Série: Terras de Corza (Madalena Santos)

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Angelica_Angel
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Re: Os Doze Reinos

Postby Angelica_Angel » 07 Oct 2010 15:54

Terras de Corza - O DÉCIMO TERCEIRO PODER (2006) *3.ª edição
Terras de Corza - A COROA DE SANGUE (2007) *2.ª edição
Terras de Corza - AS TRIBOS DO SUL (2009)
Terras de Corza - OS DOZE REINOS (2010)
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grayfox
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Re: Os Doze Reinos

Postby grayfox » 07 Oct 2010 16:25

Angelica_Angel wrote:Vejam lá algumas fotos do evento: http://www.facebook.com/?ref=logo#!/album.php?aid=41222&id=100000021564115



Fico sempre com pena de faltar a estas coisas. Quantos mais haverá?
A melhor assinatura chinesa da actualidade.

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Angelica_Angel
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Re: Os Doze Reinos

Postby Angelica_Angel » 07 Oct 2010 16:43

Assim a modos de apresentar ao público pela "primeira vez", agora só em Lisboa, no final do mês (talvez, TALVEZ, dia 30). E não terá os mesmos moldes, a menos que alguém arranje um grupinho de teatro amador com interesse em representar durante dez minutos :) Este que fez na Maia ("Pé no Charco") optou por uma leitura encenada: eram outros que liam o texto e os dois que aparecem nas fotos representavam em silêncio. Realmente é uma maneira fácil de adaptar um excerto; nos dois primeiros lançamentos, obriguei os meus pobres amigos a ensaiar durante um mês inteiro, várias vezes por semana, com a direcção de um encenador profissional :P Tem outro impacto, é certo, mas das duas maneiras se faz a festa!

Alguém interessado? Ou alguém que conheça alguém que esteja interessado?
Terras de Corza - O DÉCIMO TERCEIRO PODER (2006) *3.ª edição
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Re: Os Doze Reinos

Postby Bugman » 08 Oct 2010 10:07

Nao conheço ninguém que esteja por lá agora, mas podes sempre tentar o NNT da FCT-UNL. Costumavam ser malta de qualidade e chegaram a ser convidados para fazer uns meses n' A Barraca.
A PENA online | O Bug Cultural

Normalcy was a majority concept, the standard of many and not the standard of just one man. Robert Neville
O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
"No, Señoría, no es lo mismo estar dormido que estar durmiendo, porque no es lo mismo estar jodido que estar jodiendo". Camilo Jose Cela

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Re: Os Doze Reinos

Postby Bugman » 08 Oct 2010 10:18

Nao conheço ninguém que esteja por lá agora, mas podes sempre tentar o NNT da FCT-UNL. Costumavam ser malta de qualidade e chegaram a ser convidados para fazer uns meses n' A Barraca.
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Re: O Décimo Terceiro Poder

Postby Anibunny » 11 Feb 2011 22:17

Bem muito rapidamente acabei agora de ler o livro e reli as picuinhices do pco :P Penso que este livro é bem melhor do que a Coroa de Sangue, mais nervoso, mais solto.

O ambiente medieval (que explica muita das picuinhices que foram apontadas) vivia de aparências e de conveniências, penso que para alguém de 16 anos (ou 15) escrever um livro com tom maduro consciente de vários factos históricos é de louvar. Sejamos honestos a Inês Botelho, cujo nome aparece sempre associado à fantasia, penso que fica a milhas de distância. Aliás não acho que o livro seja para adolescentes, tenho 22 anos (ca belha) e gostei muito.

Ainda vou ler as tribos do sul para ver se a autora seguiu os padrões do segundo ou do primeiro livro (hopefully seguiu o deste) e ver o que a Madalena é capa de fazer agora com mais anos em cima. :D

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Re: O Décimo Terceiro Poder

Postby Thanatos » 12 Feb 2011 01:03

Mas leste fora de ordem de publicação porquê?

Eu achei o Coroa mais maduro e este mais restrito. Como aliás referi na minha opinião.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: O Décimo Terceiro Poder

Postby Anibunny » 12 Feb 2011 01:09

porque na biblioteca da escola da minha irmã o primeiro estava requisitado :P E li trocado, mas também são independentes :) Eu achei o fim da Coroa demasiado político e realista :( Neste a Madalena já meteu um pouco de amor ao barulho \o\

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Re: Série: Terras de Corza (Madalena Santos)

Postby dracopt » 06 May 2011 16:06

A minha opinião sobre o livro, que acabou por englobar de algum modo o resto da série:
http://idreaminfrared.blogspot.com/2011 ... einos.html

Cumps,
Rogério

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Lady Entropy
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Re: Série: Terras de Corza (Madalena Santos)

Postby Lady Entropy » 02 Jul 2011 15:56

Como a nossa Madalena estava na feira do Livro quando passei por lá com a Ruiba, o Anticristo (aka Lovercraft) e a Srª Anticristo (Gaminha), decidi comprar o primeiro livro da Saga das Terras de Corza porque o senhor Rogério ainda não conseguiu convencer a editora a mandar-mos de borla para eu fazer o RPG baseado no setting.

Francamente, tinha muita curiosidade para ver o que saía daqui, sobretudo devido aos elogios que recebeu, e porque, bem, é escrito por alguém aqui do fórum.


Disclaimer 1: Tal como eu disse no passado que odeio o David Soares, e mesmo assim escrevi uma critica neutra ao Evangelho do Enforcado? O mesmo se aplica aqui. A Madalena é uma querida, e todos os elogios serão por serem merecidos. Por outro lado, eu sei que isto foi escrito originalmente com 16 anos, mas isso para mim não é "desculpa". Se tiver algo a apontar, aponto, apesar de saber que uma rapariga muito nova escreveu uma saga tão épica. Este livro não merece menos.

Disclaimer 2
: Isto vai ter muitos spoilers. Leitores, preparem-se, apesar que vou fazer o meu melhor para que sejam o mínimo possível, mas não consigo evitá-los.

Disclaimer 3: Só li um livro. O primeiro. Qualquer faltas de conhecimentos que eu tenha, e se considerarem as minhas apreciações "incompletas", é mesmo porque só conheço o primeiro livro. A análise dos próximos virá quando tiver acesso aos outros livros.

Um rápido recap:

As Terras de Corza são um conjunto de 12 reinos (13 no primeiro livro), fundados por um rei lendário, e cada livro da saga passa-se, envolvendo personagens e eras diferente, neste mundo de High Fantasy, sem os já tão habituais tropes de raças sobrenaturais e magia.

"O Décimo Terceiro Poder" conta-nos a história da filha adoptada de um Rei, Neferlöen, que se torna numa líder bélica para o seu pai, enfrentando o sério problema que foi causado pelo nascer de um 13º reino. Este reino foi criado por Hoc, o carismático vilão do livro, que roubou as terras a um dos 12 Reis, cada um governando um dos 12 reinos originais fundados por um rei lendário. Entretanto, um grupo de misteriosos mercenários anda a causar problemas também, aparentemente mais fanáticos que um bando de mercenários deveria ser. Seguimos Nefer desde a sua infância até ao seu casamento, vendo como lida com a pressão que é controlar uma fortaleza de guerra, e enfrentar os preconceitos de quem acha que ela deveria manter-se no seu papel de mulher.

Para simplificar esta análise, vou dividir em três elementos que focarei um de cada vez: Narrativa (o que nos é contado, o fluir da história, independentemente de setting e personagens), Setting (o mundo e cultura onde o livro decorre) e, por fim, Personagens (óbvio).

Note-se que cada um destes elementos sózinho pode fazer com que adore o livro -- tenho livros que adoro pelas personagens (Stephanie Plum, Crónica dos Bons Malandros) independentemente de Narrativa e Setting; outros pelo Setting (Lord of the Rings), e outros pela incrível Narrativa. Se um livro consegue combinar dois, ou até três destes elementos estou no céu.

1 - NARRATIVA


Sempre que me lembro que a Madalena escreveu isto com 16 anos fico de boca aberta e cheia de inveja. A narrativa é muito madura para alguém tão novo, mantendo um bom pacing, com conflitos frequentes. Visto que todos dizem que o último livro é mil vezes melhor que o primeiro, devo tirar o chapéu porque deve ser algo digno de se ler. O livro tem alguns problemas mais para o terceiro acto, que acaba por ser muito grande -- o "Confronto Final" ocorre pouco depois do meio livro e é até um pouco anti-climático, deixando uma grande quantidade de livro para encher. No entanto, não tive a sensação de ser "palha", e apesar de a excitação e a energia do início quase desaparecerem, ainda se lê bem toda a secção do pós-conflito final que é mais de desenvolvimento de personagem. Francamente, preferiria que se invertesse esta ordem de tópicos, mas, como disse, não é algo que quebre o livro. A linguagem é muito madura, correcta e acessível sem ser irritantemente pedante.

Quanto a história em si, bom, é onde se sente um pouco a juventude da autora onde escreveu isto. É simples, direta, e um previsível. Os plot-twists não o são, e as minhas tentativas de prever o que ia acontecer saiam goradas porque o princípio da Occam's Razor aplicava-se SEMPRE. Nada foi surpreendente ou particularmente excitante. Simplesmente uma história sólida, seguindo os passos de inúmeras outras histórias neste género.

E isto foi das coisas que me frustrou mais neste livro. Havia rasgos de brilhantismo, momentos em que eu ficava de respiração cortada... e a resolução era chocha e tão distante do génio que eu havia vislumbrado antes que não conseguia evitar ficar frustrada.

Por exemplo, a cena que me fez dar com a cabeça no livro em frustração (SPOILER ALERT):

A Nefer viaja a um dos 12 reinos, que sofre uma crise dinástica muito à D. Afonso Henriques: o Rei morreu, a Rainha está no trono mas é mal aconselhada pelo seu amante, que quer tomar conta do reino e que está prestes a fazê-lo. O Infante não gosta nada disto, mas a mãe recusa a dar-lhe ouvidos, porque está totalmente embeiçada pelo seu amante. Nefer e o seu grupo assistem a uma batalha contra os Intrusos de Negro (os mercenários misteriosos), que corre muito mal para os bons, e obriga-os a retirar. Notam que o estratega que planeou isto devia estar com os copos ou ser o maior NOOB do reino, porque era óbvio o que iria acontecer. A Nefer adivinha que, provavelmente, isto foi obra do amante: que, em vez de aconselhar a Rainha (que não sabia nada de guerra) deixou-a cometer erros básicos para se enterrar, e destruir a sua confiança -- fazendo com que fosse buscar mais apoio e conselho ao amante.

Isto é lindo.

Infelizmente, o follow-through é patético, especialmente depois de colocar a barra tão alta. A crise monástica é resolvida, literalmente, com a Nefer a pegar na rainha (que ela mal conhecia), levá-la à parte e dizer-lhe "Minha senhora, está a confiar demasiado no seu amante, que só quer o seu trono. Devia ouvir mais o seu filho."

E a rainha dá-lhe ouvidos.

Isto é excessivamente frustrante depois de ter visto o quão bom esta história poderia ser. Resolver as coisas com uma conversa é uma saída fraca e nada credível. Adoro intriga e politiquisse, e este poderia ser o livro que me dava em português aquilo que li nos Guardiões da Noite, e em Ambar. Devido a momentos como este, não foi, e isso deixou-me triste.

A cena de abertura do livro é mole, (um jantar\encontro entre os reis dos 12) atirando-nos para cima uma listagem de pessoas e nomes de reinos, que, com a minha memória de peixinho, eu esqueci e baralhei logo. É um erro que muitos escritores iniciantes enfrentam: em vez de abrir com uma cena forte, interessante e activa, que agarre o leitor desde o início, preferem "despejar" de imediato o setting na primeira oportunidade, para depois poderem avançar para a história -- em vez de o entregar em bocados no decorrer da acção. Isto poderia funcionar se o setting em si fosse único e original... o que nos leva ao ponto 2:



2 - SETTING


Antes de começar a análise deste livro tenho que dizer que não gosto de fantasia medieval, o que é logo um problema quando quero analisar neutralmente este livro. Por outro lado, quer dizer que fantasia medieval que tenha lido voluntariamente terá sido de uma grande qualidade, e é contra esses standards que este livro se vai erguer -- o Standard das Crónicas de Ambar é aquele ao que comparo todos os livros de fantasia que leio. É um standard MUITO elevado.

Outra coisa muito importante: eu sou uma Roleplayer fanática. Isso também quer dizer que li e conheci incontáveis Settings -- e que joguei neles. É um bocado difícil explicar Roleplay para quem não joga, mas vou tentar ser rápida: RPG (ou Roleplaying Games) são uma versão avançada dos livros das Aventuras Fantásticas -- criamos a nossa personagem, o Mestre de Jogo cria uma história que se passa num mundo pré-definido nos livros do jogo. Em alguns casos, o grupo ou o Mestre de Jogo chegam mesmo a criar o seu próprio mundo, especialmente no caso de Dungeons and Dragons.

Sim, deixem-me reiterar isto: existem escritores que, em vez de se dedicarem a escrever histórias, escrevem mundos. Mundos onde pessoas depois inventam as suas personagens e histórias, sentados à volta de uma mesa, como jogo.

Estes dois pontos são, infelizmente, dois pontos contra as Terras de Corza e o seu mundo. Depois de ter experimentando mundos incrivelmente imaginativos e originais como o World of Darkness, WitchCraft, Legend of the Five Rings, 7th Sea, Armaggedon, etc., o worldbuild de Corza deixa-me com um profundo sentido de "Meh": é minúsculo e reduz-se a uma lista de personalidades, uma cronologia e pouco mais - nem a religião é muito definida, não há fortes diferenças culturais especificas, para além de uma ou outra coisas mais cosméticas (como as joias que as mulheres de um dos reinos usam na testa). Acredito para alguém que não seja uma anormalidade como eu, que o mundo seja fresco e muito original; mas, na minha opinião, é banal e genérico, e acaba por ser arquivado na pasta dos "Settings de Fantasia Medieval Chapa 4". Admito que posso estar bastante blazé, mas quando poderia pegar na história e no mundo de Corza e enfiá-lo sem alterações num monte de outros settings sem se notar ... que o mundo não é suficientemente único, e precisa de mais trabalho.

Não quero exigir um world build ao nível de Senhor dos Anéis, mas se querem bons exemplos de Settings de Fantasia Medieval com um Setting extraordinário têm a banda desenhada Artesia (que tem uma aproximação semelhante à personagem principal -- só que em vez de ser a filha adoptiva do rei como Nefer, Artesia é a terceira concubina do rei), Ravenloft do RPG Dungeons & Dragons, Ambar e, para fantasia sem magia, têm o Song of Fire and Ice.

Acredito sinceramente que a série se torna mais interessante e complexa com o avançar do tempo, mas, como disse, só posso analisar o que tenho à mão.



3 - PERSONAGENS


As personagens deste livro são bem feitas, claramente pessoas com defeitos e necessidades, e nem mesmo a protagonista se livra disso. É refrescante encontrar um livro onde não nos é enfiado pela garganta abaixo o quão FIXE é a heroína, e como ela consegue fazer tudo o que quer sem sofrer consequências. Mais que isso, odeio aquelas personagens que fazem algo que vai contra o status quo, mas como são as PP (personagens principais) podem fazê-lo sem serem descriminadas. Aqui, a heroína toma um papel invulgar, Dama de Guerra, mas não o faz facilmente, e enfrenta preconceito, nojo e até misoginia. É-lhe dito várias vezes para se deixar de brincar aos homens, e casar e ter filhos.

Até o vilão, Hoc, é interessante no seu descaramento e humor e falta de vergonha. Achei que merecia mais tempo de antena, e que a sua morte foi um bocado indigna, mas pronto. Não se pode ter tudo.

Achei que faltou também um bocado de desenvolvimento na relação entre Nefer e o pai. Acredito que se dessem MUITO bem, mas gostava de ter visto mais cenas onde a relação deles se reforçava, onde se mostrava que realmente ele tinha carinho por ela, e confiava sinceramente na filha adoptiva, ao ponto de ir contra a opinião pública e pô-la como Dama de Guerra. É picuinhice, sei, mas pronto, até gosto da personagem do Pai, e gostava de ter visto mais da interação deles.

A única coisa que me pôs à cabeçada à parede foi os rasgos de parvoeira galopante que, volta e meia, o vilão apresentava. Quanto mais esperto, perigoso e interessante é um vilão, melhor sabe a victória do herói no final -- veja-se o Gruber no Assalto ao Arranha-Céus. Quando o vilão se apresenta sendo toni, o herói perde um bocado da força. (SPOILER ALERT)

A heroína suspeita que Hoc tem algo a ver com os Intrusos de Negro (que, para além de ser um nome pouco prático, e não muito memorável, me fez imaginar que Corza tinha problemas de Ninjas do princípio ao fim do livro); convenientemente, todos os Ninj--Intrusos de Negro se tatuam com um símbolo sobre o coração (para ser mais fácil distinguir o bem do mal, suponho). Nefer decide aparecer com testemunhas de surpresa no castelo do Hoc, esperando assim conseguir apanhá-lo de calças em baixo e provar que ele está por trás dos Ninjas (que se lixe, Ninjas é mais fácil de escrever que Intrusos de Negro). Não só consegue convencer o Guarda a deixá-la entrar (outro daqueles momentos WTF?) só por pedir com muito jeitinho, mas, convenientemente, o Hoc estava a liderar um ritual dos Ninjas, que envolvia tatuar o tal símbolo nos novos convertidos.

A sério!? Nem lhe ocorre fechar a porta à chave? Ou dizer aos guardas (que assumo que saibam) que aquele ritual é secreto e NINGUÉM pode entrar? Sim, sim, eu sei que podemos argumentar que foi orgulho, mas a mim cheira-me mais a "plot convenience", e é triste porque enfraquece muito um personagem. E depois temos o WTF moment. Nefer e as testemunhas são apanhados, e como a Nefer não é burra, diz-lhe que contou com isto, e que os vão deixar partir, porque ela deixou pessoas para trás que sabem que se ela não voltar até ás X horas, a considerem como capturada, e vão de imediato avisar o rei. E logo significa que ele é culpado.

Agora, tenho que louvar a Nefer. Foi uma ideia muito boa, mas tinha uma falha séria. Vejamos:

- Se os mantém ali, o pai da Nefer é informado que a filha não voltou o que significa que ela quase de certeza descobriu que Hoc é o traidor por trás dos Ninjas.

Em teoria, o plano teria de ser "Deixá-los ir". Mas...

- Se os deixa ir, Nefer e um montes de outras testemunhas vão transmitir com TODA A CERTEZA que testemunharam com os seus olhos que Hoc é o traidor por trás dos Ninjas.

Ou seja, perdido por cem, perdido por mil. Já nem digo para que Hoc leve um exército e tentasse matar os acompanhantes antes que transmitissem as notícias. Mas a verdade é que ele poderia sempre manter Nefer e os outros como reféns, e acusá-los de trespassar nas suas terras sem licença -- não lhes fazia mal, mas poderia fazer os seus reinos correspondentes pensar melhor na hora de atacar. Serem... digamos, convidados "especiais" no seu castelo. Ou, no caso das coisas correrem mal, matá-los, porque sempre vão ser menos pessoas para o inimigo, e sempre pode mostrar o dedo do meio ao inimigo antes de bater a bota.

Quanto a heroína... bom, o caso pia fino. Eu gosto muito deste tipo de heroínas esforçadas, que lutam pelo que têm, que perdem, caem, e se voltam a levantar. Mas a minha experiência com a heroína foi feita de altos e baixos. No início, sim, personagem muito fixe, siga para bingo. Mas depois, o que demorei a perdoar-lhe durante grande parte do livro: Nefer descobre que o irmão maltrata a mulher e que lhe disse que se ela não lhe der filhos em 5 anos, ele a vai matar e arranjar uma nova. E o que Nefer faz? Nada.

Absolutamente nada.

Fica com pena, mas não faz nada. Nem tenta dizer ao pai, que aparentemente confia tanto nela que a faz Dama de Guerra, algo incrível para ser quando se é mulher. Eu sei que podemos argumentar que ela tinha 16 anos, pita, imatura, demasiado excitada por se tornar Dama de Guerra. Mas.. não me convence. Em settings medievais, ela é mulher já feita, por muito imatura que seja...

Não. Isto não caiu bem comigo. Eu aceitava que ela falhasse na sua tentativa de ajudar a cunhada, que o pai a ignorasse ou que o irmão obrigasse a mulher a dizer que a Nefer mentia. Mas esta passividade destruiu muita da empatia que tinha com a PP. Suponho que vem da minha forte crença nas palavras de Edward Burke "All that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing."

Ah, mas ouço dizerem, mais tarde ela redime-se! Ela fica grávida de gémeos e dá o filho à cunhada, fingindo esta uma gravidez que não existiu. Pois. Esta cena realmente viria retirar alguma da culpabilidade (ainda que não toda, porque ela não tinha sequer tentado ajudar), mas, paradoxalmente, acabou por estragar ainda mais as coisas: quando, enervada pela impaciência da cunhada em reclamar o filho e voltar a casa, Nefer lhe diz que se ela não para de a chatear, vai revogar a oferta...

... correndo com a cunhada para casa, sem o filho prometido, fazendo com que o marido possivelmente descubra a mentira (e a associação com a irmã adoptiva que ele odeia), e no limite do período do tempo que ele lhe dera para engravidar -- antes de a matar. Marido que é o REI agora, e não só o príncipe.

Senhores e senhoras, a nossa heroína. *palmas lentas*

Sim, eu sei que ela estava cheia de nervos\dores\pena por perder um filho, que só agora percebia o quão o grande era o sacrifício. Até poderia deixar passar se ela fosse atrás da cunhada pedir desculpa pela explosão. Mas não, teve que ser a cunhada a voltar e pedir desculpa.

Suponho que a minha propensão a não gostar dela me fez pintar este quadro muito negro, mas não consigo perdoar-lhe inteiramente estas ações.




END SPOILERS.


Para um tl;dr:

História: Simples, sólida, previsível.
Linguagem: Bonita e acessível.
Setting: Generalista e pouco inspirado\interessante
Personagens: Bem feitas, com defeitos e méritos, por vezes com momentos de "WTF?"


Recomendar este livro? Bom, não o posso recomendar a ninguém que jogue DD, ou seja um Rper experiente, ou seja um grande fanático de Fantasia -- porque possívelmente vai passar o tempo todo a fazer comparações com outros livros. E francamente, este livro não o merece. Posso sim recomendar a alguém que goste de Narrativa Histórica com alguma intriga e politiquisses e se queira estrear a ler este tipo de livros, ou a quem não lê muito o género e quer experimentar algo pouco maçudo e mais orientado para personagens do que para setting.
"I believe in pink. I believe that laughing is the best calorie burner. I believe in kissing, kissing a lot. I believe in being strong when everything seems to be going wrong. I believe that happy girls are the prettiest girls. I believe that tomorrow is another day and I believe in miracles."

— Audrey Hepburn

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Re: Série: Terras de Corza (Madalena Santos)

Postby pco69 » 02 Jul 2011 21:19

:whistle:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Série: Terras de Corza (Madalena Santos)

Postby Angelica_Angel » 09 Jul 2011 12:25

Lady :)

Antes de mais, agradeço a extensão das tuas palavras; ficarei à espera da mesma lupa nas próximas leituras Terras de Corza.

(Ainda em intróito... Eu sou assim tão simpática? Damn! Isso não vende! lol)

Se a escrita é de ficar "de boca aberta e cheia de inveja", se há "rasgos de brilhantismo" de tirar o fôlego, se se revelou uma "história sólida" e se "as personagens deste livro são bem feitas", então fico mesmo satisfeita com o meu esforço aos 16 anos. Espero que tenha sido um trampolim para melhores livros. Agora é esperar a sua leitura ;)

Quanto a resoluções simples, que tiram metade do interesse suscitado na criação do problema, mea culpa, se pensarmos na Madalena aos 15/16 anos. Provo nos livros seguintes que há uma franca evolução nesses termos. Não porque estou aqui a bajular-me, mas sim porque, pelo menos, é natural com a evolução da idade. E a prática.

(Isto terá spoilers. Menos do que o texto da Lady, mas terá ;) )

Falemos então do setting. Tu partiste para esta leitura com um propósito, focado precisamente nesse tópico, daí, provavelmente, a rápida comparação com a tua experiência RPG. No entanto, tenho de advertir que eu nunca fui Roleplayer (apesar da curiosidade), nem as minhas leituras procuram esses ambientes. É, creio, sintoma disso o facto de nem toda a gente me considerar autora de Fantasia - até acompanhaste uma discussão dessas na Feira do Livro, pelo que me constou. Até eu me questiono. Eu criei um mundo à parte, mas à imagem da Europa central e sul na Idade Média, na decadência do Absolutismo, no início da Industrialização e, depois, numa época pré-romana com inspiração na lendária Monarquia de Roma, sem deixar de buscar elementos dos maias, indonésios e indianos. No entanto, que a tua "frustração" se atenue nas leituras d'A Coroa de Sangue, d'As Tribos do Sul e d'Os Doze Reinos. Aposto que ficarás um pouco mais agradada.

A tua visão sobre as cenas que descreveste, numa primeira fase, tudo bem, é legítimo, mas depois sondam o - não me interpretes mal, porque não o digo de modo pejorativo - demagógico. Podemos pegar em qualquer intriga de todos os livros e brincar ao "e se em vez disto acontecesse aquilo?". Influenciada, possivelmente, pela animada acção típica do roleplaying game, digo eu, não te dás muito bem com a apatia reflexiva de uma personagem.

Quanto a Hoc, o orgulho fez-lhe uma grande rasteira. Orgulho machista habitual na Idade Média. Pensava-se intocável, uma mulher desvendou o seu segredo, ele decidiu deixá-la ir para, à grande e à francesa, derrotá-la. Não é natural em determinados perfis? Tentei embrenhar os livros com as mentalidades das épocas respectivas, de modo que nem sempre podemos interpretá-los a pensar como hoje pensamos.

Não é justo associar "absolutamente nada" a Nefer. Mais uma vez reporto para a mentalidade medieval (e actual, noutros países e em certas casas portuguesas): a mulher agredida e ameaçada não seria um escândalo (como deveria ser!). Nefer nada fez naquele preciso momento. Ok. As personagens não precisam de actuar no preciso segundo em que lhes surge uma questão que lhes faça comichão. Ofereceu-lhe um filho, fruto de uma relação que muito lhe diz. Haja desequilíbrio psicológico na altura de o entregar e o enredo será bem mais realista. Não gostaste, é teu direito ;) Mas, que tenha conhecimento, és a primeira pessoa a não gostar de Neferlöen lol

Terminas a falar em comparações com outros livros. Dizes comparação porque poderia estar melhor aqui e ali ou porque faz lembrar alguma coisa? "E francamente, este livro não o merece" leva-me a concluir que é mesmo a primeira opção, no entanto, queria esclarecer-me ;) De resto, se dá para recomendar a alguém, isso é muito bom. Melhor do que muita coisa que anda por aí, pelo que me parece...
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Re: Série: Terras de Corza (Madalena Santos)

Postby Lady Entropy » 10 Jul 2011 01:48

A seu tempo (porque estou meia ocupada) vou dar uma resposta completa porque adoro este tipo de debate, mas para te tranquilizar quero explicar que quando digo que não acho que o livro "mereça ser comparado com outros" quero dizer que não é justo para com o teu livro - um bom livro é mais do que setting. Infelizmente, fãs de Roleplaying vão na maior parte das vezes fixar-se na construção do mundo quando lendo livros de Fantasia-- admito que a minha análise foi um pouco mais crítica e mais orientada para o Setting porque estava a tirar notas já para o RPG que o Rogério me desafiou a escrever.

Mais para breve!

Ah, e uma nota rápida. Quando designo algo por "Fantasia" não quero dizer que tenha magia\criaturas sobrenaturais \elementos paranormais. Quero dizer algo que não se passa no mundo real. Game of Thrones também não tem elementos sobrenaturais (pelo menos não óbvios), e designo isso por fantasia também; idem para a saga dos Otori. ;)
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Re: Série: Terras de Corza (Madalena Santos)

Postby Thanatos » 11 Aug 2012 14:27

Deixei um breve apontamento acerca de As Tribos do Sul no Goodreads que transcrevo aqui: Se nos dois livros anteriores era desculpável por conta da idade da escritora alguns defeitos narrativos nesta obra de 2009 já não é possível dar esse benefício. A escrita é prolixa perdendo-se em detalhes e minúcias que nada ou pouco acrescentam. Os tempos narrativos convergem e divergem atabalhoadamente, muitas vezes no espaço de meros parágrafos causando uma sensação de distanciamento. Tudo é narrado duma forma incaracterística e impessoal, sendo a protagonista uma figura que não controla a sua vida antes sendo o centro de mudanças que pouco a afectam a nível intelectual. No entanto essa impermeabilidade é contradita pela vulnerabilidade das relações amorosas que fulgem como relâmpagos na sua vida levando a que se enamore no espaço de meros capítulos para logo de seguida esquecer essas paixões e seguir noutra direcção dando a ideia duma mulher inconstante em conflito interno com a ideia que é projectada de unificadora de duas tradições muito diferentes. Essa unificação nunca será atingida por acções dela mas por interpostas pessoas o que faz com que a certa altura o leitor se interrogue se estará a ler a biografia da pessoa certa.

Todo o livro exagera no não mostrar das ocorrências preferindo contá-las duma forma prosaica quase como na tradição oral. Para uma obra desta dimensão tal opção depressa cansa porque não se sente envolvência alguma antes parecendo que lemos relatos jornalísticos impessoais sem cunho vincado que nos faça imergir neste mundo totalmente imaginário.

É com pena que verifico assim que a promessa anterior de Madalena Santos, expressa nos dois primeiros livros, "O Décimo terceiro Poder" e "A Coroa de Sangue", não se cumpre aqui pelo que me parece que pouco deverei esperar do último volume da saga das Terras de Corza, "Os Doze Reinos".
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!


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