NOS4A2 - Joe Hill

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NOS4A2 - Joe Hill

Postby urukai » 14 Jan 2014 12:23

NOS4A2

Têm de escrever um livro. Imaginem o seguinte enredo:

- Uma jovem que consegue criar pontes imaginárias com a mente, primeiro com uma bicicleta, depois com uma mota, e as usa para encontrar coisas perdidas;

- Um vilão imortal e obcecado com o Natal mas o oposto do Pai Natal. Magro, violento, assassino, raptor e com um carro mágico que transforma crianças em pequenos demónios psicopatas enquanto o rádio repete, initerruptamente, jingles Natalícios;

- Um serial killer que fala em rima;

- Uma linha narrativa que se estende por 3 décadas condensada em pouco mais de 400 páginas e com intervalos narrativos de vários anos;

- Um embate (derradeiro?) entre a heroína e o vilão no primeiro terço do livro;

Estão a acompanhar? Motivados? Ok, agora dêem-lhe uma roupagem adulta, credível e séria. Desistem? Deixem lá que o Joe trata disso.

Joe Hill consegue transformar um enredo quase intratável do ponto de vista literário, numa amálgama de géneros que, pela força do estilo e pela condição humana das personagens, cativa e se transforma numa fluída e verosímil experiência de leitura.

Gostei muito deste NOS4A2 que transborda com ideias e imaginação devidamente refreadas por uma escrita directa, elaborada q.b., e que recorre aquelas expressões e recursos estilísticos inusitados que nos dão o característico murro no estômago por não nos termos lembrado deles antes. Um exemplo entre muitos:

“You could look at birds all your life without ever knowing what was a sparrow and what was a blackbird, but we all know a swan when we see it. So it was with cars. Maybe you could not tell a Firebird from a Fiero, but when you saw a Rolls-Royce, you knew it.”

No entanto, para mim, o que brilha mais intensamente neste livro, são as personagens. Nomeadamente as principais. Vic de um lado, cheia de defeitos, bêbada, ingrata, má mãe e má esposa. Do outro, Manx, com uma capa de virtudes, que, por vezes, nos instala a dúvida insidiosa de que ele afinal até estava a fazer algo de bom pelas crianças, mas que no fundo é um fdp de um bad guy.

Joe Hill consegue, de uma forma não linear e diria até atabalhoada, fazer-nos vibrar com personagens que, aos tropeções, nos são apresentadas em toda a sua dicotomia humana, de coragem e medo, de bondade e maldade, de amor e ódio, de intensidade e desprendimento. As comparações com o pai, apesar de, depois de Horns ter prometido a mim próprio que as mesmas eram terreno off limits, têm de vir de novo à baila. Há muito de Kingesque neste NOS4A2, quase que como se aquela capacidade de puxar da nossa realidade pessoas concretas e mundanas e submetê-las aos limites do fantástico, estivesse impressa no DNA King e pudesse ser passada de geração em geração, com pequenas alterações Darwinescas que evoluem positivamente a qualidade final. Sim, Joe Hill, escreve como o pai mas com muito menos palha. É um livro denso, que por apresentar um setting muito limitado, quer geograficamente quer em emocionalmente, acaba por não se perder em pormenores e detalhes excessivos. O que perde em amplitude e abrangência, ganha em focagem naquilo que realmente interessa, as personagens e o enredo.

Também tem as suas falhas, como alguma falta de “tell” no último terço do livro, que erode um pouco as fundações fantásticas da temática (a inexplicável morte e ressuscitação de Manx é uma delas), mas a maturidade da escrita de Joe, acaba por se sobrepor a estas pequenas desilusões e termina em grande estilo com um final inesperadamente expectável. Segundo o próprio, Tabitha King interviu, e já se sabe que as Mães sabem sempre o que é o melhor para os filhos, e no clã King, isso é ainda mais verdadeiro quando se quer o melhor para os livros dos filhos.

Por último, não podia deixar de mencionar pequenos detalhes que enriquecem o livro e nos fazem suspirar de prazer. A menção aos True Knot de Doctor Sleep é um deles. A transversalidade e cross-references presente na obra de Stephen King saltou mais uma barreira e perspassa para a obra do filho, constituindo mais um rebite numa imensa parede universal e fantástica.

Recomendo sem excepções este livro que dos três (Heart-Shaped Box, Horns e NOS4A2) é o melhor, perdendo apenas, no que respeita à diversão e entertenimento que a leitura deve sempre representar para o leitor, para a saga Locke & Key.

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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby Samwise » 14 Jan 2014 19:16

urukai wrote: Há muito de Kingesque neste NOS4A2, quase que como se aquela capacidade de puxar da nossa realidade pessoas concretas e mundanas e submetê-las aos limites do fantástico, estivesse impressa no DNA King e pudesse ser passada de geração em geração, com pequenas alterações Darwinescas que evoluem positivamente a qualidade final.


Por acaso sempre (ou na maior parte dos casos) que o King falhava à grande quando se aproximava desses limites - até lá tudo muito bem, só que depois tudo ruia como um castelo de cartas. A julgar pelo que li no Heart-shaped Box, o Hill consegue ser bem mais eficaz neste domínio.

Sim, Joe Hill, escreve como o pai mas com muito menos palha.


O Horns não me puxa muito para o ler, mas tenho curiosidade por este NOS4A2 (que raio de nome).
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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby urukai » 14 Jan 2014 20:01

Sam "lê" o nome em inglês. De certeza q já o viste. ;)

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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby Thanatos » 15 Jan 2014 08:22

Mesmo pronunciando em inglês há quem não chegue lá. :twisted:

E por falar nele ainda hoje gosto mais do realizado pelo Herzog. E também gosto muito do Shadow do Merhige. Muito meta. ^_^
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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby pco69 » 15 Jan 2014 09:52

Thanatos wrote:Mesmo pronunciando em inglês há quem não chegue lá. :twisted:

E por falar nele ainda hoje gosto mais do realizado pelo Herzog. E também gosto muito do Shadow do Merhige. Muito meta. ^_^


Só cheguei lá após repetir umas 5 ou seis vezes em voz alta e mesmo assim ainda tenha alguma dúvida :blink:

Spoiler! :
Nosferatu?


Esta análise do Urukai não me atraiu para o Joe Hill, mas paradoxalmente (será?) para ler alguma coisa do King. O Under the Dome (traduzido) valerá a pena?

Claro que as opiniões dividem-se e por aí adiante, mas... :P
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Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby urukai » 15 Jan 2014 10:21

Sim pco69 é isso mesmo! :twisted:

Quanto a King, espero que não sejas virgem no seu universo! Eu nunca li o Under the Dome mas tenho ouvido (entre eles o Sam) que o começo é auspicioso mas se arrasta para o final.

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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby pco69 » 15 Jan 2014 11:44

urukai wrote:Sim pco69 é isso mesmo! :twisted:

Quanto a King, espero que não sejas virgem no seu universo! Eu nunca li o Under the Dome mas tenho ouvido (entre eles o Sam) que o começo é auspicioso mas se arrasta para o final.

Nunca li nada dele :whistle:
Sei que tenho pelo menos um. Creio que 'A Luz' que veio numa das promoções de livros em conjunto com a revista Sábado. :P
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Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby Thanatos » 15 Jan 2014 12:04

A tradução do Shining, da responsabilidade da EA é um nojo completo. A evitar.

Quanto ao Under the Dome, da tradução não sei mas o livro é medíocre. Do King atual recomendo apenas os contos (Full Dark, No Stars; Just After Sunset) e eventualmente o de história alternativa 11/22/63. Claro que bom King foi até 1986 depois disso foi sempre a cair mas isto é a minha opinião que vale o que vale.
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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby Sharky » 17 Jan 2014 10:54

Thanatos wrote:Quanto ao Under the Dome, da tradução não sei mas o livro é medíocre.


Eu tou a curtir do livro, ainda só li 300 e tal págs. Li um pouco em PT e não está mau, mas não tem a mesma piada/impacto :tu:

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Re: NOS4A2 - Joe Hill

Postby Bugman » 17 Jan 2014 11:14

[quote="Thanatos"]A tradução do Shining, da responsabilidade da EA é um nojo completo. A evitar./quote]

Essa reacção aplica-se a muitos trabalhos da EA... :twisted:
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