Esteiros - Soeiro Pereira Gomes

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Bugman
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Esteiros - Soeiro Pereira Gomes

Postby Bugman » 25 Oct 2016 17:45

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A história dos filhos dos homens que nunca foram meninos, ou o livro escrito para os filhos dos homens que nunca foram meninos, como o autor se refere à obra. Lendo o livro depressa se percebe o ciclo que faz com que os filhos dos homens que nunca foram meninos, no Portugal da década de 40, são também eles homens que nunca foram meninos.

Vivemos em tempos estranhos. Vivemos em tempos de revivalismo de várias coisas. Com a intervenção e o governo pafista vivemos tempos de revivalismo de algo que estava latente na nossa sociedade, uma certa visão do mundo e das relações laborais, uma certa visão do sistema de ensino e a quem se destinava. Podemos argumentar que esses tempos já lá vão, ou que são o futuro e temos de nos adaptar. Em ambos os casos Esteiros serve para o desmentir.

Mais do que uma obra do neo-realismo, em que se retrata a vida fora das cidades durante a ditadura a obra serve toda ela como um tratado económico. Podemos interpretar as personagens como sendo figuras reais, ou serão elas alegorias? Serão as relações entre classes tão simplistas, ou teve o autor de pegar em traços distintos e generalizar por forma a ser conciso? Em ambos os casos, quando exprimo estas questões faço-o de uma forma retórica. É óbvio que todo o mundo de Esteiros é um mundo metafórico. É-o a Fábrica Grande, alegoria clara do máximo de aspirações dos pobres e sem educação; é-o o Gaitinhas, o rapaz com capacidade para as letras que é forçado a ir trabalhar para sustentar uma mãe doente; a própria mãe do Gaitinhas, entregue à sorte e às migalhas das colegas dos teares por via da tuberculose que a ceifaria e tantos outros, desde os senhores demasiado distantes aos seus esbirros, que por falarem com o patrão se sentem já num patamar acima. Apenas para perderem tudo por incapacidade e ganância próprias, quando esse patrão se cansa deles.

A atmosfera com que Soeiro Pereira Gomes enche este tratado de empreendedorismo e mercado livre é toda ela negra. Começa com a chegada das chuvas, prossegue com as faluas em luta contra o Tejo, as cheias de Inverno e, assim que chega a Primavera e se retorna aos esteiros, logo o fumo do forno de tijolo enche a prosa.

Quão extremo será este relato, que só a espaços alude à guerra? Será difícil de distanciar dos relatos que nos chegam hoje da altura. A população sem educação, agarrados aos teares até morrerem, dependentes de esmolas e bondade do próximo, um estranho eco da caridade de Fátima, não anda distante do sonho social da sociedade salazarista. Os anseios por conseguir entrar no clube da bola, a aspiração a ir para a fábrica, ou como a ida para a fábrica do Maquineta acaba por ser trágico a toda a linha para todos, não andam longe dos ecos dessa era.

No entanto há um sentimento de levar a coisa longe demais. O livro em si não é grande, mas poderia atingir a mesma mensagem com mais concisão. Há, a espaços, um alongar quase novelesco das cenas familiares que retardam a acção. O resultado é uma obra fundamental para se perceber um certo momento histórico, mas uma obra que também, pelo seu foco nas relações sociais, deve ser lida e pensada por diferentes gerações, como forma de não darmos connosco a defender um passo em frente rumo a passado que se quer cada vez mais distante.
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Re: Esteiros - Soeiro Pereira Gomes

Postby pco69 » 25 Oct 2016 22:08

Seria uma coisa interessante para o Adamastor?

Lembro-me que o li à mais de 30 anos, mas na verdade, não me lembro de nada do livro.... :(
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Re: Esteiros - Soeiro Pereira Gomes

Postby Jack » 25 Oct 2016 23:12

Spoiler! :
Acaba com ele preso a ouvir uma musica vinda de fora, não é?

Lembro-me de ficar emocionado com o final que me lembra-me uma cena do Once Upon A Time In America, um do meus filmes favoritos.

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Re: Esteiros - Soeiro Pereira Gomes

Postby vampiregrave » 26 Oct 2016 08:40

pco69 wrote:Seria uma coisa interessante para o Adamastor?

Lembro-me que o li à mais de 30 anos, mas na verdade, não me lembro de nada do livro.... :(


Ainda não está em domínio público, visto que o autor faleceu em 1949.

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Re: Esteiros - Soeiro Pereira Gomes

Postby Bugman » 26 Oct 2016 09:32

Jack wrote:
Spoiler! :
Acaba com ele preso a ouvir uma musica vinda de fora, não é?

Lembro-me de ficar emocionado com o final que me lembra-me uma cena do Once Upon A Time In America, um do meus filmes favoritos.


Spoiler! :
Por acaso não sei se a música não será algo imaginário. A música que o Gineto ouve é a da gaita do Gaitinhas, que ele havia roubado no início do livro e que serve de catalisador da amizade entre eles. A atmosfera da coisa é tão pesada que fiquei sem perceber se o final é pensamentos positivos do Gineto, face ao facto de estar preso, do que factualmente o Gaitinhas debaixo da janela da prisão a partir com o Sagui pelos circos do mundo.
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Re: Esteiros - Soeiro Pereira Gomes

Postby Bugman » 26 Oct 2016 09:33

vampiregrave wrote:
pco69 wrote:Seria uma coisa interessante para o Adamastor?

Lembro-me que o li à mais de 30 anos, mas na verdade, não me lembro de nada do livro.... :(


Ainda não está em domínio público, visto que o autor faleceu em 1949.


Pensei o mesmo quando estava a escrever aquele comentário. É azar ser nessa data porque, pelo efeito Walt Disney as leis de copyright devem ter um prolongamento para o ano ou assim.
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