Lolita (Vladimir Nabokov)

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Lolita (Vladimir Nabokov)

Postby Cerridwen » 29 Dec 2008 22:20

Lolita
Vladimir Nabokov


Imagem da capa do livro

Editor: Bárbara Palla e Carmo
Colecção: Biblioteca Visão
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
ISBN: 9726116449
Ano: 2000

«Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.

Teve uma precursora? Teve, sim, teve. Na verdade, talvez até não houvesse Lolita nenhuma se, certo Verão, eu não tivesse amando uma rapariga-menina inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Quase tantos anos antes de Lolita nascer quantos eu contava nesse Verão. É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso.

Senhoras e senhores do júri, a prova número um é o que os serafins, os simples, mal informados e nobremente alados serafins, cobiçaram. Reparai neste emaranhado de espinhos.
»

Assim começa a tradução de Fernanda Pinto Rodrigues da primeira parte de Lolita, da autoria de Vladimir Nabokov. A obra foi publicada pela primeira vez em 1955, após várias tentativas de publicação falhadas.

Importa fazer referência às adaptações cinematográficas, a primeira por Stanley Kubrick, (1962) e a segunda por Adrian Lyne (1997).

Lolita conta a história de Humbert Humbert (pseudónimo). A história começa ainda no prefácio, através do qual o leitor toma conhecimento de que a vida do narrador-protagonista terminou na prisão e o que se segue é uma confissão escrita em jeito de romance. A seguir vem o texto citado (em cima) e depois o relato de alguns acontecimentos da infância e juventude de Humbert.

Antes do leitor tomar contacto com os primeiros fios de narrativa que se seguem à aparição de Lolita e ocupam a maior parte da obra, seguem, em jeito de resumo, alguns acontecimentos que decorreram no hiato temporal entre acontecimentos, relatos da vida do H.H. adulto. Esses e outros relatos não se esgotam, porém, na exposição, há toda uma reflexão em torno deles. Estão rodeados de tentativas de justificação consciente e racional de actos, pensamentos e sensações. A consciência do dever de respeito pela pureza e vulnerabilidade das crianças, que de nada servia quando o olhar alcançava crianças com determinadas características «Mas, oh!, como o meu coração batia quando, entre a inocente multidão, descobria uma criança-demónio, enfant charmant et fourbe, olhos sombrios, lábios brilhantes», nesses momentos apenas o receio das consequências de determinados actos afastavam alguns pensamentos. Receios que pouco efeito tiveram no relacionamento ente Humbert e Lolita, uma jovem de 12 anos.

«O que me enlouquece é a dupla natureza desta ninfita – de todas as ninfitas, talvez -, esta mistura, na minha Lolita, de uma terna infantilidade sonhadora e uma espécie de misteriosa vulgaridade, oriunda da graciosidade petulante dos retratos de anúncios e revistas; e do rosado vago de criadas adolescentes da Velha Pátria (cheirando a margaridas esmagadas e a suor); e de prostitutas muito jovens disfarçadas de crianças em bordéis provincianos – e, como se isso não bastasse, tudo isso se mistura ainda com a deliciosa e imaculada ternura que se filtra através do almíscar e da lama, através da sujidade e da morte, oh, Deus, oh, Deus! E o que é mais singular é que ela, esta Lolita, a minha Lolita, individualizou a antiga concupiscência do autor, de modo que, antes e acima de tudo, nada mais existe do que… Lolita».

Os actos de Humbert Humbert, passíveis de serem imediatamente condenados pelos leitores, suscitam, todavia, reflexão. O elaborado tratamento dado por Nabokov ao personagem e à própria história incentiva o leitor a ver o pedófilo de forma algo diferente da habitual, como ser humano dotado de racionalidade e sentimentos. A própria sociedade acaba por ser envolvida na reflexão, pelo papel que tem nas relações entre pessoas.

Lolita contém uma história tão bem construída e projectada que, acredito, não deverá deixar nenhum leitor indiferente a uma realidade que vai espreitando pelos mass media de forma vaga e esporádica. Por fim, advirto, a obra não é destituída de erotismo, pelo contrário, o que poderá contribuir para que alguns leitores sintam repulsa ou fiquem escandalizados.

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Re: Lolita

Postby Pedro Farinha » 29 Dec 2008 23:47

É um daqueles livros que vai na volta pego-lhe para ler (comprei-o numa edição do Público) mas que ainda não foi desta. Talvez quando acabar a viagem do elefante. A pedófilia vista do lado humano de quem sente a atracção (para mim desumano não é sentir a atracção é não ser capaz de a conter) está, muito bem descrita na Materna doçura do Possidónio Cachapa. gosto bastante de ler livros onde os personagens principais sentem coisas completamente aversas à minha maneira de ser. É algo que ajuda a ver o outro lado e percebê-lo mesmo quando não queira aceita-lo.

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Re: Lolita

Postby Samwise » 31 Dec 2008 11:58

Também tenho lá para ler (em português).

No ano passado comecei o "Pale Fire", que acabei por deixar a meio por falta de disponibilidade. Ainda vou acabar essa leitura antes de passar ao "Lolita".

A obra foi publicada pela primeira vez em 1955, após várias tentativas de publicação falhadas.


Acho que um dos editores chegou a avisar o Nabokov que seriam ambos fuzilados se tal livro fosse publicado na URSS.

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Re: Lolita

Postby Aignes » 05 Jan 2009 23:40

Tenho mesmo de ler este livro. Não sei se não haverá perdida aqui por casa nenhuma edição antiga, se não tenho de ir comprá-lo. Já agora, uma dúvida: o original é em que língua, afinal? Se bem que pelo excerto que a Cerridwen colocou aqui, não me soa nada mal em português.
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Re: Lolita

Postby Samwise » 06 Jan 2009 00:06

Creio que o Nabokov escreveu uma série de livros directamente em inglês.

Tive essa mesma dúvida com o Pale Fire e houve uma alma caridosa que me respondeu logo (terá sido a annawen?) - afirmativamente.

Este vai pelo mesmo caminho: foi escrito originalmente em inglês.

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Re: Lolita

Postby Tzimbi » 06 Jan 2009 10:27

Samwise wrote:Também tenho lá para ler (em português).


Em português, Sam??? Como é que isso te foi acontecer??? :devil2:

Há uns tempos havia aí um tópico com os melhores inícios (ou algo do género). Este é um dos mais bonitos de que me lembro, pelo menos em inglês.

"Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta."

Lindo!

S.

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Re: Lolita

Postby Samwise » 06 Jan 2009 11:22

Tzimbi wrote:
Samwise wrote:Também tenho lá para ler (em português).


Em português, Sam??? Como é que isso te foi acontecer??? :devil2:


Apareceu lá em casa. Não foi o Je que comprou. (´tás a ver, há uma explicação lógica para tudo, mesmo para as coisas que parecem mais incríveis :devil: ).
É de uma edição que foi lançada logo após o filme do Lyne ter estado no cinema. Vem com uma capa igual ao cartaz promocional.

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Re: Lolita

Postby Aignes » 06 Jan 2009 21:02

Samwise wrote:Creio que o Nabokov escreveu uma série de livros directamente em inglês.

Tive essa mesma dúvida com o Pale Fire e houve uma alma caridosa que me respondeu logo (terá sido a annawen?) - afirmativamente.

Este vai pelo mesmo caminho: foi escrito originalmente em inglês.

Sam


Vou então procurar nos cantos recônditos das prateleiras da família, a ver se não está por aqui. Se não, compro em inglês. De certeza que deve haver uma edição barata, daquelas de clássicos e afins.
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Re: Lolita

Postby Thanatos » 06 Jan 2009 21:08

Aignes wrote:
Samwise wrote:Creio que o Nabokov escreveu uma série de livros directamente em inglês.

Tive essa mesma dúvida com o Pale Fire e houve uma alma caridosa que me respondeu logo (terá sido a annawen?) - afirmativamente.

Este vai pelo mesmo caminho: foi escrito originalmente em inglês.

Sam


Vou então procurar nos cantos recônditos das prateleiras da família, a ver se não está por aqui. Se não, compro em inglês. De certeza que deve haver uma edição barata, daquelas de clássicos e afins.


Aproveitando a quase paridade da libra esterlina com o euro: http://www.bookdepository.co.uk/WEBSITE/WW...p?id=0141182539

ou

http://www.bookdepository.co.uk/WEBSITE/WW...p?id=0140264078

ou

http://www.bookdepository.co.uk/WEBSITE/WW...p?id=014118504X

ou ainda

http://www.bookdepository.co.uk/WEBSITE/WW...p?id=185715133X
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Re: Lolita

Postby Aignes » 06 Jan 2009 21:15

Obrigada por me poupares o trabalho, Thanatos. :mrgreen4nw:

Agora é só escolher entre o barato e o muito barato. Só não vou é muito com a capa que tem a rapariga deitada na relva, de frente para nós. Gosto mais de imaginar as personagens como bem me apetece, e a fotografia condiciona um bocado essa liberdade.
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Re: Lolita

Postby virose_pt » 07 Jan 2009 10:36

Aignes wrote:Obrigada por me poupares o trabalho, Thanatos. :mrgreen4nw:

Agora é só escolher entre o barato e o muito barato. Só não vou é muito com a capa que tem a rapariga deitada na relva, de frente para nós. Gosto mais de imaginar as personagens como bem me apetece, e a fotografia condiciona um bocado essa liberdade.


Senti o mesmo que tu. Por isso mandei vir do Book Depository esta versão da coisa:
[img]http://www.bookdepository.co.uk/RESOURCE/MEDIA/IMAGES/bookcovers/Original/BookCovers13/978/0/1/4/1/9780141023496.jpg[/img]

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Re: Lolita

Postby Pedro Farinha » 30 Jan 2009 09:36

Acabei de ler este livro e, se bem que o tenha achado algo irregular, é um excelente livro.

Gostei especialmente da forma como o autor consegue meter-se na pele do personagem, a forma como consegue descrever a fascinação de Hubert por Lolita, a vontade carnal de a possuir e ao mesmo tempo de não a destruir. Ao contrário da ideia que eu tinha da história, que só conhecia pelo filme, existe uma consciência do protagonista para o quão errado eram os seus actos.

O final é igualmente brutal, acho que o estado de espirito do protagonista consegue infiltrar-se-nos na pele ao ler. Apenas a parte do meio, das deambulações pela américa do norte pecam por perder alguma da chama inicial e nã ose chega bem a perceber o estado de espirto dos dois, apesar de o final o revelar.

A escrita em si, cheia de referências, de detalhes minuciosos e saboros e de imagens bem construídas é do melhor que tenho lido.

este é daqueles livros que me deixa cheio de vontade de escrever, de de me insinuar dentro de uma personagem cujos valores nada tenham a ver com os meus e ver até que ponto consigo descrever os seus sentimentos eescrever desse outro ponto de vista.

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Re: Lolita

Postby Hamartia » 06 Feb 2009 04:23

É, realmente, um livro sublime. À primeira passagem, é um livro que nos repugna pela depravação consciente de Humbert - isto embora o primeiro período do texto seja um dos mais belos da história da literatura. A verdade é que no clima actual, esta atracção é imediatamente ligada à pedofilia, de que tanto temos ouvido falar, e de um desequilíbrio mental da personagem. Mas não. Confesso que quase fiquei doente ao lê-lo, pois, na verdade, este livro colocou-me um dilema: será que nos podemos apiedar de um pedófilo? Comoveu-me a parte em que, já no fim, com Lolita diferente daquela pela qual se apaixonou, grávida e sem o brilho de outrora, Humbert lhe pede para que parta com ele. Haverá maior prova de amor que esta?
«Es cierto que escribir me calma de a ratos, será por eso que hay tanta correspondencia de condenados a muerte, vaya a saber. Incluso me divierte imaginar por escrito cosas que solamente pensadas en una de esas se te atoran en la garganta, sin hablar de los lagrimales; me veo desde las palabras como si fuera otro, puedo pensar cualquier cosa siempre que en seguida lo escriba, deformación profesional o algo que se empieza a ablandar en las meninges.»

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Re: Lolita

Postby Thanatos » 06 Feb 2009 08:49

Hamartia wrote:(...)Comoveu-me a parte em que, já no fim, com Lolita diferente daquela pela qual se apaixonou, grávida e sem o brilho de outrora, Humbert lhe pede para que parta com ele. Haverá maior prova de amor que esta?


E seria amor? Ou obsessão/fixação? O romance (tanto quanto me lembro) é relativamente ambíguo. Não dá para entender se a Lolita do fim é a que vemos pelos olhos do escritor, se pelos do Humbert.

Mas concordo. Se fosse nesse sentido que dás ao texto, sim, é uma grande prova de amor. E não esqueçamos a raiz etimológica do termo pedofilia.
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Re: Lolita

Postby virose_pt » 06 Feb 2009 10:21

Ainda ando a lutar com a segunda parte do livro... Vou lendo aos poucos.

Recentemente deu o filme do Kubrick (Kubrik?) no Hollywood. Adormeci a meio. O James Mason no papel de Humbert não lembra ao diabo. Demasiado velho para o papel, demasiado canastrão para o papel. Não vi o filme dos anos 90, mas Jeremy Irons no papel de Humbert, ora ai está uma personagem bem entregue. Pura classe. O Irons é o tipo de actor que imagino para aquela personagem. Esguio, puro gentleman inglês, voz suave e pausada.


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