Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Que imagem escolheria para a capa de «Dispersão»?

Poll ended at 02 Mar 2015 14:27

The Enigma, de Gustave Dore
3
30%
Spring. Cranes flying., de Isaac Levitan
0
No votes
A Rocky Coastal Landscape in the Aegean, de Ivan Aivazovsky
1
10%
Quai a la Seinie, Paris, au Clair de Lune, de Frank Boggs
6
60%
 
Total votes: 10

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vampiregrave
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Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 20 Feb 2015 10:05

Como já não editamos poesia há algum tempo, resolvi rever este pequeno livro a par com «Só», de António Nobre. O texto disponível no Project Gutenberg corresponde à 1.ª edição, e foi o que escolhi como base, muito embora não tenha conseguido encontrar uma digitalização dessa mesma 1.ª edição em lado nenhum (na BNP só está disponível a 2.ª). Conto ter uma versão para leitura final dentro em breve, preciso apenas de requisitar algumas edições recentes para conferir certos casos que me suscitam dúvidas.

Depois coloco alguns poemas para auxiliar nas sugestões para imagem de capa. :bbde:

Fontes:
Project Gutenberg
Biblioteca Nacional de Portugal

Sugestões para imagem de capa


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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 23 Feb 2015 23:42

Alguns poemas para ajudar na escolha:

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família.)

O pobre moço das ânsias…
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro —
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi… Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!…)

E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas…
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas…

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar…
Ninguém mas quis apertar…
Tristes mãos longas e lindas…

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal…
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?… Ai de mim!…

Desceu-me n’alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço…
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


Estátua Falsa

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minhʼalma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar…

Quasi

Um pouco mais de sol — eu era brasa,
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe dʼasa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador dʼespuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quasi vivido…

Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim — quasi a expansão…
Mas na minhʼalma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
— Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim… —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos dʼalma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos dʼherói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe dʼasa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 24 Feb 2015 10:32

Aproveito para lançar mais umas imagens:

On the Beach - Rupert Bunny
Image

The Rape of Persephone - Rupert Bunny
Image

Quai a la Senie, Paris, au Clair de Lune - Frank Boggs
Image
A PENA online | O Bug Cultural

Normalcy was a majority concept, the standard of many and not the standard of just one man. Robert Neville
O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
"No, Señoría, no es lo mismo estar dormido que estar durmiendo, porque no es lo mismo estar jodido que estar jodiendo". Camilo Jose Cela


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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 24 Feb 2015 13:11

Sim, Sá-Carneiro, Paris e um cenário negro. :wub:
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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 24 Feb 2015 13:14

Bugman wrote:Sim, Sá-Carneiro, Paris e um cenário negro. :wub:


Por mim avançamos para a votação. As únicas obras que encontrei e me pareceram apropriadas são de Dali, cujo trabalho está ainda longe de entrar em domínio público...

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 24 Feb 2015 13:34

Quanto às do Bunny, não sei se podemos usar:

Rupert Charles Wulsten Bunny (29 September 1864 – 25 May 1947)

Quanto à de Paris não há qualquer problema.

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 24 Feb 2015 14:03

vampiregrave wrote:Quanto às do Bunny, não sei se podemos usar:

Rupert Charles Wulsten Bunny (29 September 1864 – 25 May 1947)

Quanto à de Paris não há qualquer problema.


Face à dificuldade em conseguir os links pensei o mesmo, ainda antes de ver a data da morte. São 50 ou 70?
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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 24 Feb 2015 14:23

Bugman wrote:
vampiregrave wrote:Quanto às do Bunny, não sei se podemos usar:

Rupert Charles Wulsten Bunny (29 September 1864 – 25 May 1947)

Quanto à de Paris não há qualquer problema.


Face à dificuldade em conseguir os links pensei o mesmo, ainda antes de ver a data da morte. São 50 ou 70?


Cá são 70. Nos EUA e na Austrália é utilizada a data de registo da obra, mas creio que tal não se aplica na nossa legislação. No entanto, acho que a do Boggs é bem mais interessante :tu:

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 24 Feb 2015 14:28

Ora, votação aberta até à próxima segunda-feira. Como temos menos opções do que o costume, um voto por cada membro, com possibilidade de alteração.

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 24 Feb 2015 14:57

Só um voto? Estas medidas repressivas de empates...
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O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
"No, Señoría, no es lo mismo estar dormido que estar durmiendo, porque no es lo mismo estar jodido que estar jodiendo". Camilo Jose Cela

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 24 Feb 2015 14:58

Bugman wrote:Só um voto? Estas medidas repressivas de empates...


A repressão é a única forma de refrear a vossa tendência para o empate! :twisted:

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby miriuska » 24 Feb 2015 23:12

As últimas não estão para votação? Gosto bastante de
The Rape of Persephone - Rupert Bunny

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 24 Feb 2015 23:45

miriuska wrote:As últimas não estão para votação? Gosto bastante de
The Rape of Persephone - Rupert Bunny


À partida ainda não estão em domínio público.

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Re: Dispersão, Mário de Sá-Carneiro [Em Desenvolvimento]

Postby MAGG » 25 Feb 2015 02:56

Mesmo sendo só um voto um empate começa a avistar-se :)


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