Engano - Philip Roth

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Cerridwen
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Engano - Philip Roth

Postby Cerridwen » 15 Jan 2013 17:10

Engano
Philip Roth


Editora: Dom Quixote
Tradutor: Francisco Agarez
ISBN: 9789722051316
Classificação: Romance
Publicação prevista para: 29/01
Páginas: 199

Sinopse: «No centro de Engano estão dois adúlteros no seu esconderijo. Ele é um escritor americano de meia-idade chamado Philip, que vive em Londres, e ela é uma inglesa culta, inteligente e expressiva, refém de um casamento humilhante ao qual, com trinta e poucos anos, já está nervosamente resignada, ou quase. A ação do livro é feita de diálogos - principalmente conversas entre os amantes antes e depois de fazerem amor. Esses diálogos - acutilantes, ricos, espirituosos, dialéticos - são praticamente tudo o que há neste livro, e não é preciso mais nada.»

Philip Roth nasceu nos Estados Unidos (Newark, Nova Jérsia), em 1933. Licenciou-se em Estudos Ingleses. Colaborou como crítico de cinema para o periódico New Republic. O seu primeiro livro foi publicado em 1959, com o título Goodbye, Columbus, e valeu-lhe a atribuição do prémio literário National Book Award. A obra foi adaptada ao cinema pelo realizador Larry Peece. Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se O Complexo de Portnoy (1969) e A Conspiração Contra a América (2005), que recebeu o prémio da Sociedade de Historiadores Americanos e o W.H. Smith Award para o Melhor Livro do Ano. Em 1998 foi agraciado com a Medalha Nacional de Artes da Casa Branca e, em 2002, com a Medalha de Ouro de Ficção, galardão da Academia Americana de Artes e Letras. Em 2006 recebeu o Prémio PEN/Nabokov e em 2007 o PEN/Saul Below de Consagração na Ficção Americana.

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Re: Engano - Philip Roth

Postby Samwise » 28 Feb 2013 12:35

Crítica no Ípsilon, por Helena Vasconcelos.

O amigo de Bill Clinton

Philip Roth e a infidelidade conjugal, tema que praticou vivamente na vida e na obra

Publicado em 1990, Engano assume a forma de um diálogo entre amantes, antes e depois do sexo, durante o qual se discute, se desmonta e se recria a ideia da traição (o título original é Deception) a partir da infidelidade conjugal, embora o conceito se estenda às relações familiares e aos acidentados percursos na amizade, na política, na sociedade e, principalmente, no território minado e explosivo que separa (e aproxima perigosamente) os homens das mulheres. As conversas ocorrem entre um escritor chamado Philip, autor de obras com um personagem de nome Zuckerman, e várias companheiras, das quais se destaca a amante casada - cujo marido mantém também uma relação ilícita que muito a perturba - que o visita às escondidas no seu apartamento, em Londres. As confabulações são espirituosas e inteligentes, demonstrando quão à vontade estão os seus intervenientes nesse universo de gente sofisticada e livre. No final, a mulher (legítima) de Philip aparece para o recriminar, depois de ter encontrado um bloco notas onde estão reproduzidas as conversas com a(s) amante(s); mas este protesta a sua inocência, desculpando-se com o trabalho de escritor, afirmando, sem muita convicção, que o que ali está é produto do seu labor como ficcionista.

É em Engano que Roth utiliza pela primeira vez o seu próprio nome como personagem principal, abstendo-se de recorrer ao ténue disfarce dos seus alter-egos, esses Alexander Portnoy, Nathan Zuckerman, David Kepesh e outros machos priápicos em permanente desespero, obcecados por sexo, martirizados pelo judaísmo e pela influência tirânica de mães castradoras. É claro que esta temática eternamente repetida - tal como tem sido explorada por Woody Allen, no cinema - poderia tornar-se entediante, não fossem os devastadores elementos cómicos e ferozmente indecorosos que o autor utiliza e explora até à últimas consequências. As suas desbragadas e intempestivas pseudo-ficções são levadas aos píncaros da sátira e do absurdo, algo que se deve muito à influência de Kafka e de Saul Bellow, não sendo de estranhar que seja considerado um misógino perigoso pelas feministas e persona non grata em certas áreas do rabinato, desde os tempos da publicação de O Complexo de Portnoy, em 1969.

Engano foi publicado na altura em que Philip Roth casou finalmente com a actriz Claire Bloom, sua companheira de muitos anos. É possível que este livro, cheio de “chaves” reveladoras desvendando os múltiplos aspectos do acto adúltero, tenha marcado o princípio do fim da relação. No seu relato autobiográfico A Doll''s House, Bloom, que em Engano é a “amante inglesa” - e Roth não poupa os “horríveis britânicos” -, manifestou perplexidade e repulsa quando descobriu que Roth tinha reproduzido fielmente cada momento, cada detalhe, cada palavra que trocaram nesta sua “ficção”, com o intuito de conseguir o efeito mais bombástico e cruel possível. A aparição, em intervalos breves mas significativos, de uma amante oriunda do Leste, antecipa a personagem de Drenka, a americana de origem croata, único consolo do obsceno Morris Micckey Sabbath em O Teatro de Sabbath, romance de 1995 que, de acordo com o crítico James Wood, marca o apogeu literário de Roth. Esta nota não é supérflua, uma vez que, em Engano, o autor leva a cabo uma espécie de exegese do adultério, tema repetidamente proposto na sua obra e vivamente praticado pelo próprio. Curiosamente, as palavras - a sua troca, o que escondem e o que revelam - parecem ser mais importantes do que o acto físico, enquanto Roth satura a narrativa de referências literárias (Madame Bovary é insistentemente evocada) e de vocábulos cheios de significado. Neste caso, em particular, as palavras são o próprio “engano”, servem o propósito da traição, uma vez que a escrita mascara, e simultaneamente revela, a realidade, consoante os caprichos do seu criador.

Roth, isto é, Philip, enfrenta aqui as críticas e os ataques femininos com a paciente elegância e o desdenhoso triunfo do sedutor encartado. O seu discurso pode não convencer - Roth resvala por vezes para a banalidade como quando refere que entre “amante e cônjuge”, este (ou esta) fica sempre a perder, uma vez que se “vê na situação chata e desagradável de discutir por causa dos legumes, da torrada queimada, do telefonema que não se fez, da exigência demasiada que se faz ou se sofre!” (p. 130) -, mas é suficientemente inteligente e hábil para esgrimir os seus argumentos com a eficácia de um mestre na nobre arte da traição erótica. O seu grande amigo Bill Clinton certamente terá pensado neste livro quando se enredou nas malhas do escândalo Lewinsky, oito anos depois.

Para os leitores que admiram a sagaz manipulação dos factos nas serpenteantes veredas da ficção, Engano é uma obra-prima. No entanto, uma questão permanece, embora a sua relevância seja mínima: até que ponto somos nós, também, enganados pela maliciosa e desavergonhada disposição do autor?

Nota: Dedicado a David Rieff, o filho de Susan Sontag e editor de Roth na Farrar, Straus and Giroux entre 1978 e 1989, Engano é uma das obras que integram a edição da Library of America, uma honra reservada a autores clássicos como Melville, Hawthorne, Fitzgerald e Hemingway, entre outros “deuses” do panteão literário americano. Esta distinção parece ter agradado ao autor que, recentemente, anunciou a sua “reforma”.


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Neste capítulo, o livro é mesmo uma festa, no bom e no mau sentido - nunca sabemos onde está a fronteira entre a ficção e a realidade, jogo que nos é servido numa bandeja abertamente maliciosa. E se estivermos minimamente a par daquilo que se passou na realidade da vida conjugal de Roth, a experiência torna-se deveras surreal.

Questões ficionais (ou não :mrgreen: ) à parte, é um livro que pode ser simplesmente saboreado pela inteligência com que foi escrito.
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Re: Engano - Philip Roth

Postby Sharky » 01 Mar 2013 11:19

Parece-me bem :tu:

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Re: Engano - Philip Roth

Postby Cerridwen » 14 May 2013 19:51

Chama-se Engano e tem letras gordas e páginas arejadas, pelo que parece de leitura relativamente rápida; mas não nos iludamos: a sua aparente acessibilidade tem os minutos contados, tratando-se de um livro bastante complexo que só podia ter sido escrito por um craque. Falar dele é perigoso, porque tudo o que se diga ajuda ou desajuda o leitor (e ele tem mesmo de partir sozinho nesta aventura). Por isso, referirei apenas que é um romance sobre a criação literária (não por acaso, uma das principais personagens é um escritor norte-americano chamado Philip) e as criaturas (ficcionais, bem entendido, embora não haja nada tão real como elas – ou talvez eu me ou vos engane dizendo isto, mas faz parte do jogo do autor). Dois amantes (um homem e uma mulher, ela inglesa) encontram-se num estúdio em Londres onde não há sequer espaço para uma cama – razão talvez para que o orgasmo seja provocado não pelo sexo, mas pelas conversas, que são inteligentes, algo angustiantes, desarmantes e, como não podia deixar de ser em Roth, também sobre os judeus e o preconceito que existe em relação a eles.
- Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias


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