Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

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Thanatos
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Re: Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

Postby Thanatos » 29 Feb 2012 22:11

É simples: Eric A. Blair, tal como décadas mais tarde Cormac, não pretendeu escrever conscientemente um romance de FC mas antes usar os tropos da FC para escrever uma reflexão sobre um tema universal.

Já Herbert, menos dado a essa linha, escreveu conscientemente dentro da tradição de FC, sabendo usar os tropos, os tiques, se assim quisermos, para seu uso pessoal.

Assim, enquanto Orwell, Huxley, Burgess, Pynchon, Atwood, Burroughs e Cormac trasncendem as limitações de género, os outros como Herbert, Heinlein, Dick e quejandos fuçam no esterco dum género que para o bem e o mal se identifica mais com giant squids in space do que com Anaximandro.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Bugman
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Re: Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

Postby Bugman » 29 Feb 2012 23:09

We interrrupt our regularly scheduled program for... some "in space"

Please proceed... :mrgreen:

Urukai, tanto que o disseste como me limitei a transportar o que disseste! Certo que agora que releio a tua explicação, a ocultação da parte tecnológica pode parecer que estou a descontextualizar, mas a memória que guardo do comentário original leva-me a crer que essa diferenciação não estava lá.

urukai wrote:Ora, actualmente, Dune não projecta nada. Não antecipa nada porque as grandes ideias avançadas já se concretizaram.
É um pouco o que acontece com o 1984 (aliás, aqui o próprio título exibe o ultrapassar do prazo de validade). Contudo, a diferença é que na obra de Orwell (cuja leitura sabe a passado, toda aquela tecnologia está de tal modo ultrapassada que até nos soa a estranha) ganham os maus e em Dune, até ver, ganham os bons. Sendo que 1984 ganha por certas ideias mais intemporais (como os minutos da raiva ou a noção de que se repetirmos uma mentira as vezes suficientes já não sabemos o que é verdade).


Após nova releitura, continuo a achar que fizeste bem em te explicar. ;)
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Re: Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

Postby pco69 » 30 Sep 2014 09:32

http://p3.publico.pt/actualidade/econom ... -e-tua-tia

Colaboradora é a tua tia!
Quando explodiu a crise, a palavra “colaborador” já andava na boca de muito empreendedor, mas com a aceleração da degradação do trabalho, deu-se o “boom”

Texto de João Camargo • 26/09/2014 - 18:17

O plano é evidente: desmantelar o campo do trabalho organizado, da organização dentro dos locais do trabalho, desenraizar as pessoas do trabalho que fazem, individualizá-las, desestruturar a sua vida pessoal, obrigá-las a estar sempre disponíveis para trabalhar, pagar-lhes (se não se puder evitá-lo) quando calha e à peça, tudo o que for preciso para que o salário vá para o fundo, para que o bico fique calado, para que o medo, o ódio e a chantagem sejam as principais relações num trabalho. E para que o plano ocorra com o mínimo de percalços possível, que coisa melhor do que um pouco de psicologia inversa?

Se querem mudar o trabalho, a primeira coisa a fazer é mudar o nome do principal agente no trabalho que é, como o próprio nome sugere, o trabalhador. Para a coisa parecer benéfica, o trabalhador passa a ser colaborador. Parece bem. Estamos a trabalhar para outrem, dando-lhe a ganhar lucro por uma fatia reduzida desse mesmo lucro, a que chamamos salário. Mas se em vez de dizer que estamos a trabalhar, dissermos que estamos a colaborar, parece que estamos a outro nível, que estamos mais alto, em parceria, distribuindo tarefas para um mesmo objectivo final. Quase que nos podiam chamar “sócios”. É esperar algum tempo. Claro que não é de esperar um aumento de salário com a transição de trabalhador para colaborador. Às vezes até é bem ao contrário. Somos promovidos no nome e despromovidos na remuneração. O caso dos colaboradores prestadores de serviço mostra como a distância linguística entre a aparente independência laboral e a dependência económica não poderia ser mais evidente.

Começa nas faculdades, principalmente de Economia e Gestão. A primeira transição mercantilizou linguisticamente os trabalhadores, renomeando-os de “recursos humanos”. Recurso é para explorar, sempre. Mais claro não podia ser. Mas dos recursos humanos para os colaboradores, adoça-se a boca e até parece uma promoção. Só que enquanto o nome promovia o trabalhador, as condições de trabalho degradavam-se através da precarização que, tão chique, se chamava de flexi (tão sexy) e segurança. Enquanto aumentava o investimento em melhoria dos estudos em Economia, Gestão de Empresas, “Recursos” “Humanos”, os recém-formados gurus da organização daqueles antigos trabalhadores, transformavam as pessoas cada vez mais em recursos, e cada vez menos em humanos. Já eram até "capital humano".

Quando explodiu a crise, a palavra “colaborador” já andava na boca de muito empreendedor, mas com a aceleração da degradação do trabalho, deu-se o “boom”. É que quanto piores são as condições de vida das pessoas, maiores têm de ser as mentiras para mantê-las silenciosas. E é por isso que hoje nos é solicitado, em vez de trabalharmos, que colaboremos. Parece muito menos coercivo e exploratório e até podemos de vez em quando enganar-nos quando vamos trabalhar, achando que temos uma posição que não é aquela da pessoa que faz mais e recebe menos. Como o Orwell ilustrou tão bem no “1984”, as palavras importam. E tal como pedir desculpa não é demitir-se, colaborador não é trabalhador. É pior. É nem reconhecer por inteiro o nosso trabalho que faz as coisas funcionar. Por isso, da próxima vez que o teu patrão, que te paga 500 ou 600 euros por mês para trabalhar numa empresa que dá lucro, se dirigir a si falando da “nossa colaboradora”, diz, nem que seja para ti própria: “Colaboradora é a tua tia!” — vais ver que te sentes logo menos colaboracionista.
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...


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