Passatempo Battlestar Galactica

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Ripley
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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby Ripley » 15 Mar 2010 13:15

Uma questão de Semântica
(versão apresentada a concurso)

(1)

Arailo Yeoh-Sutton deixou descair a cabeça para trás. Os olhos picavam-lhe do esforço de visualização de intermináveis linhas de código num painel a poucos centímetros da cara, parecido com uns óculos de protecção. Por mais que a programação tivesse evoluído, boa parte ainda era assegurada por instruções verbais definindo uma sequência de acções e respostas. Mas gostava de o fazer. Era uma forma de comunicação com as máquinas. Cibernética, a sua área de vocação.
A seu lado, Juarez Birmingham dormitava, as codificações já compiladas flutuando à sua frente no visor de gás inerte.

Arailo tirou os óculos e os fones – onde se ouvia uma relíquia do século XX de um sujeito chamado Herbie Hancock - levantou-se e tocou num botão, despolarizando o plexicrílico. Já era dia e o céu cor de ferrugem clareava. Dirigindo-se ao cubículo de serviço gastou algumas gotas da sua dose de água para lavar os olhos com cuidado. Voltou à janela e encostou o ombro à parede, enquanto o som atrás de si lhe indicava que Juarez já ressonava. Tanta coisa evoluía, tanta coisa mudava... mas numa colónia recente como aquela, operar tecidos nasais para eliminar o ressonar não era prioritário.

- Birmingham, acorda! Terminaste ou não?
- (grhshm... rmmbll... si...)
- BIR-MIN-GHAMM!
- Haaah! – com um ar desnorteado Juarez endireitou-se na cadeira, o olhar esgazeado por trás do visor ainda colocado sobre o nariz.
Arailo abanou a cabeça e estendendo as mãos, retirou gentilmente os óculos de Juarez.
- Birmingham, tu um dia ainda acordas dentro do programa que estás a escrever.
- Deixa-me em paz, Sutton. Estive 38 horas seguidas sem dormir, a corrigir as subrotinas e fazer o debug à minha parte do programa.
- Conseguiste, ao menos?
- Sutton, tens obrigação de saber que isso não é pergunta que se faça!

Juarez olhava para Arailo de cenho franzido e ar irritado. Esta desatou a rir.
- Devias ver-te a um espelho agora, Birmingham. Um holo teu com essa cara seria excelente para fixar na porta do armazém de víveres e espantar os yezhrans.
Ao ouvir isto, Juarez começou a rir também. Arailo era capaz de a tirar do sério sempre que quisesse.

- Ressonei muito?
- Oh, imenso. Aliás, foi graças a isso que me mantive acordada.
- Sutton, podias ter deixado isso para o lado...
Juarez aproximou-se e a sua mão morena afastou o cabelo da face de Arailo. Quando esta levantou a cabeça, os lábios de ambas encontraram-se por momentos.
- Raios, Birmingham. Estamos de serviço ainda! Ou melhor, eu estou porque ainda não terminei!
- Queres ajuda?
- Deixa, vai descansar que bem precisas.
- Tonta! Fiz o turno duplo para estar contigo e sairmos daqui juntas... quero ir dormir mas enroscadinha contigo! Eu ajudo-te, vá. Onde queres que pegue?

Juarez voltou a sentar-se e colocou novamente o visor, mudando o ponto de acesso para o terminal que Arailo estava a usar. Esta ordenara ao código que voltasse ao início.
- Viste até que i ?
- Tudo, mas é claro que me falhou alguma coisa e não vejo onde!
- Tem calma. Ora este... ali, ok... fecha em baixo... Qual é o array? Espera lá... usaste um fflush no input?
- Eu nunca faço isso! Aliás, o scanf não foi usado!
- Tens aí o teu erro.
- Ohh, bolas! A primeira parte foi feita pela Barrow... Ela tinha usado scanf mas eu tirei-lo porque o string era tão pequenito que eu vi os resultados à unha! Como é que me esqueci de alterar o resto?
- Deixa lá... alguns compiladores poderiam ter conseguido lidar com isso. Infelizmente, o nosso não. Vê o lado positivo: achámos o gato e podemos pô-lo fora.

Arailo sorriu embora com alguma tristeza. Em Kinang não havia animais de estimação, seria impensável trazê-los da Terra e as espécies locais não pareciam domesticáveis. Ela tinha imensa saudade de Jay, o Maine Coon que fora dormir para o seu quarto quando ainda tinha o tamanho de um peluche. Agora era Hekky, o irmão mais novo, quem tomava conta dele.

- Sutton, acorda! Já está!
- Eh... sem ti iria passar horas nisto, não sei como te agradecer!
- Hmm, quando sairmos daqui conversamos...

Transferiram a aplicação finalizada para o servidor principal e fizeram-na correr.
- Afinal isto era para quê?
- Processar as imagens do satélite que deixámos em órbita antes de aterrar... Fiquei com a ideia de que procuravam algo muito específico mas não sei o quê.

O visor principal faiscava a cada nova linha de resultados. Juarez diminuiu o contraste que lhes cansava ainda mais a vista.

Locale: grid 1 – verified; null
Locale: grid 2 – verified; null



- Vamos dormir. Quem entra de turno agora?
- O Peng. Não deve tardar, ele chega sempre cedo.

Mal acabara de dizer isto, Qwai Peng aproximou-se e cumprimentou-as com uma pequena vénia.
- Para quê tanto formalismo, Qwai? Somos tão poucos por aqui...
- Isso não interessa, Yeoh-Sutton. Os Kin gostam de manter certas tradições apesar dos Anglospan não darem importância a isso. Aliás, tu própria deverias ter algum apego, por pouco que fosse...
A alusão de Qwai Peng à sua miscigenação fez Arailo rir. Ele espicaçava-a sempre por causa daquela costela Kin... só que a sua mãe não era uma Kin vulgar. Para começar, fora estudar longe de casa – e voltara casada com um Anglospan. A divisão entre os dois grupos étnicos era tão vincada que tinham enviado missões separadas para o mesmo projecto conjunto, a segunda fase da colonização de Kinang. O que tornava tudo tão engraçado era o facto de Peng estar unido a Nadal Barrow, que de Kin não tinha nada. Longe da Terra, algumas coisas tornavam-se diferentes.
Na realidade, Arailo até dava alguma importância ao formalismo – fora ela que insistira com Juarez para que continuassem a tratar-se pelos apelidos nas horas de serviço, tal como todos os outros.

- Deixaram já isto a correr? E eu a pensar que ia ter alguma coisa para fazer além de olhar para linhas de resultados...

Acenaram-lhe e dirigiram-se para o alojamento que partilhavam desde a chegada. Formarem uma união fora uma consequência da distribuição que as juntara. Afinal, tal como na Terra, os grupos profissionais tendiam a manter-se juntos mesmo socialmente. Progz, Engz, Tekz, Medz, interagiam preferencialmente dentro dos seus grupos, tornando-se quase subculturas com linguagem própria.

Juarez tinha uma infinita admiração pela primeira leva de colonos, Engz e Const responsáveis pela terraformação que lhes permitira encontrar à chegada uma cidadezinha em vez de uma planície deserta - depósitos e mecanismos de captação e reciclagem de água, células de energia, estufas hidropónicas, as infrastruturas essenciais a uma pequena comunidade.

Fecharam a porta ao sol avermelhado e polarizaram as janelas, pousando as roupas desordenadamente e deixando-se cair no colchão de polímeros. Arailo adormeceu quase antes de se deitar completamente. Vinte segundos depois, Juarez ressonava.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby Ripley » 15 Mar 2010 13:18

(2)

Ao acordar, aperceberam-se de algum burburinho.
Talvez tivessem apanhado um shayak vivo – ou então nascera mais um bebé.

Usaram a água plurireciclada para se lavarem, rezando pelo dia em que os Tekz terminassem os novos condensadores de humidade atmosférica que estavam a construir no interior da colina. As gigantescas serpentinas tornariam desnecessária a reciclagem incessante da água para lavagens, que em algumas pessoas causava problemas de pele.

Quando saíram do alojamento, viram imensa gente reunida junto do edifício que tinham abandonado horas antes – o Tekcenter, humoristicamente chamado K.I.T.

- Birmingham, Sutton! Venham cá! – Era Nadal Barrow que gritava.
- O que foi? Encontraram um lençol freático?
- Não, pá! O programa que vocês terminaram... achou qualquer coisa!
- Estás a brincar??? O quê?
- Só os Adminz é que sabem! Estamos à espera que nos digam qualquer coisa!

Juntaram-se à pequena multidão e aguardaram.
Na porta principal surgiram Emmet Chavez e Yao Quon, engenheiros e chefes da equipa de planeamento – os Adminz.
O sistema de som estava ligado, assegurando que toda a colónia ouviria a sua comunicação.
- Companheiros, conforme programámos, o satélite detectou algo. Vamos precisar de voluntários para verificar se o achado é de facto o que pensamos... o que sobra da primeira nave que aqui chegou – uma sonda de exploração. Nos seus equipamentos deverão estar contidos anos de informações preciosíssimas sobre este belo planeta, que queremos recuperar para nos proporcionar uma melhor compreensão deste que é o nosso novo lar.

- Arailo ... aquela besta disse que “eles” é que programaram o satélite?
- Sabes como eles são pomposos. Dizerem qual era a finalidade pretendida deve ser, para eles, o mesmo que programarem.
- Eu vou dizer-lhes umas verdades, vou.
- Juarez, não! Não!
Já era tarde. Juarez avançara entre os presentes até se deter diante dos empertigados Adminz.
- Companheiros, o vosso aplauso para Juarez Birmingham! – ela sorriu, pensando que estavam a reconhecer o seu trabalho até que ... – É a primeira voluntária desta missão! Quem quererá imitá-la e ajudá-la?

Ao seu lado surgiu Arailo, resmungando entredentes “Eu disse-te para não vires, já sabia que isto ia acontecer” enquanto sorria e se dava também como voluntária.
Juntaram-se a elas Hinuroa Alaysone e Teraki Nogata, pilotos. Eram dos poucos que conservavam nomes anteriores às fusões étnicas que tinham gerado os dois maiores grupos em que a população da Terra ficara dividida. O terceiro grupo, dos Afrarab, não tinha enviado ninguém na missão – o projecto fora abortado por mais um dos inúmeros golpes de estado a que estavam sujeitos com alguma frequência.



O veículo a que chamavam “flutuador” era pouco usado porque se servia de baterias iónicas carregadas pela luz. Mas aquele sol avermelhado que se escondia constantemente atrás de uma cortina de nuvens não carregava grande coisa, e enquanto os Tekz não arranjassem uma energia alternativa o flutuador só era usado para algo realmente importante. Neste caso, era mesmo.

Percorreram os quilómetros de planície desabitada e o vasto lago oleoso e salgado, que estava assinalado nos mapas mas onde nenhum deles se atrevera a ir.

- Dois clicks à frente! Ali está!

Num ligeiro planalto, numa depressão onde a face de outra montanha se erguia, jazia uma nave esguia.
Nogata pousou habilmente o flutuador a curta distância. Tinham-lhes falado de uma sonda, mas aquilo era maior. Não muito, mas maior.
Depois de verificar o solo com os instrumentos, Alaysone abriu as escotilhas.

- Vamos lá então!
- Eu fico, Alaysone. Mantém o comm. ligado, por favor.
- Sim, sim, ok, pronto... Este Teraki é um chatinho. Bom piloto, mas um chatinho.

Chegaram perto da nave, um fuso metálico alongado. Uma sonda tripulada. Poucas daquelas tinham sido lançadas – ante a possibilidade de não regressar, os voluntários tinham sido escassos, e à maioria desses faltava a estabilidade psicológica para uma longa viagem espacial.

- Onde será que se abre a escotilha?
- Deste lado não vejo nada
- Aqui também n... espera, há um painel aqui! Alaysone?
Hinuroa Alaysone dobrou-se para a frente, olhando para o painel alfanumérico.
- Nogata?
- Diz.
- Vou tentar o Universal. Concordas?
- Sim, completamente de acordo.

Alaysone respirou fundo e digitou uma sequência de caracteres que as mulheres não identificaram. Com um lento whoosh, a escotilha abriu-se.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby Ripley » 15 Mar 2010 13:22

(3)

O ar da sonda era respirável mas cheirava a ... bafio? Meias velhas? Fosse o que fosse, denotava um longo período de encerramento. O espaço era estreito e obrigou-os a andar em fila. Inconscientemente, começaram a falar baixinho.
- Sutton e Birmingham, vejam onde põem os pés.
- Alaysone, que achas que aconteceu aos tripulantes da sonda?
- Esperemos que os registos no-lo digam. Aliás, a especialista de cibernética és tu, não és? Portanto vê lá se conversas com as maquinetas...

Chegaram à cabine obscurecida pelos painéis. Um lugar de pilotagem apenas.
- Ei, venham cá!
Nem tinham dado conta de que Juarez não os seguira e foram rapidamente para a parte traseira da sonda.
- Ah, acendeste a luz... O que é isso?
- Epá ... era capaz de jurar que é uma cápsula de estase.
- Naquela altura já havia estase?
- Arailo, esta sonda não tem éons, ok? Pelos registos, foi enviada há cerca de duzentos anos-Terra. Já havia estase na altura embora não tão aperfeiçoada como agora.
- Xii... e quem está aí dentro?
- Só há uma maneira de saber, não achas?

Alaysone avançou a mão para um painel na parte lateral da cúpula. Preso sob o rebordo havia um pedaço de plastipapel com a os passos necessários à desactivação da estase.
- Alguém sabia que haveríamos de chegar cá...
- Hmm, não será melhor comunicar à base o que encontrámos? Ainda levamos um responso por termos tomado a iniciativa!
- Olha lá ... queres que voltem a apresentar-se como tendo sido eles a fazer tudo? Temos um piloto habilitado que sabe mexer nisto, portanto vamos ver!
- Juarez, ela tem razão. Vou pedir ao Teraki que comunique à base o que encontrámos. E entretanto avançamos com a desactivação, escusamos de esperar.

Nogata ouvira tudo pelo comunicador e enviou as informações ao Tekcenter. Ao ouvir a resposta, surgiu-lhe um trejeito que permaneceu até falar com Alaysone.
- Malta... mandaram-nos avançar.
- Assim sem mais nem menos? Olha, boa... e nós a pensar que eles queriam a glória.
Nogata não conseguiu conter o riso.
- Acho que a questão não foi essa. Passo a citar “não há necessidade de colocar mais vidas em risco nessa experiência. Avancem.”
- Ahh! Estão com medinho e nós somos dispensáveis, é isso?
O riso comunicou-se às Progz, que abanavam a cabeça.
- Alaysone, então estamos por nossa conta. Estás à espera de quê?
- Olha, Sutton, nem eu sei!

Seguiu fielmente os pontos anotados no plastipapel e alguns minutos depois a cúpula começou a iluminar-se progressivamente no interior, revelando uma figura alta em fato de voo.
- Não é possível!!!
- Não acredito! Sam Bloomfield????
Juarez olhou-os com estranheza.
- Quem é Sam Bloomfield? O gajo aí dentro?
Arailo arregalou os olhos.
- Birmingham, Sam Bloomfield foi uma sumidade na Cibernética! Fez experiências com A.I. e os primeiros ensaios com andróides.
- Ah, então inventou o C3PO! ... Ai, não olhem para mim com essa cara!
- Sam Bloomfield introduziu grandes alterações nos computadores de navegação espacial. Auto-programação por tradução de linguagem humana para código, vocalização de pedidos de input, output vocais em vez de listas de dados...
- Ok, pronto! Já percebi que foi uma sumidade! Mas o que raio faz ele aqui?
- Não sei. Falou-se em que teria ido para uma colónia qualquer, que teria morrido numa experiência ...
- Olhem, parece que está a acordar... vamos mas é perguntar-lhe.

A figura encerrada na cápsula piscava os olhos entreabertos. Lentamente, virou a cabeça e olhou para eles. Um sorriso desenhou-se-lhe nos lábios.
- Sempre chegaram...



- Tu... és o Sam Bloomfield...
O sorriso tornou-se triste enquanto se levantava.
- Não. Sam morreu há muito tempo. Mas podem chamar-me Sam2.
- Quem és tu?
- Sou um andróide. Sam era um especialista em robótica e cibernética, como devem saber...
- Claro que sim! Não sabíamos que fazia parte deste projecto.
- Sam era o único tripulante da sonda. Quando morreu a esposa, achou que já não havia mais nada para ele na Terra e ofereceu-se para a missão.
- Não fazia ideia...
- Vieram por causa dos dados, certo?
- Sim, é óbvio. Quero dizer, para nós é. Onde estão?
Sam2 apontou para a cabeça.
- Aqui dentro. Terão que me desactivar para os recuperar.
- Isso não!
- É o vosso trabalho e a minha missão. Sam ordenou-me que vos ensinasse o que deveriam fazer para aceder aos dados.
- Mas não tens nenhum mecanismo de download? Não te podemos ligar a algum terminal ou assim?

O andróide abanou a cabeça - um gesto tipicamente humano.
- Tenho ponto de acesso mas apenas para input. Para transmitir informação poderia fazê-lo verbalmente, mas com a quantidade de dados que possuo isso iria demorar algumas dezenas de anos. Não, devo mesmo ser desactivado.
- Não, tem que haver outra solução. Tu és... quase humano!
- Apenas na aparência. O meu corpo é feito de carne sintética, não sinto dor ou emoção.
- Mas és inteligente, certo?
- No aspecto em que consigo aprender, correlacionar dados e elaborar conceitos ou teorias neles baseados, sim. Mas mais nada.
Arailo suspirou.
- Para obtermos o que necessitamos teremos que te matar. Onde já ouvi isto?
- Não penses nisso... sou apenas uma máquina.

Arailo saiu da sonda, revoltada. Não era... justo. Uma criação magnífica que teria que ser desactivada, destruída, para que eles tivessem os dados em seu poder.
Os outros saíram também da sonda, acompanhados de Sam2. Alaysone voltou a selar cuidadosamente a escotilha.

Voltaram em silêncio para a colónia. Arailo não falava e os companheiros sentiam-se também pouco à vontade. Só Sam2 estava inexpressivo – mas isso era normal.


Ao chegarem ao Tekcenter, os Adminz pediram um debriefing completo. Não hesitaram um segundo em desactivar o andróide. Estranhamente, este quis fazer um último pedido antes da operação: falar com Arailo.
- Pediste que viesse... cá estou.
- Sam disse-me antes de morrer que talvez encontrasse pessoas reticentes em desmantelar-me. Possivelmente gente ligada à cibernética.
- Sim. Era a minha área de escolha além da programação.
- Poderás ter acesso ao meu hardware e talvez fazer experiências.

Arailo abanou a cabeça.
- Não. Não o farei. Acho que, por muito que necessitemos da informação, temos tempo para que no-la transmitas verbalmente. Não vamos a lado nenhum.
- Eu sou apenas uma máquina. Já não sou necessário e serei desligado.
- Sam2... alguma vez o teu criador te falou de Wiener?
- Isso deve estar no meu banco de dados. É importante?


Os Adminz, impacientes, aproximavam-se já de Sam2. Enquanto o levavam, ela sorriu tristemente.
- Há muito tempo atrás, Sam, Wiener disse algo importante: que “do ponto de vista da transmissão da informação, a distinção entre máquinas e seres vivos, humanos ou não... é mera questão de semântica”.

(Fim)
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby pco69 » 15 Mar 2010 13:30

Vais colocar a versão 'não expurgada' no folder das tuas obras, não é?

Prefiro ler a versão orginal, pelo que vou esperar. :tu:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby Samwise » 15 Mar 2010 14:00

Pedro Farinha wrote: Neste achei que puseste um pouco o Rossio na rua da Betesga, isto é, que encharcaste o texto de pormenores e de referências, de forma que a própria história perdeu um pouco o fio condutor.

Os outros textos tinham também coisas que gostei e outras que não gostei. Aliás a disputa foi renhida... porque, na minha opinião, o que tinha a melhor ideia original estava pior escrito, o que estava melhor escrito era demasiado enciclopédico e o que contava uma história da forma mais consistente sabia um pouco a déja vu.

Sim, não foi fácil decidir o vencedor e, por isso, para além da Ripley, todos os participantes estão de parabéns.


Isto resume um pouco a minha própria opinião sobre os trabalhos.

Quanto ao texto vencedor, ao contrário do Pedro a mim agradou-me a carga de pormenores e referências quer semânticas quer ideológicas que preenchem o texto e que servem de sustento a muito conceitos e obras da Ficção Científica. É um mash-up bastante saboroso e que acaba por compensar a linearidade narrativa do conto. Não há uma grande história para contar, mas há uma grande familiaridade identificativa para com o género em que está inserido. O contextos social e "geográfico" do conto são ricos e bem pensados, sendo que não caíram propriamente do céu (há uma quantidade de pormenores que dão dicas sobre o passado social da terra e sobre como se chegou àquela situação) - neste aspecto é um conto que permite leituras que vão para lá da história principal que é narrada. Para além disso, a frase que termina o conto é feliz em vários aspectos: tem a ver com cibernética, insere-se bem na narração, e dá ainda bastante que pensar ao leitor.
Um ponto negativo que para mim é algo evidente, e tirando a falta de uma narrativa mais complexa, reside na impossibilidade de retirar informações do andróide sem ter de o desmontar/matar...
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby croquete » 15 Mar 2010 14:47

Samwise wrote:O contextos social e "geográfico" do conto são ricos e bem pensados, sendo que não caíram propriamente do céu (há uma quantidade de pormenores que dão dicas sobre o passado social da terra e sobre como se chegou àquela situação) - neste aspecto é um conto que permite leituras que vão para lá da história principal que é narrada.


Não poderia estar mais de acordo.
:bow:

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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby João Arctico » 15 Mar 2010 22:57

Em hora de vitória, vamos comemorar:
"Glória aos vencedores, honra aos vencidos" :)
Quer dizer, glória à vencedora. Parabéns, Ripley :tu:
E tal e qual Qwai Peng faço-te uma vénia :bow:
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby Ripley » 16 Mar 2010 00:51

Agradeço os cumprimentos mas acho as :bow: exageradas...
De qualquer forma, a versão uncut já está na prateleira - mas gostaria de conhecer os textos dos outros participantes, a quem reitero os parabéns :)






(não há fotos do lançamento de tartes?)
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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby Samwise » 16 Mar 2010 01:50

Ripley wrote:(não há fotos do lançamento de tartes?)


O "lançamento de tartes" refere-se literalmente a um jogo de palavras que encontrei para me referir a um certo ambiente que mediou a discussão sobre os textos... :mrgreen:
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: Passatempo Battlestar Galactica

Postby Pedro Farinha » 16 Mar 2010 01:53

Samwise wrote:
O "lançamento de tartes" refere-se literalmente a um jogo de palavras que encontrei para me referir a um certo ambiente que mediou a discussão sobre os textos... :mrgreen:



Genial :tu:


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