O Mandarim - Eça de Queirós [Concluído]

Votação para a capa de O Mandarim - 2ª volta

Poll ended at 22 May 2014 11:07

1 - Versão "normal"
8
80%
2 - Versão cortada
2
20%
 
Total votes: 10

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vampiregrave
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 01 May 2014 10:07

Samwise wrote:O ficheiro EPUB está praticamente concluído e, em termos de texto para leitura propriamente dita, está mesmo finalizado — pronto para quem quiser avançar. Podem descarregar a partir da respectiva pasta na Dropbox. :) Vampire, penso que podes colocar "em carteira", para se alguém estiver disponível/interessado no processo de revisão.

Entretanto tive curiosidade de conhecer que capas há para aí a circular nas edições no mercado: a pesquisa do google dá nisto.

A maioria das abordagens com algum interesse (e alguma são realmente boas) tem a arte feita "por encomenda", para ilustrar um ou vários temas presentes no livro. As outras esquivam-se com Mandarins "genéricos", motivos orientais e retratos do Eça... :whistle:


Creio que algumas pessoas utilizam o word, qual dos ficheiros posso indicar para leitura? Hoje tenho de enviar o ponto de situação, aproveito e falo logo sobre isto.

Edit: Já vi que é o revisto. Quanto à publicação temos tempo, mas acho que conseguimos, sem grandes problemas, lançar o eBook este mês.

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Bugman
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby Bugman » 01 May 2014 12:58

Samwise wrote:1 - Eu não estou propriamente a fazer campanha para publicar aquela imagem com a nudez explícita (isto se ela for a vencedora da votação, que é coisa que ainda está por determinar) — considero que a versão cortada (literalmente :mrgreen: ) se adequa da mesma forma à capa da obra. Não é a nudez nem as "mandarinas" em concreto que estou a querer associar à obra, é a imagem no seu todo, considerando ainda que ela exibe uma carantonha malévola e um quadro na parede que evoca motivos orientais e serpentes... . Mas por outro lado é certo que o texto realmente contém algumas referências ao sexo (sem nunca utilizar esta palavra), e aos seios femininos, sempre pela via da tentação ou das consequências práticas de nela ter caído, por mergulho de cabeça, o personagem principal. Logo mais à noite coloco alguns trechos exemplificativos. Ou seja, com ou sem corte, considero a imagem apropriada para figurar na capa do livro, porque reflete um dos temas principais da narrativa.


Devem haver poucas obras do Eça que não tenham sexo, de uma forma ou doutra, nem é isso que está em questão. Até este ponto considerava a imagem apropriada com corte.

Samwise wrote:4 - Assim por alto, posso justificar cada uma das imagens que coloquei aqui: a primeira é a única que tem um Mandarim a aparecer, decréptio, e acompanhado por uma jovem mulher, que no contexto da obra será a viúva com quem Teodoro pondera casar a determinada altura; a segunda foi a uma imagem que encontrei com um motivo oriental (ainda que o título aponte para o Japão) e uma mulher desnuda — aponta para as orgias e devaneios sexuais de Teodoro; as duas seguintes são duas das paixonetas de Teodoro na narrativa, a primeira uma jovem aristocrata de Lisboa, e a segunda a "generala" e mais o seu cãozito de estimação; a quinta imagem é o "pomo da discórdia" que andamos a debater; a sexta espelha na perfeição o ambiente decadente que Teodoro encontra ao longo da viagem que faz rio acima na China, à procura do Mandarim; e finalmente a última alude às aparições de um pequeno Mandarim que assolam Teodoro ao longo do livro, e como consequência do "crime" que cometeu.


E depois deste ponto sou a favor da primeira imagem...
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby Samwise » 01 May 2014 23:30

Optei ontem por terminar o que faltava da passagem do texto para Epub, de modo a disponibilizá-lo de imediato para leitura. Isto em detrimento de escolher e transcrever os trechos em questão, e hoje também já não é bom dia para o fazer. Amanhã ao final do dia tratarei desse e doutros assuntos relacionados com a revisão da obra.

vampiregrave wrote:Creio que algumas pessoas utilizam o word, qual dos ficheiros posso indicar para leitura? Hoje tenho de enviar o ponto de situação, aproveito e falo logo sobre isto.

Edit: Já vi que é o revisto. Quanto à publicação temos tempo, mas acho que conseguimos, sem grandes problemas, lançar o eBook este mês.


Sim, é esse mesmo que incluíste no e-mail. Ainda houve dois ou três ajustes finais a fazer ao ficheiro, que apanhei na transposição para EPub.

---

Bugman, não sendo desapropriada, essa primeira imagem é a mais fraquinha de todas em termos artísticos, penso... :( . O que eu gostava era de poder contar com mais sugestões. As capas que encontrei das edições publicadas deram-me algumas ideias, mas temo que sejam complicadas de encontrar obras que satisfaçam os critérios.
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 02 May 2014 10:56

Ora, depois de ler a obra (dentro em breve envio-te o ficheiro de revisão), quanto às imagens que sugeriste:
Samwise wrote:Geisha:
Image

É a única que tem um Mandarim a aparecer, decréptio, e acompanhado por uma jovem mulher, que no contexto da obra será a viúva com quem Teodoro pondera casar a determinada altura.


Parece-me um pouco rebuscado, até porque a família nunca chega a aparecer realmente na história. Se achasses um Mandarim com um papagaio ao ombro, aí sim :mrgreen:

Samwise wrote:Japanese Parasol
Image
A segunda foi a uma imagem que encontrei com um motivo oriental (ainda que o título aponte para o Japão) e uma mulher desnuda — aponta para as orgias e devaneios sexuais de Teodoro.


Esta já me parece mais apropriada, isto porque a melhor forma que o protagonista encontra para retribuir a simpatia do general é enrolar-se com a mulher deste...

Samwise wrote:Girls with Good Luck Charms - nº 6
Image
As duas seguintes são duas das paixonetas de Teodoro na narrativa, a primeira uma jovem aristocrata de Lisboa.

Arugula and his dog
Image
A segunda a "generala" e mais o seu cãozito de estimação.


Consigo fazer essa associação, mas não deixam de ser personagens secundárias. As outras sugestões são menos restritivas e abarcam conceitos importantes na obra.

Impassive Mask
Image

Para mim, os conceitos centrais são: a Ganância que caracteriza o homem, forte ao ponto de se sobrepor a melhores valores; a Luxúria como fuga da realidade, ou como escapatória aos constantes ataques da nossa Consciência; o poder do Remorso, ou talvez seja melhor dizer, a sua insuportável capacidade para nos desassossegar.
Ora, condensar tudo isto numa imagem não é fácil, especialmente as duas últimas. Esta imagem ilustra essencialmente a questão da luxúria, e parcialmente a da ganância, ganância essa que, em Teodoro, era alimentada pelo desejo de ter relações com mulheres que, enquanto pobre funcionário, não lhe dirigiriam sequer um olhar.

Edit: Também há a questão do sobrenatural, porque foi o diabo a tentar Teodoro.

Samwise wrote:Impression, Sunrise - Claude Monet
Image
a sexta espelha na perfeição o ambiente decadente que Teodoro encontra ao longo da viagem que faz rio acima na China, à procura do Mandarim

Depois da explicação compreendo, mas não creio que seja algo que as pessoas identifiquem facilmente.

Samwise wrote:Still Life with Buddha-Lobsters and Oysters - Lovis Corinth (1886-1925)
Image
a última alude às aparições de um pequeno Mandarim que assolam Teodoro ao longo do livro, e como consequência do "crime" que cometeu.
[/quote]
Continua a faltar o papagaio :mrgreen:

Em suma, deste grupo, acho que a imagem que mais gerou debate, é a mais apropriada.

Quanto ao diabo, aqui vai a descrição, vou tentar encontrar algo que se assemelhe:
O abat-jour verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto, com as duas mãos calçadas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva. Não tinha nada de fantástico. Parecia tão contemporâneo, tão regular, tão classe média como se viesse da minha repartição...
Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e duras; o nariz brusco, de um aquilino formidável, apresentava a expressão rapace e atacante de um bico de águia; o corte dos lábios, muito firme, fazia-lhe como uma boca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam dois clarões de tiro, partindo subitamente de entre as sarças tenebrosas das sobrancelhas unidas; era lívido — mas, aqui e além na pele, corriam-lhe raiações sanguíneas como num velho mármore fenício.

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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 02 May 2014 23:27

Duas sugestões. A primeira é fraquita, pois já chegámos à conclusão que não podemos interpretar à letra o título da obra. A segunda é dentro da onda das que têm gerado discussão por aqui:


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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby Bugman » 03 May 2014 16:52

Carneiro amigo, andamos todos ao mesmo. (Sendo que o mesmo é imagem para a capa.)

Antes de rever a obra:
Madklokken i haven ved Brøndums Hotel, Valdemar Schønheyder Møller
Image
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 03 May 2014 17:06

Bugman wrote:Carneiro amigo, andamos todos ao mesmo. (Sendo que o mesmo é imagem para a capa.)

Antes de rever a obra:
Madklokken i haven ved Brøndums Hotel, Valdemar Schønheyder Møller
Image


Interessante, tendo em conta forma incomum como se dá o "assassinato".

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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby Samwise » 06 May 2014 21:45

Bugman, não desgosto da pintura enquanto objecto artístico, e é realmente difícil encontrar uma imagem que tenha uma "bell" como motivo principal (eu fiz essa pesquisa), mas foge um pouco à campainha apresentada no conto — um objecto pequeno, de colocar sobre a mesa dentro de casa, e que por sonoridade solta apenas um ti-li-tim (sic). Ainda assim vai a votos. O público que decida. :P

Deixo uma última sugestão minha. Amanhã ao final do dia iniciarei a votação para a capa. Se mais alguém quiser sugerir imagens até lá, sinta-se à vontade. :)

Camille Monet in a Japanese Costume — Claude Monet — 1876

Image


Nos entretantos, vou ver se trasncrevo para aqui os trechos que ficaram prometidos. Já tratei de fazer uma selecção...
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 06 May 2014 21:49

Vais fazer uma selecção? É que temos por aqui uma tralha de imagens :mrgreen:

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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby Samwise » 06 May 2014 21:54

Sim. Vou escolher seis imagens e tentar não deixar nenhuma opção de fora, mesmo as que considero mais afastadas do conteúdo do livro.
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 06 May 2014 22:01

Samwise wrote:Sim. Vou escolher seis imagens e tentar não deixar nenhuma opção de fora, mesmo as que considero mais afastadas do conteúdo do livro.


Ok. :tu:

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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby Samwise » 06 May 2014 22:49

Os trechos seguintes apresentam-se em defesa da escolha do "ideal feminino" e da "tentação da carne" para a capa da obra . É certo que há uma variedade de outros temas e personagens que serviriam de modo igualmente apropriado, sendo que o próprio título é um termo de peso, mas também é certo que, não os podendo incluir a todos numa mesma imagem, a escolha deverá recair pelos que significam um maior protagonismo ou representatividade. A minha escolha recai precisamente sobre a "Tentação de Vénus" (e mais a respectiva "queda e concretização" :mrgreen: ) a que é sujeito Teodoro ao longo da narrativa. Como referi anteriormente, O Mandarim é o texto mais mordaz e maroto (e impiedoso) que li do Eça neste domínio.

Haveria mais exemplos para partilhar aqui, mas creio que os seguintes chegam para exemplificar o que pretendo.

Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso — como o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lépido Couceiro. Não que me revolvesse o peito o apetite heróico de dirigir, do alto de um trono, vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jamais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida de um correio choutando; — mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champagne, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vénus.


Este já tinha colocado mais atrás, mas quero salientar que mais de metade da argumentação com que o diabo tenta Teodoro se faz em torno da Mulher...

— Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há sobre este globo coisas prodigiosas: há vinhos de Borgonha, como por exemplo o Romanée-Conti de 58 e o Chambertin de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze mil réis; e quem bebe o primeiro cálice, não hesitará, para beber o segundo, em assassinar seu pai... Fabricam-se em Paris e em Londres carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferível percorrer nelas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses, pelos céus, sobre os fofos coxins das nuvens... Não farei à sua instrução a ofensa de o informar que se mobilam hoje casas, de um estilo e de um conforto, que são elas que realizam superiormente esse regalo fictício, chamado outrora a «Bem-aventurança». Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais Royal, o baile Laborde, o Café Anglais... Só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres — diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma folha de vinha. Hoje, Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos... Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para os cinco dedos de um cristão, em percorrer, palpar estas maravilhas macias; — mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins... Mas elas possuem melhor, Teodoro: são os cabelos cor do ouro ou cor da treva, tendo assim nas suas tranças a aparência emblemática das duas grandes tentações humanas — a fome do metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda têm mais: são os braços cor de mármore, de uma frescura de lírio orvalhado; são os seios, sobre os quais o grande Praxíteles modelou a sua Taça, que é a linha mais pura e mais ideal da Antiguidade... Os seios, outrora (na ideia desse ingénuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram destinados à nutrição augusta da humanidade; sossegue porém, Teodoro; hoje nenhuma mamã racional os expõe a essa função deterioradora e severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gás das soirées, — e para outros usos secretos. As conveniências impedem-me de prosseguir nesta exposição radiosa das belezas que constituem o Fatal Feminino... De resto as suas pupilas já rebrilham... Ora todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês... Confesse, ao menos, que estas palavras têm o venerável selo da verdade!...


Os meus primeiros meses ricos, não o oculto, passei-os a amar — a amar com o sincero bater de coração de um pajem inexperiente. Tinha-a visto, como numa página de novela, regando os seus craveiros à varanda: chamava-se Cândida; era pequenina, era loira; morava a Buenos Aires, numa casinha casta recoberta de trepadeiras; e lembrava-me, pela graça e pelo airoso da cinta, tudo o que a Arte tem criado de mais fino e frágil — Mimi, Virgínia, a Joaninha do Vale de Santarém.
Todas as noites eu caía, em êxtases de místico, aos seus pés cor de jaspe. Todas as manhãs lhe alastrava o regaço de notas de vinte mil réis: ela repelia-as primeiro com um rubor, — depois, ao guardá-las na gaveta, chamava-me o seu anjo Tótó.


Ao começo da noite um criado, para anunciar o jantar, fazia soar pelos corredores na sua tuba de prata, à moda gótica, uma harmonia solene. Eu erguia-me e ia comer, majestoso e solitário. Uma populaça de lacaios, de librés de seda negra, servia, num silêncio de sombras que resvalam, as vitualhas raras, vinhos do preço de jóias: toda a mesa era um esplendor de flores, luzes, cristais, cintilações de oiro: — e enrolando-se pelas pirâmides de frutos, misturando-se ao vapor dos pratos, errava, como uma névoa subtil, um tédio inenarrável...

Depois, apopléctico, atirava-me para o fundo do coupé — e lá ia às Janelas Verdes, onde nutria, num jardim de serralho, entre requintes muçulmanos, um viveiro de fêmeas: revestiam-me de uma túnica de seda fresca e perfumada, — e eu abandonava-me a delírios abomináveis... Traziam-me semimorto para casa, ao primeiro alvor da manhã: fazia maquinalmente o meu sinal-da-cruz, e daí a pouco roncava de ventre ao ar, lívido e com um suor frio, como um Tibério exausto.


Todos os cidadãos me traziam presentes como a um Ídolo sobre o altar — uns Odes votivas, outros o meu monograma bordado a cabelo, alguns chinelas ou boquilhas, cada um a sua consciência. Se o meu olhar amortecido fixava, por acaso, na rua, uma mulher — era logo ao outro dia uma carta em que a criatura, esposa ou prostituta, me ofertava a sua nudez, o seu amor, e todas as complacências da lascívia.


Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me à orgia. Instalei-me num palacete da Avenida dos Campos Elísios — e foi medonho. Dava festas à Trimalcião: e, nas horas mais ásperas de fúria libertina, quando das charangas, na estridência brutal dos cobres, rompiam os can-cans; quando prostitutas, de seio desbragado, ganiam coplas canalhas; quando os meus convidados boémios, ateus de cervejaria, injuriavam Deus, com a taça de champagne erguida — eu, tomado subitamente como Heliogábalo de um furor de bestialidade, de um ódio contra o Pensante e o Consciente, atirava-me ao chão a quatro patas e zurrava formidavelmente de burro...


Sobre a "generala":

Chamava-se Vladimira; nascera ao pé de Nidji-Novogorod; e fora educada por uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas, usava o cabelo empoado, e parecia a grossa litografia cossaca de uma dama galante de Versalhes...
O sonho de Vladimira era habitar Paris; e, fazendo ferver delicadamente as folhas de chá, pedia-me histórias ladinas de cocottes, e dizia-me o seu culto por Dumas filho...
Eu arregaçava-lhe a larga manga do casabeque de seda de cor de folha morta, e ia fazendo viajar os meus lábios devotos pela pele fresca dos seus belos braços; — e depois sobre o divã, enlaçados, peito contra peito, num êxtase mudo, sentíamos as lâminas de cristal ressoar eoliamente, as pegas azuis esvoaçarem pelos plátanos, o fugitivo ritmo do arroio corrente...
Os nossos olhos humedecidos encontravam às vezes um quadro de cetim preto, por cima do divã, onde em caracteres chineses se desenrolavam sentenças do Livro Sagrado de Li-Nun «sobre os deveres das esposas». Mas nenhum de nós percebia o chinês... E no silêncio os nossos beijos recomeçavam, espaçados, soando docemente, e comparáveis (na língua florida daqueles países) a pérolas que caem uma a uma sobre uma bacia de prata... — Oh suaves sestas dos jardins de Pequim, onde estais vós? Onde estais, folhas mortas dos lírios escarlates do Japão?...
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby Bugman » 07 May 2014 14:09

Acho que quando a malta fala do Eça tende a focar-se nas suas descrições do imobiliário e a ligar muito pouco às descrições dos "mobiliáveis", algo que e verdade para muitas das suas obras. No entanto, tirando O Crime do Padre Amaro, não me ocorre nenhuma obra em que o tema central seja a tentação da carne. N'O Mandarim não é diferente. Há uma série de tentações que fazem Teodoro tocar a sineta, mas o dilema do tocar a sineta acaba por ser o coração da obra.

Apesar disso, seguem algumas imagens com esses extractos em mente:

Damen med slöjan. Konstnärens maka Suzanne Roslin, Alexander Roslin
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Allegorie op de vruchtbaarheid van het land, Jacques Jordaens
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She Shall be Called Woman, George Frederic Watts
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Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 07 May 2014 16:24

Bugman wrote: Há uma série de tentações que fazem Teodoro tocar a sineta, mas o dilema do tocar a sineta acaba por ser o coração da obra.


Mas esse dilema só existe porque ele tem que pesar, por um lado, os seus princípios, a sua definição de "bem", inevitavelmente moldada pelas pressões sociais, e, por outro, a possibilidade de saciar desejos que, de outra fariam, seriam inatingíveis. Salvar uma vida humana, por mais próxima do fim que esteja, ou dar fim a essa vida em benefício próprio? Sem a tentação, especialmente a tentação sexual, Teodoro não teria grandes motivos para sacrificar o decrépito mandarim. :) E a tentação é bem mais simples de exemplificar visualmente do que a complexidade do dilema, que envolve diversos factores.

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Re: O Mandarim - Eça de Queirós [Desenvolvimento]

Postby Bugman » 07 May 2014 16:54

Não me parece que a tentação sexual seja o móbil de Teodoro. A depravação vem com a "ascenção" de Teodoro. Ela é uma consequência. Tal como, noutra obra, os casos com a mulher do Cohen ou a condessa de Gouvarinho, também aqui as orgias ou o adultério a que ele se presta não são tanto o motivo que o levam a tocar a sineta, antes tornam-se uma forma de ele a posteriori se afirmar como membro de uma classe. Isso fica bem patente em todo o tédio, em toda a rotina, que transborda da passagem das Janelas Verdes.
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Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
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