nativos e por milhões de mortes (embora a inexistência de números exactos torne difícil apurar as mortes provocadas, estima-se que a população do Congo tenha sido reduzida a metade durante o jugo de Leopoldo).
“Na imutabilidade que os rodeia, as costas estrangeiras, os rostos estrangeiros, a imensidade mutável da vida, deslizam rápidas, veladas não por um sentido de mistério mas por uma ignorância levemente desdenhosa; pois não há nada de misterioso para um marinheiro a não ser o próprio mar, que é a amante da sua existência e tão inescrutável como o Destino.”

A história é relatada por Marlow aos seus colegas marinheiros, descrevendo a sua viagem a África e as fortes sensações que o invadiram durante o tempo que passou na selva. Contratado por uma companhia de comércio como capitão de um barco a vapor, Marlow fica encarregue de subir o rio Congo à procura de um agente da companhia, de nome Kurtz. Ao longo dos meses que a operação durou, Marlow presencia a insensibilidade com que os nativos são tratados, que para além dos maus-tratos, têm ainda de suportar a fome e as doenças que assolam a região. Por outro lado, os elogiosos comentários tecidos acerca de Kurtz, realçando a sua eficiência e os seus princípios morais, levam Marlow a criar grandes expectativas relativamente ao seu encontro, um interesse que se torna praticamente obsessivo.
A subida do rio revela-se difícil e perigosa, e a tripulação vê-se mergulhada num clima de tensão que, gradualmente, induz Marlow a um estado apreensivo, estado esse que se vê justificado quando encontra um Kurtz bastante diferente do homem inteligente e virtuoso que tinha em mente...
“Para lá da cerca, a floresta erguia-se espectral sob a luz do luar, e acima da surda agitação, acima dos sons desmaiados daquele lamentoso pátio, o silêncio da terra – o seu mistério, a sua grandiosidade, a surpreendente realidade da sua vida oculta – aninhava-se no nosso coração.”

A degeneração do sofisticado e culto Kurtz mostra-nos a fragilidade do homem civilizado, cuja racionalidade é incapaz de conter os instintos primitivos que o ambiente selvagem desperta; uma escuridão que se encontra no âmago de todos nós que nem a luz do progresso e do conhecimento consegue extinguir.
A par da forte componente psicológica, O Coração das Trevas oferece também uma valiosa componente histórica, expondo atrocidades cometidas nos impérios coloniais que, apesar de verem o seu impacto atenuado pelo tempo, não devem nunca ser esquecidas. Uma leitura inquietante em que nos defrontamos com o lado mais negro da humanidade.
“O destino. O meu destino! Coisa estranha, a vida – essa misteriosa congeminação de impiedosa lógica para um propósito fútil. O mais que se pode esperar dela é algum conhecimento de nós próprios – que peca por tardio – um nunca acabar de mágoas. Lutei contra a morte. É a competição menos excitante que se pode imaginar.”

User avatar
nimzabo
Enciclopédia
Posts: 970
Joined: 26 Sep 2009 22:07
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby nimzabo » 27 Feb 2011 19:20

Li, não gostei, não percebi...

User avatar
vampiregrave
Livro Raro
Posts: 1840
Joined: 11 Apr 2010 18:32
Location: Lisboa
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby vampiregrave » 27 Feb 2011 19:28

nimzabo wrote:Li, não gostei, não percebi...


Se não conheceres o contexto histórico não é possível compreender o que Conrad escreve em toda a sua dimensão.

User avatar
nimzabo
Enciclopédia
Posts: 970
Joined: 26 Sep 2009 22:07
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby nimzabo » 27 Feb 2011 19:56

Como assim?
É possível que seja como dizes, mas para mim essencial é não ter achado grande interesse no livro em termos humanos e para isso acho que conhecer o contexto importará pouco..

User avatar
vampiregrave
Livro Raro
Posts: 1840
Joined: 11 Apr 2010 18:32
Location: Lisboa
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby vampiregrave » 27 Feb 2011 20:22

nimzabo wrote:Como assim?
É possível que seja como dizes, mas para mim essencial é não ter achado grande interesse no livro em termos humanos e para isso acho que conhecer o contexto importará pouco..


Conhecer o contexto é bastante importante dado que é uma realidade bastante deslocada da nossa. Um autêntico massacre que é desconhecido por muita gente, o que associado ao distanciamento que o tempo criou leva a uma insensibilidade ao relato de Conrad e, consequentemente, a uma experiência de leitura insatisfatória.

User avatar
MAGG
Livro Raro
Posts: 2010
Joined: 11 Sep 2009 13:26
Location: Mar de Dentro ...
Contact:

Re: Heart of Darkness

Postby MAGG » 28 Feb 2011 02:35

nimzabo wrote:Li, não gostei, não percebi...


Não gostaste e deste -lhe um 7 numa escala até 10 ? :blink:


Return to “Autores A - E”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 5 guests

cron