A Violação das Mulas - Maria O.

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Bugman
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A Violação das Mulas - Maria O.

Postby Bugman » 21 Feb 2014 12:21

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A Violação das Mulas
De uma desconhecida pena, que muito tem escrito mas de quem nada assumidamente se conhece, chega-nos este conto passado numa desconhecida vila portuguesa, com desconhecidos presidentes de câmara a quem lhes é reconhecida pouca seriedade, vereadores reconhecidamente ao serviço de si mesmos e toda uma panóplia de personagens a quem dificilmente se reconhece a possibilidade de ser um qualquer vizinho de quem lê estas linhas. Com tanto reconhecimento desconhecido, todo o conto é uma experiência estranha.

A aura um pouco surrealista que rodeia esta obra começa pelos nomes nada ortodoxos das personages. Denota-se uma vontade de anonimato camuflado por nomes prosaicos, como que a insinuar que aqueles personagens mais não são do que alegorias do professor frustrado, da empresária frustrada, do artista frustrado, do adoptado que quer conhecer os seus pais, do voyeur, dos políticos... Uma alegoria, em forma de vila, do ser português. Acontece que não há nada de alegórico em A Violação das Mulas. As personagens são apenas representações de si mesmas, superficiais como se quer das personagens de contos, deixando no leitor a vontade de querer saber mais sobre elas, a vontade de virar a página e descobrir que mais a mão que escreveu aquelas linhas tem para nos contar. O que se pode dizer, ultrapassado que esteja o choque das Possidónias, dos Zibetas e das Zibelinas, é que esses nomes que visam banalizar as personagens conferem-lhes a aura de estrelas e funcionam a favor do conto.

Face às personagens políticas, que cada vilarejo e lugar de Portugal tem, seria fácil tentar encontrar neste A Violação das Mulas uma tentativa encapotada de crítica social. Acontece que as personagens são tão hiperbolicamente descritas que qualquer tentativa de ridendo castigat mores se perde nesse exagero. Se alguma coisa, os estereótipos funcionam como os lugares-comuns que se trocam na mesa da esplanada sobre os mesmos e cumprem a função de interlúdio humorístico, uma espécie de limpa-palato para a obra maior contida no conto, se tal é possível. De que outra forma se pode interpretar o presidente apreciador de bolas de Berlim, da secretária apaixonada mais pelas bolas do que pelo poder, do vereador demasiado grande para a pequena corrupçãozinha da terrinha e demasiado pequeno para passar as suas fronteiras? Aliás, de que forma se podem estas tropelias comparar com as orgias do Quim, da Possidónia, da Zibelina e do amoroso homossexual David?

Quando procurava outras opiniões sobre a obra, uma crítica frequente era o uso desproporcionado do calão, que era forçado, que era abusivo. Não é nada disso! O calão está tão presente no nosso dia-a-dia como na obra. Não há um deturpar da situação para colocar o calão, a proporção é aquela, na medida certa, está bem usado e, acredite-se ou não, acrescenta uma grandeza quase Bocagiana ao conto. Se o uso de calão fosse o critério único para se avaliar uma obra, estaríamos perante um clássico esquecido da literatura portuguesa. Não é nenhum dos casos. Há que ponderar outros aspectos.

O primeiro aspecto que me apraz abordar é a fluidez da escrita, e quanto da mente que pensa a narrativa a mão coloca no papel. É notório que esta Violação das Mulas foi escrita sem a premeditação da escultura homónima no conto, de tal forma as mudanças de humor de Maria O. se fazem sentir no texto. Atentemos na minha anterior menção à crítica social. Se mencionei tal facto deve-se ao facto de a dada altura o texto ter esse tom, pelo uso de expressões, pelo destaque dado a certos aspectos, pela forma como se comportam as personagens. Só que depois entra em cena o romance impossível entre duas classes sociais distintas (e oh! como elas existem nesse Portugal que não é Lisboa), um romance de tal forma intenso que acaba por se tornar um quase pornográfico desfilar de situações, vistas pelo telescópio de um vizinho, antes de tudo acabar em drama familiar com laivos de romance policial.

Seria fácil utilizar o chavão de que este conto é um guião Tarantinesco, mas isso implicaria que as flutuações de género que desfilam no curto número de páginas do conto, haviam sido preparadas e pensadas anteriormente. A grande falha do conto reside na incapacidade de revelar essa premeditação. O conto entretém, está bem escrito, mas antiteticamente falha quando quer colar a crueza exagerada de umas situações com as cambalhotas de um enredo divertido. Está tudo dentro da caixinha do que é a ficção que diverte sem estupidificar. As características estão la todas, so faltou um bocado de cola!
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