Cândido de Voltaire

João P Ferreira
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Cândido de Voltaire

Postby João P Ferreira » 23 Dec 2011 00:24

Caríssimos, li recentemente Cândido de Voltaire e fiquei maravilhado com a sua abordagem quase profética...

Muitos tratados devem existir sobre esta obra, e não trarei por certo aqui nada de novo, mas há algo que gostaria de referir.

Reparem que Cândido é inicialmente mal tratado num castelo alemão, por um qualquer soberano despótico alemão, mas também não percebo se Cândido que vive nesse castelo é alemão ou francês. Cunegundes, a sua amada, inicialmente despreza-o. Cândido é mal tratado pelos búlgaros, povos eslavos, sendo que historicamente ainda não percebi bem porquê, existe uma querela ancestral entre os eslavos e os germanos e tal está retratado no livro quando Cândido é mal tratado pelos búlgaros. Há uma círitca forte à corrente do otimismo, no sentido que o filósofo diz que vivemos nos melhores dos mundos possíveis, mas Cândido leva uma vida errante, de desgraça e de azares.

Voltaire faz também uma crítica severa com o livro à religião (nada de novo até porque era mação) quando Frei Giroflée, o clérigo da história aparece sempre, com uma bela moça de nome Paquette, criada da família de Cunegundes.

O homem negro ou o indígena é enaltecido no livro, com a personagem de Cacambo, nome claramente africano ou de índole tribal, pois esta personagem ajuda Cândido constantemente e acompanha-o nas suas peripécias vivênciais.

Há uma crítica forte aos judeus, usurários e às elites financeiras (muito atual diga-se), quando Cândido regressa rico das suas viagens mas fica sem nada porque tem de pagar taxas de conversão, arredondamentos, juros, e toda uma série de encargos com os judeus.

Uma crítica enorme ao fleuma germano, na personagem do Barão, irmão de Cunegundes. Ou seja os alemães aristocráticos são encarados como povos frios e fleumáticos, estritamente intransigentes.

Depois no final da história uma crítica aos pseudo-doutores, ou conselheiros, quando Cândido pede conselhos a um doutor (turco ou árabe não me lembro), este é rude, mal criado e de uma banalidade intelectual gritante; no entanto o aldeão turco revela uma sabedoria simples e humilde, mas enriquecedora; revelando assim o livro a riqueza da sabedoria popular.

No fim, Voltaire faz uma crítica no meu entender ao impulso dos homens atrás do poder e do prazer fácil, quando depois de Cândido ter passado por tantos tormentos e dificuldades, depois da sua amada ser feia e gorda, depois de ter perdido todo o dinheiro que tinha ganho, dedica-se à horta, ao cultivo e ao trabalho, referindo que o trabalho evita três grandes males: O vício, a necessidade e o tédio (ou outros três similares)

A recompensa final que Cândido teve foi uma pequena horta para plantar as suas cousas, com uma mulher feia e gorda que em tempos amou.
É isto derrotismo? É esta a ascese final do aventureiro?

O que vos digo é que o livro é bem actual, e todas as críticas são muito pertinentes e aplicam-se hoje em dia (a pedófilia na igreja, os alemães fleumáticos e intransigentes, os juros e taxas cobrados pelo sistema financeiro, a crueldade de alguns povos eslavos, a futilidade de algumas doutrinas filosóficas e por fim o ideal da redenção através do trabalho)

Foi apenas para partilhar :)

Boas leituras
João Pimentel Ferreira
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