História do Povo na Revolução Portuguesa 1974/75 - Raquel V

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História do Povo na Revolução Portuguesa 1974/75 - Raquel V

Postby pco69 » 21 Mar 2014 11:30

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http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=691604

O livro “História do Povo na Revolução Portuguesa 1974/75 da historiadora Raquel Varela defende que o processo de nacionalizações foi a resposta dos partidos políticos contra o “controlo operário” que conseguiu, na prática, um duplo poder em Portugal.
“Os partidos tentam dirigir este processo. Os da esquerda, os da direita, a Igreja, os governos, o Movimento das Forças Armadas (MFA). Todos tentam dirigir este processo. Os partidos são ultrapassados. Era frequente, as pessoas ocuparem uma fábrica ou um bairro e a seguir ia lá o MFA que tentava evitar que a ocupação fosse mais longe e normalmente legitimando a ocupação que se tinha dado, fosse em terras fosse noutras zonas e depois o governo lançava uma lei a correr para legalizar a situação que tinha sido feita pelos trabalhadores”, disse à Lusa a autora de uma nova investigação sobre poder dos trabalhadores durante os anos 1974 e 1975 em Portugal.

O livro inclui, além de fotografias inéditas da Agência Magnum, várias tabelas e quadros com números de greves, manifestações, ocupações de casas e fábricas; unidades em autogestão, cooperativas, saneamentos e evolução salarial, entre outros.
Para a investigadora da Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, “o 11 de março (1975) é uma resposta efetiva ao controlo operário” porque, sublinha, o controlo operário é uma situação de força e de poder paralelo o que significa que os trabalhadores, por exemplo, detinham o poder em grandes empresas metalomecânicas e em outros setores chave do Estado.

De acordo com a investigação, as comissões de trabalhadores exercem um controlo permanente sobre as administrações e as administrações não conseguem governar as empresas e extrair mais-valias porque os trabalhadores controlam as tabelas salariais, definindo o salário igual para trabalho igual.

“Em muitos casos, os patrões propõem a autogestão, sobretudo nas empresas mais pequenas, mas também em muitas empresas de maior dimensão, os trabalhadores respondem que não querem autogestão: querem que o patrão faça a gestão porque eles estão ali para controlar e para dar cabo do sistema capitalista e não para gerir o sistema capitalista”, diz Raquel Varela.

Para a autora da investigação, as nacionalizações na sequência do 11 de março representam dois movimentos: por um lado visam retirar o controlo operário e pretendem retirar as empresas e a banca do controlo dos trabalhadores e colocá-lo num controlo mais próximo do Estado.

“Todas estas empresas se tornam viáveis porque o Estado é obrigado a transferir capitais do fator capital para o trabalho mas só o pode fazer porque tem controlo sobre a banca”, sublinha a historiadora destacando o papel dos sindicatos e dos comunistas no processo de anulação do “controlo operário”.

“O PCP era muito a favor do controlo do Estado e da ligação dos trabalhadores pela Intersindical (sindicatos). O PS era o Estado e defendia a autogestão, a ideia de que não se mudava o sistema capitalista mas os trabalhadores passavam a ter uma palavra a dizer no seu local de trabalho e depois, a extrema-esquerda que era sobretudo partidária do modelo dos sovietes”, refere a historiadora.

Raquel Varela afirma mesmo que são os sindicatos a defenderem a nacionalização da banca para afastar o poder dos trabalhadores passando o setor para a proteção estatal.

“Digamos que a burguesia teve de abdicar dos anéis para conservar os dedos. Permitiu que a banca estivesse durante 10, 15 anos na mão do Estado para que não tivesse ido para a mão dos trabalhadores que iam ter controlo absoluto sobre os capitais”, afirma Varela.
Seja como for, o contexto histórico em 1975 é determinado pelo poder paralelo das Comissões de Trabalhadores, apesar das nacionalizações e das tentativas dos partidos em controlarem as tentativas de democracia representativa que se verificavam por todo o país.
“Tudo isto leva à rutura. É a revolução que leva ao 11 de março. A radicalização da revolução, ou seja, o poder paralelo é que leva à rutura do governo (III Governo), poder que cresce depois de fevereiro de 1975” , defende Raquel Varela

"História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-75" de Raquel Varela (535 páginas, Bertrand Editora) vai ser apresentado em Lisboa no dia 20 de março.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=691605

A investigadora Raquel Varela autora do livro “História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-75” sustenta que o poder dos cidadãos envolvidos nas dinâmicas da democracia direta pode obrigar a mudanças na “cronologia da revolução”.
“O que é mais relevante neste trabalho é que chegamos à conclusão de que a cronologia da revolução deveria ser mudada”, disse à Lusa Raquel Varela, autora do livro “História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-75” que vai ser apresentado no dia 20 de março em Lisboa.

“Eu proponho que se mude a cronologia da revolução depois de os dados e os estudos sobre as ocupações, as greves, as manifestações e as ocupações das fábricas. O que é determinante na revolução não são as mudanças de governo. Eu defendo é que as mudanças de governo são determinadas pelas mudanças na revolução. Nós inventariamos os factos detalhadamente - e o livro tem uma cronologia detalhada - que mostra que as mudanças dos governos são feitas pelo impacto das mudanças na revolução e do curso dos acontecimentos na revolução que não é nem o governo nem o MFA mas sim o que as pessoas fazem nos locais de trabalho, nos locais de vida. Isso é que é a revolução”, defende Raquel Varela.

O livro investiga a “explosão de ocupações” e defende que estas foram determinantes para o desencadear do 11 de março pela ala spinolista.

A historiadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa estudou as dinâmicas das comissões de trabalhadores, das comissões de moradores e de soldados e conclui que mais de um terço da população portuguesa esteve envolvida “diretamente e ativamente na vida do país” em 1974 e 1975.

“É uma das revoluções anticapitalistas mais importantes da História porque foi uma das revoluções onde foi mais longe o duplo poder e a organização de base”, explica Raquel Varela sublinhando que o "poder dos cidadãos" quase se sobrepôs ao poder do Estado em vários momentos durante quase dois anos, em Portugal.

“O Estado estava permanentemente ameaçado em 1974/75 por um poder paralelo e esse poder foi muito mais extenso do que se pensava até agora, quer do ponto de vista orgânico quer do ponto de vista inorgânico”, afirma a historiadora.

Segundo Raquel Varela, as Comissões de Trabalhadores, em grande medida surgem espontaneamente nos locais de trabalho no próprio dia 25 de Abril e a primeira coisa que fazem é apoiar não só a nova situação democrática contra a ditadura mas começam "imediatamente" a reivindicar condições laborais.

De acordo com o novo livro que estuda o processo revolucionário português, a reivindicação e a consciência sobre a situação laboral logo após o Golpe de Estado do dia 25 de Abril de 1974 provocam “um salto” entre revolução meramente democrática para uma revolução de caráter social.

O Estado está em crise – há uma explosão de movimentos sociais nos primeiros dois meses. A partir daí verificam-se sucessivas tentativas de reforço do Movimento das Forças Armadas (MFA) através da Aliança Povo/MFA, da construção dos sindicatos pelo PCP e do PS que tentam “apaziguar” os movimentos sociais.

Para a autora do livro, numa primeira fase, as tentativas de retirada do poder aos trabalhadores falharam porque se verificam no quadro de uma crise económica brutal e porque os patrões tentam descapitalizar empresas verificando-se medidas de contraciclo que conheceram forte resistência.

“Os trabalhadores reagem com ocupações porque querem conservar os seus postos de trabalho. O mote não é construir uma sociedade socialista. O mote é lutar contra os despedimentos e conservar os postos de trabalho”, diz Raquel Varela.

Ao poder dos trabalhadores e das comissões de moradores, em todo o país, junta-se a atividade cada vez mais efetiva das comissões de militares (baixa patente) em setembro de 1975 o que acaba por conduzir ao golpe do dia 25 de novembro.

“A minha hipótese é a seguinte: o MFA não é a revolução, é uma tentativa de dirigir a revolução. Quando o MFA entra em crise em agosto de 1975 por causa do processo social, nas forças armadas tinha caído a hierarquia e tinha-se aguentado o MFA. O MFA estava a segurar o Estado. Quando o MFA entra em crise o que é que sobra nos quartéis? As comissões de soldados”, explica Raquel Varela que no livro aborda a questão do 25 de novembro como o golpe que põe fim ao “duplo poder”.

“À medida que o Estado entra em crise, o duplo poder aumenta a sua força. São dois poderes. Quando um entra em crise o outro reforça-se e quando o Estado recupera o poder, a partir do 25 de novembro, paulatinamente, o duplo poder vai desaparecendo”, diz Raquel Varela.

O livro “História do Povo na Revolução Portuguesa 1974/75” (535 páginas, Bertrand Editora) inclui, além de fotografias inéditas da Agência Magnum, várias tabelas e quadros de números de greves, manifestações, ocupações de casas e fábricas, unidades em autogestão, cooperativas, saneamentos, evolução salarial, entre outros.
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Re: História do Povo na Revolução Portuguesa 1974/75 - Raqu

Postby pco69 » 22 Apr 2014 08:29

http://raquelcardeiravarela.wordpress.c ... position=0

História do Povo na Revolução Portuguesa, prefácio por Ricardo Antunes
Posted on April 20, 2014 by Raquel Varela

Militávamos na luta contra a ditadura militar brasileira quando, em 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos nos achou de surpresa. Amantes das revoluções que se perdiam pelo mundo, vivíamos mergulhados na era demente das contrarrevoluções.

Mas a tenebrosa ditadura brasileira não poderia impedir completamente as notícias que chegavam de Portugal: os militares haviam deposto a ditadura salazarista. A espetacular notícia revigorava-nos: se ruiu a ditadura em Portugal, isso injetava ânimo na nossa luta para derrubar a ditadura brasileira, combinando ações legais, semilegais e clandestinas, da mesma forma que também atuavam as oposições em Portugal. A classe trabalhadora, os distintos partidos e agrupamentos de esquerda, os sindicatos de oposição e de classe, a juventude, a luta anticolonial e os movimentos de libertação na África Negra, etc., todos acabaram por provocar a derrocada cabal da ditadura salazarista.

Mas tínhamos também muitas dúvidas sobre o que se passava em Portugal. Primeiro, por que pelas bandas do Brasil, tudo o que se noticiava era profundamente censurado e adulterado.

Segundo, e mais inquietante, como seria possível crer numa revolução a partir dos quartéis, quando no Brasil estes se haviam convertido em espaços do terror, geradores de um poder autocrático (um verdadeiro poder semibonapartista armado) praticante dos binómios ditadura/acumulação, repressão/internacionalização, tortura/monopolização, cujo objetivo basilar era destruir os movimentos de classe anticapitalistas para preservar e expandir o destrutivo sistema do capital?

Mas tínhamos também outras motivações e sentimentos auspiciosos: será que a Revolução dos Cravos seria o sinal de um novo ciclo revolucionário na Europa, derrotada desde os levantamentos de 1968 pelo controle social da produção?

São respostas que a leitura deste belo livro da historiadora social marxista Raquel Varela nos ajuda a responder, 40 anos depois. E, com isso, recordar um dos momentos mais expressivos da luta anticapitalista na antevéspera do flagelo neoliberal.

Raquel Varela é, desde logo, uma das mais brilhantes críticas sociais de Portugal dos nossos dias. Historiadora jovem, não viveu diretamente a Revolução dos Cravos, o que torna sua reconstituição e revisão historiográfica especial, pois a leitura de seu livro frequentemente se apresenta como uma cronologia própria daqueles que escrevem sobre algo que vivenciaram. Historiadora filha da Revolução de abril, ela já é responsável por uma vastíssima (e sempre muito qualificada) produção em Portugal e no exterior e é também do tipo de historiadora que mergulha no objeto de corpo e alma, para depois reconstituí-lo com rigor e acuidade.

Não faz esse movimento, entretanto, como uma investigadora neutra. Pelo contrário, combina seu olhar atento e crítico com um cuidado objetivo típico da melhor historiografia marxista. Que seu livro gerará polémicas, discordâncias, contraposições, críticas duras é o que se espera de um trabalho onde a classe trabalhadora, em sentido amplo, está no centro da investigação.

***

Raquel Varela demonstra que a Revolução dos Cravos só se torna compreensível se articularmos densamente os seguintes movimentos:

1) As lutas no continente africano pela independência (e dentro dele o papel dos trabalhadores, especialmente rurais) e a consequente corrosão na hierarquia militar em Portugal, decorrente da barbárie da guerra pelo domínio neocolonial e pelo decisivo levantamento dos jovens capitães (MFA) que empunharam os principais sentimentos populares da nação espoliadora para fora e também para dentro;

2) O papel central da classe trabalhadora em Portugal, depois de décadas de vigência de uma ditadura atroz e brutal. Destaca a autora o protagonismo desta classe – e em particular do operariado industrial – nas greves, ocupações, autogestão, caminhando para a constituição de facto de um dualismo de poder e, um elemento analítico chave neste livro, a existência de controlo operário que determinou a impossibilidade da governação frente-populista que agremiava PS, PCP, PPD e MFA.

Assim, o livro de Raquel Varela oferece um belo desenho desse período tão emblemático. Nas suas palavras: «Há poucos períodos na história (…) com a riqueza histórica da dimensão a que chegou este controlo no biénio 1974-1975 em Portugal. Encontram-se casos semelhantes no biénio rosso em Itália em 1919-20 ou nas revoluções russas de 1905 e 1917 e, por exemplo, mais recentemente, nos cordões industriais chilenos de 1972-1973.»

A riqueza de informações – há sempre uma detalhada cronologia dos acontecimentos operários e uma utilização ampliada de fontes, depoimentos, relatos, documentos – demonstra que o frequentemente menos visível no real da Revolução de abril está presente no dualismo de poderes instaurado nas ações concretas da classe trabalhadora: «A revolução portuguesa foi assim marcada pelo protagonismo político de um poderoso movimento operário e social – parte essencial da definição do próprio conceito de revolução – que atingiu todos os setores da sociedade portuguesa, em particular o movimento operário, mas não só. Para além dos trabalhadores diretamente ligados à produção de valor, e particularmente os operários industriais e assalariados agrícolas, a revolução portuguesa caracterizou-se por conflitos sociais muito radicalizados entre os estudantes, o moderno setor laboral dos serviços, o setor informal, uma ampla participação das mulheres e os setores intermédios e de base das forças armadas. A conflitualidade social em Portugal em 1974-75 teve uma amplitude nacional.» Greves, manifestações, ações coletivas, que, como quase sempre ocorrem nestes períodos onde tudo está em suspensão e pode perecer, que frequentemente avançavam em relação aos organismos tradicionais de representação das forças sociais do trabalho, como sindicatos e partidos, que acabavam não poucas vezes a reboque, quando não contrários às ações consideradas pela ordem como “selvagens”.

Saindo de um período das trevas, foi essa fase de lutas sociais agudas que permitiu a montagem de um Estado com conquistas sociais que perduraram até recentemente e que a génese e atual vigência do neoliberalismo na Europa e em Portugal procuram raivosamente destruir.

Combinando (naqueles momentos excecionais da história) ações fundamentais, a revolução só pode ser compreendida pela eclosão da luta anticolonial, conjuntamente com as ações de resistência em Portugal e nas colónias, abrindo o ciclo de resistência e revolução. Mais do que um movimento de capitães, ela se insere também nas divisões existentes dentro das classes dominantes, no desgaste da guerra colonial num período de crise económica profunda, a chamada crise do petróleo de 1973, além da crise política e militar. Sua síntese é clara: «Compreendê-la, do ponto de vista historiográfico, implica recentrá-la na sua dimensão real, ou seja, recuperar, investigar, conhecer, catalogar os conflitos sociais. E relevar como protagonistas os sujeitos sociais (classes e suas frações), em alternativa a uma abordagem que olha a história pelo prisma dos sujeitos representativos (elites), procurando dessa forma eliminar do desenvolvimento social a noção de conflito coletivo.»

Quarenta anos depois da Revolução de Abril, que mundo temos? Na Europa (para não falar aqui de outros continentes), além de Portugal, os exemplos da Espanha, Grécia, Itália, Inglaterra, etc., todos esses países vivem a tragédia da desertificação neoliberal.

Mas todos eles – e tantos outros – já se adentraram numa nova era de rebeliões à escala global. Os levantamentos sociais não param de aflorar e quando se reduzem em países ou regiões, renascem em tantas outras partes. Transformar a era das rebeliões numa era das revoluções tornou-se um imperativo vital do século XXI. E relembrar a história da Revolução de Abril, nas suas complexidades, como faz Raquel Varela, é parte dessa batalha neste nosso atormentado século XXI.

Ricardo Antunes[1], dezembro de 2013

[1] Ricardo Antunes é sociólogo, autor de Os Sentidos do Trabalho, Coimbra, Almedina, 2013.

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