Antologia de Ficção Científica Fantasporto

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grayfox
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby grayfox » 20 May 2012 23:40

o que eu disse não está referido nas analises do T, apenas foi algo que me lembrei. o que dizes do futurama pode ser verdade, mas não serve de desculpa.
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Bugman » 21 May 2012 00:17

grayfox wrote:o que eu disse não está referido nas analises do T, apenas foi algo que me lembrei. o que dizes do futurama pode ser verdade, mas não serve de desculpa.


Não é uma questão de ser ou não desculpa. Futurama não se pretende como Ficção Científica. Na sua vertente mais "filosófica" (e até tremo por usar esta palavra) pretende ser uma sátira ao mundo actual. Nesse sentido funciona. Nesse sentido as referências culturais terão de ser, forçosamente, as do nosso tempo.
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Thanatos » 21 May 2012 19:14

Fogo! de João Ventura é o conto que mais se preocupa em estabelecer um princípio racional, lógico e científico para a sua premissa, que assenta na ideia de que o fogo tem inteligência e que essa característica permitirá domá-lo como em tempos antigos animais selvagens foram domesticados para uso do Homem.

A premissa básica do conto é bastante interessante mas o quebrar constante do ritmo temporal com saltos bruscos de anos, se não mesmo décadas, denota um conto que precisava de mais espaço para respirar na sua plenitude. A secção final opta pelo batido cliché da arqueologia que lança mais mistérios do que respostas, funcionando quase como um piscar de olho ao leitor mais dentro dos protocolos da FC.

O conto de Isabel Cristina Pires, O Cão, foi o retomar do contacto com a escrita desta autora desde que na longínqua década de 80 tive a infelicidade de me cruzar com a sua prosa na coletânea Universal Limitada que, vá-se lá perceber porquê chegou a ser galardoada com o Prémio Caminho Ficção Científica. É triste ver que desde então a autora continua a escrever algo que provavelmente na sua mente se assemelha a FC mas que para todos os outros connoisseurs não passa dum empastelamento de ideias sem qualquer rota que seguem os mais díspares traçados apenas com a finalidade de levarem o leitor até ao twist final tão ao gosto daqueles que acham que a FC se esgota nos ensinamentos de Rod Serling ou Philip K. Dick. Neste conto atabalhoado contado na primeira pessoa do ponto de vista dum “cão” o que temos deve ser uma pouco subtil referência ao amor obsessivo que toma contornos de escravização e fidelidade canina. Um must para feministas, decerto, mas deveras entediante para todos os outros. E, claro, de FC nem uma amostra que se possa aproveitar, a menos que o facto da acção se situar noutro planeta, termos uma espécie carnívora de caranguejos e um gerador que emite radiações, sem aparentemente afectar nenhum dos cientistas e investigadores que vivem lado a lado com ele sirva de condescendência ao género quase em jeito de esmola.
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Bugman » 21 May 2012 22:23

Tens um cão que sente pá! É ficção. É ciência!
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Sharky » 22 May 2012 10:09

Bugman wrote:É ficção. É ciência!


Ele sabe tudo, aposto que até sabe fazer uma omelete de estrelas :mrgreen:

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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Bugman » 22 May 2012 10:33

Uma omelete de ovos estrelados... Ora aí está ficçao que me apela! :mrgreen:
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Thanatos » 22 May 2012 19:30

No início desta opinião referi alguns dos problemas no conto de Madalena Santos, O Mistério dos Uivos. Embora sendo um dos contos mais longos da Antologia a verdade é que o espaço extra não serve para desenvolver uma ideia, uma caracterização que seja, ou apresentar um dilema para reflexão, ou, por outro lado, e não descurando o lado mais lúdico da FC, não entretém, nem diverte.

O conto está demasiado rigído, quer na descrição dos ambientes, quer nos diálogos, quer até no excessivo formalismo de tratamento entre cada personagem que tão depressa são apresentadas ao leitor pelo nome próprio como o são pelo cargo ou função, criando assim uma sensação de confusão desnecessária à fluidez da leitura. A protagonista, uma tal de Bellvis Montesano, Técnica de Manutenção de Revestimento, que se pode definir como uma feminista de última geração, pretende ser a melhor das melhores e precludir o seu direito a emprenhar para se tornar uma ciborgue para assim, calcule-se, desempenhar ainda melhor as suas tarefas. Numa incursão fora do habitáculo ela e os companheiros perdem-se andando à deriva e ao capricho dum tal Soldado 22 que num daqueles emaranhados narrativos pode estar a ser hackeado por um melómano que pensa destruir tudo porque já ninguém gosta de música como deve ser. Ou algo assim do género. O que não se percebe muito bem é como é que o grupo se perde no planeta quando logo após um momento mais tenso uma outra personagem, talhada para desempenhar o papel de herói dramático romântico, no maior dos negrumes pega na mão da donzela, a tal de Bellvis, que entretanto começou a sofrer duns calores e a repensar a sua estratégia de preclusão do emprenhamento, e por entre uivos e breu vai a correr o caminho todo, certeiro e direitinho até às portas estanques do habitáculo. E tudo isto com duas varetas de titânio espetadas no peito! É de Homem.

Assim de confusão em confusão chegamos ao final com um misto de apocalipse e resolução à Poirot em que as pontinhas soltas se atam umas às outras e tudo fica bem, quando acaba bem.

Quanto ao tal mistério dos uivos, pois, terá servido para desempenhar o seu papel de MacGuffin, ou tendo em conta a hereditariedade lusa desta antologia, foi a pedra na sopa.

O conto Expedição ao Futuro de José Cardoso é outra das menções honrosas e é uma pena que esteja nesta Antologia onde fica completamente deslocado já que de FC não tem nada, e nem sequer o uso da titular máquina de viajar no tempo à velocidade do pensamento (por esse prisma também O Memorial do Convento de Saramago seria FC) serve de desculpa.

Mas se o conto não tem lugar nesta Antologia que isso não seja entendido como um defeito do mesmo já que na verdade é uma tour de force surreal, bizarra, bastante eivado duma melancolia que só o encontro entre o ocidente com a África profunda poderia originar, com momentos de humor delicioso servidos por uma prosa prenhe de vernaculismos da região. Um conto que merecia destaque próprio que não nesta Antologia onde tal como é só será devidamente apreciado por uma faixa estreita de leitores.
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Angelica_Angel » 22 May 2012 20:13

Talvez revele demasiado no que se segue, por isso, aos futuros e potenciais leitores sugiro alguma prudência. Mas se já leram o que o Thanatos escreveu, talvez até seja melhor ler isto.

Lanço desde já as premissas:

- decidi escrever algo que não parte de uma natural confiança sobre o que é ciência e o que é tecnologia,
- por isso, elaborei um paralelismo entre o brilhantismo volátil do ser humano e a rígida perfeição da tecnologia;
- no mundo onde explorei essa questão, vive-se a completa confiança sobre o que é a ciência e a tecnologia
- de tal modo que há uma desumanização na conduta, logo, formalizada,
- e tudo isso está latente no modo como a personagem principal age (ao ponto de querer ser uma máquina para combater as fragilidades da sua natureza);
- em contrapartida, há duas outras personagens que são mais... voláteis e dão crédito ao que é criação humana,
- uma tendo um cadastro de rebelde,
- a outra, de enorme relevo na história, provando que a música é um dos bastiões da genialidade humana num mundo futurista em que o homem é quase substituído por completo;
- por outro lado, o próprio planeta e todo o mistério que o caracteriza é o clímax dos limites insuficientes da ciência e da tecnologia;
- o ser humano, ao que parece, é mais sobre-humano do que se imagina; para entender como uma pessoa consegue sobreviver e ser o herói em condições físicas aterradoras (as tais varas de titânio), sugiro umas visitas às salas de audiência dos tribunais criminais para perceber que até não fui muito longe;
- não há qualquer intenção nem concretização de feminismos, quando a própria personagem feminina despe-se de feminilidades e é indiferente à diferença de géneros;
- a parte mais fantasiosa do conto - o final da expedição - exige espírito aberto e a assimilação da mensagem do conto;
- não há um final feliz. Muito pelo contrário.

Perante estes tópicos, acho que já desbravei parte do comentário ao conto. Quem lê o que escreveste e o que eu agora acrescento, constatará certamente que ou não estamos a falar da mesma coisa ou houve um desvio na interpretação da leitura que é grave e cuja razão, sinceramente, não vislumbro. Cabe ao leitor esclarecer-me :)

O sentido do mistério dos uivos fica muito claro no desenlace: é a personificação da tal mensagem subjacente do trabalho.

O "melómano" que defende a música de antanho é a imagem de uma mistura das duas concepções em confronto no conto - por um lado, acredita no Homem, por outro, insensibilizou-se tanto que não o sabe respeitar.

Os "calores" que a protagonista sofre são a bola de neve das suas constatações nas horas anteriores, afinal já não está tão certa do que quer; o conflito psicológico é natural no ser humano... Ela não queria ser a melhor das melhores, ela queria ser previsível como uma máquina, porque teme as inconstâncias da consciência humana.

Enfim, a meu ver, escapou-te o dilema para reflexão.
Terras de Corza - O DÉCIMO TERCEIRO PODER (2006) *3.ª edição
Terras de Corza - A COROA DE SANGUE (2007) *2.ª edição
Terras de Corza - AS TRIBOS DO SUL (2009)
Terras de Corza - OS DOZE REINOS (2010)
Madalena Nogueira dos Santos
LEYA ASA

Para mais informações: www.madalenasantos.com

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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Thanatos » 22 May 2012 21:21

Não há da minha parte desvio algum na interpretação do que li nem me parece que tal seja grave e necessário de vislumbrar. Como já referi anteriormente o conto é um emaranhado confuso que me perdeu na miríade de nomes e locais tirados dos antanhos do pulp onde o uso de nomenclaturas típicas da classificação dos objectos estelares pode parecer muito futurista mas que em pleno século XXI não têm cabimento na prosa contemporânea. Cada livro tem o seu leitor, cada leitor interpreta à sua maneira. Esta foi a minha interpretação que continuo a achar válida e pertinente.

Não pretendo lançar bases de leitura para ninguém, nem lançar juízos seja sobre o que for. Apenas expor honestamente a minha opinião sobre o que achei dos textos que encontrei neste livro. Como leitor arreigo-me esse direito. Que ele colida com as tuas premissas e que seja na tua ótica um desvio de interpretação (como se estivéssemos perante uma análise de leitura num qualquer curso de humanísticas) é algo que também constitui o teu direito enquanto autora do mesmo.

No entanto deixa desde já acrescentar que esta minha leitura do texto encontra eco junto de mais leitores.

Provavelmente andaremos todos com desvios de interpretação que não encaixam no que seria a norma e a todos nos escapou o dilema. Paciência. Can't win them all.
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Thanatos » 24 May 2012 19:19

Dejá-vu do brasileiro Luís Roberto Amabile é outra das menções honrosas. O conto escrito num tom poético e melancólico em parágrafos curtos plenos de figuras de estilo recordou-me três importantes filmes: It's All About Love; Until the End of the World e 2046. Embora não sendo forçosamente FC é uma outra forma de a apresentar e como se não bastasse uma linda história de amor, simples, como todas deviam ser.

Acordar o Profeta de João Leal é um conto em estilo MIB ou X-Files, dependendo do grau de inteligência ou sisudez que lhe queiramos atribuir. Conta como um professor de Antropologia Religiosa se vê recrutado para uma daquelas black ops de que os teóricos da conspiração passam a vida a falar. Mesmo sendo servido por uma prosa escorreita e estando imprimido por uma dinâmica agradável o conto não deixa de ser previsível no seu desfecho talvez por um excesso de pistas deixadas pelo autor ao longo do texto.

Algures acima quando opinei sobre o conto de Filipe Homem Fonseca mencionei que havia dois ótimos textos nesta Antologia. ZÊ de Manuel Alves é o segundo deles. Mais uma menção honrosa que na minha humilde opinião eclipsa de longe o vencedor embora aparentemente o júri ainda lhe tenha reconhecido o mérito suficiente para ser mencionado honrosamente. Aliás eu diria que quase todas as menções conseguem a extraordinária proeza de, aos meus olhos e ao meu gosto, serem superiores ao conto vencedor e algumas delas até superiores aos convidados. Mas a vida de concursos é feita destas vicissitudes.

ZÊ é um conto que não larga o leitor da primeira à última palavra e de todos os desta antologia o que tem o melhor final já que sem usar do abusado twist consegue ainda assim abrir toda uma panóplia de questões que, decerto, o autor deixou por responder na linha da melhor FC para que seja o leitor a fornecer, cada qual à sua maneira, as possíveis respostas, se é que as há. Descreveria a escrita de Manuel Alves como uma escrita em camadas que obriga o leitor a uma constante descodificação do que lê e a reavaliar as suas percepções do que sucede na página. O único conto em toda a antologia que mantém intocado e em estado puro, desde o princípio ao sublime final o espírito da verdadeira Ficção Científica.

Sem dúvida um autor a ter em atenção.

As moças do campo de Telmo Marçal é, como seria de esperar de Marçal, um conto muito bem construído, de prosa e ritmo impecável, servidos por um cinismo urbano muito seu e muito próprio cujo único problema reside em não ter uma ponta sequer de FC. A menos que consideremos algumas vacinas como sendo do território da FC mas se formos por aí então Ludlum, Fleming e Clancy passariam a ser escritores de FC de pleno direito. Ou seja sendo esse o seu único problema seria um conto perfeito não fosse tentar passar-se por algo que não é. O tal problema de julgar livros pelas capas de que escrevi acima.

Normalmente reserva-se o melhor para o final. Fechar com Chave de Ouro como se costuma dizer. Nada disso sucede com o conto A Besta-fera de Rodrigo Silva que é uma inenarrável mistura de policial com cibernética, tudo servido pelo inevitável twist final. Um conto perfeitamente descartável cuja menção mais abonatória que se lhe pode atribuir é o facto de ser curto.

Em jeito de conclusão terei de dizer que esta Antologia e tendo em conta o currículo dos envolvidos, desde o organizador até à Direção do Fantasporto, passando pelos nomes convidados, deixou um sabor a muito pouco e desiludiu-me profundamente. Quando comparada com A Sombra sobre Lisboa (SdE, 2006) cuja opinião minha aconselho a ler em http://bang.saidadeemergencia.com/index.php?topic=160.0 , é evidente que este conjunto de contos desirmanados não consegue superar a ideia duma obra mal pensada e apressada na sua concepção sem reunir um conjunto forte de textos que a alicerce o suficiente para aguentar os textos mais fracos que inevitavelmente surgem nestas antologias. Assim como está foi uma oportunidade desperdiçada e à semelhança de uma outra antologia também ela nascida dum concurso, Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa (SdE, 2011) (Ler a minha mini-opinião em http://www.goodreads.com/review/show/270923167) não me parece que sirva para mostrar ao público geral as reais potencialidades dos nossos escritores dentro da Fantastika. Ainda temos todos, escritores, editores, organizadores, artistas, ilustradores, leitores e porque não críticos, um longo caminho a percorrer, seja a nível estilístico, seja a encontrar uma voz mais própria que nos defina para além da emulação dos canônes anglo-saxónicos, seja a ter um maior profissionalismo a todos os níveis, desde a concepção dos textos ou das ilustrações até à sua apresentação e defesa argumentativa.

Neste momento vivemos uma infância gloriosa, rodeados de meios e oportunidades que nos dão a ilusão da existência de um fandom, um manancial de oportunidades de chegar a todos ou a muitos, mais que não seja, mas tudo isso não passa duma ilusão, duma fantasia que se esboroa contra os recifes da indiferença e desconhecimento generalizado e como diriam os camaradas, alegremente cantando e rindo vamos indo. Até que um dia a festa termine e reparemos que não há ninguém na sala a não ser a banda.

Até lá quantas mais antologias do calibre destas teremos de suportar?
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Sharky » 24 May 2012 20:15

Thanatos wrote:Até lá quantas mais antologias do calibre destas teremos de suportar?


Buedabués? :mrgreen:

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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby urukai » 24 May 2012 22:47

Depois de tão vincada (mas sustentada) opinião do Thanatos fui tentar encontrar mais críticas à Antologia mas para além de umas poucas frases no Bela Lugosi is Dead e alguns comments aqui no BBdE não encontrei mais nada.

É mesmo assim ou ando com os google skills por baixo... :(

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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Bugman » 25 May 2012 10:22

urukai wrote:Depois de tão vincada (mas sustentada) opinião do Thanatos fui tentar encontrar mais críticas à Antologia mas para além de umas poucas frases no Bela Lugosi is Dead e alguns comments aqui no BBdE não encontrei mais nada.

É mesmo assim ou ando com os google skills por baixo... :(


Se houvessem imensas fracamente sustentadas e a elevar a colectânea aos píncaros da produçao nacional, entao nao faltariam ligaçoes. Já para o trabalho do T, denoto que recentemente decidiu dar uma oportunidade ao que se faz, mas como o Soares está saturado, já leu tudo e novas roupagens nao chegam para ficar satisfeito. Ou como ele diz, como andamos com mais escritores do que leitores... :whistle:
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby Samwise » 25 May 2012 10:33

Thanatos wrote:Algures acima quando opinei sobre o conto de Filipe Homem Fonseca mencionei que havia dois ótimos textos nesta Antologia. ZÊ de Manuel Alves é o segundo deles. Mais uma menção honrosa que na minha humilde opinião eclipsa de longe o vencedor embora aparentemente o júri ainda lhe tenha reconhecido o mérito suficiente para ser mencionado honrosamente. Aliás eu diria que quase todas as menções conseguem a extraordinária proeza de, aos meus olhos e ao meu gosto, serem superiores ao conto vencedor e algumas delas até superiores aos convidados. Mas a vida de concursos é feita destas vicissitudes.

ZÊ é um conto que não larga o leitor da primeira à última palavra e de todos os desta antologia o que tem o melhor final já que sem usar do abusado twist consegue ainda assim abrir toda uma panóplia de questões que, decerto, o autor deixou por responder na linha da melhor FC para que seja o leitor a fornecer, cada qual à sua maneira, as possíveis respostas, se é que as há. Descreveria a escrita de Manuel Alves como uma escrita em camadas que obriga o leitor a uma constante descodificação do que lê e a reavaliar as suas percepções do que sucede na página. O único conto em toda a antologia que mantém intocado e em estado puro, desde o princípio ao sublime final o espírito da verdadeira Ficção Científica.

Sem dúvida um autor a ter em atenção.


Este foi o único conto que li da colectânea, muito por culpa da inscrição do autor aqui no fórum (para alargar a sua assumida ubiquidada, segundo consta :P ) - sentei-me numa FNAC e li meio na diagonal. Depois tornei a ler sem ser na diagonal. Não partilho do entusiasmo TODO do Thanatos, mas posso dizer que é um texto bem interessante - pelo contorcionismo lógico e retórico que consegue, e pelo rasgar de barreiras que alcança com a mistura das temáticas "racional" e "emocional", com muito humor à mistura. Não lhe chamaria propriamente um conto - é mais o narrar de um curto momento, um diálogo que se fossemos a imaginar no tempo, não decorrerie num espaço superior a 20 ou 30 minutos. Falta-lhe, portanto, um certo "corpo" para entrar num grupo narrativo de maior potencial, o que não é necessáriamente um defeito. Diria que a sua forma está adequada ao conteúdo, mas estranha-se a abordagem e a sua pequenez (em termos de extensão de palavras) no meio de uma colectânea destas. O que me leva por outro lado a pensar: se este é de facto um dos trabalhos melhores... :(
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Re: Antologia de Ficção Científica Fantasporto

Postby urukai » 25 May 2012 10:42

Talvez o que tb tenha agradado ao Thanatos seja essa roupagem diferente que rompe com o que tradicionalmente se esperaria/faz.

O que se acaba por provar é que o BBdE continua a ser o melhor agregador de opiniões sobre o que se vai escrevendo em Portugal. Seja os escritos pelo Lobo Antunes, seja pelo recém publicado autor ou mesmo pelo one-hit-wonder que foi só para experimentar.


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