A saga de Gösta Berling - Selma Lagerlöf

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A saga de Gösta Berling - Selma Lagerlöf

Postby acrisalves » 19 Oct 2006 00:41

A saga de Gösta Berling
Selma Lagerlöf

Sinopse:

Värmland, na Suécia, é famosa pela vida alegre e abastada dos ricos proprietários mineiros. O passatempo da moda é abrigar os aventureiros regressados das campanhas napoleónicas, homens viajados, com aventuras e experiências a partilhar que fazem deles o centro das atenções. Entre eles está Gösta Berling, muito mais novo e inexperiente, um padre renegado, jovem, brilhante, alegre, galante e sedutor. Berling conquista os corações de todas as mulheres e é um líder natural entre os homens.

Numa dessas noites, Sintram, o ferreiro, aparece vestido de diabo e sugere um pacto que Gösta Berling deve assinar em sangue. Este é o começo do ano que vai marcar o fim de Värmland...

Obra-prima da literatura europeia, escrito por Selma Lagerlöf, a primeira mulher a ganhar um prémio Nobel de literatura, este romance belíssimo cruza várias épocas e relatos que vão desde a lenda fantástica ao romance psicológico, da aventura histórica à fábula moral. Uma obra que segue a estrutura das sagas nórdicas e retoma de forma inteiramente original o tema do homem dividido entre o bem e o mal.

Cavalo de Ferro

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Re: A saga de Gösta Berling - Selma Lagerlöf

Postby acrisalves » 28 Feb 2016 00:27

E que saga!

Se prémios, nomeações e louvores nem sempre são sinal de grande escrita, os dois prémios Nobel que li recentemente são decerto a excepção (Hermann Hesse e agora este). E aqui está, uma leitura mirabolante, carregada de reviravoltas dementes, de personagens irresponsáveis, sonhadoras e inconstantes – tudo envolto por elementos surreais.

O horror é uma bruxa. Ela está sentada na escuridão da floresta, escrevendo canções mágicas para os ouvidos dos homens, enchendo os seus corações de pensamentos horríveis. Ela está na origem do medo paralisante, que pensa na vida e encobre a beleza das paisagens sorridentes. A natureza é má, traiçoeira como uma cobra adormecida. Não se pode confiar em nada. Ali está o lago Loven de magnífica beleza, mas não te fies! Ele está de emboscada para apanhar uma presa: todos os anos exige o seu imposto de afogados. E aí está a floresta, serena e aliciante, mas não acredites! A floresta está cheia de animais selvagens, infestada pelas almas de bruxas más e bandidos ferozes.


Nestas terras frias e pobres o diabo anda à solta. Mas não o diabo trapaceiro dos contos tradicionais, antes um diabo azedo e malicioso, uma presença sombria e escorregadia, como a pobreza que assola aquelas terras, onde entre a miséria prolongada (seja física, seja psicológica) ocorrem raros momentos de engrandecimento.

Gosta Berling é um padre caído em desgraça. Inspecionado por conta do hábito da bebida (partilhado com os restantes habitantes mas, enfim, um padre deve dar o exemplo), acaba por tomar a decisão honrada de se afastar da profissão na sequência de uma acção bem intencionada de um amigo. É pouca a honra que lhe sobrou, mas até esta se lhe escapa quando uma criança lhe confia o trenó e ele o vende por aguardente.

Salvo pela matriarca da região, acaba por viver como cavalheiro num grupo de doze. Que é o mesmo que dizer que é um grupo de homens desocupados, que passam o dia a jogar às cartas, a beber e a fazer tropelias. Mas honrados. Ou pelo menos de boas intenções, pois o que é considerado correcto é facilmente manipulado, perante o discurso exaltado de qualquer personagem em apuros.

Apesar de alguns episódios mais moralistas, o caminho do bem é turbulento e pouco nítido. Boas acções dão origem a desgraçadas, ou são corrompidas e deixadas a meio quando novos e mais aliciantes objectivos surgem. A mente das gentes vagueia e quanto mais alto se sobe mais rápido se cai na consideração do povo.

Pactos com o diabo sorrateiro, donzelas inocentes (ou nem tanto) que se deixam tentar, mulheres poderosas caídas em desgraça por se afirmar a verdade que já todos sabem, castigos com impacto prolongado – ao longo de quase 400 páginas vamos conhecendo a forma como se interligam os destinos destas pessoas numa sucessão de desgraças e poucas alegrias.

E Gosta Berling é o padre que aquela população teria merecido e o perfeito reflexo da região. Agora que abandonou a ocupação, tenta agir honradamente, mas de cabeça no ar, muda de direcção como o vento e culpa-se por ter cedido aos seus impulsos, tentado pela beleza das donzelas. Apesar das boas intenções, acaba por causar sofrimento nos que se encontram à sua volta.

Centrando-se sobretudo em Gosta, apresenta vários episódios em que conta a história de outras personagens para construir a saga, um sucessivo conjunto de aventuras que cruza história popular com o realismo da vida do povo, acrescentando elementos sobrenaturais apesar de lhes conceder um escape para a credibilidade.

Adaptado para cinema e para ópera, é uma história deliciosa, de leitura lenta onde se destacam os acontecimentos inesperados que quebram lentamente as perspectivas de salvação moral das personagens. Em Portugal foi publicado pela Cavalo de Ferro.


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